Dance of the Seven Veils (1970)
Parte 1 - Parte 2 – Parte 3 – Parte 4 – Parte 5 – Parte 6 – Parte 7 – Parte 8 - Parte 9
Para os não-fãs de Russell encontrar este filme não quer dizer absolutamente nada, mas para os fãs ardorosos o mínimo que pode acontecer é um momento de catatonia para logo mais reverter-se em euforia plena. ESTE é o Santo Graal de Ken Russell, é o filme esquecido, o mais problemático, o mais, O MAIS!
Mais do que cortesia, um presente dos deuses do Filmbo’s Chick Magnet
Para acompanhar, mais um texto indispensável no The Auteaurs sobre o filme.
Knights On Bikes (1956)
Primeiro filme de Ken Russell, deus abençoe o youtube. O curioso é que já estão bem evidentes algumas das obsessões que Russell cultivaria ao longo da carreira, tal como a ênfase no crucifixo e no herói burlesco. Mais curioso ainda é semelhança com o que se tornaria o humor inglês a partir de Lester e dos Goons.
Jogando com a Vida (Jinxed! 1982)
Working with star-actresses is demanding in terms of time and attention, and, yes, coddling, sometimes. People like Streisand and Goldie Hawn require reassurance, and they need to know their imput is valuable and possible. That’s why I don’t think male chauvinists can successfully direct strong females, as Don Siegel found out with Bette Midler in Jinxed! - Howard Zieff
É apenas coincidência, mas aparentemente estou numa fase “grandes diretores parceirinhos às voltas com estrelas de grande ego”, o mote da vez é Don Siegel encontra Sam Peckinpah. Tudo começou por conta de uns problemas cardíacos sofridos por Siegel durante as filmagens de Jinxed! e, apesar de uma comédia de humor negro ter pouco a ver com as escolhas profissionais de Peckinpah, estava lá Bloody Sam para dar uma mão ao amigo e mentor, assumindo teoricamente como diretor de segunda unidade, mas indo um pouco além de tal responsabilidade. Na verdade a parceria dos dois começou lá nos anos 50, quando Peckinpah começou a aprender tudo que deveria com Siegel, mas dividindo a direção, esta é a primeira, última e única vez, se bem me lembro eles não se juntavam profissionalmente desde quando o Peckinpah resolveu ser ator em Vampiros de Almas.
A trama começa basicamente como algo saído de um filme noir: loira fatal, cantora em Las Vegas, é maltratada por marido jogador e abusivo (Rip Torn), mas em dado momento conhece um dos desafetos do marido, o crupiê vivido por Ken Wahl (O Homem da Máfia! céus, que homem lindo) a quem Rip Torn está tentando destruir por meio de “má-sorte” (jinx), uma espécie de “maldição” que certos crupiês sofrem quando de alguma forma não conseguem ganhar do jogador oponente no blackjack, ou seja, o tal do jinx é uma dominação dos diabos que certos jogadores tem o poder de exercer, mais ou menos o mesmo que meu Parmera sofreu no final desse brasileirão.
O tal crupiê gostosão e a maltratada cantora acabam se conhecendo e todo mundo já sabe onde isso vai parar… mas ao contrário do tom mais sério do início do filme, a segunda parte se transforma completamente numa comédia, com direito a cameo do próprio Siegel como o dono de uma livraria pornográfica e porteiro de um peep show. É aí que está o problema, o tom de comédia não foi adequadamente colocado, a coisa parece não pegar no tranco, especialmente porque Ken Wahl e Bette Midler como um casal é de uma implausibilidade extrema, a falta de química é tão evidente que nem é necessário saber que Wahl chegou a dizer que preferia beijar um cachorro do que os lábios de Miss Midler, talvez alguém como a Dolly Parton fosse mais plausível como cantora com ares de loira de cinema noir (e com isso quero dizer apelo sexual!) e pouco tempo antes ela já provara que tinha dom certeiro para comédia com o Nine to Five, se Parton estivesse no lugar de Midler poderia haver mais afinidade entre a equipe e talvez o filme se desenrolasse melhor.
Tudo deu errado não só por conta do resultado capenga que vemos na tela, mas também no set de filmagens, provando que com esse lance de gato preto e má sorte é melhor não arriscar: os protagonistas se odiavam e o diretor sofreu um ataque cardíaco. É impossível imaginar Bette Midler num mesmo set de filmagens que o Sam Peckinpah, é o mesmo que tentar conceber a Barbra Streisand num filme do Russ Meyer, mas num filme do Siegel a coisa não parecia tão despropositada, muito embora o desafeto aconteceu mesmo quanto ao relacionamento de Midler com Siegel, com a diva chegando a tornar público que o diretor era tão hostil quanto Wahl. Anos depois Siegel rebateu dizendo que a experiência de trabalhar com Midler foi “extremamente desagradável”, o que prontamente acredito, afinal, o homem teve problemas cardíacos e se aposentou em definitivo do cinema, marcando o amaldiçoado Jinxed! como seu testamento final, mesmo que o lendário cineasta ainda levasse uma década para perecer.
No mais, sempre há coisas a serem aproveitadas, como a exuberância de Ken Wahl, as intervenções musicais de Bette Midler e o nosso rouba-show favorito que atende pelo nome de Rip Torn, um peculiar espancador de gatinhos e mulheres. A participação de Jack Elam também seria grande se não fosse a presença histérica de Miss Midler, mas como mulheres histéricas era um vício horroroso de boa parte do cinema dos anos 80, acho que pelo menos este lapso há de ser perdoado, especialmente se por outro lado Midler pôde proporcionar o que seria o ponto alto do filme, no melhor estilo “Um Morto Muito Louco” com a devida ajuda do insuperável Rip Torn.
O que realmente aprendemos com Jinxed? Jamais maltrate o gato de seu cônjuge, você pode acabar com veneno no seu whisky e, mais importante, essa mesma regra vale também para cineastas e suas divas num set de filmagens.
The Cat Piano (2009)
The Cat Piano by Eddie White
Long ago my city’s luminous heart, beat with the song of four thousand cats.
Crooners who shone in the moonlight mimicry of the spotlight.
Jazz singers. Hip cats that went ‘Scat!’
Buskers with open-mouthed hats hungry for a feed.
Parlours paraded purring glamorous songstresses.
Smoky hookahs and smoking hookers.
Strays strummed string and sung a cocktail of cat’s tails.
A decadent party of meowing sound.
A bohemian behemoth, post-midnight soiree.
Amongst the chorale ‘o tuneful ones was one fair queen who drew me from o’er the way.
Her fur, an amorous white and a voice that made all the angels of eternity sound tone deaf.
Blind with love at first sight, touched by the taste of her sound,
I longed to be the microphone she cradled near her breast.
‘Twas our Shang-ri-la of sound,
A paradise found where nothin’ could stop us.
Or so it seemed.
Singers began to vanish like sailors lost at sea.
Snatched from stage alley way
Shanghai’d from behind scarlet curtain.
Into thin air they disappeared without a single cry.
Police study the clues.
Foot-prints from human shoes.
So you’ve heard of every instrument but?
Torn from your history books is this pianola,
This harpsichord of harm.
The cruellest instrument to spawn from man’s grey cerebral soup.
The Cat Piano.
Confined were the cats in a row of cages.
With each note struck upon it’s ivory tusks,
A sharpened nail would pierce each cat’s tail,
Forcing a note from each pitch on the scale.
I ran my cursed writer’s run to tell her beware.
She wasn’t there.
My soul capsized.
Like a fish, paralysed.
On a chopping board, its spinal cord ripped forth from its body,
Her vocals the last the thief had needed,
A rare celestial pitch that would complete his collection.
The city in unrest.
Fights broke out in its sleep.
I couldn’t dream anymore.
There was a hole in my heart and everything fell out of it.
All music forbidden.
Keep your lullabies hidden.
And your A and E minors off the street after dark.
My town grew cold and bitter.
In icy hibernation was the once thumping heart.
Now seizing up.
Freezing up.
Katzenklavier.
The torturous worm of sound burrowed deep into my ears.
Le Piano du chat
I thought of Van Gogh.
Neko Piano.
I’d put an end to this incessant, inescapable drone.
Mao Gang Qin
I enlisted an army of the brave and I their general declared war.
Poised with tooth and fire in paw.
We would finally settle this musical score.
Eyes with fierce intent that glowed.
Through tempestuous waters we rowed.
Storming the shores,
Swarming in scores,
Scaling its walls with well-sharpened claws,
We invaded the tower through all its doors.
Up the winding stairs,
To meet him with blinding stares.
There he sat.
The organ grinder.
He turned, we pounced, we scratched and bit.
He stumbled.
Fell through the window.
Screaming into the indigo waters below.
We freed the chain gang from their jail.
Cremated the piano.
And for home we set sail.
The city had reclaimed its vestal muse.
It would live again.
Beat again.
Cats would sing in the street again.
And I in anonymity as I had been long before this soliloquy,
Could sit and listen from afar.
The Cat Piano, now a healed over wound.
And this ode its fading scar.
Festival Musos do Bachrach: Boris Karloff
Foto promocional para Bedlam (Mark Robson, 1946)
Só para lembrar que está rolando um Blogathon do tio Karloff comandado pelo Frankensteinia, onde podem ser encontrados links de todos os blogs participantes. E porque hoje é aniversário dele e amanhã é o de mamãe, embora ela divida o nome e aparência com Elsa Lanchester. Ainda bem.
Herbert Richers (1923 – 2009)
Snoopy na versão brasileira Herbert Richers!
Há mais de onde veio este.
Quando passamos boa parte de nossas vidas ouvindo certas dublagens como a de Goonies, Duro de Matar, Máquina Mortífera, A Gata e o Rato, Caverna do Dragão, He-Man, Thundercats, Snoopy, entre outros, chega a ser desconfortável assistí-los com o som original. Por isso, mesmo indiretamente, Herbert Richers teve um papel importantíssimo na vida de milhares de pessoas que cresceram e aprenderam a gostar de cinema e cultura pop em geral através dessas boas e certeiras dublagens clássicas. Que puxa!
Rosita (1923)
“I parted company with him as soon as I could. I thought he was very unispired director. He as a director of doors. Everybody came in and out of doors… He’s a good man’s director – good for Jannings and people like that. But for me he was terrible. To tell the truth, I never saw his later pictures, because my miserable experience in Rosita. He was very self-assertive, but then all little men are…” - Mary Pickford esbanjando orgulhosamente toda sua sabedoria a respeito de Ernst Lubitsch.
Finalmente este maldito caiu nas minhas garras. Como se não bastassse ser o primeiro filme do Lubitsch nos EUA, porque a tia Pickford viu o trabalho dele na Alemanha e ficou enlouquecida, mandando buscá-lo imediatamente para tirar casquinha de seu talento, Rosita acopla a bizarra parceria de Raoul Walsh com Ernst Lubitsch. Bizarra no bom sentido, pois o “Walsh touch” é deveras distinto do aclamado toque de Lubitsch, da mesma forma que uma luta de boxe é distinta de um tapa com luva de pelica. Walsh serviu mais como uma muleta para o alemão recém chegado, ajudando com os possíveis entraves culturais, além de ter funcionado como rota de fuga para os desejos de Madame Pickford, ajeitando uma coisa aqui e alí durante a pós-produção devido aos atritos constantes do diretor alemão com a estrela produtora que sempre mandara nos seus próprios filmes e até então só trabalhara com diretores passivos.
Mas comecemos a saga de Lubitsch na América do princípio, em 1921 ele aportou nos EUA depois do convite de Mary Pickford para trabalhar na United Artists filmando Dorothy Vernon of Haddon Hall, um épico elizabetano, com a Primeira Guerra terminada há pouco, os alemães não eram muito bem recebidos não só em Hollywood, mas em toda extensão do país, assim Lubitsch começou a receber “recados” e ser alvo de comportamento bem pouco amistoso por parte de alguns americanos, fazendo com que tomasse um navio de volta para a Alemanha. Além dos entraves do pós-guerra, na época a UFA era a supremacia do cinema mundial, tudo que havia de melhor no cinema saía de lá, atores, técnicos e cineastas saíam de seus países de origem para aprenderem cinema com os alemães (que o diga Hitchcock), sendo assim, Hollywood e seu ego enorme já em tenra idade não via com bons olhos os germânicos adentrando seu território sagrado para tirar emprego dos “bons americanos” que sabiam do ofício tão bem quanto os chucrutes. Mary Pickford tanto insistiu que Lubitsch acabou retornando para os EUA, mas não mais queria filmar o tal do Dorothy Vernon, o que ele queria mesmo fazer era uma versão de Fausto sob o ponto de vista da Margarida, onde a angelical Pickford seria a própria, projeto que igualmente não vingou porque a mãe da atriz-produtora mais poderosa de sua época metia o bedelho em demasia na carreira da filha e sob hipótese alguma deixaria que se enveredasse num papel de mãe-solteira-assassina-de-bebês-às-voltas-com-o-demo.
Depois de muitos pés batendo no chão, chegou-se a um consenso: a adaptação do livro Don Cesar de Bazon, a história da cantora espanhola Rosita envolvida com um rei e um condenado à pena de morte. Mary Pickford era a maldita Regina Duarte do cinema mudo e a intenção era transformar Rosita na sua Viúva Porcina, apesar de na época ser casada com o “energético” Douglas Fairbanks, Pickford era vista como sexualmente sem sal (ao menos para os não-pedófilos), especialmente se comparada a outros ícones fatais da época como Theda Bara e logo mais Clara Bow, além da habitué lubitschiana Pola Negri que também migrara naquele mesmo ano para os EUA. Com uns bons anos de experiência nas costas, Rosita poderia ter sido uma extensão de grande superioridade da versão que Lubitsch fizera de Carmen em 1918 com Pola Negri no papel título, é claro que ninguém iria deixar Mary Pickford com o fogo nas ventas próprio de Negri, mesmo os filmes de Lubitsch com a mais bem comportada Ossi Oswalda eram selvagens perto da aura que a americana passava. Rosita foi mesmo um passo adiante na carreira de madame Pickford, coisa que ela jogou no lixo com a mania estapafúrdia de não deixar-se dominar por um cineasta, jogando sempre na cara de Lubitsch que o dinheiro era dela e que ele não poderia fazer absolutamente nada sem sua aprovação plena, esquecendo o fator número um de qualquer relacionamento, seja profissional ou pessoal: troca baseada em respeito mútuo. Pickford não conseguia entender que o Lubitsch da UFA era sensacional porque lá ele expressava a sua arte como queria e quem acabava lucrando mesmo com isso eram os atores, coisa que ela prontamente fez questão de desperdiçar.
Dona Mary não gostava da forma que Lubitsch filmava, chegando a renegar o filme em questão porque “Lubitsch não gostava de filmar atores, mas sim portas!”, mas há de se concordar que as portas de Lubitsch passaram mais emoção que 99% dos atores do mundo desde então, se bem que sempre achei que seu forte eram as janelas. Esse despeito veio à tona apenas depois da estréia extensiva do filme pelos EUA, enquanto Rosita foi bem recebido nos grandes centros urbanos clamando um tipo de sofisticação que sempre faltara nos filmes anteriores de Pickford, nas pequenas cidades interioranas a insatisfação foi geral para com a mudança de estilo da namoradinha da América, ou seja, Pickford ganhou um novo público mais sofisticado, mas caiu em desgraça com os antigos fãs do povão.
Essa experiência foi tão estressante para o tio Ernst que imediatamente quis voltar para a Alemanha, mas felizmente não o fez, porque poucos anos depois ele teria que retornar com o rabo entre as pernas vocês-sabem-porque-e-por-causa-de-quem. Ao ser convidado a dirigir The Marriage Circle (1924) para a Warner as coisas entraram nos eixos, Lubitsch entrou definitivamente na gloriosa segunda fase de sua carreira, ficou feliz, nós ficamos felizes, o mundo ficou mais bonito e brilhante por conta disso.
Nota: Aparentemente Ramon Novarro deveria interpretar o amante condenado à morte, mas foi batido pelo irmão caçula de Raoul, George Walsh. Sorte de Novarro que trabalharia mais tarde com Lubitsch em situação muito mais auspiciosa, no caso, o mais belo papel de sua carreira: O Príncipe Estudante (The Student Prince in Old Heidelberg, 1927), ao lado de Norma Shearer – a substituta de Pickford como “namoradinha da américa”. Ah, ele também deu um chute na bunda do George, ganhando o papel de Ben-Hur que seria interpretado pelo caçula da família Walsh.
Whose little cat are you, blue eyes?



Somebody’s cat. A goddamn blue-eyed cat.
*A Manhã Seguinte (The Morning After, Sidney Lumet, 1986)
Nota: Não há prova maior do know-how de um cineasta do que um gato, a qualidade de um diretor é proporcional à maneira que ele mostra um gato em cena, este é um filme que pouco me agrada, mas a forma que Lumet filma aquele gato é algo que facilmente o levaria para o topo da cadeia cinematográfica, esse momento em direção da porta é deveras uma coisa linda.
Mary Ellen Mark: Seen Behind the Scene #4
Top dúzia: Robert Ryan
Max Reinhardt was the most tremendous and important person to have ever influenced my career and my work. - Bob Ryan provando que Reinhardt não fora apenas um dos pais do teatro moderno e do cinema alemão, mas dele também.
Sem Reinhardt não existiria Lang, Murnau, Lubitsch e outros desocupados, por consequência não existiria todo expressionismo alemão e cinema noir norte-americano. Sem Reinhardt não haveria o curso de teatro que fundou nos EUA, Ryan não teria encontrado um rumo para sua vida neste mesmo curso e todos perderíamos um ator estupendo imortalizando uma quantidade incalculável de grandes cenas do cinema, boa parte delas fazendo parte daquele mesmo cinema noir supracitado.
Mas Ryan era diferente de outros ícones noir, gente como Bogart, Ladd, Lancaster e Mitchum possuíam um tipo de aura heróica e dignidade que prevalecia mesmo nos mais profundos esgotos, Ryan não, ele ia mesmo fundo na podridão humana, se mesclamava na escória, rastejava nos dejetos e é aí que entra a influência de Reinhardt, ao abster-se da vaidade do astro de cinema para dar vazão à necessidade do ator, numa quase-versão sexy de Peter Lorre. Robert Ryan é pulp cinema em suor, sangue, penumbra, músculos, pistolas, cigarros e câncer no pulmão.
RR tem tanto filme excelente no currículo que dá impinge pensar em fazer um top de sua filmografia.
Nem só de sombras viveu um dos maiores motherfuckers do cinema, mais do que noir, Robert Ryan exalava testosterona. Desde os anos 40 Mr Ryan poderia entrar em qualquer antologia de cinema-de-macho, o homem trabalhou com Peckinpah, Fuller, Aldrich, Walsh, Boetticher, Winner, Frankenheimer, Anthony Mann, John Flynn e Sturges – ele também trabalhou com o resto da galera sem talento do outro lado como Lang, Tourneur, Losey, Ray, Ophuls, Lupino, Renoir, mas isso não tem a mínima importância. O que quero mesmo dizer é que o senhor Ryan tem todo direito de estar naquele seleto hall onde estão inclusos Clint Eastwood e Charles Bronson, com a diferença que Bob Ryan já era motherfucker antes que esse povo tivesse sonhado em ser tal coisa.
Apesar de RR ter sido separado de seu siamês Sterling Hayden logo após o nascimento, dessa galera macho-pra-dedéu o único ator páreo para ele no cinema americano era Lee Marvin – foram dois dos mais intensos, versáteis e talentosos atores evindeciados no pós-guerra – vai ver por isso fizeram quatro filmes juntos e Bloody Sam queria Marvin ao lado dele no Wild Bunch, em vez disso Marvin foi cantar com o Eastwood naquele outro filme… A verdade é que o duo Marvin-Ryan formam uma espécie de objeto transitório de anti-heróis com testosterona acima da média entre a geração Cagney-Bogart para o ciclo Eastwood-Bronson.
Top “resto”:
13- Coração Prisioneiro (Caught, Max Ophüls/Robert Aldrich, 1949)
14- Só a Muher Peca (Clash by Night, Fritz Lang, 1952)
15- Os Doze Condenados (The Dirty Dozen, Robert Aldrich, 1967)
16- A Mulher Desejada (The Woman on the Beach, Jean Renoir, 1947)
17- O Mais Longo dos Dias (The Longest Day, Ken Annakin/Andrew Marton/Bernhard Wicki, 1962)
18- A Quadrilha (The Outfit, John Flynn, 1973)
19- Expresso Para Berlim (Berlin Express, Jacques Tourneur, 1948)
20- Billy Budd – O Vingador dos Mares (Peter Ustinov, 1962)
21- Rastros do Inferno (Inferno, Roy Ward Baker, 1953)
22- Conspiração do Silêncio (Bad Day at Black Rock, John Sturges, 1955)
23- The Iceman Cometh (John Frankenheimer, 1973)
24- Rei dos Reis (King of Kings, Nicholas Ray, 1961)
25- Uma Batalha no Inferno (Battle of the Bulge, Ken Annakin, 1965)
26- Os Profissionais (The Professionals, Richard Brooks, 1966)
27- Nas Garras da Ambição (The Tall Men, Raoul Walsh, 1955)
28- O Pequeno Rincão de Deus (God’s Little Acre, Anthony Mann, 1958)
29- A Batalha de Anzio (Lo Sbarco di Anzio, Duilio Coletti/Edward Dmytryk, 1968)
30- À Borda da Morte (The Proud Ones, Robert D. Webb, 1956)
31- Os Bravos Não se Rendem (Custer of the West, Robert Siodmak, 1967)
32- A Hora da Pistola (Hour of the Gun, John Sturges, 1967)
33- A Estrada Dos Homens Sem Lei (The Racket, John Cromwell/Nicholas Ray/Mel Ferrer, 1951)
34- Alma Sem Pudor (Born to Be Bad, Nicholas Ray, 1950)
35- Mulheres de Ninguém (Tender Comrade, Edward Dmytryk, 1943)
36- Império do Pavor (Horizons West, Budd Boetticher, 1952)
37- O Assassinato de um Presidente (Executive Action, David Miller, 1973)
38- De Volta da Eternidade (Back from Eternity, John Farrow, 1956)
39- Escravo de Si Mesmo (Beware, My Lovely, Harry Horner, 1952)
40- Lonelyhearts (Vincent J. Donehue, 1958)
41- Tudo Por Ti (The Sky’s the Limit, Edward H. Griffith, 1943)
42- A Guerra Secreta (The Dirty Game, Christian-Jaque/Klingler/Lizzani/Terence Young, 1965)
43- O Homem da Lei (Lawman, Michael Winner, 1971)
44- Cidade Abaixo do Mar (City Beneath of Sea, Budd Boetticher, 1953)
45- Selvas Indomáveis (Escape to Burma, Allan Dwan, 1955)
46- O Melhor dos Homens Maus (The Best of the Badmen, William D. Russell, 1951)
47- Cada Vida… Seu Destino (The Secret Fury, Mel Ferrer, 1950)
48- Caçada ao Pistoleiro Escondido (Un Minuto per Pregare un Instante per Morire, Giraldi, 1968)
49- Horizonte de Glórias (Flying Leathernecks, Nicholas Ray, 1951)
50- A Volta dos Homens Maus (Return of the Bad Men, Ray Enright, 1948)
51- Capitão Nemo e a Cidade Submarina (Captain Nemo and the Underwater City, J. Hill, 1969)
52- Bombardeio (Bombardier, Richard Wallace/Lambert Hillyer, 1943)
53- Sem Deus e Sem Lei/O Passo do Ódio (Trail Street, Ray Enright, 1947)
54- Os Homens da sua Vida (Her Twelve Men, Robert Z. Leonard, 1954)
55- Marine Raiders (Harold D. Schuster, 1944)
56- Nuvens de Tempestade (The Woman on Pier 13/I Married a Communist, R. Stevenson, 1949)
Nota 1: Ninguém chuta a bunda de Deke Thornton, mas se não fosse pelo final, On Dangerous Ground seria talvez o primeiro dessa lista. O filme de Ray sofreu exatamente a mesma coisa que The Magnificent Ambersons na década anterior, onde o final original foi refeito porque o estúdio assim quis e apesar do final imposto não ser uma tragédia, a situação original desejada por Ray era amplamente superior. Robert Ryan foi queridinho dos filmes B durante o reinado de terror de Howard Hughes na RKO, um bom motivo para que ele e Nicholas Ray se tornassem tão unidos no período, trabalhando juntos em quatro filmes seguidos (mais tarde tiveram um quinto filho temporão) – enquanto Hughes entrava de cabeça no macartismo, Ryan e Ray batiam o pé como notórios liberais, o que gerou todo aquele entrevero com John Wayne durante as filmagens de Flying Leathernecks, um filme cujo conteúdo belicista e de direita nada tinha a ver com suas visões.
Nota 2: Só as participações com no mínimo uma fala entraram no top, filme com participação ínfima deixei de fora, como é o caso de sua estréia em O Castelo Sinistro (The Ghost Breakers, George Marshall, 1940) onde fez figuração carregando uma maca (é, eu reconheço alguém com dois segundos em cena e praticamente de costas)
Nota 2: O maior choque que tive seguindo a carreira de Ryan foi quando assisti O Pequeno Rincão de Deus (God’s Little Acre, Anthony Mann, 1958) foi alí que me dei conta que estava diante de um dos maiores atores do mundo. Quando vi a cena em que sua personagem resolve raptar um albino não sabia se gritava, gargalhava ou chorava de emoção por estar diante de um gênio em sua arte. Mann havia começado essa tranformação de Ryan em Zé Buscapé já em O Preço de um Homem (The Naked Spur, 1953), onde em meio a uma atmosfera leoniana Ryan praticamente cria o pai do Tuco de Três Homens em Conflito.
Nota 3: O top é por qualidade geral dos filmes, mas se fosse eleger as 12 melhores atuações de RR, seriam estas: Odds Against Tomorrow, Billy Budd, Caught, God’s Little Acre, Custer of the West, Clash by Night, The Iceman Cometh, The Set-Up, Born to Be Bad, The Naked Spur, Inferno e On Dangerous Ground.
Nota 4: Presumo que o “Patch Pack” tinha uma queda pelo senhor Ryan – Walsh, Ray, De Toth e Lang trabalharam com ele, o único maldito de tapa-olho com quem não trabalhou foi o John Ford.
Nota 5: É fato – Ryan tem os melhores bíceps e tenho dito. É por isso que recomendo com veemência filmes em que aparece sem camisa ou de camiseta, também por isso Ed Dmytryk disse certa vez: Bob hit like a mule.
Nota 6: A minha “fase Jeff Bridges” do último semestre me levou, por consequência, a ver alguns filmes onde Robert Ryan esteve presente. JB tem RR como ator favorito e impusionou-me a ver o porquê foi tão importante como muso inspirador, além do fato de dois dos últimos filmes com Ryan terem sido também dois dos primeiros filmes com a presença de Bridges. Só depois de ter trabalhado ao lado de Ryan, Lee Marvin e Fredric March em The Iceman Cometh (John Frankenheimer, 1973) é que JB resolveu ser ator de verdade, coisa que até então ele só levara na brincadeira, tamanho o peso que tais homens tinham em cena, algo fácil de se perceber já que Ryan e Marvin jogam ping-pong com JB naquele filme, onde o então guri fica na função de bolinha. Também pudera, The Iceman Cometh é o último momento de Ryan no cinema, o câncer em estado bastante avançado acabou tornando sua personagem ainda mais melancólica do que dramaticamente já era e presumo que nenhum outro ator de qualquer montagem da peça de Eugene O’Neill tenha sido mais efetivo durante o final do terceiro ato.
Nota 7: Robert Ryan foi o único ator que vi eclipsando James Mason. Vi Mason de igual para igual com Alec Guinness, Peter Sellers e John Gielgud, mas a única presença que esteve um degrau acima de Mason numa cena foi o Robert Ryan em Caught – *Medo. Em compensação o Nemo de Ryan não chega aos pés do de Mason.
Hughes called Ryan in and said “It’s okay if you play me, I don’t want them to put some other actor in there” – Robert Parrish, então editor de Caught (Max Ophüls, 1949) sobre o fato de Howard Hughes achar que apenas Robert Ryan seria digno de interpretá-lo - como se já não fosse suficientemente estranho o patrão deixar que uma personagem pouco lisongeira fosse inspirada nele.
Nota final: Hoje comemora-se cem anos do nascimento de RR, oras.
*Da série: Este post foi programado, eu não estou aqui!



















































































































leave a comment