Centenário de Errol Flynn – Parte 1
But I have a confession to make.
Do you know, I think I like Mason as much as Errol Flynn?
Diálogo de Festim Diabólico (Rope, Alfred Hitchcock, 1948)
Já vou dizendo: nunca fui grande fã dele, ao menos não em virtude dos filmes, mas o mito Flynn é impossível ser desprezado, afinal, só tendo muita força de vontade para desprezar um tipo desses. O homem era sensacional, além de ser uma ode ambulante ao falo (o que é bem difícil de esquecer), Flynn seria o companheiro de boteco ideal para qualquer pessoa bem humorada. Era bonitão (lindo e gostosérrimo, na verdade) e carismático, foi muso por vários anos de Raoul Walsh e Michael Curtiz, era um homem inteligentíssimo e culto, tinha uma vida pessoal muito divertida, intrigante e ao mesmo tempo muito trágica (acho que ninguém em período algum de Hollywood foi mais espetacular do que ele) e, apesar do estigma de bonito e apetitoso eclipsar totalmente qualquer ato dramático, fazia o que era preciso além do que os detratores possam dizer.
E claro, a perspectiva talvez seja variante, mas não seria nenhum exagero dizer que Flynn pode ser o maior símbolo sexual do cinema, ninguém foi mais associado única e exclusivamente a sexo do que ele e não digo apenas dentro do mainstream, mas incluindo até astros pornôs, simplesmente porque este homem era um símbolo fálico de 1,90 de altura em todo seu esplendor e glória. Flynn não possuía um pênis, ele era o pênis em pessoa.
Então que fique aqui um top dos filmes onde vi Mr Flynn nos honrar com sua presença umidificante.
1- O Ídolo do Público (Gentleman Jim, Raoul Walsh, 1942)
Amm umm… então tá. Do que eu estava falando mesmo? Ah, sim, de mais uma das obras primas de Raoul Walsh.
De todos os filmes em que Flynn trabalhou, este era o seu favorito, o porquê é fácil ver, Errol está no auge: do sucesso, da forma física, dos melhores desempenhos e… solteiro! Bom, da forma física só na aparência, pois durante as filmagens ele teve o seu primeiro princípio de ataque cardíaco, com apenas 33 anos, mesmo com esse fator de risco ele continuou fazendo as próprias cenas de um esporte que dominava desde a adolescência. Devo concordar com Flynny, também é o meu favorito e nem é porque o homem passa boa parte do filme sem camisa e trajando ceroulas, mas especialmente por ser a primeira grande obra prima sobre boxe, título este que particularmente creio só ter sido equiparado quando um tal de Martin Scorsese tomou o cinturão para si nos anos 80.
Uma cena é especialmente impagável, onde Flynn e Jack Carson estão no teatro ridicularizando a maneira de atuar de um outro lutador chamando-no de ham, isso nada mais é do que uma brilhante auto-referência, Flynn e Carson eram os mais encrenqueiros, bêbados e exagerados atores sob contrato da Warner na época, ambos eram identificados como ham actors e nem todo mundo tinha estômago para trabalhar com eles, Flynn chegou a ganhar por duas vezes o prêmio Sour Apple de ator menos cooperativo de Hollywood. Gentleman Jim como um tôdo faz grande paralelo entre a arte e estilo de atuar com a arte e estilo de lutar, Walsh bate na tecla de que cada estilo dá a contribuição para se alcançar um novo patamar e isso soa lindamente se refletido em Flynn.
2- Fugitivos do Inferno (Desperate Journey, Raoul Walsh, 1942)
Ôpa, esse é filmaço! Dá até para arriscar um palpite de que este trabalho é o pai de certos filmes cultuados dos anos 60, tais como Os Doze Condenados e Fugindo do Inferno, é mantido o mesmo clima, sobretudo o bom humor, mas o que o faz ainda melhor é um distanciamento temporal que poucos os filmes de guerra dos anos 40 possuíam e que o gênero só reconquistaria a partir dos anos 50. Também é a prova do porquê Walsh é o maior diretor de cinema de aventura desde os anos 20, a ação não deixa de nos empolgar um só minuto, a dinâmica dos atores é perfeita, as situações são engraçadíssimas e não há o ranço propagandista emotivo que se via usualmente nos filmes da época. Desperate Journey mostra também o quanto Spielberg foi influenciado pelo cinema de Walsh, mas este é um assunto para uma outra hora…
3- Capitão Blood (Captain Blood, Michael Curtiz, 1935)
Coisa fofa da mãe. Aqui vemos o porque nenhuma mulher da Hollywood dos anos 30 podia ser vista ao lado de Errol Flynn e continuar com a reputação intacta: o homem era irresistível e faz por merecer a expressão atemporal In Like Flynn. É em Capitão Blood que tudo realmente começa para Flynn: é o primeiro filme que protagoniza em Hollywood, o primeiro ao lado de Miss Havilland e o ponto em que ele surge de total desconhecido que só fazia pontas para um dos maiores astros dos anos 30 e 40. E Michael Curtiz nos legou alguns grandes exemplos de aventura e ação, apesar de ser mais lembrado por Casablanca, é com os filmes ao lado de Flynn que Curtiz se mostra capaz de manter o enfadado público atual eletrizado com seus filmes de 75 anos atrás e, cá entre nós, Capitão Blood é o meu filme de pirata favorito. E que bonito – tudo que Flynny e Douglas Fairbanks construíram durante o século XX foi destruído pelo Johnny Depp na última década. Que bonito.
4- Um Punhado de Bravos (Objective, Burma! Raoul Walsh, 1945)
Raoul Walsh foi mesmo o molde para todos os filmes de guerra dos últimos 70 anos, sobretudo em Fuller e Spielberg, a prova está documentada em cada sequência de Um Punhado de Bravos. Prova maior ainda é o quanto Errol Flynn rendia nas mãos de Walsh, ele era um ator completamente distinto sob o comando do diretor e vai ver por isso o filme começa com vários soldados cheios de frescuras, fazendo as unhas, lavando seus collants (!?!), um anuncio que os tempos de Flynn usando collant tinham terminado e aqui deveria se comportar feito macho.
Um lance histórico bacana é o quanto os ingleses e australianos ficaram putos com esse filme, por fazer parecer que os americanos ganharam toda a guerra sozinhos, pois a tal da Operação Birmânia foi predominantemente composta por soldados da Inglaterra e Austrália. Nada como manipular pessoas através do cinema…
5- As Aventuras de Robin Hood (The Adventures of Robin Hood, Michael Curtiz/William Keighley, 1938)
Ah, todos queles homens alegres e coloridos! Sabe como são as coisas, o povo ainda não estava acostumado com cinema em technicolor, então exagerava um pouco. É fato: Robin Hood será associado eternamente a imagem de Errol Flynn e seu collant verde, ele não foi o primeiro e nem o último que encarnou a personagem, mas de alguma forma Flynn é único e todos agradecemos por Jimmy Cagney não ter ficado com o papel.
Robin Hood foi o primeiro filme que vi com Mr Flynn e é mesmo impossível não cair nas graças dele (ah, esses homens hiperativos!), sobretudo se lembrarmos daquela memorável luta de sombras, a qual futuramente seria reprisada em The Sea Hawk com deslumbrante fotografia em preto e branco, enquanto a trilha sonora de Erich Wolfgang Korngold climatiza tudo e um pouco mais em ambos os casos. Também nunca esquecerei da primeira vez que vi Flynn quando eu era criança: vi um tipo dando tchauzinho para o Pernalonga em Rabbit Hood (Chuck Jones, 1949) e só anos mais tarde, já na adolescência, finalmente soube que aquele cara era o Errol Flynn!
É durante as filmagens de Robin Hood que Miss Havilland decide começar a torturar Mr Flynn para que este deixe sua esposa para ficar com ela, iniciativa esta que causou problemas no collant dele (se é que me entendem), como a própria Havilland confessou no documentário Adventures of Errol Flynn.
6- O Intrépido General Custer (They Died with Their Boots On, Raoul Walsh, 1941)
Com um título original desses não tem como não sair correndo para ver o filme, se ouvirmos uma das mais famosas trilhas do western clássico (a composta por Max Steiner) fica mesmo impossível resistir. Flynn e Walsh se unem pela primeira vez e não mais desgrudam tanto profissional quanto socialmente, adotando uma postura de irmão mais velho e caçula, mesmo Walsh tendo idade para ser pai de Flynny. Deve ser por isso que gosto mais da parceria Flynn-Walsh do que a Flynn-Curtiz, a presença de Flynn fluía melhor nos filmes de Walsh, é como se falassem a mesma língua e não estou fazendo piada com as dificuldades notórias de Curtiz com a língua inglesa, mas porque era visível na tela a afinidade dos dois malucos.
Numa das inúmeras cinebios de personagens históricos banhadas de muita licença poética e pouca realidade e que só a Hollywood dos anos dourados sabia nos proporcionar, vemos Flynny num dos seus mais dilacerantes momentos profissionais: a cena de despedida entre Custer e sua esposa é também a cena de despedida da parceria romântica entre Flynn e Havilland, era alí que acabava um dos mais entusiasmantes casais da tela.
7- Sangue e Prata (Silver River, Raoul Walsh, 1948)
E a bíblia vai ao velho oeste. Último filme oficial do duo Flynn-Walsh, é um imenso western do Walsh e um tremendo trabalho do Flynn, relembrando os anos em que foi garimpeiro na Papua Nova Guiné. Conta a história da ascenção e derrocada do império da prata no velho oeste, onde Flynny assume uma sensacional posição de anti-herói com caráter duvidoso ao encarnar o rei da prata, a versão mais argêntica e sossegada do Daniel Plainview.
8- Olhando a Morte de Frente (Rocky Mountain, William Keighley, 1950)
Último western de Flynn e uma grata surpresa, quando o assisti não esperava muita coisa desse faroeste e acabei me deparando com um exemplar excelente. Fotografia deslumbrante, trama fatalista, enquanto Flynn desponta mais másculo e melancólico do que nunca, anos-luz dos tempos saltitantes de Robin Hood sob a batuta parcial do mesmo diretor. Certamente um dos filmes que mais recomendaria para se conhecer o trabalho de Mr Flynn, além disso o desgraçado saiu com mais uma esposa debaixo do braço durante as filmagens.
9- A Glória de Amar (That Forsyte Woman, Compton Bennett, 1949)
Quer ser respeitado como ator? Vai filmar com um cineasta inglês sobre um conto da Inglaterra vitoriana que tu vira Laurence Olivier! Ao menos era isso que se pensava e Mr Flynn também caiu nessa, não sem colher bons frutos, pois é passível de se dizer que o seu Forsyte é o trabalho mais desenvolvido de sua carreira, especialmente porque ele consegue deixar a sua irrestibilidade natural de lado e não só consegue se vender como aquele homem frio de negócios, como rouba o filme para si, enquanto Compton Bennett volta à sua obsessão com pianista-martirizada-por-homem-autoritário que tanto fez sua fama em O Sétimo Véu. Uma pena Flynn não ter sido bem aproveitado para além dos filmes de aventura.
10- Três Dias de Glória (Uncertain Glory, Raoul Walsh, 1944)
Grande propaganda de guerra, mas ao contrário de muitos dos contemporâneos do estilo, este é efetivamente bom e consta um dos melhores papéis de Flynn, encarnanado um anti-herói pouco comum em sua carreira, um criminoso que finge ser um mártir de guerra e cujo desenvolvimento durante o filme é a dúvida entre ser um covarde vivo ou um herói morto. É exatamente por conta desse tipo de filme que Flynny deveria ser mais lembrado pelas parcerias com Walsh do que com o Curtiz.
11- Revolta (Edge of Darkness, Lewis Milestone, 1943)
É um grande filme de modo geral, mesmo o cunho propagandista não interfere, Flynn está mais contido do que o usual, Ann Sheridan, Walter Huston e Ruth Gordon compensam cada segundo em cena, além da deslumbrante sequência inicial e o pouco comum ponto de vista da resistência norueguesa, mas talvez sua duração seja mais longa do que o necessário. Nunca cansaremos de ver nazistas no cinema, todos aqueles homens tão impetuosos e bem vestidos… Ninguém se vestia melhor do que os nazis, o figurino impecável é de morrer de inveja, a tal da superioridade ariana realmente era viável, mas só nas coleções outono/inverno.
12- Raízes do Céu (The Roots of Heaven, John Huston, 1958)
E os três enfants terribles da Hollywood dos anos 30/40 se unem: Errol Flynn, Orson Welles e John Huston – agora não-tão-jovens, mas ainda terríveis. Some-se ainda mais um maluco, só que da literatura – Romain Gary – e a bagunça está formada em uma história de Gary preocupada com o abuso do homem sobre o animal (que o diga White Dog do Sam Fuller), preconizando um assunto que só viraria moda décadas mais tarde. O próprio Huston renegava este filme, mas putz, eu gosto dele, mesmo sendo uma bagunça, o filme possui uma força estranhamente peculiar, por isso ele está melhor colocado nesta listagem do que alguns outros, mesmo porque nenhum outro cineasta teve mais filmes falhos que são ao mesmo tempo obras-primas.
Não sei exatamente o que pensar quanto a sua natureza ideológica, baseado no livro de Gary – um defensor dos animais, mas adaptado por Huston – um caçador, não sei o que pensar da coisa toda, tanto vê-lo exclusivamente sob a óptica do idealismo ou sob a do cinismo me parece perspectivas não adequadas, talvez a intenção seja mesmo essa, algo como a versão “Rede de Intrigas do Greenpeace e PETA”, onde parte da galera tem preocupações sinceras, outra parte se preocupam por interesses próprios e a terceira parte está pouco se fodendo para qualquer coisa. Flynn mostra a sua faceta bêbada em tempo integral neste que foi um dos seus últimos filmes, pois morreria no ano seguinte, logo agora que finalmente estava sendo reconhecido como ator de verdade e não apenas um astro. As filmagens foram problemáticas do início ao fim, como era comum aos filmes de Huston, especialmente porque Darryl Zanuck ficou enchendo a paciência no set, pois não queria deixar a sua Juliette Greco solta nas savanas ao lado de Flynn e Huston, dois dos mais “perigosos” homens de que se tinha notícia.
A divertidíssima participação de Jude Law encarnando Flynn em O Aviador me remeteu imediatamante àquela historinha lendária (como todas as outras milhares de brigas que Flynny arrumou durante a vida – ninguém fez mais amigos através de socos do que ele) e ocorrida em meados dos anos 40 entre o duo Flynn-Huston. Segundo o narrado, a briga começa porque Flynn teria dito algo grosseiro sobre Havilland e Huston tomado as dores da ex-amante (não se fazem mais cavalheiros como antigamente!), daí eles foram para o jardim, lutaram boxe durante horas e ambos foram parar no hospital, Flynn com as costelas destruídas e Huston com o nariz quebrado.
*Da série: Este post foi programado, eu não estou aqui!
Cem anos de Errol Flynn – Parte 2
13- Meu Reino por um Amor (The Private Lives of Elizabeth and Essex, Michael Curtiz, 1939)
É nesse filme que consta o famoso tapão na cara que Davis deu em Flynn durante uma cena, aquela expressão de indignação era real. Os chefes dos estúdios eram umas belezinhas, neste caso, Jack Warner mesmo sabendo da falta de afinidade entre Davis e Flynn, colocou-os novamente como casal em um filme que Davis sonhara dividir com Laurence Olivier. Infelizmente eles faziam um grande duo na tela e nunca mais voltaram a contracenar. Décadas mais tarde Miss Davis confidenciou a Miss Havilland que Flynn realmente tinha feito um ótimo trabalho como Conde de Essex e que ela esteve errada durante todo o tempo a respeito dele (ah! nada como a maturidade para ajeitar certas coisas!) e para isso Miss Haviland nem precisou aplicar o seu notório corretivo Hush…Hush, Sweet Charlotte.
14- O Gavião do Mar (The Sea Hawk, Michael Curtiz, 1940)
E Mr Flynn se vinga de Miss Davis. Se Bette Davis queria Laurence Olivier para o papel que ficou por conta de Flynn em The Private Lives of Elizabeth and Essex, eis que Mr Flynn toma a rainha Elizabeth vivida por Flora Robson em Fire Over England e que alí dividia cena com Sir Olivier. Tal qual o próprio Fire Over England, The Sea Hawk faz um paralelo entre a inquisição espanhola e a ascenção nazista na Europa daqueles idos, um tipo de preocupação que o austro-húngaro Michael Curtiz deixava transparecer em todos os seus filmes da época, principalmente em Casablanca. Não gosto deste filme de piratas do duo Flynn-Curtiz tanto quanto Capitão Blood, mas ainda é um grande exemplo do gênero, além do mais, Mr Flynn está mais deslumbrante do que nunca. Ó céus, que homem lindo.
15- Perseguidos (Northern Pursuit, Raoul Walsh, 1943)
É fato: Raoul Walsh sabia tudo e um pouco mais. Sempre tive sérios problemas com filmes como propaganda de guerra, mas o Walsh é daqueles artesões que nos fazem esquecer os intentos belicistas por trás de tais filmes. Ó céus, o que é aquela cena do jantar na prisão com o coronel alemão enojado por se sentir como um judeu numerado num campo de concentração? Esse momento vale o filme e entraria fácil numa antologia de melhores sequências da carreira de Walsh, mas as coisas não param por aí, o filme é um desbunde artístico como um tôdo e Errol Flynn é exatamente o tipo de ator necessário aos intentos de Walsh, mesmo este trabalho não estando entre as melhores colaborações da dupla.
16- Uma Cidade que Surge (Dodge City, Michael Curtiz, 1939)
Ai ai ai ai, que homem lindo. Nunca vou cansar de repetir, mas Mr Flynn acaba desviando a atenção fazendo com que tudo ao redor se torne dispensável. Dodge City é um dos filmes em que ele está mais lindo, sobretudo por conta da deslumbrante fotografia colorida, raramente acho que pessoas são melhores fotografadas em technicolor do que em branco e preto, mas Mr Flynn é um desses casos raros aos meus olhos e poderia passar toda a eternidade diante de uma câmera sem nem sequer se mover, só existindo. Esse homem é uma paisagem, uma obra de arte, se John Ford tinha o Monument Valley, Curtiz e Walsh tinham Errol Flynn.
17- O Príncipe e o Mendigo (The Prince and the Pauper, William Keighley/William Dieterle, 1937)
Definitiva e melhor versão da história de Mark Twain, onde Flynny encarna o porco-espinho Miles Hendon e Claude Rains está mais vilanesco do que nunca. Curioso constatar que exatos 40 anos depois o igualmente cachaceiro Oliver Reed se valeu do mesmo papel de Miles Hendon na versão de Richard Fleischer.
18- A Carga da Brigada Ligeira (The Charge of the Light Brigade, Michael Curtiz, 1936)
200 cavalos. Reza a lenda que foram mortos cerca de 200 cavalos durante essa filmagem. É um filme impressionantemente violento para a época em que foi filmado, inclusive se visualiza um massacre de crianças, algo não muito comum nos anos 30 mesmo para filmes de guerra. Flynn está lindo e másculo como sempre naquela roupa do exército britânico. Ah, também é dessa filmagem a famosa frase de Curtiz Bring on the empty horses! que acabou virando o título da autobiografia de David Niven, um coadjuvante da Brigada.
19- Patrulha da Madrugada (The Dawn Patrol, Edmund Goulding, 1938)
Bom filme sobre pilotos de avião durante a primeira guerra, num tom amargo e estranhamente anti-belicista para um tempo à beira da Segunda Guerra. O trunfo aqui é a dinâmica e o entrosamento dos atores em torno de suas personagens, pois algo que vou dizer até o fim da vida é que até hoje ninguém conseguiu se equiparar em excelência às cenas aéreas gravadas por Howard Hughes em Hells Angels e o filme de Goulding não é diferente em comparação, especialmente porque foram reutilizadas da versão de 1930. Pelas minhas contas Flynn e David Niven compartilharam apenas dois filmes, o que é um pecado, eles eram sensacionais juntos.
20- As Aventuras de Don Juan (Adventures of Don Juan, Vincent Sherman, 1948)
DEMOROU. Ainda na cola de John Barrymore e Douglas Fairbanks, eis que o homem finalmente se joga no personagem que nascera para encarnar. Era para o Walsh ter dirigido esta versão, mas deu merda, vai ver por isso Flynn roubou a bandana do Fairbanks em Ladrão de Bagdá, filme este que considero a obra prima de Walsh. Apesar de Don Juan ser um grande exemplo de capa-espada, esse período foi o início da decadência de Flynn, o cinema em Hollywood estava mudando, o star system estava morrendo e a Golden Age estava em seu canto do cisne.
É assustador como Flynn envelheceu de repente por conta de sua vida desregrada, de Santo Antonio para Don Juan passaram-se apenas 3 anos, mas a face dele fazia parecer 10, especialmente porque entre esses filmes ele adoeceu (tinha tuberculose, malária, coração fraco e dor nas costas!) e somou heroína e morfina ao alcóol na sua dieta básica. Flynn sempre aparentou ser mais velho do que realmente era, em Capitão Blood ele tinha uns 25, 26 anos e ninguém daria menos de 30 (a experiência em excesso ficava evidente), mesmo assim em Don Juan ele continua lindo e com corpão, aproveitando a deixa para usar as calças mais indecentes de sua carreira. Ele também aproveita para exorcizar certas coisas sobre sua própria vida, especialmente em relação às acusações de estupro estatutário, pois nem sempre ele era o sedutor irresistível da história como bem ele se defendeu certa vez: I don’t have to seduce girls. For Christ’s sake, I come home and they’re hiding under my bed.
21- Mademoiselle Fifi (It’s a Great Feeling, David Butler, 1949)
Pronto. Estraguei o final surpresa para quem não viu o filme. Essa espécie de precursor de Cantando na Chuva é um veículo para o trio Dennis Morgan, Doris Day e Jack Carson, onde há zilhões de participações divertidíssimas de astros e cineastas da Warner: Raoul Walsh, Joan Crawford, Ronald Reagan, Jane Wyman, Edward Robinson, Michael Curtiz, Gary Cooper, Danny Kaye, etc etc. Doris Day passa o filme todo reclamando que não deveria ter deixado o namoradinho de infância para seguir a carreira artística, até que enfim ela retorna para seu homem e ele é Errol Flynn.
22- Caravana de Ouro (Virginia City, Michael Curtiz, 1940)
Hahahaha olha o Bogie bandidão mexicano com bigodinho de Errol Flynn! Minha gente, não havia nada mais oposto no mundo do que Bogart e Flynn, tudo que um tinha de discreto e mal humorado, o outro tinha de flamboyant e radiante, é uma dádiva poder vê-los dividindo cena. Mas não apenas estes ícones estão presentes, minha diva pre-code Mirian Hopkins e Randolph Scott também dão o ar da graça, além do usual staff flynniano formado por Guinn “Big Boy” Williams e Alan Hale. Sempre rolou um certo preconceito com Flynn nos westerns, em geral a galera reclama que ele não conseguia ser macho o suficiente, que ele era “legal demais”, é logico que é só homem que reclama dessas bobagens, Flynn era gostosérrimo, ora bolas, quem se importa com o resto???
23- Nunca me Diga Adeus (Never Say Goodbye, James V. Kern, 1946)
Hahahaha Flynn imitando Bogie! Essa sem dúvida é a grande piada desta comédia romântica, numa cena em que se expurga a maldição de Flynn, como bem menciona para sua filha no filme: Se você pode me imaginar como Robin Hood, por que não como um cara durão? e logo depois vemos a explicação do porquê. Não obtive nenhuma confirmação, mas reza a lenda que é o próprio Bogart quem faz a dublagem dessa cena, coisa que acredito, pois a voz era idêntica. Roteiro de I.A.L. Diamond, um dos mais habitués de Billy Wilder.
24- O Homem Perfeito (The Perfect Specimen, Michael Curtiz, 1937)
Prestou atenção no título? Pois então, é isso que a gente pensa quando olha para Mr Flynn. Comédia romântica onde Flynn e Joan Blondell compensam cada segundo em cena, com direito aos indefectíveis May Robson e Edward Everett Horton como elenco de apoio. Apesar de Michael Curtiz ser açogueiro demais para se infiltrar no screwball, o filme não sofre em grande quantidade com isso, nos legando momentos deliciosos (tal qual o astro principal!), especialmente quando Flynny mostra seus talentos como boxer.
25- O Mestre da Vingança (The Master of Ballantrae, William Keighley, 1953)
Aqui Flynn tinha apenas 43 anos mas aparentava ter bem mais, o que torna especialmente depressivo assistir seus filmes dos anos 50, mais deprimente ainda é o fato deste ser o ponto final de seu reinado na Warner, depois de 18 anos de muitos conflitos e lucros, Flynn foi gentilmente convidado a se retirar e qualquer semelhança com Nasce Uma Estrela não é mera coincidência, “matinée idols” problemáticos eram assim descartados desde o início dos tempos. No mais é um filme bacaninha, especialmente algo que some Roger Livesey + Piratas + Errol Flynn + Escoseses + Robert Louis Stevenson, além da habitual fotografia deslumbrante de Jack Cardiff.
Mas o grande mistério pairando é: depois de todas aquelas roupas espalhafatosas por que Flynny não foi capaz de usar um reles kilt? Essa sim foi a maior bobagem que ele fez em sua vida.
26- A Noiva Curiosa (The Case of Curious Bride, Michael Curtiz, 1935)
E Flynn conhece Hollywood. E Michael Curtiz. O homem estréia nos EUA no papel do homem morto (e que cadáver!) em um dos divertidíssimos filmes onde Warren William encarna Perry Mason, lá pelo final do filme ele aparece vivo num flashback espancando a suposta personagem-título e brigando com o suspeito de assassinato, daí finalmente sabemos o que na verdade ocorreu, ou seja, um bom começo. Outro bom começo dessa época foi ter conhecido a ex-mulher de Curtiz, dona Lili Damita, que se tornou a primeira Mrs Errol Flynn e foi responsável direta na ascenção de sua carreira.
27- Luz de Esperança (Green Light, Frank Borzage, 1937)
Flynny vestido de médico. Mmmmm… Borzage era um artista e tanto, além de ser pai de Douglas Sirk e um dos grandes delineadores do cinema americano, é sempre um prazer estudar as nuances de seu trabalho, nas mãos de um diretor medíocre este filme se tornaria a maior das vias-crucis, mas Borzage transforma este melodrama numa grande aula de como se fazer cinema. É com ele que Flynn se infiltra num ambiente para além do swashbuckler.
*Da série: Este post foi programado, eu não estou aqui!
Cem anos de James Mason – Parte 6
61- Mulher Diabólica (The Wicked Lady, Leslie Arliss, 1945)
Outro trabalho na fase em que Mason estava no Gainsborough Studios e que fez a sua fama. Num filme onde a protagonista é uma anti-heroína, Mason faz as vezes do anti-herói. Em tempos de Segunda Guerra só a mulherada ia ao cinema, isso quando os arianos continentais não estavam jogando bombinhas pela Inglaterra, então nada mais natural que surgissem mulheres fortes e destemidas nas telas, sempre bem acompanhadas de tipos másculos, tão fortes e destemidos quanto suas heroínas de caráter duvidoso, o que é o caso da nossa protagonista aqui vivida por Margaret Lockwood. O que importa é que Mason faz um tipo mascarado e bandidão.
62- O Pirata da Barba Amarela (Yellowbeard, Mel Damski, 1983)
One pet per person, parrots preferred. Mason, Graham Chapman, Peter Boyle, Cheech & Chong, Peter Cook, Marty Feldman, Susannah York, Eric Idle, Madeline Kahn, John Cleese, Spike Milligan e até David Bowie num único filme!?! Digamos que com uma união dessas só poderia sair o máximo da genialidade, mas infelizmente não foi isso que ocorreu, nesse caso o making of do filme é muito mais proveitoso: Group Madness. É a inspiração maior de Piratas do Caribe, Jack Sparrow praticamente nasceu no meio desse povo, mas da turma do Gore Verbinski a gente nunca esperou muita coisa, mas com atores e roteiristas desse nível esperávamos em demasia…
63- Fogo Sobre a Inglaterra (Fire Over England, William K. Howard, 1937)
Later my Lord, may be too late. Não é sempre que vemos Laurence Olivier fantasiado de James Mason numa trama à la Dumas, enquanto Mason é o traidor, Olivier é o queridinho da rainha (é claro), isso explicará muitas coisas quando Olivier ganhar o título de Sir e Mason não. Este filme é um absurdo de lendas inglesas, alguns já rodados e outros começando: Olivier, Mason, Flora Robson, Leslie Banks, Vivien Leigh, Raymond Massey, Robert Newton. É um filme bem interessante do ponto de vista histórico, mas não da história de Elizabeth I e sim da Inglaterra de 1937 com a sombra nazista invadindo a Europa, as analogias são tão gritantes que você chega a esquecer que o filme se passa supostamente no século XVI. A Espanha, a Inquisição… tudo com contornos obviamente Alemães e Nazistas.
64- O Aventureiro do Tahiti (Tiara Tahiti, Ted Kotcheff, 1962)
Mais uma vez o gentleman destila seu charme nos trópicos, esta safra é a de quando o Kotcheff ainda fazia comédias britânicas antes de surtar e fazer a fama com Rambo. Mason sempre teve óbvio talento para comédia (como para todo o resto) e aqui ele nos brinda com um embate com ninguém menos que Sir John Mills. Pena que no mesmo ano Mason não pôde trabalhar com a filha de Sir John, Hayley, a guria que Kubrick queria como Lolita e a Disney vetou. Sabe como é, não cairia bem a Poliana virar Lolita, coisa que não adiantou muito, já que poucos anos depois Hayley Mills se envolveu na vida real com o cineasta Roy Boulting, uns 35 anos mais velho.
65- Hotel Reserve (Lance Comfort/Victor Hanbury/Mutz Greenbaum, 1944)
Mr Mason em tempos de guerra confundido com um espião e tendo que provar sua inocência. Um desses plots que cairiam como uma luva nas mãos de Hitchcock e cujo tema do homem inocente confundido com o criminoso tentando provar sua inocência era um dos imaginários que lhe eram mais caros, a sequência final no topo de um prédio é um desses momentos de inevitável paralelo . Não é um filme muito bem desenvolvido e a presença de três diretores diferentes não ajuda na coesão, mas é deveras interessante ver Mason 15 anos antes de Intriga Internacional fazendo as honras para com um papel semelhante ao que fora de Grant.
66- O Emissário de Mackintosh (The Mackintosh Man, John Huston, 1973)
Dr. Johnson said that Patriotism was the last refuge of a scoundrel. Remake de um episódio do seriado O Santo com Roger Moore, é aquela coisa de sempre: espião britânico, guerra fria, mulher na linha de tiro, blábláblá, o que difere é o roteiro do Walter Hill, direção do Huston (filmando na sua amada Irlanda), o Newman interpretando um agente britânico (!!!), enquanto Mason é o político sorrateiro, o próprio príncipe das trevas, como habitual. Tudo isso faz com o filme nunca deixe de instingar ou ser interessante.
67- Um Grito de Terror (Cry Terror! Andrew L. Stone, 1958)
Suspense sobre terrorismo em linhas aéreas (acredito que um dos primeiros, se não o primeiro sobre o tema) altamente tenso e com elenco impecável, onde Mason deixa o papel vilanesco nas mãos de Rod Steiger para encarnar o seu pouco habitual pai de família bonzinho. Steiger é um cara pouco lembrado para os patamares de sua excelência, tudo que vejo com ele me deixa sempre extasiada, puta ator bom. Uma curiosidade desse filme é o affair que Mason teve com a sueca Inger Stevens que interpretava sua esposa, coincidentemente, poucos anos depois ele faria Marriage Go Round sobre infidelidades com uma sueca perfeita.
68- Os Crimes de Oscar Wilde (The Trials of Oscar Wilde, Ken Hughes, 1960)
Mason encarna Sir Edward Carson, o almofadinha mancomunado com aquele Queensberry para reduzir Oscar Wilde a cinzas, só porque esteve acompanhando Bosie no círculo do cravo verde, num dos mais lamentáveis acontecimentos do meio literário. É algo bem estranho ver Peter Finch como Wilde, não que não o considere um dos melhores atores que já pude assimilar, mas a encarnação definitiva de Wilde é mesmo de Stephen Fry, de corpo e alma. E, ó céus, aquele John Fraser a desfilar seus encantos na pele de Bosie é qualquer coisa impressiva.
69- Desejo Assassino (De la Part des Copains, Terence Young, 1970)
Ninguém mexe com a família e o cachorro de Charles Bronson e sai impune. Não é um grande filme, mas há grandes momentos de tensão e algo em que se possa ver Bronson, Mason, Luigi Pistilli e Liv Ullman num mesmo enquadramento, merece todo o respeito.
70- Príncipe Valente (Prince Valiant, Henry Hathaway, 1954)
Traitor is a word that winners give to losers. Ah! As antigas adaptações de quadrinhos! Tudo tão artesanal, tudo tão honesto! Aqui Mr Mason encarna o homem, a lenda, o próprio Cavaleiro Negro das lendas arturianas que muito assombrava os transeuntes nas florestas próximas a Camelot, o que nos faz pesar ainda mais o fato de Mason nunca ter feito um Robin Hood, pois daria um excelente Xerife de Nottingham. Nota-se na foto acima que Mason, no auge de sua elegância, está tirando onda do cabelo ridículo de Robert Wagner.
71- Nem o Céu Perdoa (One Way Street, Hugo Fregonese, 1950)
Muita sarna para se coçar arranjou Mr Mason, eis que neste filme noir o homem rouba o dinheiro e a garota do gangster Dan Dureya e foge para o México. É um noir menor, com ambientação peculiar no México e o segundo filme americano de Mason sem a aura Ophulsiana. Primeiro filme nos EUA do diretor argentino marido da Faith Domergue e uma das primeiras pontas (ui!) do Rock Hudson e do Jack Elam. Nada, mas nada mesmo paga a visão dantesca de ver Mr Mason de sombrero sentado num burrico.
Cem anos de James Mason – Parte 8
83- The Bells Go Down (Basil Dearden, 1943)
Mason interpretou todo tipo de pessoa e caráter, nesta produção da Ealing Studios a vez chegou para uma heróico bombeiro. Durante a segunda guerra com os bombardeios constantemente arrasando a Inglaterra, o Corpo de Bombeiros era algo mais importante do que o próprio exército e este filme teve a intenção de prestar-lhe uma pequena homenagem. Basil Dearden sempre fora um cineasta interessante dentro da golden age britânica, mas aparentemente esse tipo de filme sobre heroísmos de guerra não lhe caía muito bem, ou simplesmente não tenho muita tolerância sobre o tema, embora este seja um dos primeiros trabalhos de Dearden na direção, portanto é passível de excusas. Mason é o sério capitão do esquadrão, enquanto o alívio cômico fica por conta do astro popular Tommy Trinder, cujo jeito de falar me lembra o cockney Michael Caine e a forma de interpretar faz-me recordar do Hugh Laurie dos anos 80.
84- Subterrâneo de Assis (The Assisi Underground, Alexander Ramati, 1985)
There are 45,000 Italian Jews. They are all our Jews. We are responsible for them. Desta vez Mr Mason não encarna um alemão e sim um bispo italiano, mesmo assim ele não deixa de ter Mr Schell novamente ao seu lado como soldado alemão que, pasmem, ajuda os judeus italianos. A versão que assisti foi a de duas horas, mas a versão original possuía três, não sei qual delas é melhor, mas é um bom filme para a TV, sem o excesso emocional irritante que podemos ver em filmes como A Lista de Schindler, é um fato histórico interessante sobre um dos segmentos católicos que não fecharam os olhos para com o holocausto judeu, se tratavam de franciscanos e todos sabemos que a ordem católica realmente digna de respeito é a dos seguidores de São Francisco de Assis.
85- O Retorno do Pimpinela Escarlate (Return of the Scarlet Pimpernel, Hanns Schwarz, 1937)
Mr Mason com 28 aninhos vivendo Jean Tallien, o amiguinho revolucionário que acabou com a farra do Robespierre. Pimpinela Escarlate é um grande personagem de aventura e sinto falta de mais filmes baseados nele, embora até Powell/Pressburger tenham se envolvido com herói, faz falta no cinema dos anos 60 e 70. O problema maior do Pimpinela Escarlate é que tal imagem está irremediavelmente associada ao Patolino por toda a eternidade, é o peso das imagens ligadas à infância.
86- Spring and Port Wine (Peter Hammond, 1970)
Ó céus, o homem que outrora espancava mulheres com bengalas e chicotes, agora jogando bocha! Este é o típico filme em que os ingleses costumam muito elogiar, não por outros motivos que não o de retratar de época e costumes familiares do norte têxtil da Inglaterra nos anos 60, o que torna o filme bem mais interessante para quem alí viveu neste período do que para nós, reles habitantes da senzala sul-americana. É esse bairrismo que impede um maior desenvolvimento de temas universais e atemporais, soa mais como um documento histórico do que uma peça de relações humanas com as quais os habitantes do resto do mundo poderiam se identificar. É estranho ver Mason como trabalhador braçal, um pai de família com mão de ferro que joga futebol e bocha, não que deixe de dar conta do recado, mas é um tanto unusual, embora a presença de Susan George mais espevitada do que nunca balanceie as coisas. Se não me engano, este é o único filme para cinema de Peter Hammond, que por décadas foi diretor na televisão inglesa, mas especificamente da BBC.
87- Passageiros do Inferno (The Passage, J. Lee Thompson, 1979)
Vejam só, Mr Mason nos Pirineus fazendo filme de ação aos 70 anos! Desta vez Mason é o cientista perseguido pelos nazis e ajudado por Christopher Lee e Anthony Quinn, enquanto no seu encalço segue um Malcolm McDowell ultra perverso e caricato. Nada de novo, nada de sensacional, mas não é todo dia que vemos McDowell colocando fogo no Lee ou uma cueca estampada com suástica.
88- A Quadrilha da Fronteira (Bad Man’s River, Eugenio Martín, 1971)
Faroeste modernoso com direito até a rock and roll na trilha. Poderia se esperar mais de um spaghetti onde Mason e Lee Van Cleef dividem Gina Lollobrigida da forma mais amigável possível, embora não deixe de ter seus momentos de ampla diversão.
89- A Nau dos Condenados (Botany Bay, John Farrow, 1953)
Rá! A vilania de Mason não tem fim! Mason é o capitão do navio responsável por levar a escória inglesa para a Austrália, na época em que o país ainda era a grande penitenciária do Império, é um sádico que não suja as mãos: manda fazer. É um tipo de papel que fizera a sua fama na Inglaterra e que havia abandonado em Hollywood, ao menos até o ano anterior com o Prisioneiro de Zenda. O filme dá direito a sessão de chicotadas nas costas perfeitas de Alan Ladd, aliás, sempre me esqueço disso, mas Ladd era um puta homem bonito.
90- A.D. – Anno Domini (Stuart Cooper, 1985)
Tá bom, eu confesso, não assisti essa desgraça inteira. Essa porra é uma minissérie de 11 horas, um épico que conta a história romana do momento da morte de Jesus ao império de Nero e só assisti até o momento em que Mason morre, o que para a minha salvação ocorreu nas primeiras horas (thank god!). É uma espécie de continuação da minissérie do Zeffirelli sobre Jesus com o mesmo Anthony Burguess como roteirista, daquele elenco retornaram Mason, Fernando Rey e Ian McShane, outrora José de Arimatéia, Gaspar e Judas, agora como Imperador Tibério, Sêneca e Sejano. É lógico que Tibério era pedófilo, é lógico que o único ser em que confiava era sua cobra de estimação, é lógico que ele espanca pessoas até com peixe, é lógico que Mason e McShane formavam um dupla deveras perigosa. Também é o último filme em que Mason e Ava Gardner constam juntos no elenco, embora infelizmente não dividam cena.
91- The Water Babies (Lionel Jeffries, 1978)
Neste estranho exemplo de filme infantil mezzo animação, mezzo live-action, Mr Mason encarna uma personagem com ares dickensianos. Não sei, deve ser um filme bacana para as crianças, mas filmes infantis bons têm que passar pelo crivo do passar dos anos e permanecer bom, como só vi Water Babies na fase adulta e não me apeteceu, então não é algo que eu recomende com afinco. A mesma história rendeu aquele curta animado da Disney que é bem melhor do que esse equivocado atentado do ator Lionel Jeffries.
92- Genghis Khan (Henry Levin, 1965)
É lógico que Mason é um maldito chinês. É lógico. Recentemente lembramos com aquele inspirado Downey Jr o rídiculo daqueles tempos em que os atores orientais não podiam se estabelecer no cinema ocidental, o que se fazia então? Puxava-se, esticava-se e pintava-se. É deprimente ver Mason aqui, por melhor ator que seja, a impressão estética é dolorosamente fake. O filme não funciona como épico visual, nem como interesse histórico, é um desperdíco de gente boa, tempo e dinheiro. Um dos poucos filmes em que podemos ver Mason com alguma maquiagem, porque simplesmente ele não estaria aqui se não maquiado, nem se aquela Pamela não tivesse tirado até as calças dele no processo de divórcio.
93- A Herdeira (Bloodline, Terence Young, 1979)
Uma daquelas tramas absurdas do Sidney Sheldon envolvendo espionagem industrial, filmes snuff, computadores de última geração, serial killers, perversão sexual, etc etc, com elenco estelar e internacional, trilha sonora do Morricone num filme horripilante de horrível. Horrível, horrível. E quem em sã consciência colocaria Mr Mason como vilão num tipo de filme cuja pretensão é deixar em suspenso quem de fato tem a culpa? Mason sempre é o culpado, oras. Não é normal eu pedir para as pessoas correrem de um filme, especialmente por ser a favor de uma segunda chance, mas faça um favor a si mesmo e à aura dos grandes atores que alí estão: FUJA!
Nota 1: Muito me intrigou o fato de Mason nunca ter trabalhado com David Lean, um tipo de cineasta que facilmente trabalharia com ele, até que há algum tempo soube o motivo dessa parceria não realizada: Noel Coward e Nosso Barco, Nossa Alma (In Which We Serve, 1942). Lean queria a escalação de Mason para In Which We Serve, coisa que Coward vetou por conta da notória natureza pacifista e anti-bélica de Mason, clamando que “um homem que não pode vestir um uniforme na vida real, não o poderia fazer no cinema”, sou assumidamente fã da arte do tio Noel, mas o “incidente James Mason” lhe proporcionou a maior bobagem que já disse, como uma das maiores bobagens que já ouvi qualquer ser humano dizer, pois até onde sei Mr Mason era um ator e atores tendem a interpretar e não ser um espelho de suas personagens. Que vergonha, tio Coward!
Nota 2: Nada me doeu mais do que ter que chamar Mason de Mr o tempo todo, quando obviamente deveria chamá-lo de Sir, até aquela porra de Sean Connery que passou os últimos 50 anos pregando publicamente a independencia da Escócia ganhou o título de Cavaleiro e Mr Mason não. Se esta não é a maior vergonha dos almofadinhas palaciais, não tenho a mínima idéia de qual seja (tá bom, tem a Diana também). Não à toa o homem viveu os últimos 20 anos de sua vida na Suíça, o mais neutro dos países, assim como ele mesmo o fora.
Nota 3: Um ator fascinante, um homem fascinante. FASCINANTE.
I recall telling him that one day the camera was going to love him and make him a very great star. James just [looked] at me in disbelief. He was incredibly good-looking, in a dark way. … He had that curious quality of a man with an eternal secret. … That was what was so arresting. … That and, I guess, the voice. – Geraldine Fitzgerald sobre quando o conhecera em 1937





































