Festival Musos do Bachrach: Boris Karloff
Foto promocional para Bedlam (Mark Robson, 1946)
Só para lembrar que está rolando um Blogathon do tio Karloff comandado pelo Frankensteinia, onde podem ser encontrados links de todos os blogs participantes. E porque hoje é aniversário dele e amanhã é o de mamãe, embora ela divida o nome e aparência com Elsa Lanchester. Ainda bem.
Top dúzia: Robert Ryan
Max Reinhardt was the most tremendous and important person to have ever influenced my career and my work. - Bob Ryan provando que Reinhardt não fora apenas um dos pais do teatro moderno e do cinema alemão, mas dele também.
Sem Reinhardt não existiria Lang, Murnau, Lubitsch e outros desocupados, por consequência não existiria todo expressionismo alemão e cinema noir norte-americano. Sem Reinhardt não haveria o curso de teatro que fundou nos EUA, Ryan não teria encontrado um rumo para sua vida neste mesmo curso e todos perderíamos um ator estupendo imortalizando uma quantidade incalculável de grandes cenas do cinema, boa parte delas fazendo parte daquele mesmo cinema noir supracitado.
Mas Ryan era diferente de outros ícones noir, gente como Bogart, Ladd, Lancaster e Mitchum possuíam um tipo de aura heróica e dignidade que prevalecia mesmo nos mais profundos esgotos, Ryan não, ele ia mesmo fundo na podridão humana, se mesclamava na escória, rastejava nos dejetos e é aí que entra a influência de Reinhardt, ao abster-se da vaidade do astro de cinema para dar vazão à necessidade do ator, numa quase-versão sexy de Peter Lorre. Robert Ryan é pulp cinema em suor, sangue, penumbra, músculos, pistolas, cigarros e câncer no pulmão.
RR tem tanto filme excelente no currículo que dá impinge pensar em fazer um top de sua filmografia.
Nem só de sombras viveu um dos maiores motherfuckers do cinema, mais do que noir, Robert Ryan exalava testosterona. Desde os anos 40 Mr Ryan poderia entrar em qualquer antologia de cinema-de-macho, o homem trabalhou com Peckinpah, Fuller, Aldrich, Walsh, Boetticher, Winner, Frankenheimer, Anthony Mann, John Flynn e Sturges – ele também trabalhou com o resto da galera sem talento do outro lado como Lang, Tourneur, Losey, Ray, Ophuls, Lupino, Renoir, mas isso não tem a mínima importância. O que quero mesmo dizer é que o senhor Ryan tem todo direito de estar naquele seleto hall onde estão inclusos Clint Eastwood e Charles Bronson, com a diferença que Bob Ryan já era motherfucker antes que esse povo tivesse sonhado em ser tal coisa.
Apesar de RR ter sido separado de seu siamês Sterling Hayden logo após o nascimento, dessa galera macho-pra-dedéu o único ator páreo para ele no cinema americano era Lee Marvin – foram dois dos mais intensos, versáteis e talentosos atores evindeciados no pós-guerra – vai ver por isso fizeram quatro filmes juntos e Bloody Sam queria Marvin ao lado dele no Wild Bunch, em vez disso Marvin foi cantar com o Eastwood naquele outro filme… A verdade é que o duo Marvin-Ryan formam uma espécie de objeto transitório de anti-heróis com testosterona acima da média entre a geração Cagney-Bogart para o ciclo Eastwood-Bronson.
Top “resto”:
13- Coração Prisioneiro (Caught, Max Ophüls/Robert Aldrich, 1949)
14- Só a Muher Peca (Clash by Night, Fritz Lang, 1952)
15- Os Doze Condenados (The Dirty Dozen, Robert Aldrich, 1967)
16- A Mulher Desejada (The Woman on the Beach, Jean Renoir, 1947)
17- O Mais Longo dos Dias (The Longest Day, Ken Annakin/Andrew Marton/Bernhard Wicki, 1962)
18- A Quadrilha (The Outfit, John Flynn, 1973)
19- Expresso Para Berlim (Berlin Express, Jacques Tourneur, 1948)
20- Billy Budd – O Vingador dos Mares (Peter Ustinov, 1962)
21- Rastros do Inferno (Inferno, Roy Ward Baker, 1953)
22- Conspiração do Silêncio (Bad Day at Black Rock, John Sturges, 1955)
23- The Iceman Cometh (John Frankenheimer, 1973)
24- Rei dos Reis (King of Kings, Nicholas Ray, 1961)
25- Uma Batalha no Inferno (Battle of the Bulge, Ken Annakin, 1965)
26- Os Profissionais (The Professionals, Richard Brooks, 1966)
27- Nas Garras da Ambição (The Tall Men, Raoul Walsh, 1955)
28- O Pequeno Rincão de Deus (God’s Little Acre, Anthony Mann, 1958)
29- A Batalha de Anzio (Lo Sbarco di Anzio, Duilio Coletti/Edward Dmytryk, 1968)
30- À Borda da Morte (The Proud Ones, Robert D. Webb, 1956)
31- Os Bravos Não se Rendem (Custer of the West, Robert Siodmak, 1967)
32- A Hora da Pistola (Hour of the Gun, John Sturges, 1967)
33- A Estrada Dos Homens Sem Lei (The Racket, John Cromwell/Nicholas Ray/Mel Ferrer, 1951)
34- Alma Sem Pudor (Born to Be Bad, Nicholas Ray, 1950)
35- Mulheres de Ninguém (Tender Comrade, Edward Dmytryk, 1943)
36- Império do Pavor (Horizons West, Budd Boetticher, 1952)
37- O Assassinato de um Presidente (Executive Action, David Miller, 1973)
38- De Volta da Eternidade (Back from Eternity, John Farrow, 1956)
39- Escravo de Si Mesmo (Beware, My Lovely, Harry Horner, 1952)
40- Lonelyhearts (Vincent J. Donehue, 1958)
41- Tudo Por Ti (The Sky’s the Limit, Edward H. Griffith, 1943)
42- A Guerra Secreta (The Dirty Game, Christian-Jaque/Klingler/Lizzani/Terence Young, 1965)
43- O Homem da Lei (Lawman, Michael Winner, 1971)
44- Cidade Abaixo do Mar (City Beneath of Sea, Budd Boetticher, 1953)
45- Selvas Indomáveis (Escape to Burma, Allan Dwan, 1955)
46- O Melhor dos Homens Maus (The Best of the Badmen, William D. Russell, 1951)
47- Cada Vida… Seu Destino (The Secret Fury, Mel Ferrer, 1950)
48- Caçada ao Pistoleiro Escondido (Un Minuto per Pregare un Instante per Morire, Giraldi, 1968)
49- Horizonte de Glórias (Flying Leathernecks, Nicholas Ray, 1951)
50- A Volta dos Homens Maus (Return of the Bad Men, Ray Enright, 1948)
51- Capitão Nemo e a Cidade Submarina (Captain Nemo and the Underwater City, J. Hill, 1969)
52- Bombardeio (Bombardier, Richard Wallace/Lambert Hillyer, 1943)
53- Sem Deus e Sem Lei/O Passo do Ódio (Trail Street, Ray Enright, 1947)
54- Os Homens da sua Vida (Her Twelve Men, Robert Z. Leonard, 1954)
55- Marine Raiders (Harold D. Schuster, 1944)
56- Nuvens de Tempestade (The Woman on Pier 13/I Married a Communist, R. Stevenson, 1949)
Nota 1: Ninguém chuta a bunda de Deke Thornton, mas se não fosse pelo final, On Dangerous Ground seria talvez o primeiro dessa lista. O filme de Ray sofreu exatamente a mesma coisa que The Magnificent Ambersons na década anterior, onde o final original foi refeito porque o estúdio assim quis e apesar do final imposto não ser uma tragédia, a situação original desejada por Ray era amplamente superior. Robert Ryan foi queridinho dos filmes B durante o reinado de terror de Howard Hughes na RKO, um bom motivo para que ele e Nicholas Ray se tornassem tão unidos no período, trabalhando juntos em quatro filmes seguidos (mais tarde tiveram um quinto filho temporão) – enquanto Hughes entrava de cabeça no macartismo, Ryan e Ray batiam o pé como notórios liberais, o que gerou todo aquele entrevero com John Wayne durante as filmagens de Flying Leathernecks, um filme cujo conteúdo belicista e de direita nada tinha a ver com suas visões.
Nota 2: Só as participações com no mínimo uma fala entraram no top, filme com participação ínfima deixei de fora, como é o caso de sua estréia em O Castelo Sinistro (The Ghost Breakers, George Marshall, 1940) onde fez figuração carregando uma maca (é, eu reconheço alguém com dois segundos em cena e praticamente de costas)
Nota 2: O maior choque que tive seguindo a carreira de Ryan foi quando assisti O Pequeno Rincão de Deus (God’s Little Acre, Anthony Mann, 1958) foi alí que me dei conta que estava diante de um dos maiores atores do mundo. Quando vi a cena em que sua personagem resolve raptar um albino não sabia se gritava, gargalhava ou chorava de emoção por estar diante de um gênio em sua arte. Mann havia começado essa tranformação de Ryan em Zé Buscapé já em O Preço de um Homem (The Naked Spur, 1953), onde em meio a uma atmosfera leoniana Ryan praticamente cria o pai do Tuco de Três Homens em Conflito.
Nota 3: O top é por qualidade geral dos filmes, mas se fosse eleger as 12 melhores atuações de RR, seriam estas: Odds Against Tomorrow, Billy Budd, Caught, God’s Little Acre, Custer of the West, Clash by Night, The Iceman Cometh, The Set-Up, Born to Be Bad, The Naked Spur, Inferno e On Dangerous Ground.
Nota 4: Presumo que o “Patch Pack” tinha uma queda pelo senhor Ryan – Walsh, Ray, De Toth e Lang trabalharam com ele, o único maldito de tapa-olho com quem não trabalhou foi o John Ford.
Nota 5: É fato – Ryan tem os melhores bíceps e tenho dito. É por isso que recomendo com veemência filmes em que aparece sem camisa ou de camiseta, também por isso Ed Dmytryk disse certa vez: Bob hit like a mule.
Nota 6: A minha “fase Jeff Bridges” do último semestre me levou, por consequência, a ver alguns filmes onde Robert Ryan esteve presente. JB tem RR como ator favorito e impusionou-me a ver o porquê foi tão importante como muso inspirador, além do fato de dois dos últimos filmes com Ryan terem sido também dois dos primeiros filmes com a presença de Bridges. Só depois de ter trabalhado ao lado de Ryan, Lee Marvin e Fredric March em The Iceman Cometh (John Frankenheimer, 1973) é que JB resolveu ser ator de verdade, coisa que até então ele só levara na brincadeira, tamanho o peso que tais homens tinham em cena, algo fácil de se perceber já que Ryan e Marvin jogam ping-pong com JB naquele filme, onde o então guri fica na função de bolinha. Também pudera, The Iceman Cometh é o último momento de Ryan no cinema, o câncer em estado bastante avançado acabou tornando sua personagem ainda mais melancólica do que dramaticamente já era e presumo que nenhum outro ator de qualquer montagem da peça de Eugene O’Neill tenha sido mais efetivo durante o final do terceiro ato.
Nota 7: Robert Ryan foi o único ator que vi eclipsando James Mason. Vi Mason de igual para igual com Alec Guinness, Peter Sellers e John Gielgud, mas a única presença que esteve um degrau acima de Mason numa cena foi o Robert Ryan em Caught – *Medo. Em compensação o Nemo de Ryan não chega aos pés do de Mason.
Hughes called Ryan in and said “It’s okay if you play me, I don’t want them to put some other actor in there” – Robert Parrish, então editor de Caught (Max Ophüls, 1949) sobre o fato de Howard Hughes achar que apenas Robert Ryan seria digno de interpretá-lo - como se já não fosse suficientemente estranho o patrão deixar que uma personagem pouco lisongeira fosse inspirada nele.
Nota final: Hoje comemora-se cem anos do nascimento de RR, oras.
*Da série: Este post foi programado, eu não estou aqui!
Plus: Posters!
Clique nos mesmos para ver grandão.
*Da série: Este post foi programado, eu não estou aqui!
Cem anos de Elia Kazan – Parte 1
Dale Bennett escreve roteiros cinematográficos e era, naquela época, um dos meus melhores amigos. Ganhou uma vez um prêmio da Academia e, mais cedo ou mais tarde, alguém acaba sempre por lhe dar um emprego, apesar de aquilo que escreve ser dez anos antiquado, mesmo para Hollywood. No entanto, está inteiramente convencido de que seu talento é fantástico e insulta os críticos e produtores que são a favor da Nouvelle Vague, da fotografia desfocada, da filmagem invertida e dos cortes abruptos. Estes homens, diz ele, dão mais valor à forma que ao conteúdo; ele é o “conteúdo”. O Compromisso – Elia Kazan, o romancista.
Kazan não é dos meus queridos. Nenhum dos seus filmes está entre os meus favoritos. Nem a sua literatura é a das que me causam compulsão. O fato é que cultivei certa obsessão por Kazan durante algum tempo porque ele é uma daquelas figuras que me fascinam, um párea, um cara que passou décadas sendo espezinhado publicamente por coisas que nada deveriam afetar no julgamento da sua criação artística, mas que proporcionalmente levaram-no à criação. Assistindo seus filmes, lendo seus livros e assimilando suas entrevistas podemos facilmente entender o tipo de mentalidade que Kazan carregava e absorver o quão admirável era este homem, afinal, não é preciso pensar igual para se chegar num estado de compreensão, respeito e admiração.
1- Sindicato de Ladrões (On the Waterfront, 1954)
On the Waterfront is a history of informing where it seems like the greater good, despite the fact it goes against the code of community. The script was based on a set of real events which had nothing to do with my involvement with the Communist Party or the information I later gave to the House Un-American Activities Committee. Those fellows in Waterfront were criminals. It was based on the life story of a guy named DiVicenzo, who I knew, whose house I ate at. He live through the same goddamn thing that Terry Malloy goes through in the film. The waterfront was a gangster-dominated, ritualized, Mafia-coded society where no one ever said who said who was brutalizing them. Even when they knew who killed somebody, nobody ever talked. That was absolutely a valid story of the waterfront. But when people said there are some parallels to what I had done, I couldn’t and wouldn’t deny it. It does have some parallels. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
Até queria sair do lugar-comum e tentar gostar mais de qualquer outro filme do Kazan, mas Sindicato de Ladrões é mesmo o melhor. Está tudo no lugar certo, na hora certa: Brando possivelmente criando a melhor personagem de sua carreira, a jaqueta, Malden e seu padre badass, os pombos, Budd Schulberg dando aula de escrita, Eva Maire Saint deixando Hitchcock deprimido, Steiger & Cobb, mea-culpa e realismo por parte de Kazan.
2- Um Rosto na Multidão (A Face in the Crowd, 1957)
Theoretically, I think one man should make a picture. But in rare case where an author and a director have had the same kinds of experience, have a same kind of taste, the same historical and social point of view, and are compatible as Budd and I are, it works out perfectly. (Elia Kazan Interview – Michel Ciment, 1974)
Existem cinco inegáveis grandes obras sobre meios de comunicação e manipulação: Cidadão Kane, Network, A Montanha dos Sete Abutres, Adorável Vagabundo e Um Rosto na Multidão, todos passam longe de resultados melodramáticos, muito pelo contrário, todos se atêm à acidez de um cinismo quase-cômico, mas foi Kazan quem legou o mais cruel dos desenlaces. Com o recém falecido Budd Schulberg voltando à bem sucedida parceria com Kazan que deu origem a Sindicato de Ladrões, nos é entregue um filme que poderia ser tão bom quanto aquele, mas que não chega a isso por falta daquele peso pessoal que incrustou toda a alma do diretor em Sindicato de Ladrões.
3- America America (1963)
America America may be a legend, but it’s not a fairy tale. This is the truth. Nobody makes pictures about that class of people, about their way of thinking and their values. America America really captured another civilization. It’s my favorite of all the pictures I’ve made. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
America, America está para gregos o que O Poderoso Chefão está para os italianos, não apenas na teoria como na prática, pois é evidente a influência do filme de Kazan na saga siciliana do Coppola e muito se deve ao tipo de relação que os povos mediterrâneos têm com suas famílias. De todos seus filmes, este era o preferido de Kazan, ele escreveu o livro sobre o que levou toda a sua família para os EUA, adaptou o roteiro e filmou, tudo que o transformou numa obra única e exclusivamente do diretor, pessoal e artisticamente é o seu grande legado. Além da habitual reiteração sobre integridade que encontramos como tema em todos os filmes do grego expatriado, a relação familiar é expandida e é explicado porque o laço sanguíneo tornou-se também um dos seus mais queridos pontos de reflexão.
Também fica claro o quanto Kazan era encantado com o que rolava no cinema europeu em termos de linguagem, chega a ser estranho ouvir os atores falando inglês, o diretor foi um grande assimilador, tudo que ele fazia estava em perfeita sincronia com movimentos do cinema ao redor do mundo e aqui não é diferente. Como diretor de teatro talvez tenha sido mais revolucionário do que qualquer outro nos EUA durante o século XX, especialmente por ter incentivado e introduzido o método do Actor’s Studio nos meios teatrais, atitude essa que poucos anos depois fez questão de repetir em seus filmes, ajudando a delinear os rumos da atuação dos últimos 60 anos em qualquer país do mundo, seja no teatro, no cinema ou na televisão.
4- Viva Zapata! (1952)
The competition between Brando and Quinn was wonderfully fruitful and creative. By the way, there’s nothing wrong with actors competing, as long as they’re competing to be good and not to be stars. In fact, I sometimes try to arouse competition. For example, I often praise an actor openly. Thats makes every actor on the set want the same praise. It’s nice to tell them they were good when they do something well. It makes them want more. After all, they’re hanging on you. They can’t see themselves. So when they deserve praise I always articulate it. I don’t believe in playing cool. One beautiful thing about actors is that they’re so exposed. They’re not being criticized only for your behavior, but for their legs and breasts, for their double chin; their whole being is exposed to criticism. How can you not embrace them and how can you feel anything but gratitude toward these people? I like actors and I believe my films show it. You look at them and see what whoever directed them likes actors. (Kazan: The Master Director Discusses his Films) E Kazan vai ao oeste. Ou ao sul, depende do ponto de vista. Antes eu não gostava muito desse filme, mas depois de uma revisão uns tempos atrás, coloquei o rabinho entre as pernas e hoje assumo que é mesmo um grande filme, especialmente por todas as cenas de assassinato presentes nele – Kazan foi brilhante em todas elas, podendo ser incluso entre os melhores westerns dos anos 50. Além do mais, possui a maior e melhor coleção de bigodes já vista numa tela.
5- Clamor do Sexo (Splendor in the Grass, 1961)
It was the easiest picture I ever made because the script was good. It was pure and simple. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
Esse é mais um dos filmes cujo tema é homossexualismo, mas que foram camuflados com personagens heterossexuais. O roteirista/dramaturgo William Inge foi inspirado em suas próprias experiências na adolescência em reprimir e esconder sua sexualidade durante os anos 20, assim como a personagem de Natalie Wood detêm traços semelhantes à personalidade do autor, especialmente quanto a colapsos nervosos e tendências suicidas. O primeiro roteiro original escrito pelo dramaturgo é um grande texto que foi facilmente convertido em uma grande obra cinematográfica por parte de Kazan, o resultado é acima da média e Kazan tem o seu ápice no melodrama, atingindo o mesmo nível de Douglas Sirk e o uso que faz do technicolor é indispensável para isso.
6- Os Visitantes (The Visitors, 1972)
I wanted to make the scene strong, but I didn’t want to make an entertainment out of blodletting. So I had the car fill three-fourths of the screen and built up the sound of fight. Then I cut to the door of the house, where Martha was struggling with Tony. I use a lesser act of violence to suggest the much more savage violence that was going on behind the car. (Kazan: The Master Director Discusses his Films) E Kazan se adapta ao cinema dos anos 70. A tensão crescente remete imediatamente ao Straw Dogs do Peckinpah, mas podemos ver o filme facilmente como uma sequência do então ainda porvir Pecados de Guerra do De Palma. O que é intrigante quanto este filme é o fato de ser quase ignorado dentro da filmografia de Kazan, é um trabalho excelente e a primeira grande obra sobre a guerra do Vietnã. Vale lembrar que esta é a estréia na tela grande de James Woods e Steve Railsback.
7- Vidas Amargas (East of Eden, 1955)
I try to base things in realism and take off from there. I don’t think of myself as a realist. I think myself as a poetic realist or “essencialist”, as I call it. That may be just a big rationalization for my lacking. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
Esse é o grande ponto de confluência entre o cinema de Kazan e o do seu protegido Nicholas Ray, não tentando associar a escolha mútua de James Dean como o protagonista de seus filmes como marco da desestrutura familiar – não, é muito mais do que isso, naquele ano eles emplementam uma simbiose de estilo e filosofia.
8- Pânico nas Ruas (Panic in the Streets, 1950)
Another thing I learned from Ford: he’s a great guy for foreground objects. He puts an object in the foreground that’s critical at some point in the latter half of the scene, and he moves the people up to that object. It breaks up the foreground spatially, so that the shot has quality, not abstractness. I use that a lot in Panic in the Streets. (Elia Kazan Interview – Stuart Byron & Martin Rubin, 1971). É exatamente aqui onde Kazan começa a fazer cinema de verdade e o próprio assumia isso para quem quer que fosse. É um grande filme, quando o assisti cheguei a ficar boquiaberta pelo fato deste não ser tão festejado quanto algumas de suas obras daquela mesma década, louvores extras ao Jack Palance que nos dá o prazer de conferir um dos maiores vilões do cinema. Essa é uma boa época para ver o filme, especialmente se a imprensa ainda não causou paranóia suficiente para que você saia correndo e gritando todo vez que uma pessoa ao seu lado diz que está com dor de cabeça.
9- Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire, 1951)
Some people say I made Brando the hero. I didn’t mean to make Brando the hero. But I wanted to show exactly what Williams meant, which is that he, as a homosexual, is attracted to the person he thinks is going to destroy him – the attraction you have for someone who’s on the otherside, supposedly dead against to you, but whose violence and force attract you. Now, that’s the essence of ambivalence. And that’s what I tried to do, so what you felt sorry for her but could see, however, that his force was healthier. That’s why I made Brando attractive. (Elia Kazan Interview – Stuart Byron & Martin Rubin, 1971)
Esse filme é demasiado importante para a história de Hollywood, não só botou fogo literalmente em quase 20 anos de Código Hays como mudou toda a história da interpretação colocando Brando no patamar de ator mais influente do cinema americano pelas próximas décadas, o que ao meu ver não foi algo tão benéfico assim. Tolinha de Olivia de Havilland, a Blanche que tanto Kazan quanto Brando queriam, mas que não aceitou o papel por existirem certas coisas que uma dama não faz em cena – imagino o quanto ela ficou horrorizada quando os anos 60 e 70 chegaram – então podemos incluir o papel de Blanche como um dos grandes arrependimentos da vida de Miss Havilland e todos sabemos que esta mulher tem muita coisa para se arrepender – alguns bem graves, por sinal.
E Marlon Brando quebra tudo. O que é a visão de Brando entrando em cena??? O problema dessa introdução ao senhor Kowalski é que quando ele abre a boca é altamente broxante, à parte Brando ser gostosopacaraleo e um grande ator, ele tinha uma voz insuportável, por isso é bom quando suas personagens gritam, grunhem ou gemem. A verdade é que este filme mudou para sempre o rumo de como se encara um ator no set de filmagens, sem o que Kazan começara no teatro uns poucos anos antes não haveria Brando, nem Dean, nem Pacino, nem De Niro, nem Hoffman, nem uma porrada de ícones que todo mundo conhece.
10- Boneca de Carne (Baby Doll, 1956)
I like everything in the south, except its ideas, standarts and beliefs. But the way the people are has always impressed me. It’s part of my own maverick anarchism. I find them very funny and cute and human, very Chekhovian. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
Oh, Mr Vacarro! Esqueça Marlon Brando em Uma Rua Chamada Pecado, em Baby Doll está a prova do porque Eli Wallach constar na minha lista de homens mais sexys do universo. É a estréia do Wallach no cinema e é mesmo um absurdo, nos faz perceber algo bem peculiar quanto aos machos do Kazan: a sensu/sexulidade deles é bem mais evidente do que suas contrapartes fêmeas. Mesmo Miss Carroll Baker sendo um pitéu e ter a sua sensualidade natural bem delineada, Wallach domina o ambiente de tal forma que a única coisa que resta por parte dela é a reação à ação do macho dominante que Wallach representa no ambiente cênico.
11- O Justiceiro (Boomerang! 1947)
We shot that entirely on location – not a set in the picture. The picture was a terrific thrill that way – it made me see my identity. I really enjoyed that life, whereas I was miserable on the MGM set. For one thing, I was miserable living in Hollywood – I never liked the place. I never unpacked my bags. (Elia Kazan Interview – Stuart Byron & Martin Rubin, 1971)
O homem era viciado em integridade, mesmo na sua fase pau-mandado-de-estúdio nos anos 40, lá estava Kazan envolvido na defesa das coisas em que acreditava, batendo na tecla de que não importa se o próprio indivíduo ou um clã se queima no processo desde que seja íntegro com a sua maneira de pensar e caráter. Particularmente gosto bastante deste filme, porque é intrigante, ágil, tem uma sorte de personagens e atores espetaculares, além de existir alí um vislumbre do cinema contemporâneo de Jules Dassin.
12- Rio Violento (Wild River, 1960)
I think Miss Ella’s right to want to stay on her land. I think Glover is right, too. That picture, with all of its faults, is the epitome of what I feel more clearly than any other. (Kazan: The Master Director Discusses his Films) Tudo que Kazan tinha em boas intenções para com The Sea of Grass finalmente pôde ser colocado em prática no Wild River. A semelhança ideológica entre ambos é gritante, mas 13 anos na vida professional de um cineasta e do próprio cinema em evolução fazem uma diferença dos diabos, isso, é claro, se o mundo não for habitado por clones do Orson Welles.
Centenário de Elias Kazanjoglou – Parte 2
13- O Compromisso (The Arrangement, 1969)
Everyone become a salesman here. If you don’t sell anything else, you sell yourself. Ours is a society dominated by business, and the economic pressure even at the upper-middle-class level is fantastic. The epitome of this business civilization is the advertising industry. Everyone feels some degradation, some violation of self, when they spend their lives selling. (Kazan: The Master Director Discusses his Films). Não vou dizer que se você é romancista e cineasta jamais adapte o seu próprio livro, pois Kazan já o fizera muitíssimo bem com America, America, o problema em The Arrangement é adaptação às mudanças do próprio cinema. Kazan quis se adaptar a um estilo que não lhe caiu bem, chega a ser mesmo irritante o estilo de montagem, o uso da trilha sonora e a inserção de devaneios constantes, essa certamente não era a praia do Kazan, como admirador confesso da Nouvelle Vague parece que ele quis fazer algo como Pierrot Le Fou, mas as coisas ficam bem bizarras quando se força a encarar um estilo que não é o seu.
O livro tinha grande potencial para adaptação, tendo o mesmo tom de coisas que voltariam à moda nos anos 80 e 90 como Beleza Americana, Clube da Luta e Como Fazer Carreira na Publicidade. Notoriamente a semelhança fica mesmo por conta de Mad Men, quando comecei a assistir o seriado, o livro de Kazan vinha à mente constantemente, digamos que Mad Men é tudo que Kazan poderia ter feito com seu filme mas dolorosamente desperdiçou.
Vale lembrar que o livro do homem é basicamente uma autobiografia “camuflada” de seu relacionamento com a excelente atriz Barbara Loden, com quem trabalhou no cinema em Wild River e Splendor in the Grass.
14- Laços Humanos (A Tree Grows in Brooklyn, 1945)
The one thing I really liked about that film was the little girl. By far the most authentic thing about the film is Peggy Ann Garner’s face. Nothing compares with it except maybe Jimmy Dunn’s face. He was terrific. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
Kazan e seu assistente de direção conhecido como Nicholas Ray se encontram neste filme que delinearia muito do cinema futuro de ambos, em específico o traço da desestrutura familiar, um tema que foi muito caro em suas respectivas carreiras. É mais um desses “filmes de ator” que Kazan fez e reitero o fato de que James Dunn era absolutamente apaixonante.
15- A Luz é para Todos (Gentleman’s Agreement, 1947)
No matter what I think of it today, what I remember most about Gentleman’s Agreement is that at time no one said ‘jew’. When it was being made, all the rich jews in California were against it. And the Catholic Church was against it because they don’t want the heroine to be a divorcee. There were hell of lot people who said to Zanuck, ‘We’re getting along all right. Why bring this up?’ (Elia Kazan Interview – Stuart Byron & Martin Rubin, 1971)
Esse é um dos filmes de que Kazan não gostava, porque é um produto de estúdio, com muita relevância história e nulidade autoral. Zanuck possuía um tino danado para jogar com esses filmes polêmicos e gostava de colocar a bomba na mão do Kazan porque o cineasta sempre fora um homem de coragem ao assumir seus pontos de vista e atitudes, não importando a merda que daria. Sob o ponto de vista atual Gentleman’s Agreement é bem truncado, mas se localizado no pós-guerra dá para imaginar a bomba que caiu nas casas das famílias cristãs de toda a América.
16- O que a Carne Herda (Pinky, Elia Kazan/John Ford, 1949)
Some years later I said to Zanuck, “Jack Ford never had shingles, did he?” And he said, “Oh hell, no. He just wanted to get out of it; he hated Ethel Waters and she sure as hell hated him”. I also think maybe he didn’t like the whole project. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
Mesmo possuindo um tema pelo qual Kazan tinha fascínio e passaria o resto de sua carreira reiterando-o, ele ainda não estava tão ciente da linguagem cinematográfica, deixando o peso do filme nas mãos das duas (grandes) atrizes Ethel Waters & Barrymore. Ford começou o filme, mas saiu por falta de afinidade com o assunto tão espinhoso, Kazan era um tipo mais moldado para mexer num vespeiro com direito a romance interracial e propaganda para que se trate o negro como um igual em fins dos anos 40. Está longe de ser um dos melhores filmes do homem, mas a sua importância histórica é inegável.
17- O Último Magnata (The Last Tycoon, 1976)
Não gosto desse filme. Não interessa quantas estrelas dão as caras e nem o quanto o Irving Thalberg era interessante, muito menos com quantos scottfitzgeraldeharoldpinters se escreve um roteiro, o filme é muito chato e não tenho nada a dizer, mas justamente por isso talvez seja hora de revê-lo.
18- Os Saltimbancos (Man On a Tightrope, 1953)
I hated McCarthy. It was embarrassing to be on the same side as him. But I didn’t terrorize people. He did. I didn’t lie. He lied. I never said there were so many and so many, holding up a blank piece of paper, claiming it was a list of subersives in the State Department. He did. He lied. I never told a lie in my life about that stuff. It was terrible to be aligned with McCarthy. But as far as doing it for money, it’s fantastic, really, because in the first place they didn’t threaten me and in the second place they couldn’t have and in the third place I didn’t need a job in Hollywood. The blacklist did not extend to Broadway and I was at the top of my theater career. All my testifying did was lose me certain things. I knew that I’d lose Arthur Miller’s plays. I knew a lot of guys would turn against me, which they did. I’ve lived through that. In some ways the whole experience made a man out of me because it changed me from being a guy, who was everybody’s darling and always living therefore for people’s approval, to a fellow who could stand on his own. It thoughened me a lot. I’m not afraid of anybody. People say that too – that I was afraid. I never was in my life. They avoided my eye. I didn’t avoid theirs. I have some regrets about the human cost of it. One of the guys that I told on I really liked a lot… well, pretty much. I really thought it was killing him. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
É bem deprimente carinha fazer filme para provar alguma coisa que não é. Além de Man On a Tightrope ser ruim, parecendo desesperado e feito às pressas, o contexto em que foi feito atrapalha ainda mais, se Kazan estivesse defendo uma idéia e não a si mesmo quando o fez, meu olhar sobre o filme talvez não fosse tão decepcionado.
19- Mar Verde (The Sea of Grass, 1947)
The only miserable experience I had was The Sea of Grass. I should never have made that film, or I should have quit. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
Geralmente não concordo quando cineastas renegam suas obras, pelo contrário, sempre defendo que os caras são demasiado auto-críticos, mas dessa vez tenho que concordar com o desprezo: ô filminho sem eira nem beira. Há um elenco sensacional, há um roteiro promissor, mas Kazan nunca foi talhado para trabalhar no Star System, tanto que o cinema dele só pegou mesmo no tranco durante os anos 50 quando aquele sistema morreu definitivamente, muito por culpa do próprio Kazan que ajudou a instaurar a revolução.
Gadget Kazan – o ator
Uma Canção para Você (Blues in the Night, Anatole Litvak, 1941)
Blues in the Night é o berço de muita gente, além de Kazan como ator, há Don Siegel trabalhando na montagem e Robert Rossen lidando com o roteiro. Um daqueles filmes mais lembrados por sua trilha sonora do que por qualquer outra coisa, é um noir-musical-melodramático, se é que tal definição possa existir. Aqui o senhor Kazan tem a honra de representar um membro da banda protagonista da história, ao som de muita música do duo Harold Arlen/Johnny Mercer, a surpresa fica por conta de ser um papel importante e não apenas um cameo, além de provar que se seguisse a carreira de ator teria um bom futuro, possuía desenvoltura nata e se adequou perfeitamente ao ritmo do filme, com seus diálogos rápidos e edição acelerada para acompanhar o ritmo da música.
Dois Contra uma Cidade Inteira (City for Conquest, Anatole Litvak/Jean Negulesco, 1940)
Apesar de ser um dos melhores amigos do protagonista, o papel de Kazan aqui não é tão grande quanto em Blues in the Night, mas é de razoável importância, especialmente se ele faz as vezes do gangster-mor e isso num filme com Cagney é uma grande honra. Tenho o mesmo tipo de relação com o cinema do Anatole Litvak para com o do próprio Kazan, em geral gosto bastante de alguns do trabalhos de ambos, mas nada que faça com que eu professe um WOW e é interessante o fato de Litvak ter sido esse grande introdutor de Kazan em Hollywood.
E não interessa se o filme é bom ou ruim, se o Cagney está presente o prazer é garantido. Sempre.
Pie in the Sky (Ralph Steiner, 1935)Esse é da época que o Kazan era comunista. hehehe (Parte 2)
Nota 1: No livro O Século do Cinema de Glauber Rocha tem um capítulo interessante, onde Glauber, como sempre, desce a lenha no cinema do Kazan, mas que, ao mesmo tempo, conta sobre um encontro entre os dois narrado de forma bastante admirável.
Nota 2: Pelos próximos anos Scorsese estará ocupado envolvido com projetos sobre ícones que ele muito aprecia, alternando documentários e cineobios sobre gente como Sinatra, George Harrison e Roosevelt, tio Marty também está com um documentário sobre Kazan na gaveta, a intenção é dirigí-lo, mas veremos se o projeto vai para frente.
Nota 3: Enquanto fazia este post, acho que mudei de opinião, creio que o meu favorito é Um Rosto na Multidão, talvez seja o único filme de Kazan com o qual tenho grande afinidade, seguido de Splendor in the Grass.
Get that drunken cat off the bar
*Cidade Sem Lei (San Antonio, David Butler/Robert Florey/Raoul Walsh, 1945)
Nota: Já que o assunto são gatos e bares, atente para os “perigos” da prostituição felina no Japão.
Miss Bacall
Yes, I saw Twilight – my granddaughter made me watch it, she said it was the greatest vampire film ever. After the ‘film’ was over I wanted to smack her across her head with my shoe, but I do not want a (tell-all) book called Grannie Dearest written on me when I die. So instead I gave her a DVD of Murnau’s 1922 masterpiece Nosferatu and told her, ‘Now that’s a vampire film!’ And that goes for all of you! Watch Nosferatu instead!












































































3 comments