Quixotando

Cem anos de Sadao Yamanaka

Posted in ANOS 30, COMÉDIA, DRAMA, GATOS, IMPRESSÕES, SCREENSHOT by Adriana Scarpin on November 7, 2009
Yamanaka & Ozu. Sadao é o mais gato, é claro.

Yamanaka & Ozu. Sadao é o que não se parece com um pescador.

É quase impossível localizar a importância do cinema de Yamanaka de forma precisa, justamente porque apenas três dos seus dezenas de filmes podem ser vistos hoje, mas é consensual de que foi um dos mestres construtores do jidaigeki em seu princípio – coisa que pode ser facilmente notado apenas assistindo Ninjo Kami Fusen (1937), Kōchiyama Sōshun (1936) e Tange Sazen Yowa (1935), mas em que pé está a influência de quem para quem nessa história é impossível dizer, pois o número de filmes perdidos é demasiado grande para ser ignorado, embora Kurosawa nunca deixasse de mencionar Yamanaka como uma de suas maiores influências, enquanto o jovem roteirista-convertido-diretor Sadao andasse de braços dados com Ozu, Inagaki e Mizoguchi naqueles anos 30.
Ao final da mesma década, um dos mais promissores e brilhantes cineastas de uma geração foi para a guerra e não retornou, morrendo de disenteria aos 28 anos – isso que é tragédia ou tão tragicômico quanto o próprio cinema de Yamanaka, ou do que restou dele.

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Tange Sazen Yowa: Hyakuman Ryo no Tsubo / The Pot Worth a Million Ryo (1935)Tange Sazen yowa Hyakuman ryo no tsubo (1935) meninoTange Sazen yowa Hyakuman ryo no tsubo (1935) roupaTange Sazen Denjirô ÔkôchiTange Sazen yowa Hyakuman ryo no tsubo (1935) manekinekoEste foi o primeiro filme que vi de Yamanaka e imediatamente me proporcionou um tipo de adoração cinéfila comparável ao que sinto vendo o trabalho de Chaplin ou Lubitsch, é deliciosamente poético e engraçado, até icônico, construindo e evidenciando pequenos detalhes que fazem a alegria de qualquer cinéfilo: um samurai caolho e sem braço (Sazen Tange), uma peça de roupa como transição, um leitmotif verbal que serve como descontrução da própria cultura nipônica, o manekineko essencial… É tudo um encanto, puro e simples.

Kochiyama Soshun / Priest of Darkness (1936)Kochiyama Soshun - gatoKochiyama Soshun - casalKochiyama Soshun - sakeKochiyama Soshun - meninoO gênero jidaigeki se apóia nas tradições acima de tudo, mas cada cineasta é facilmente singularizado pelas suas preferências em mostrá-las, Yamanaka gostava mesmo de bebedores de saquê, a embriaguez é um ponto constante no seu cinema mais do que qualquer outra reiteração da cultura tradicional japonesa, é sempre a partir do kampai que as coisas começam a se desenrolar em seus filmes, se é que se poder analisar tal coisa conhecendo apenas três deles. Kochiyama Soshun é o que menos gosto, o que não é nenhuma tragédia, se aproxima dos dilemas morais e composição de Ninjo Kami Fusen, mas sem a mesma intensidade.

Ninjo kami fusen / Humanity and Paper Balloons (1937)Ninjo Kami Fusen - balõesNinjo Kami Fusen - pésNinjo Kami Fusen - bonecaNinjo Kami Fusen - dueloO mais melancólico e conhecido rebento sobrevivente de Yamanaka San. Particularmente considero Tange Sazen Yowa sua maior obra prima, mas o lirismo que aqui está envolto em harakiris recorrentes, ronins desacreditados, amantes em fuga, esposas decepcionadas e balões de papel não pode passar desapercebido.

Links sobre o cinema de Yamanaka pela internet:

Ninjo kami fusen (1937)
Retroprojecção
Nihon Cine Art
Midnight Eye – The Latest and Best in Japanese Cinema
The Taste of Cinema
Wildgrounds
The Masters of Cinema Series
Cacophone
Arsenevich
Strictly Film School
Lard Biscuit Guide to Samurai Cinema
Someday I’ll Think of A Title – Exactly what the title just said
Some Words Some Places
Narrative In Japanese Film 3: Yamanaka
DVD Outsider
YouTube (filme completo com legendas em inglês)

Kochiyama soshun (1936)
Cinema Talk – Film-related blabbering…
The three-film universe of Sadao Yamanaka

Tange Sazen (1935)
Cinema Talk
Lard Biscuit
Hkmania – Le Blog – La Passion du Cinéma Asiatique
Wildgrounds – Treasures of Asian Cinema
Cineblog
Some Words Some Places – Japanese and Chinese Film Reviews
Rare Classics of Japanese Cinema
Roslindale Monogatari – Rambling observations of a Roslindale fan of Asian films
Freak Movie Team – Cine Oriental y Asiático
Film Preservation Society

Assassina cruel e sanguinolenta

Posted in ANOS 30, SCREENSHOT by Georgina Spiggott on November 6, 2009

Shirley TempleShirley Temple em tempos de Baby Take a Bow (Harry Lachman, 1934)

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Festival Musos do Bachrach: Fred Astaire

Posted in ANOS 30, FOTOGRAFIA, MUSOS by Georgina Spiggott on October 31, 2009

Fred Astaire by Ernest BachrachDepois de me dar conta que existem mais musas do que musos neste blog, resolvi fazer justiça com as próprias mãos, começando com uma ajudinha do senhor Ernest A. Bachrach que me forneceu um arsenal deveras grandioso.

Hughes & Flynn

Posted in ANOS 00, ANOS 30 by Georgina Spiggott on October 21, 2009
Helen Gilbert, Howard Hughes e Errol Flynn (1939)

O Original: Helen Gilbert, Howard Hughes e Errol Flynn (1939)

Leo DiCaprio, Jude Law, Cate Blanchett

A Imitação: Leonardo DiCaprio, Jude Law, Cate Blanchett - The Aviator (2004)

Cem anos de Carla Laemmle

Posted in ANOS 30 by Georgina Spiggott on October 20, 2009

Dracula (1931) Carla LaemmleE a velhota está viva e saltitante. Não existem muitas pessoas que trabalharam no cinema dos anos 20 e que ainda estejam por aí, esse negócio de trabalhar em filmes como Drácula e A Múmia enfim surtiu algum efeito.

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Centenário de Elias Kazanjoglou – Parte 2

Posted in ANOS 30, ANOS 40, ANOS 50, ANOS 60, ANOS 70, CURTAS, DRAMA, IMPRESSÕES, LIVROS, VIDEOS by Adriana Scarpin on September 7, 2009

13- O Compromisso (The Arrangement, 1969) The Arrangement (1969) Kirk DouglasEveryone become a salesman here. If you don’t sell anything else, you sell yourself. Ours is a society dominated by business, and the economic pressure even at the upper-middle-class level is fantastic. The epitome of this business civilization is the advertising industry. Everyone feels some degradation, some violation of self, when they spend their lives selling. (Kazan: The Master Director Discusses his Films). Não vou dizer que se você é romancista e cineasta jamais adapte o seu próprio livro, pois Kazan já o fizera muitíssimo bem com America, America, o problema em The Arrangement é adaptação às mudanças do próprio cinema. Kazan quis se adaptar a um estilo que não lhe caiu bem, chega a ser mesmo irritante o estilo de montagem, o uso da trilha sonora e a inserção de devaneios constantes, essa certamente não era a praia do Kazan, como admirador confesso da Nouvelle Vague parece que ele quis fazer algo como Pierrot Le Fou, mas as coisas ficam bem bizarras quando se força a encarar um estilo que não é o seu.
O livro tinha grande potencial para adaptação, tendo o mesmo tom de coisas que voltariam à moda nos anos 80 e 90 como Beleza Americana, Clube da Luta e Como Fazer Carreira na Publicidade. Notoriamente a semelhança fica mesmo por conta de Mad Men, quando comecei a assistir o seriado, o livro de Kazan vinha à mente constantemente, digamos que Mad Men é tudo que Kazan poderia ter feito com seu filme mas dolorosamente desperdiçou.
Vale lembrar que o livro do homem é basicamente uma autobiografia “camuflada” de seu relacionamento com a excelente atriz Barbara Loden, com quem trabalhou no cinema em Wild River e Splendor in the Grass.

14- Laços Humanos (A Tree Grows in Brooklyn, 1945)A Tree Grows in Brooklyn 91945)The one thing I really liked about that film was the little girl. By far the most authentic thing about the film is Peggy Ann Garner’s face. Nothing compares with it except maybe Jimmy Dunn’s face. He was terrific. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
Kazan e seu assistente de direção conhecido como Nicholas Ray se encontram neste filme que delinearia muito do cinema futuro de ambos, em específico o traço da desestrutura familiar, um tema que foi muito caro em suas respectivas carreiras.  É mais um desses “filmes de ator” que Kazan fez e reitero o fato de que James Dunn era absolutamente apaixonante.

15- A Luz é para Todos (Gentleman’s Agreement, 1947)Gregory Peck & Dean Stockwell in Gentlemen's AgreementNo matter what I think of it today, what I remember most about Gentleman’s Agreement is that at time no one said ‘jew’. When it was being made, all the rich jews in California were against it. And the Catholic Church was against it because they don’t want the heroine to be a divorcee. There were hell of lot people who said to Zanuck, ‘We’re getting along all right. Why bring this up?’ (Elia Kazan Interview – Stuart Byron & Martin Rubin, 1971)
Esse é um dos filmes de que Kazan não gostava, porque é um produto de estúdio, com muita relevância história e nulidade autoral. Zanuck possuía um tino danado para jogar com esses filmes polêmicos e gostava de colocar a bomba na mão do Kazan porque o cineasta sempre fora um homem de coragem ao assumir seus pontos de vista e atitudes, não importando a merda que daria. Sob o ponto de vista atual Gentleman’s Agreement é bem truncado, mas se localizado no pós-guerra dá para imaginar a bomba que caiu nas casas das famílias cristãs de toda a América.

16- O que a Carne Herda (Pinky, Elia Kazan/John Ford, 1949)PINKY - Ethel Waters, Jeanne CrainSome years later I said to Zanuck, “Jack Ford never had shingles, did he?” And he said, “Oh hell, no. He just wanted to get out of it; he hated Ethel Waters and she sure as hell hated him”. I also think maybe he didn’t like the whole project. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
Mesmo possuindo um tema pelo qual Kazan tinha fascínio e passaria o resto de sua carreira reiterando-o, ele ainda não estava tão ciente da linguagem cinematográfica, deixando o peso do filme nas mãos das duas (grandes) atrizes Ethel Waters & Barrymore. Ford começou o filme, mas saiu por falta de afinidade com o assunto tão espinhoso, Kazan era um tipo mais moldado para mexer num vespeiro com direito a romance interracial e propaganda para que se trate o negro como um igual em fins dos anos 40. Está longe de ser um dos melhores filmes do homem, mas a sua importância histórica é inegável.

17- O Último Magnata (The Last Tycoon, 1976)The Last Tycoon (1976) Ray Milland, Tony Curtis, Theresa Russell, Robert De Niro, Jeanne Moreau, Robert MitchumNão gosto desse filme. Não interessa quantas estrelas dão as caras e nem o quanto o Irving Thalberg era interessante, muito menos com quantos scottfitzgeraldeharoldpinters se escreve um roteiro, o filme é muito chato e não tenho nada a dizer, mas justamente por isso talvez seja hora de revê-lo.

18- Os Saltimbancos (Man On a Tightrope, 1953)Man on a Tightrope (1953) Terry Moore & Cameron MitchellI hated McCarthy. It was embarrassing to be on the same side as him. But I didn’t terrorize people. He did. I didn’t lie. He lied. I never said there were so many and so many, holding up a blank piece of paper, claiming it was a list of subersives in the State Department. He did. He lied. I never told a lie in my life about that stuff. It was terrible to be aligned with McCarthy. But as far as doing it for money, it’s fantastic, really, because in the first place they didn’t threaten me and in the second place they couldn’t have and in the third place I didn’t need a job in Hollywood. The blacklist did not extend to Broadway and I was at the top of my theater career. All my testifying did was lose me certain things. I knew that I’d lose Arthur Miller’s plays. I knew a lot of guys would turn against me, which they did. I’ve lived through that. In some ways the whole experience made a man out of me because it changed me from being a guy, who was everybody’s darling and always living therefore for people’s approval, to a fellow who could stand on his own. It thoughened me a lot. I’m not afraid of anybody. People say that too – that I was afraid. I never was in my life. They avoided my eye. I didn’t avoid theirs. I have some regrets about the human cost of it. One of the guys that I told on I really liked a lot… well, pretty much. I really thought it was killing him. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
É bem deprimente carinha fazer filme para provar alguma coisa que não é. Além de Man On a Tightrope ser ruim, parecendo desesperado e feito às pressas, o contexto em que foi feito atrapalha ainda mais, se Kazan estivesse defendo uma idéia e não a si mesmo quando o fez, meu olhar sobre o filme talvez não fosse tão decepcionado.

19- Mar Verde (The Sea of Grass, 1947)The Sea of Grass (1947) Spencer Tracy & Katharine HepburnThe only miserable experience I had was The Sea of Grass. I should never have made that film, or I should have quit. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
Geralmente não concordo quando cineastas renegam suas obras, pelo contrário, sempre defendo que os caras são demasiado auto-críticos, mas dessa vez tenho que concordar com o desprezo: ô filminho sem eira nem beira. Há um elenco sensacional, há um roteiro promissor, mas Kazan nunca foi talhado para trabalhar no Star System, tanto que o cinema dele só pegou mesmo no tranco durante os anos 50 quando aquele sistema morreu definitivamente, muito por culpa do próprio Kazan que ajudou a instaurar a revolução.

Gadget Kazan – o ator

Uma Canção para Você (Blues in the Night, Anatole Litvak, 1941)Blues in the Night (1941) KazanBlues in the Night é o berço de muita gente, além de Kazan como ator, há Don Siegel trabalhando na montagem e Robert Rossen lidando com o roteiro. Um daqueles filmes mais lembrados por sua trilha sonora do que por qualquer outra coisa, é um noir-musical-melodramático, se é que tal definição possa existir. Aqui o senhor Kazan tem a honra de representar um membro da banda protagonista da história, ao som de muita música do duo Harold Arlen/Johnny Mercer, a surpresa fica por conta de ser um papel importante e não apenas um cameo, além de provar que se seguisse a carreira de ator teria um bom futuro, possuía desenvoltura nata e se adequou perfeitamente ao ritmo do filme, com seus diálogos rápidos e edição acelerada para acompanhar o ritmo da música.

Dois Contra uma Cidade Inteira (City for Conquest, Anatole Litvak/Jean Negulesco, 1940)City for Conquest (1940) Elia Kazan & James CagneyApesar de ser um dos melhores amigos do protagonista, o papel de Kazan aqui não é tão grande quanto em Blues in the Night, mas é de razoável importância, especialmente se ele faz as vezes do gangster-mor e isso num filme com Cagney é uma grande honra. Tenho o mesmo tipo de relação com o cinema do Anatole Litvak para com o do próprio Kazan, em geral gosto bastante de alguns do trabalhos de ambos, mas nada que faça com que eu professe um WOW e é interessante o fato de Litvak ter sido esse grande introdutor de Kazan em Hollywood.
E não interessa se o filme é bom ou ruim, se o Cagney está presente o prazer é garantido. Sempre.

Pie in the Sky (Ralph Steiner, 1935) Esse é da época que o Kazan era comunista. hehehe (Parte 2)

Nota 1: No livro O Século do Cinema de Glauber Rocha tem um capítulo interessante, onde Glauber, como sempre, desce a lenha no cinema do Kazan, mas que, ao mesmo tempo, conta sobre um encontro entre os dois narrado de forma bastante admirável.

Nota 2: Pelos próximos anos Scorsese estará ocupado envolvido com projetos sobre ícones que ele muito aprecia, alternando documentários e cineobios sobre gente como Sinatra, George Harrison e Roosevelt, tio Marty também está com um documentário sobre Kazan na gaveta, a intenção é dirigí-lo, mas veremos se o projeto vai para frente.

Nota 3: Enquanto fazia este post, acho que mudei de opinião, creio que o meu favorito é Um Rosto na Multidão, talvez seja o único filme de Kazan com o qual tenho grande afinidade, seguido de Splendor in the Grass.

Centenário de Ruby Keeler

Posted in ANOS 30, FOTOGRAFIA, MUSAS by Georgina Spiggott on August 25, 2009

RUBY KEELER by Elmer FryerBy Elmer Fryer

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Ladrão de Alcova (Trouble in Paradise, 1932)

Posted in ANOS 30, PRE-CODE, SCREENSHOT by Georgina Spiggott on July 11, 2009

Trouble in Paradise 1Trouble in Paradise 2Trouble in Paradise 3None of us thought we were making anything but entertainment for the moment.
Only Ernst Lubitsch knew we were making art.
– John Ford

Nota: De quem foi a idéia brilhante de fazer uma mostra do Lubitsch e deixar os dois melhores filmes dele de fora??? Trouble in Paradise & Design for Living, of course!

Centenário de Madge Evans

Posted in ANOS 30, FOTOGRAFIA, MUSAS by Georgina Spiggott on July 1, 2009

Madge Evans by George HurrellBy George Hurrell

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Encontro de gênios: Lubitsch & Einstein

Posted in ANOS 30, FOTOGRAFIA by Georgina Spiggott on June 30, 2009

Albert Einstein with Ernst LubitschProfessor Einstein; Mrs. Warren Pinney of Palm Springs; Herr Ernst Lubitsch, famous German picture director; Frau Einstein; and Mr. Untermeyer

Centenário de Cléo de Verberena

Posted in ANOS 30, MUSAS, NACIONAL by Georgina Spiggott on June 26, 2009

Cléo de Verberena

Durante as filmagens de O Mistério do Dominó Preto (Cléo de Verberena, 1930), o primeiro filme a ser dirigido por uma mulher no Brasil

Durante as filmagens de O Mistério do Dominó Preto (Cléo de Verberena, 1930), o primeiro filme a ser dirigido por uma mulher no Brasil

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Centenário de Errol Flynn – Parte 1

Posted in ANOS 30, ANOS 40, ANOS 50, BEEFCAKE, IMPRESSÕES, MUSOS by Adriana Scarpin on June 20, 2009
Homem feio da porra

Homem feio da porra

But I have a confession to make.
Do you know, I think I like Mason as much as Errol Flynn?

Diálogo de Festim Diabólico (Rope, Alfred Hitchcock, 1948)

Já vou dizendo: nunca fui grande fã dele, ao menos não em virtude dos filmes, mas o mito Flynn é impossível ser desprezado, afinal, só tendo muita força de vontade para desprezar um tipo desses. O homem era sensacional, além de ser uma ode ambulante ao falo (o que é bem difícil de esquecer), Flynn seria o companheiro de boteco ideal para qualquer pessoa bem humorada. Era bonitão (lindo e gostosérrimo, na verdade) e carismático, foi muso por vários anos de Raoul Walsh e Michael Curtiz, era um homem inteligentíssimo e culto, tinha uma vida pessoal muito divertida, intrigante e ao mesmo tempo muito trágica (acho que ninguém em período algum de Hollywood foi mais espetacular do que ele) e, apesar do estigma de bonito e apetitoso eclipsar totalmente qualquer ato dramático, fazia o que era preciso além do que os detratores possam dizer.
E claro, a perspectiva talvez seja variante, mas não seria nenhum exagero dizer que Flynn pode ser o maior símbolo sexual do cinema, ninguém foi mais associado única e exclusivamente a sexo do que ele e não digo apenas dentro do mainstream, mas incluindo até astros pornôs, simplesmente porque este homem era um símbolo fálico de 1,90 de altura em todo seu esplendor e glória. Flynn não possuía um pênis, ele era o pênis em pessoa.
Então que fique aqui um top dos filmes onde vi Mr Flynn nos honrar com sua presença umidificante.

1- O Ídolo do Público (Gentleman Jim, Raoul Walsh, 1942)Errol Flynn - Gentleman JimAmm umm… então tá. Do que eu estava falando mesmo? Ah, sim, de mais uma das obras primas de Raoul Walsh.
De todos os filmes em que Flynn trabalhou, este era o seu favorito, o porquê é fácil ver, Errol está no auge: do sucesso, da forma física, dos melhores desempenhos e… solteiro! Bom, da forma física só na aparência, pois durante as filmagens ele teve o seu primeiro princípio de ataque cardíaco, com apenas 33 anos, mesmo com esse fator de risco ele continuou fazendo as próprias cenas de um esporte que dominava desde a adolescência. Devo concordar com Flynny, também é o meu favorito e nem é porque o homem passa boa parte do filme sem camisa e trajando ceroulas, mas especialmente por ser a primeira grande obra prima sobre boxe, título este que particularmente creio só ter sido equiparado quando um tal de Martin Scorsese tomou o cinturão para si nos anos 80.
Uma cena é especialmente impagável, onde Flynn e Jack Carson estão no teatro ridicularizando a maneira de atuar de um outro lutador chamando-no de ham, isso nada mais é do que uma brilhante auto-referência, Flynn e Carson eram os mais encrenqueiros, bêbados e exagerados atores sob contrato da Warner na época, ambos eram identificados como ham actors e nem todo mundo tinha estômago para trabalhar com eles, Flynn chegou a ganhar por duas vezes o prêmio Sour Apple de ator menos cooperativo de Hollywood. Gentleman Jim como um tôdo faz grande paralelo entre a arte e estilo de atuar com a arte e estilo de lutar, Walsh bate na tecla de que cada estilo dá a contribuição para se alcançar um novo patamar e isso soa lindamente se refletido em Flynn.

2- Fugitivos do Inferno (Desperate Journey, Raoul Walsh, 1942)Desperate Journey (1942) Alan Hale, Errol Flynn, Ronald ReaganÔpa, esse é filmaço! Dá até para arriscar um palpite de que este trabalho é o pai de certos filmes cultuados dos anos 60, tais como Os Doze Condenados e Fugindo do Inferno, é mantido o mesmo clima, sobretudo o bom humor, mas o que o faz ainda melhor é um distanciamento temporal que poucos os filmes de guerra dos anos 40 possuíam e que o gênero só reconquistaria a partir dos anos 50. Também é a prova do porquê Walsh é o maior diretor de cinema de aventura desde os anos 20, a ação não deixa de nos empolgar um só minuto, a dinâmica dos atores é perfeita, as situações são engraçadíssimas e não há o ranço propagandista emotivo que se via usualmente nos filmes da época. Desperate Journey mostra também o quanto Spielberg foi influenciado pelo cinema de Walsh, mas este é um assunto para uma outra hora…

3- Capitão Blood (Captain Blood, Michael Curtiz, 1935)Errol Flynn (Captain Blood)Coisa fofa da mãe. Aqui vemos o porque nenhuma mulher da Hollywood dos anos 30 podia ser vista ao lado de Errol Flynn e continuar com a reputação intacta: o homem era irresistível e faz por merecer a expressão atemporal In Like Flynn. É em Capitão Blood que tudo realmente começa para Flynn: é o primeiro filme que protagoniza em Hollywood, o primeiro ao lado de Miss Havilland e o ponto em que ele surge de total desconhecido que só fazia pontas para um dos maiores astros dos anos 30 e 40. E Michael Curtiz nos legou alguns grandes exemplos de aventura e ação, apesar de ser mais lembrado por Casablanca, é com os filmes ao lado de Flynn que Curtiz se mostra capaz de manter o enfadado público atual eletrizado com seus filmes de 75 anos atrás e, cá entre nós, Capitão Blood é o meu filme de pirata favorito. E que bonito – tudo que Flynny e Douglas Fairbanks construíram durante o século XX foi destruído pelo Johnny Depp na última década. Que bonito.

4- Um Punhado de Bravos (Objective, Burma! Raoul Walsh, 1945)Objective, Burma! (1945)Raoul Walsh foi mesmo o molde para todos os filmes de guerra dos últimos 70 anos, sobretudo em Fuller e Spielberg, a prova está documentada em cada sequência de Um Punhado de Bravos. Prova maior ainda é o quanto Errol Flynn rendia nas mãos de Walsh, ele era um ator completamente distinto sob o comando do diretor e vai ver por isso o filme começa com vários soldados cheios de frescuras, fazendo as unhas, lavando seus collants (!?!), um anuncio que os tempos de Flynn usando collant tinham terminado e aqui deveria se comportar feito macho.
Um lance histórico bacana é o quanto os ingleses e australianos ficaram putos com esse filme, por fazer parecer que os americanos ganharam toda a guerra sozinhos, pois a tal da Operação Birmânia foi predominantemente composta por soldados da Inglaterra e Austrália. Nada como manipular pessoas através do cinema…

5- As Aventuras de Robin Hood (The Adventures of Robin Hood, Michael Curtiz/William Keighley, 1938)Olivia de Havilland Errol Flynn (The Adventures of Robin Hood)Ah, todos queles homens alegres e coloridos! Sabe como são as coisas, o povo ainda não estava acostumado com cinema em technicolor, então exagerava um pouco. É fato: Robin Hood será associado eternamente a imagem de Errol Flynn e seu collant verde, ele não foi o primeiro e nem o último que encarnou a personagem, mas de alguma forma Flynn é único e todos agradecemos por Jimmy Cagney não ter ficado com o papel.
Robin Hood foi o primeiro filme que vi com Mr Flynn e é mesmo impossível não cair nas graças dele (ah, esses homens hiperativos!), sobretudo se lembrarmos daquela memorável luta de sombras, a qual futuramente seria reprisada em The Sea Hawk com deslumbrante fotografia em preto e branco, enquanto a trilha sonora de Erich Wolfgang Korngold climatiza tudo e um pouco mais em ambos os casos. Também nunca esquecerei da primeira vez que vi Flynn quando eu era criança: vi um tipo dando tchauzinho para o Pernalonga em Rabbit Hood (Chuck Jones, 1949) e só anos mais tarde, já na adolescência, finalmente soube que aquele cara era o Errol Flynn!
É durante as filmagens de Robin Hood que Miss Havilland decide começar a torturar Mr Flynn para que este deixe sua esposa para ficar com ela, iniciativa esta que causou problemas no collant dele (se é que me entendem), como a própria Havilland confessou no documentário Adventures of Errol Flynn.

6- O Intrépido General Custer (They Died with Their Boots On, Raoul Walsh, 1941)Olivia de Havilland, Errol Flynn (They Died With Their Boots On)Com um título original desses não tem como não sair correndo para ver o filme, se ouvirmos uma das mais famosas trilhas do western clássico (a composta por Max Steiner) fica mesmo impossível resistir. Flynn e Walsh se unem pela primeira vez e não mais desgrudam tanto profissional quanto socialmente, adotando uma postura de irmão mais velho e caçula, mesmo Walsh tendo idade para ser pai de Flynny. Deve ser por isso que gosto mais da parceria Flynn-Walsh do que a Flynn-Curtiz, a presença de Flynn fluía melhor nos filmes de Walsh, é como se falassem a mesma língua e não estou fazendo piada com as dificuldades notórias de Curtiz com a língua inglesa, mas porque era visível na tela a afinidade dos dois malucos.
Numa das inúmeras cinebios de personagens históricas banhadas de muita licença poética e pouca realidade e que só a Hollywood dos anos dourados sabia nos proporcionar, vemos Flynny num dos seus mais dilacerantes momentos profissionais: a cena de despedida entre Custer e sua esposa é também a cena de despedida da parceria romântica entre Flynn e Havilland, era alí que acabava um dos mais entusiasmantes casais da tela.

7- Sangue e Prata (Silver River, Raoul Walsh, 1948)SILVER RIVER (1948) Errol FlynnE a bíblia vai ao velho oeste. Último filme oficial do duo Flynn-Walsh, é um imenso western do Walsh e um tremendo trabalho do Flynn, relembrando os anos em que foi garimpeiro na Papua Nova Guiné. Conta a história da ascenção e derrocada do império da prata no velho oeste, onde Flynny assume uma sensacional posição de anti-herói com caráter duvidoso ao encarnar o rei da prata, a versão mais argêntica e sossegada do Daniel Plainview.

8- Olhando a Morte de Frente (Rocky Mountain, William Keighley, 1950)Rocky Mountain (1950) Errol Flynn & Patrice WymoreÚltimo western de Flynn e uma grata surpresa, quando o assisti não esperava muita coisa desse faroeste e acabei me deparando com um exemplar excelente. Fotografia deslumbrante, trama fatalista, enquanto Flynn desponta mais másculo e melancólico do que nunca, anos-luz dos tempos saltitantes de Robin Hood sob a batuta parcial do mesmo diretor. Certamente um dos filmes que mais recomendaria para se conhecer o trabalho de Mr Flynn, além disso o desgraçado saiu com mais uma esposa debaixo do braço durante as filmagens.

9- A Glória de Amar (That Forsyte Woman, Compton Bennett, 1949)Greer Garson,  Janet Leigh, Robert Young, Errol Flynn (That Forsyte Woman)Quer ser respeitado como ator? Vai filmar com um cineasta inglês sobre um conto da Inglaterra vitoriana que tu vira Laurence Olivier! Ao menos era isso que se pensava e Mr Flynn também caiu nessa, não sem colher bons frutos, pois é passível de se dizer que o seu Forsyte é o trabalho mais desenvolvido de sua carreira, especialmente porque ele consegue deixar a sua irrestibilidade natural de lado e não só consegue se vender como aquele homem frio de negócios, como rouba o filme para si, enquanto Compton Bennett volta à sua obsessão com pianista-martirizada-por-homem-autoritário que tanto fez sua fama em O Sétimo Véu. Uma pena Flynn não ter sido bem aproveitado para além dos filmes de aventura.

10- Três Dias de Glória (Uncertain Glory, Raoul Walsh, 1944)Uncertain Glory (1944) - Errol Flynn & Paul LukasGrande propaganda de guerra, mas ao contrário de muitos dos contemporâneos do estilo, este é efetivamente bom e consta um dos melhores papéis de Flynn, encarnanado um anti-herói pouco comum em sua carreira, um criminoso que finge ser um mártir de guerra e cujo desenvolvimento durante o filme é a dúvida entre ser um covarde vivo ou um herói morto. É exatamente por conta desse tipo de filme que Flynny deveria ser mais lembrado pelas parcerias com Walsh do que com o Curtiz.

11- Revolta (Edge of Darkness, Lewis Milestone, 1943)Edge of Darkness - Errol Flynn & Ann SheridanÉ um grande filme de modo geral, mesmo o cunho propagandista não interfere, Flynn está mais contido do que o usual, Ann Sheridan, Walter Huston e Ruth Gordon compensam cada segundo em cena, além da deslumbrante sequência inicial e o pouco comum ponto de vista da resistência norueguesa, mas talvez sua duração seja mais longa do que o necessário. Nunca cansaremos de ver nazistas no cinema, todos aqueles homens tão impetuosos e bem vestidos… Ninguém se vestia melhor do que os nazis, o figurino impecável é de morrer de inveja, a tal da superioridade ariana realmente era viável, mas só nas coleções outono/inverno.

12- Raízes do Céu (The Roots of Heaven, John Huston, 1958)The roots of heaven - Errol Flynn, Trevor HowardE os três enfants terribles da Hollywood dos anos 30/40 se unem: Errol Flynn, Orson Welles e John Huston – agora não-tão-jovens, mas ainda terríveis. Some-se ainda mais um maluco, só que da literatura – Romain Gary – e a bagunça está formada em uma história de Gary preocupada com o abuso do homem sobre o animal (que o diga White Dog do Sam Fuller), preconizando um assunto que só viraria moda décadas mais tarde. O próprio Huston renegava este filme, mas putz, eu gosto dele, mesmo sendo uma bagunça, o filme possui uma força estranhamente peculiar, por isso ele está melhor colocado nesta listagem do que alguns outros, mesmo porque nenhum outro cineasta teve mais filmes falhos que são ao mesmo tempo obras-primas.
Não sei exatamente o que pensar quanto a sua natureza ideológica, baseado no livro de Gary – um defensor dos animais, mas adaptado por Huston – um caçador, não sei o que pensar da coisa toda, tanto vê-lo exclusivamente sob a óptica do idealismo ou sob a do cinismo me parece perspectivas não adequadas, talvez a intenção seja mesmo essa, algo como a versão “Rede de Intrigas do Greenpeace e PETA”, onde parte da galera tem preocupações sinceras, outra parte se preocupam por interesses próprios e a terceira parte está pouco se fodendo para qualquer coisa. Flynn mostra a sua faceta bêbada em tempo integral neste que foi um dos seus últimos filmes, pois morreria no ano seguinte, logo agora que finalmente estava sendo reconhecido como ator de verdade e não apenas um astro. As filmagens foram problemáticas do início ao fim, como era comum aos filmes de Huston, especialmente porque Darryl Zanuck ficou enchendo a paciência no set, pois não queria deixar a sua Juliette Greco solta nas savanas ao lado de Flynn e Huston, dois dos mais “perigosos” homens de que se tinha notícia.
A divertidíssima participação de Jude Law encarnando Flynn em O Aviador me remeteu imediatamante àquela historinha lendária (como todas as outras milhares de brigas que Flynny arrumou durante a vida – ninguém fez mais amigos através de socos do que ele) e ocorrida em meados dos anos 40 entre o duo Flynn-Huston. Segundo o narrado, a briga começa porque Flynn teria dito algo grosseiro sobre Havilland e Huston tomado as dores da ex-amante (não se fazem mais cavalheiros como antigamente!), daí eles foram para o jardim, lutaram boxe durante horas e ambos foram parar no hospital, Flynn com as costelas destruídas e Huston com o nariz quebrado.

*Da série: Este post foi programado, eu não estou aqui!

Cem anos de Errol Flynn – Parte 2

Posted in ANOS 30, ANOS 40, ANOS 50, IMPRESSÕES, MUSOS by Adriana Scarpin on June 20, 2009

13- Meu Reino por um Amor (The Private Lives of Elizabeth and Essex, Michael Curtiz, 1939)Bette Davis & Errol Flynn (The Private Lives of Elizabeth and Essex)É nesse filme que consta o famoso tapão na cara que Davis deu em Flynn durante uma cena, aquela expressão de indignação era real. Os chefes dos estúdios eram umas belezinhas, neste caso, Jack Warner mesmo sabendo da falta de afinidade entre Davis e Flynn, colocou-os novamente como casal em um filme que Davis sonhara dividir com Laurence Olivier. Infelizmente eles faziam um grande duo na tela e nunca mais voltaram a contracenar. Décadas mais tarde Miss Davis confidenciou a Miss Havilland que Flynn realmente tinha feito um ótimo trabalho como Conde de Essex e que ela esteve errada durante todo o tempo a respeito dele (ah! nada como a maturidade para ajeitar certas coisas!) e para isso Miss Haviland nem precisou aplicar o seu notório corretivo Hush…Hush, Sweet Charlotte.

14- O Gavião do Mar (The Sea Hawk, Michael Curtiz, 1940)Flora Robson, Errol Flynn (The Sea Hawk)E Mr Flynn se vinga de Miss Davis. Se Bette Davis queria Laurence Olivier para o papel que ficou por conta de Flynn em The Private Lives of Elizabeth and Essex, eis que Mr Flynn toma a rainha Elizabeth vivida por Flora Robson em Fire Over England e que alí dividia cena com Sir Olivier. Tal qual o próprio Fire Over England, The Sea Hawk faz um paralelo entre a inquisição espanhola e a ascenção nazista na Europa daqueles idos, um tipo de preocupação que o austro-húngaro Michael Curtiz deixava transparecer em todos os seus filmes da época, principalmente em Casablanca. Não gosto deste filme de piratas do duo Flynn-Curtiz tanto quanto Capitão Blood, mas ainda é um grande exemplo do gênero, além do mais, Mr Flynn está mais deslumbrante do que nunca. Ó céus, que homem lindo.

15- Perseguidos (Northern Pursuit, Raoul Walsh, 1943)Northern pursuit - Errol Flynn, Helmut Dantine e John RidgelyÉ fato: Raoul Walsh sabia tudo e um pouco mais. Sempre tive sérios problemas com filmes como propaganda de guerra, mas o Walsh é daqueles artesões que nos fazem esquecer os intentos belicistas por trás de tais filmes. Ó céus, o que é aquela cena do jantar na prisão com o coronel alemão enojado por se sentir como um judeu numerado num campo de concentração? Esse momento vale o filme e entraria fácil numa antologia de melhores sequências da carreira de Walsh, mas as coisas não param por aí, o filme é um desbunde artístico como um tôdo e Errol Flynn é exatamente o tipo de ator necessário aos intentos de Walsh, mesmo este trabalho não estando entre as melhores colaborações da dupla.

16- Uma Cidade que Surge (Dodge City, Michael Curtiz, 1939)Dodge City - Alan Hale, Errol Flynn e Guinn 'Big Boy' WilliamsAi ai ai ai, que homem lindo. Nunca vou cansar de repetir, mas Mr Flynn acaba desviando a atenção fazendo com que tudo ao redor se torne dispensável. Dodge City é um dos filmes em que ele está mais lindo, sobretudo por conta da deslumbrante fotografia colorida, raramente acho que pessoas são melhores fotografadas em technicolor do que em branco e preto, mas Mr Flynn é um desses casos raros aos meus olhos e poderia passar toda a eternidade diante de uma câmera sem nem sequer se mover, só existindo. Esse homem é uma paisagem, uma obra de arte, se John Ford tinha o Monument Valley, Curtiz e Walsh tinham Errol Flynn.

17- O Príncipe e o Mendigo (The Prince and the Pauper, William Keighley/William Dieterle, 1937)Prince and the Pauper - Claude Rains, Errol Flynn & Billy MauchDefinitiva e melhor versão da história de Mark Twain, onde Flynny encarna o porco-espinho Miles Hendon e Claude Rains está mais vilanesco do que nunca. Curioso constatar que exatos 40 anos depois o igualmente cachaceiro Oliver Reed se valeu do mesmo papel de Miles Hendon na versão de Richard Fleischer.

18- A Carga da Brigada Ligeira (The Charge of the Light Brigade, Michael Curtiz, 1936)Charge of the Light Brigade200 cavalos. Reza a lenda que foram mortos cerca de 200 cavalos durante essa filmagem. É um filme impressionantemente violento para a época em que foi filmado, inclusive se visualiza um massacre de crianças, algo não muito comum nos anos 30 mesmo para filmes de guerra. Flynn está lindo e másculo como sempre naquela roupa do exército britânico. Ah, também é dessa filmagem a famosa frase de Curtiz Bring on the empty horses! que acabou virando o título da autobiografia de David Niven, um coadjuvante da Brigada.

19- Patrulha da Madrugada (The Dawn Patrol, Edmund Goulding, 1938)Errol Flynn, David Niven, Michael Brooke (The Dawn Patrol)Bom filme sobre pilotos de avião durante a primeira guerra, num tom amargo e estranhamente anti-belicista para um tempo à beira da Segunda Guerra. O trunfo aqui é a dinâmica e o entrosamento dos atores em torno de suas personagens, pois algo que vou dizer até o fim da vida é que até hoje ninguém conseguiu se equiparar em excelência às cenas aéreas gravadas por Howard Hughes em Hells Angels e o filme de Goulding não é diferente em comparação, especialmente porque foram reutilizadas da versão de 1930. Pelas minhas contas Flynn e David Niven compartilharam apenas dois filmes, o que é um pecado, eles eram sensacionais juntos.

20- As Aventuras de Don Juan (Adventures of Don Juan, Vincent Sherman, 1948)Adventures of Don Juan (1948) DEMOROU. Ainda na cola de John Barrymore e Douglas Fairbanks, eis que o homem finalmente se joga na personagem que nascera para encarnar. Era para o Walsh ter dirigido esta versão, mas deu merda, vai ver por isso Flynn roubou a bandana do Fairbanks em Ladrão de Bagdá, filme este que considero a obra prima de Walsh. Apesar de Don Juan ser um grande exemplo de capa-espada, esse período foi o início da decadência de Flynn, o cinema em Hollywood estava mudando, o star system estava morrendo e a Golden Age estava em seu canto do cisne.
É assustador como Flynn envelheceu de repente por conta de sua vida desregrada, de Santo Antonio para Don Juan passaram-se apenas 3 anos, mas a face dele fazia parecer 10, especialmente porque entre esses filmes ele adoeceu (tinha tuberculose, malária, coração fraco e dor nas costas!) e somou heroína e morfina ao alcóol na sua dieta básica. Flynn sempre aparentou ser mais velho do que realmente era, em Capitão Blood ele tinha uns 25, 26 anos e ninguém daria menos de 30 (a experiência em excesso ficava evidente), mesmo assim em Don Juan ele continua lindo e com corpão, aproveitando a deixa para usar as calças mais indecentes de sua carreira. Ele também aproveita para exorcizar certas coisas sobre sua própria vida, especialmente em relação às acusações de estupro estatutário, pois nem sempre ele era o sedutor irresistível da história como bem ele se defendeu certa vez: I don’t have to seduce girls. For Christ’s sake, I come home and they’re hiding under my bed.

21- Mademoiselle Fifi (It’s a Great Feeling, David Butler, 1949)It's a Great Feeling (1949) - Errol FlynnPronto. Estraguei o final surpresa para quem não viu o filme. Essa espécie de precursor de Cantando na Chuva é um veículo para o trio Dennis Morgan, Doris Day e Jack Carson, onde há zilhões de participações divertidíssimas de astros e cineastas da Warner: Raoul Walsh, Joan Crawford, Ronald Reagan, Jane Wyman, Edward Robinson, Michael Curtiz, Gary Cooper, Danny Kaye, etc etc. Doris Day passa o filme todo reclamando que não deveria ter deixado o namoradinho de infância para seguir a carreira artística, até que enfim ela retorna para seu homem e ele é Errol Flynn.

22- Caravana de Ouro (Virginia City, Michael Curtiz, 1940)Virginia City - Guinn Big Boy Williams, Humphrey Bogart, Alan Hale & Errol FlynnHahahaha olha o Bogie bandidão mexicano com bigodinho de Errol Flynn! Minha gente, não havia nada mais oposto no mundo do que Bogart e Flynn, tudo que um tinha de discreto e mal humorado, o outro tinha de flamboyant e radiante, é uma dádiva poder vê-los dividindo cena. Mas não apenas estes ícones estão presentes, minha diva pre-code Mirian Hopkins e Randolph Scott também dão o ar da graça, além do usual staff flynniano formado por Guinn “Big Boy” Williams e Alan Hale. Sempre rolou um certo preconceito com Flynn nos westerns, em geral a galera reclama que ele não conseguia ser macho o suficiente, que ele era “legal demais”, é logico que é só homem que reclama dessas bobagens, Flynn era gostosérrimo, ora bolas, quem se importa com o resto???

23- Nunca me Diga Adeus (Never Say Goodbye, James V. Kern, 1946)Never Say Goodbye (1946) Eleanor Parker & Errol FlynnHahahaha Flynn imitando Bogie! Essa sem dúvida é a grande piada desta comédia romântica, numa cena em que se expurga a maldição de Flynn, como bem menciona para sua filha no filme: Se você pode me imaginar como Robin Hood, por que não como um cara durão? e logo depois vemos a explicação do porquê. Não obtive nenhuma confirmação, mas reza a lenda que é o próprio Bogart quem faz a dublagem dessa cena, coisa que acredito, pois a voz era idêntica. Roteiro de I.A.L. Diamond, um dos mais habitués de Billy Wilder.

24- O Homem Perfeito (The Perfect Specimen, Michael Curtiz, 1937)The Perfect Specimen - May Robson, Errol Flynn & Joan BlondellPrestou atenção no título? Pois então, é isso que a gente pensa quando olha para Mr Flynn. Comédia romântica onde Flynn e Joan Blondell compensam cada segundo em cena, com direito aos indefectíveis May Robson e Edward Everett Horton como elenco de apoio. Apesar de Michael Curtiz ser açogueiro demais para se infiltrar no screwball, o filme não sofre em grande quantidade com isso, nos legando momentos deliciosos (tal qual o astro principal!), especialmente quando Flynny mostra seus talentos como boxer.

25- O Mestre da Vingança (The Master of Ballantrae, William Keighley, 1953)Ballantrae - FlynnAqui Flynn tinha apenas 43 anos mas aparentava ter bem mais, o que torna especialmente depressivo assistir seus filmes dos anos 50, mais deprimente ainda é o fato deste ser o ponto final de seu reinado na Warner, depois de 18 anos de muitos conflitos e lucros, Flynn foi gentilmente convidado a se retirar e qualquer semelhança com Nasce Uma Estrela não é mera coincidência, “matinée idols” problemáticos eram assim descartados desde o início dos tempos. No mais é um filme bacaninha, especialmente algo que some Roger Livesey + Piratas + Errol Flynn + Escoseses + Robert Louis Stevenson, além da habitual fotografia deslumbrante de Jack Cardiff.
Mas o grande mistério pairando é: depois de todas aquelas roupas espalhafatosas por que Flynny não foi capaz de usar um reles kilt? Essa sim foi a maior bobagem que ele fez em sua vida.

26- A Noiva Curiosa (The Case of Curious Bride, Michael Curtiz, 1935)The Case of the Curious Bride (1935)E Flynn conhece Hollywood. E Michael Curtiz. O homem estréia nos EUA no papel do homem morto (e que cadáver!) em um dos divertidíssimos filmes onde Warren William encarna Perry Mason, lá pelo final do filme ele aparece vivo num flashback espancando a suposta personagem-título e brigando com o suspeito de assassinato, daí finalmente sabemos o que na verdade ocorreu, ou seja, um bom começo. Outro bom começo dessa época foi ter conhecido a ex-mulher de Curtiz, dona Lili Damita, que se tornou a primeira Mrs Errol Flynn e foi responsável direta na ascenção de sua carreira.

27- Luz de Esperança (Green Light, Frank Borzage, 1937)Anita Louise & Errol (Green Light)Flynny vestido de médico. Mmmmm… Borzage era um artista e tanto, além de ser pai de Douglas Sirk e um dos grandes delineadores do cinema americano, é sempre um prazer estudar as nuances de seu trabalho, nas mãos de um diretor medíocre este filme se tornaria a maior das vias-crucis, mas Borzage transforma este melodrama numa grande aula de como se fazer cinema. É com ele que Flynn se infiltra num ambiente para além do swashbuckler.

*Da série: Este post foi programado, eu não estou aqui!

Cem anos de Errol Flynn – Parte 3

Posted in ANOS 30, ANOS 40, ANOS 50, IMPRESSÕES, MUSOS by Adriana Scarpin on June 20, 2009

28- As Irmãs (The Sisters, Anatole Litvak, 1938)Bette Davis & Errol Flynn (The Sisters)Bette Davis e Errol Flynn se odiavam mas souberam muito bem disfarçar o desafeto mútuo em As Irmãs. Todos sabemos da excelência de Bette Davis como atriz, mas ela prova a sua superioridade como mulher pelo simples fato de conseguir o que poucos seres humanos poderiam: sentir desprezo por Errol Flynn. Este filme ainda existe para provar que Flynn era bom ator ao poder demonstrar paixão por Davis.

29- Cidade Sem Lei (San Antonio, David Butler/Robert Florey/Raoul Walsh, 1945)San Antonio - Errol Flynn & Alexis SmithFaroeste cômico na primeira metade, demasiado sério na segunda e bastante equivocado como um tôdo. Flynn continua lindo e irresistível como habitual, mas quem rouba a cena é SZ Sakall com sua clara homenagem a Michael Curtiz, é impossível não gargalhar toda vez que ele abre a boca e nos faz pensar o quanto devia ser um inferno para quem estava ao lado de Curtiz num set de filmagem, já que era impossível entender uma sentença sequer pronunciada por ele. Esse filme é a prova do quanto é necessário saber pequenos detalhes de produção e até da vida pessoal das pessoas envolvidas para se ter maior compreensão do que se vê na tela, sem isso, noventa por cento das piadas passariam desapercebidas.

30- Mansão da Loucura (Cry Wolf, Peter Godfrey, 1947)Cry Wolf (1947) - Barbara Stanwyck, Geraldine Brooks, Errol FlynnE surge alguém páreo para Miss Stanwyck! Babs Stanwyck é a mulher mais sexy do universo e vê-la ao lado de Mr Flynn é uma confluência sem medida de sex appeal, mesmo este sendo um filme menor da carreira de ambos. Menor, mas dotado de qualificações das quais a mais exuberante é a distinção com que Flynn trata sua personagem na pele de um cientista um tanto quanto suspeito, numa atuação até então inusual para sua carreira, carregando na tensão de um soturno filme noir e que lembra o cinema de Val Lewton em certos aspectos, mas que desanda por completo nos horrorosos cinco minutos finais.

31- Demônios do Céu (Dive Bomber, Michael Curtiz, 1941)Dive Bomber (1941)Impressionante, este é o pai de Top Gun, é a sua versão anos 40 sem tirar nem pôr. Mais impressionante ainda é o quanto a teoria do Tarantino em Vem Dormir Comigo cai como uma luva ainda melhor ajustada em Dive Bomber, chega a ser assustador o quanto os homens desprezam e correm das mulheres neste filme, isso porque estamos falando de um filme com Errol Flynn, meu deus! É claro que tudo isso torna o filme mais divertido, mas nada se compara ao fechamento fetichista de tudo que Errol Flynn representa: ele já fora pirata, cowboy, oficial britânico, Robin Hood, piloto, dandy, médico e eis que surge em cena Mr Flynn com um impecável uniforme branco da marinha. Tire o sorriso da cara se for capaz.
E é aqui onde a parceria de Flynn-Curtiz acaba, com os berros de Curtiz e Flynn tentando estrangulá-lo.

32- Kim (Victor Saville, 1950)Kim (1950) Dean Stockwell & Errol FlynnOlha o Flynny ruivão! Impressionante como até com cabelo laranja este homem continua lindo. Eu só quis assistir este filme em virtude das histórias que o Dean Stockwell conta sobre as filmagens. Stockwell foi um privilegiado, aos doze anos tinha aula de educação sexual com Errol Flynn e nada no mundo paga este tipo de coisa. Além do mais o guri foi uma das duas únicas crianças prodígio do cinema que não me dão aflição (o outro é o Roddy McDowall) e este filme bacana é todo dele, pontos extras para Stockwell pela seguinte observação sobre Flynn: I’m not saying I’d recommend him for the rest of society. It just so happened that at that time of my life – I was twelve or something – he was what he was: a truly profound, nonsuperficial sex symbol. He was the fucking male.

33- Don’t Bet on Blondes (Robert Florey, 1935) Don't Bet on Blondes (1935) Errol Flynn & Claire DoddMais uma dessas divertidas pequenas comédias protagonizadas por Warren William (ator e inventor do cortador de grama elétrico!), onde este tira Mr Flynn para fora do jogo na conquista por Claire Dodd de forma um tanto quanto desonesta.

34- Caminhando nas Sombras (Footsteps in the Dark, Lloyd Bacon, 1941)Footsteps in the Dark (1941) Errol FlynnOutro dos inúmeros atentados de plágio ao Thin Man williampowelliano, mas é um filme decente, além disso era 1941 e nessa época Flynny era o imperador do universo e não havia súdita que reclamasse, o homem tinha verdadeiro dom para comédia e se lhe tivessem dado papéis decentes poderia ter se tornado a versão despirocada do Cary Grant.

35- Contra Todas as Bandeiras (Against All Flags, George Sherman, 1952)Against All Flags (1952) Errol Flynn & Maureen O'HaraMelhor que Errol Flynn em technicolor, só Maureen O’Hara. Nada paga o prazer de ver a cena onde Flynn ensina Maureen a se comportar como mulher, ela dizia que era uma beleza gravar com ele pela manhã e durante este período Errol se mantinha altamente profissional, mas com o decorrer da tarde ele ia ficando mais bêbado e ficava impossível gravar qualquer coisa. O que é uma tristeza pois formavam um belo casal nas telas, Errol com seu habitual ar de filho da puta e Maureen com o não menos habitual ar de fogo nas ventas.

36- A Estrada de Santa Fé (Santa Fe Trail, Michael Curtiz, 1940)Olivia de Havilland, Errol Flynn, Ronald Reagan (Santa Fe Trail)Conta a historinha e alguns fatos que levaram os EUA à Guerra da Secessão. Flynn faz par pela enésima vez com Havilland e aquele presidente estranho dos anos 80 interpreta o jovem General Custer!

37- Graças à Minha Boa Estrela (Thank Your Lucky Stars, David Butler, 1943) Thank Your Lucky StarsEis que Mr Flynn se apresenta com um bigode digno de respeito! Um daqueles filmes-show rotineiros em tempos da segunda guerra feitos para venda de bônus e pelos quais tenho pouco apreço e paciência. Mas quem se importa? Tem Errol Flynn lindo cantando e dançando num boteco, oras.

38- E Agora Brilha o Sol (The Sun Also Rises, Henry King, 1957)The Sun Also Rises (1957)Deprimente, deveras deprimente. Deprimente porque faz um paralelo entre a geração perdida dos anos 20 com a geração perdida da Golden Age Hollywoodiana, da qual Flynn, Ava Gardner e Tyrone Power foram exemplos máximos. Faz um tempo danado que vi este, mas lembro que o próprio Flynn tinha sua cota natural de personagem hemingwana, tornando as coisas ainda mais próximas entre a ficção e realidade, tal qual Ava Gardner era a versão feminina do próprio Flynn em Hollywood, mas com menos álcool no sangue, embora igualmente parecendo ter saído de um livro do Hemingway. Não é um filme que eu muito aprecie, entra na categoria pé-no-saquinho, mas a aura de último suspiro pairando sob Tyrone e Flynn é demasiado melancólica para ser desprezada, Tyrone morreria no ano seguinte e Flynn dois anos depois.

39- Quero-te Junto a Mim (Escape Me Never, Peter Godfrey/LeRoy Prinz, 1947)Errol Flynn & Ida Lupino (Escape Me Never)Não é só o título nacional que é ultra-brega, o melodrama romântico em si também. Tudo bem que Flynny e Ida Lupino tenham uma grande química e a trilha sonora fique por conta de Korngold (o “compositor pessoal” de Flynn), mas todo o resto é brega demais até para o meu gosto duvidoso. Vale lembrar que a magnânima toda poderosa Ida Lupino foi uma das pessoas que mais apoiaram Flynn publicamente durante o julgamento de estupro estatutário em 1943 – mulher fodona desde sempre.

40- Il maestro di Don Giovanni (Milton Krims/Vittorio Vassarotti, 1954)Errol Flynn and Gina Lollobrigida in Crossed Swords (1954)Não tem jeito, de alguma forma o povo sempre vai parar na Itália em algum momento da vida. Aqui Flynn praticamente reprisa seu papel de Don Juan, trocando o ambiente espanhol pelo italiano.

41- King’s Rhapsody (Herbert Wilcox, 1955)King's Rhapsody (1955) Errol Flynn & Patrice WymoreEm mais uma incursão ao cinema do duo Herbert Wilcox-Anna Neagle, Flynn volta ser ajudado por eles numa fase terrível de sua vida. Wilcox-Neagle faziam um sucesso estrondoso na Inglaterra, tanto nas telas quanto nos palcos, embora para o resto do mundo eles continuem levemente desconhecidos. Dame Anna Neagle era uma espécie de Ginger Rogers inglesa, o que faz deste filme um musical, mas infelizmente não tão bom quanto gostaríamos.

*Da série: Este post foi programado, eu não estou aqui!

100 anos de Errol Flynn – Parte 4

Posted in ANOS 30, ANOS 40, ANOS 50, IMPRESSÕES, MUSOS by Adriana Scarpin on June 20, 2009

42- Amando Sem Saber (Four’s a Crowd, Michael Curtiz, 1938)Four's a Crowd (1938) - Patrick Knowles, Olivia de Havilland & Errol FlynnE eis que Michael Curtiz coloca dona Rosalind Russell numa screwball de ambiente jornalístico dois anos antes que Howard Hawks fizesse a mesma coisa em Jejum de Amor. Este é um exemplo razoavelmente divertido do gênero mesmo Curtiz estando completamente “fora de mão” e Mr Flynn, embora nunca tenha se notabilizado pela comédia, possuía o dom natural de ser engraçado. É uma pena Mr Flynn não ter se envolvido em mais filmes do gênero, especialmente porque a própria vida pessoal dele se parecia com uma comédia screwball.

43- Lilacs in the Spring (Herbert Wilcox, 1954)Lilacs In The Spring / Let's Make Up (1954)Filme inglês estranho pelo simples fato de que parece ser uma daquelas produções inglesas de tempos de guerra, quando na verdade foi produzido dez anos depois. Reza a lenda que este é primeiro filme tanto de Stephen Boyd e quanto de Sean Connery, mas não lembro de ter visto rastro deles.

44- Terra Proibida (Montana, Ray Enright/Raoul Walsh, 1950)Errol Flynn & Alexis Smith (Montana)Ó céus, Flynn é um pastor de ovelhas australiano. Pela primeira vez vi Flynn interpretando uma personagem com sua nacionalidade de origem num filme americano, é um filme virtualmente estranho no melhor estilo piscou acabou e que raios foi isso? Pode ser chamado de ejaculador precoce encontra frígida. Claro que este foi um dos filmes homenageados por Baz Luhrmann em Austrália (assim como outros westerns com a presença de Mr Flynn), não seria uma homenagem ao país se não houvesse menção ao seu maior astro.

45- Adventures of Captain Fabian (William Marshall/Robert Florey, 1951)Adventures of Captain Fabian (1951)Novamente Flynny entra em disputa por mulher com Vincent Price. Com todo o respeito aos 5 centímetros a mais que possuía Mr Price (de altura!), ele não era páreo para Errol, assim como quase ninguém o era. E isso não é uma aventura como faz pensar o título equivocado, é um drama sulista.

46- Mara Maru (Gordon Douglas, 1952)Mara Maru - Ruth Romain & Errol FlynnÉ deveras impressionante o fato de quanto mais fundo Flynn cavava, melhor ator ele se tornava, embora isso seja de uma tristeza sem tamanho. Nas mãos de um Hawks ou Huston este filme teria rendido muito mais, mas esse noir B fora de época, pouco original e com terríveis 15 minutos finais também não deixa ninguém passar vergonha.

47- Istanbul (Joseph Pevney, 1957)Istanbul (1957) Cornell Borchers & Errol FlynnMais um daqueles insuportáveis plágios sem fim de Casablanca, até a tal da Cornell Borchers é a cara da Ingrid Bergman. Mas o estranho mesmo é o fato deste ser o remake de Singapura de 1947, com Fred McMurray e Ava Gardner que era um plágio ainda mais descarado. O que se salva neste melodrama romântico é a participação de Nat King Cole fazendo as vezes de Sam e estreando nas telas uma das músicas mais usadas do cinema: When I Fall in Love.

48- Outra Aurora (Another Dawn, William Dieterle, 1937)Kay Francis & Errol Flynn (Another Dawn)Espécie de versão anos 30 de O Paciente Inglês. Adoro areia e Flynny em uniforme do Império Britânico, mas nem a presença de uma das mais deslumbrantes mulheres dos anos 30, Kay Francis, salva este filme de ser um pé-no-saquinho.

49- O Príncipe Negro (The Dark Avenger, Henry Levin, 1955)Dark Avenger - Errol Flynn & Christopher LeeEsse é o orgulho do Christopher Lee. Tio Lee tem um papel pequeno duelando com Flynny numa taverna, mas até hoje ostenta orgulhoso uma cicatriz que tem na mão e que ganhou de Errol Flynn durante aquela cena (essa da foto). Apesar de ser um filme medíocre com algumas cenas de ação bacanas, há lendas suficentes para torná-lo interessante ao assistí-lo, além de Lee e Flynn ainda podemos ver Peter Finch, Michael Hordern e Patrick McGoohan.

50- Jogando com a Sorte (The Big Boodle, Richard Wilson, 1957)The Big Boodle (1957) Errol Flynn, Gia ScalaExistem algumas coisas bem dolorosas de serem vistas, esta certamente é uma delas.

51- In the Wake of the Bounty (Charles Chauvel, 1933)In the Wake of the Bounty (1933) Errol FlynnÊêê! A estréia nas telas de Mr Flynn também é o seu pior filme e obviamente ele não sabe ainda o que fazer, aliás, acho que poucos os envolvidos sabiam. Logo em sua estréia o homem já fica com o importante papel de Fletcher Christian na história do motim do Bounty, refilmada mais tarde diversas vezes sob o nome de O Grande Motim e com gente como Clark Gable, Marlon Brando e Mel Gibson a reencarnar a personagem. Como não havia muito futuro no cinema australiano, Flynn foi para a Inglaterra, fez um dois filmes (um dos quais infelizmente é tido como perdido), foi descoberto por um produtor de Hollywood e o resto é história.
Acho que este é o filme australiano mais antigo que assisti, ao menos não me lembro de ter visto nenhum filme australiano mudo (thank god!) e este é o primeiro sonoro. A maior judiria aqui são as excelentes sequências na ilha, convinha ter feito um documentário com as mesmas do que mesclá-las a uma penosa dramatização. O cinema na Austrália só viu a civilização algumas décadas mais tarde e dá até para concordar com a brincadeira sobre os australianos caipiras que Ronald Reagan fez com Errol Flynn no primeiro diálogo deles em Desperate Jorney pouco menos de dez anos depois. O cinema australiano só começou mesmo a chutar bundas a partir dos anos 60, assim como boa parte do mundo.

Off-Topic: ¡Revolución! A Verdade sobre Fidel Castro (The Truth About Fidel Castro Revolution/Cuban Story, 1959)Flynn in cubaEu prefiro nem comentar este filme, porque é um assunto espinhoso e dúbio sobre coisas das quais ninguém possui informações concretas, embora o valor histórico do filme em si seja incomensurável. A única verdade indiscutível sobre Flynn é que ele era e ainda é um dos maiores alvos de teoria da conspiração da história do cinema e provavelmente 90% do que se diz dele não tem fundamento ou qualquer prova (e boa parte dessas “alegorias” foram criadas por ele próprio!). Em torno desse filme, sua estadia em Cuba e suas relações com Batista e Castro não é diferente, por isso muito cuidado em acreditar em qualquer bobagem que se possa ler por aí. Mas tudo isso vem a provar algo inusitado: o verdadeiro pai do jornalismo gonzo foi na verdade Errol Flynn, Hunter Thompson roubou até a maldita piteira, então uma característica indissociável de Flynny.

Documentários sobre Flynn que muito recomendo:

- The Adventures of Errol Flynn (David Heeley, 2005): Narrado pelo Ian Holm e se atem a carreira fílmica do homem, Adventures of Errol Flynnmas todos sabemos que o Flynn em pessoa era muito mais interessante do que suas personagens ou carreira profissional. Há depoimentos ótimos tanto de amigos e colegas de trabalho como David Niven, Patrice Wymore, Jack Cardiff, Vincent Sherman, como de fãs famosos tais como Joanne Woodward, Richard Dreyffus e Burt Reynolds. É especialmente engraçado o tom de indignação tanto de Dreyfuss quanto de Reynolds a respeito das implicâncias de Bette Davis para com Flynn.
A grande sacada deste documentário são os depoimentos de Olivia de Havilland. Quando ela começa a recordar da primeira impressão que teve de Flynn: The handsomest, most charming, most magnetic, most virile young man in the entire world, ficamos apreensivos se a velhota não vai ter um orgasmo alí mesmo só com as recordações, tal momento não tem preço e fica evidente o quanto foi apaixonadíssima por ele.
Outra menção interessante foi a quase-inclusão de Flynn em E O Vento Levou, tanto no papel de Rett, quanto no de Ashley. Particularmente acho que Flynn ficaria excelente como Ashley, pois Leslie Howard não era um tipo que pudesse levar vantagem em cima de um Clark Gable, agora se fosse Errol Flynn… só mesmo o exu flynniano morto para a dona Scarlett olhar para o Gable.

- Tasmanian Devil: The Fast and Furious Life of Errol Flynn (Simon Nasht, 2007): Narrado pelo Christopher Lee (com direito a depoimentos do próprio que conhecera e trabalhara com Flynn) e um excelente retrato da vida maluca do homem, especialmente por mencionar aqueles anos loucos entre os 16 e 23, incluindo os tempos em que ele passava por gigolô gatuno em Sidney ou convivia com os canibais (!!!) da Papua Nova Guiné, antes de “sossegar” e ir parar em Hollywood, o envolvimento com a guerra civil espanhola, os problemas com menores, seus intentos literários e as relações com Fidel Castro. Faz juz ao homem que o inspira, porém é mais triste do que o esperado, pois dá essa visão de que Flynn era um cara autodestrutivo, mas não da maneira usual e sim ao contrário do que os reles mortais tendem a fazer – excetuando a relação problemática com a mãe, o que explica você-sabe-o-quê. Com isso fica impossível não traçar um paralelo entre o tipo de pessoa que Flynn era e Oliver Reed, há uma semelhança inegável em suas filosofias de vida, embora Flynn fosse muito mais biruta, é claro.

Nota 1: Em A Dama de Shangai (The Lady Errol Flynn and Rita Hayworth Tying Knotsfrom Shanghai, Orson Welles, 1947) Flynny mostra que já trabalhara com Welles antes mesmo de Roots of Heaven. Além do aluguel de seu barco e o aconselhamento técnico, Flynn trabalhou como figurante, coisa que obviamente nunca resolvi procurar em cena. E não se preocupe com os cornos de Orson, Miss Hayworth já havia dado seus pulinhos com Mr Flynn antes dela virar estrela, mas afinal, quem não deu?

Nota 2: Para uma fonte de informações confiável na internet, longe da urubuzagem habitual, recomendo The Errol Flynn Blog – The Mystery and Mystique of Errol Flynn.

Nota 3: Um filme que muito me interessa assistir, mas que nunca tive a oportunidade, é o Too Much, Too Soon – The Daring Story of Diana Barrymore (Art Napoleon, 1958) onde ele interpreta o meu amado John Barrymore. Flynn fora grande amigo de Barrymore e acabou morrendo basicamente das mesmas causas um ano depois de ter feito esse filme. Mas a história mais bacana envolvendo os dois é a do dia da morte de Barrymore, quando Flynn e Raoul Walsh estavam normalmente enchendo o caneco num bar em memória do amigo e Walsh resolveu sair de fininho, roubou o cadáver de Barrymore do necrotério (!!!) e levou para a casa de Flynn, deixando-o sentado numa poltrona. É lógico que quando Flynn chegou em casa e viu aquilo, ficou sóbrio na hora e teve um ataque de nervos. Tanto Walsh quanto Flynn contavam essa história, mas aparentemente era um belo fruto da mente criativa de ambos.JOHN BARRYMORE & ERROL FLYNNNota 4: Flynny não foi espião nazista. Podemos ver essa lenda como homenagem na pele de Timothy Dalton em The Rocketeer (ó céus, James Bond é Errol Flynn e John Locke é Howard Hughes!), essa história surgiu com um maluco que escreveu uma biografia ainda mais maluca do que a própria vida de Flynn o fora. E não, Flynn não esteve envolvido na morte de Marilyn Monroe, dos Kennedys ou da Jean Seberg, nem voltou a fazer dinâmica com o Reagan durante o Irã-Contras, porque… ele já estava morto!!! Eu acho. hehehe.

Nota 5: Mais filmes baseados em Flynn? Há biografias como a feita para a tv americana nos 80, há também um filme australiano dos anos 90 que mostra apenas a vida pré-Hollywood com o Guy Pearce interpretando Flynn, mas a grande obra mestra baseada nele é mesmo Um Cara Muito Baratinado (My Favorite Year, Richard Benjamin, 1982) onde o igualmente pirado Peter O’Toole chega à perfeição, não sendo apenas um tratado excepcional de quem era o verdadeiro Flynn, como também uma imensa declaração de respeito. Além de tudo O’Toole é o último grande maluco bêbado do cinema, toda a sua geração de malucos bêbados morreu faz tempo, que o digam Oliver Reed, Richard Burton e Richard Harris. Até uns 10 anos atrás parecia que Russell Crowe poderia se juntar ao panteão, mas aí ele sossegou e ficou chato, a geração do cinema atual é um saco (com razoáveis exceções por parte de Rourke e Downey, é claro). Portanto, uma salva de palmas para Peter O’Toole, o último dos grandes.My Favorite Year - Peter O'Toole

Nota 6: O demônio da Tasmânia hoje seria considerado um pedófilo, peraí, ele já era considerado assim há 50 anos! Como se sexo com adolescentes fosse pedofilia – prova que o mundo está cada vez mais hipócrita e retardado. A sua fama e seus processos eram tantos que antes de morrer com apenas 50 anos, Mr Flynn esteve louco atrás do papel de Humbert Humbert na versão do livro de Nabokov, opção esta que Kubrick (que andava às voltas com a produção de Lolita desde 1958) recusou por ser um tanto óbvio demais. Nos anos 50 Flynn resolveu chutar o balde carregando para cima e para baixo uma guria de 15 anos que ele dizia ser sua “secretária”, mas nessa época resolveram deixá-lo em paz, sobretudo porque ele estava mesmo beirando a morte. Mas tudo isso não faz jus ao Mr Flynn, ele não gostava apenas das adolescentes, ele era apreciador das mulheres em geral e muito apreciador, aliás.
Mas por que pessoas como Roman Polanski são condenadas facilmente por estupro estatutário e Errol Flynn, com muito mais acusações, não? Porque Errol Flynn possuía um jurado formado por nove mulheres e três homens e nenhuma mulher plena de suas faculdades mentais colocaria Flynny na cadeia, NENHUMA.

Errol Flynn & Brigitte BardotI like my whiskey old and my women young.

Nota 7: A banda de surf music Australian Crawl fez um album em homenagem a Errol: Sirocco (1981), nome este que também batizava um dos barcos de Mr Flynn.

Nota 8: O que era o sorriso deste homem? O que eram aquelas covinhas? Quanto a isso não se pode fazer nada, mas se você morre de inveja do bigodinho de Mr Flynn, mas acha que dá muito trabalho para manter um desses e não tem paciência, você pode comprar um Mustache – Human Hair Errol FlynnThin Mustache, 100% Human hair on mesh backing. Attached with Spirit Gum. Um luxo só.

He was one of the wild characters of the world, but he had a strange, quiet side. He camouflaged himself completely. In all the years I knew him, I never really knew what lay underneath and I doubt if many people did. – Ann Sheridan

*Da série: Este post foi programado, eu não estou aqui!