A Prisioneira (La Captive, 2000)
Fantástico, estupendo, necessário! Como passei 7 anos de minha vida sem assistir à melhor adaptação de Proust para o cinema? Falo sobre La Captive de Chantal Akerman. É perigoso dizer que esta é a melhor adaptação existindo no passado a versão estupenda do Raoul Ruiz para o Tempo Redescoberto (o sétimo volume) e a charmosíssima versão do Volker Schlöndorff para Um Amor de Swann (o primeiro volume). O Ruiz pegou o volume mais difícil de ser adaptado por ser um “resumão” de toda a saga (resumão é foda), resultou num filme estupendo, mas numa adaptação restringida pela densidade do melhor volume da série. O Volker pegou parte do volume mais famoso e que todo mundo leu por ser o primeiro (parte porque Um Amor de Swann é um livro à parte dentro do volume No Caminho de Swann), abarrotou o elenco com os atores mais lindos e charmosos da época (vide Jeremy Irons, Ornella Mutti, Alain Delon, Fanny Ardant), pegou dois dos mais importantes roteiristas/dramaturgos que passaram pelo século XX (vide Peter Brook e Jean-Claude Carrière) e transformou num dos filmes que melhor captaram a natureza da paixão e do ciúme no cinema, assim como o livro o era.
Mas o que Chantal fez com A Prisioneira (o quinto volume) foi atordoante. A primeira coisa que salta aos olhos é adaptação para os tempos modernos, seguido da escolha peculiar do volume que é o mais claustrofóbico da saga, sendo que essa escolha é que ironicamente o torna a melhor adaptação para o ecrã. Por quê? Se Um Amor de Swann é considerado o maior tratado sobre o ciúme na literatura é porque foi uma narração de um romance de terceiros, pois A Prisioneira é o mais completo e profundo mergulho no ciúme doentio e possessividade que se pôde narrar em primeira pessoa (juntamente com Dom Casmurro) e numa adaptação para o cinema a narração se volta novamente como terceira pessoa, o narrador não é mais o eu do livro e sim o ele do filme, assim no cinema, A Prisioneira se aproxima amalgamadamente de Um Amor de Swann, transformando o espectador de A Prisioneira no observador que fora Marcel para o caso de Swann. E é essa mudança de perspectiva em relação ao livro que o tornou a melhor adaptação, que o faz ir além do livro, adquirindo personalidade e alma própria e tornando-se cinema, um cinema puro que nos faz esquecer momentaneamente de suas raízes literárias.
De cara o filme faz menções ao passado de À Sombra das Raparigas em Flor (o segundo volume), com Albertine (no caso Ariane) ao lado de sua Andrée sob a perspectiva fotográfica de Marcel (Simon). Ai jesus, só com essa introdução já caí completamente aos pés do filme. Sabe aquela coisa do Eça de Queiroz de fotografar pedacinho por pedacinho do ambiente? Bem, Proust também sofre desse “mal”, já que ele é filhote do Balzac e por conseqüência, do realismo. Proust não se enquadra em nenhuma escola literária, ele jaz no limbo entre o realismo e o modernismo, ele é o mais singular dos escritores justamente porque ninguém tem ou teve paciência e sensibilidade o suficiente para ser ou fazer o que fez.
As palavras são escassas no filme (ainda bem, se Chantal tivesse usado narração em off tudo iria por água abaixo), mas quando aparecem são poderosíssimas, o que mais pode haver de profundo em poucas palavras está contido nas frases deste belíssimo filme (especialmente na estupenda seqüência da banheira que ilustra o pôster), enquanto a música é tão importante e presente quanto na obra de Proust (transbordando Rachmaninov, Schubert e Mozart). La Captive faz jus à mente fotográfica de Proust e é nesse propósito que discordo totalmente daqueles que consideram Proust impossível de ser adaptado (se não me engano foi o ex-presidente da ABL Ivan Junqueira que disse haver dois autores que jamais deveriam ser adaptados para o cinema: Marcel Proust e Machado de Assis), muito pelo contrário, a prosa-poética do homem nasceu para ser filmada, ela própria cheia de fotogramas só esperando para entrarem em movimento.
Nota 1:Uma peculiaridade estranha do filme é a troca de nomes de algumas personagens por outras do livro, no caso de Simon cujo nome no livro era Marcel, este Simon pode ter vindo em homenagem à obsessão de Proust por Duque Saint-Simon (que influenciou enormente tanto sua obra quanto a de Balzac) ou uma corruptela do sobrenome de Albertine: Simonet. Já a própria Albertine tem o seu nome alterado no filme para Ariane, podendo ser uma corruptela daquele que na saga proustiana vem a ser o primeiro nome da Duquesa de Guermantes, Oriane, ou uma simples menção a Ariane mitológica, a deusa da fertilidade. Mas os demais nomes continuam os mesmos… Mais um ponto a favor do distanciamento da obra literária em relação à cinematográfica.
Nota 2: Ninguém nunca terá a bondade de adaptar Sodoma e Gomorra? É nesse volume que nosso querido narrador nos conta sobre suas descobertas de que todo mundo é homossexual, ou se não é, já foi por um momento ou ainda será. Charlus vive eternamente em nossos corações!
Nota 3: Existe o dramacumentário chamado How Proust Can Change Your Life (obviamente baseado no livro do Botton) em que o Ralph Fiennes (esses malditos ingleses querendo ser franceses!) interpreta o dito cujo do Proust. É impressionante como sempre colocam esses homens maravilhosos para interpretar escritores que amo.

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