Ladrão de Alcova (Trouble in Paradise, 1932)


None of us thought we were making anything but entertainment for the moment.
Only Ernst Lubitsch knew we were making art. – John Ford
Nota: De quem foi a idéia brilhante de fazer uma mostra do Lubitsch e deixar os dois melhores filmes dele de fora??? Trouble in Paradise & Design for Living, of course!
Shirley Temple ganhando a vida
Esqueça Jodie Foster de Bugsy Malone e Taxi Driver, Shirley Temple interpretava prostitutas já aos 3 anos de idade, fato que muito me aborrece pois ninguém deveria ir para o trottoir ou ser usuário de drogas antes dos 8 anos. Toda essa exploração templeana dos estúdios rendeu uma bela discussão com o escritor Graham Greeene nos anos subsequentes, Greene gritava para quem quisesse ouvir que aquilo era uma ode à pedofilia e que a alegria dos executivos dos estúdios era ter a pequena Shirley em seus colos. É, esse bafafá já existia na mídia daqueles tempos, inclusive Greene foi um dos primeiros críticos à exploração da sexualidade infantil. Naqueles idos o público médio por pura ingenuidade achava tudo muito engraçadinho, mas como hoje o público médio já nasce com PhD em putaria (maldita decadência da civilização), tais curtas tornaram-se bem bizarros aos nossos olhos.
De todos os Baby Burlesks que pude ver, dois são realmente interessantes nesse sentido:
War Babies (1932): Uma indecência. Espécie de versão mirim d’O Preço da Glória de 1926, todo mundo semi-nu enchendo a cara de leite e quem tem o pirulito maior ganha a garota. Pontos altos: o bebê mamando nas luvas e o go-go boy em cima da mesa divertindo os outros guris. Eu realmente gostei do go-go boy, meio inacreditável.
Polly Tix in Washington (1933): Corrupção política através de bolos e prostitutas mirins. Nada diferente do usual e praticamente um Capra pre-code com crianças, Shirley Temple é uma call-girl no sentido mais amplo do termo. A cara de perva da Temple enquanto o guri come o bolo é demais.
Nota: Muitos desses guris viriam a se tornar membros do Our Gang/The Little Rascals nos curtas de Hal Roach, conhecidos por aqui como Batutinhas.
Centenário de Mae Questel
Tudo bem Olívia Palito, mas Mae é mesmo Betty Boop por toda eternidade.
O Mulherengo (Lady Killer, 1933)
Cagney é um cara engraçado. Muito engraçado. Isso somado a todos os seus outros infinitos talentos em psicose dramática, canto e dança, o torna uma das mais irresistíveis e talentosas estrelas de sempre. Depois de toda aquele rebombar de caras durões no início dos anos 30 ele se joga nessa auto-sátira sobre o meliente que se torna estrela de cinema por fazer o tipo “durão” já que a mulherada não se interessa mais pelos bibelôs dos anos 20, as mulheres dos anos 30 queriam ir ao cinema para ver homem bancando o macho e estapeando quem quer que fosse.
Lady Killer muito me lembrou a vida do George Raft, que antes de ser um dos maiores gangsters do cinema, fora um novaiorquino que vivia entre a máfia e mesmo em Hollywood mantinha seus laços com Bugsy Siegel.
Há muitas pequenas piadas sobre o mundo do cinema na época, especialmente auto referentes ao Cagney como a famosa grapefruit na Mae Clarke de Inimigo Público e o crítico de cinema jantando com uma sósia da Jean Harlow, a mesma Harlow por quem Cagney trocou Clarke no supracitado filme. Isso me soou bem maldoso, pois dá a entender que Harlow só fazia sucesso porque se “dava bem” com os críticos. Outro momento que vale prestar atenção é o de um senhor reclamando que não estava passando nada do Mickey Mouse naquela sala de cinema, tanto Lady Killer quanto o próprio Cagney eram da Warner naqueles idos e esta ainda engatinhava no setor de animação com desenhistas surrupiados da empresa do tio Walt, tal piada soa como um ultimato ao público: ou vocês vão ver o tal do Mickey Mouse ou James Cagney e seus coleguinhas animados plagiados do tio Disney.
Mas é o duo Cagney-Clarke que mantêm a diversão mesmo, Mae que nessa época já tinha passado até pelas mãos do monstro de Frankenstein ainda sofria nas mãos do Jimmy, mas ao contrário de sua personagem no filme anterior que não merecia a toranjada na cara, esta vaca teve o esculacho merecido. No mais o filme é mediano, principalmente se constatarmos que é datado do mesmo ano da obra prima Footlight Parade com o mesmo Cagney e o fato de que muitas das piadas só surtirão efeito aos atentos pela carreira dele nessa época, além dos rituais do cinema pre-code. Céus, nenhum período de Hollywood foi melhor que a curta temporada pre-code entre o início do cinema falado e a ascensão de Will Hays e seus asseclas almofadinhas.
Mae e Jimmy no maior e melhor pé na bunda (literalmente) da história















