Plymouth Fury 1970 preto, Jeff, Clint, o cara biruta de Deliverance e os malditos coelhos de O Último Golpe (Thunderbolt and Lightfoot, 1974)
Você pensa em coisas bem estranhas quando a primeira coisa que se vê é Clint de óculos pregando num púlpito em plenos anos 70, mas tudo volta ao normal quando Jeff adentra nosso campo de visão vestindo uma calça de couro, fingindo ter uma perna postiça e roubando um carro. Filme da época em que Michael Cimino era fodão e estreante na direção, Jeff Bridges tinha 25 aninhos e Clint Eastwood estava no auge.
Fuga Alucinada (Dirty Mary Crazy Larry, 1974)

Olha as bobagens que fazemos na vida… Demorar tanto tempo para assistir uma jóia dessas! A vantagem é que temos de dar tempo para uma pérola se formar dentro da nossa ostra pessoal, por isso às vezes depreciamos coisas que para o molusco que existe em nós é ainda um reles grão de areia. É, é uma metáfora brega (ou kitsch como dizem as pessoas finas), mas eu sou brega e gosto de coisas bregas, pelo menos aos olhos do senso comum.
Tudo que quero dizer é que Dirty Mary Crazy Larry é um filmaço. Tão filmaço que eu não esperava assistir um dos grandes filmes da década de 70, o que se ouvia era sobre grandes corridas de carro alí contidas, o quão cult era e convenhamos que ser objeto de culto nunca foi sinônimo de qualidade, nisso me surpreendi com a cinematografia de qualidade, diálogos espertos e interpretações passionais nesse belo pedaço do mais puro cinema culhônico dos anos 70.
É de longe o melhor filme da carreira de Peter Fonda, na pele de Larry soa mais como um irmão maluco de Clint Eastwood do que um filho de Henry Fonda. Mas quem rouba todas as cenas é Susan George com seu espírito ciclônico e ímpar, firmando-se como uma das grandes musas do cinema de macho dos 70, com o porém deste não ser seu melhor trabalho em virtude de um certo filme, de um certo David Samuel Peckinpah, ter sido produzido alguns anos antes.
Pensando melhor, não sei porque esta pérola fatalista tanto me surpreendeu quando no ano anterior o diretor John Hough já havia nos brindado com o excelente horror A Casa da Noite Eterna protagonizado por Roddy McDowall (que faz uma participação chave não creditada neste Fuga…), Hough tem aquele poder de deixar o público eletrizado do início ao fim, no melhor estilo “mijar nas calças para não perder um só minuto”, nunca fica chato, nunca corta o clima do suspense ou, neste caso, da ação e se há porventura pausa na correria, as personagens entram com seu carisma banhado a diálogos espertinhos. É, pode colocar Dirty Mary Crazy Larry na minha lista dos cultuados pois esse faz o meu tipo.Nota 1: A personagem de Bridget Fonda em Jackie Brown é total e obviamente calcada na Mary de Susan George. Do fio de cabelo até o figurino.
Nota 2: Morbidamente Vic Morrow passa quase o filme todo dentro de um helicóptero. Para quem não se lembra, o pai de Jennifer Jason Leigh morreu num acidente de helicóptero durante as filmagens de Twilight Zone – O Filme, no segmento de John Landis.
Nota 3: Dessas curiosidades inúteis, mas no mínimo bizarras, Susan George namorou o Príncipe Charles (é, o próprio) nos anos 70. Provavelmente foi o casal mais estranho de todos os tempos.
Nota 4: Os carros? Um Dodge Charger no melhor estilo Bullit e um Impala 60’s azul. Melhor design não há.







