Quixotando

Pelos Caminhos do Inferno (Wake in Fright/Outback, 1971)

Publicado em ANOS 70, DRAMA, IMPRESSÕES, LONGAS, VIDEOS por Adriana Scarpin em Julho 3, 2009

Outback (1971)1971. É ano de Straw Dogs. É ano de Laranja Mecânica. É ano de Wake in Fright.
Gary Bond bebe. Conhece Rafferty. Bebe, Joga. Bebe. Perde todo o dinheiro. Bebe. Conhece Pleasence. Bebe. Precisa ganhar dinheiro para ir até Sidney. Bebe. Conhece Thomas e Kay. Bebe. Conhece os caçadores de cangurus. Bebe. Vai caçar cangurus. Bebe. Luta. Bebe. Passa uma noite indigesta com Pleasence. Bebe. Finalmente consegue sair de Yabba. Não, não consegue, ele volta.
Esse filme é obra prima demais. Demais. É o catalizador da australian new wave ao lado de Walkabout do Roeg. Antes dos anos 70 não havia um cinema essencialmente autraliano, as produções sempre foram inglesas e americanas, quando muito podiam contar com elenco e diretores australianos, mesmo Wake in Fright e Walkabout estão nas mãos de cineastas estrangeiros, mas ainda foram eles que moldaram esses novos rumos para o cinema de Oz e acabaram por entregar as rédeas nas mãos dos nativos. Wake in Fright não é apenas amplamente influente no cinema autraliano dos últimos 35 anos, como também Martin Scorsese é fã assumido, fato que podemos constatar facilmente em certas cenas de Depois de Horas e Casino. Oliver Stone também deve ser outro apreciador vide certas coisas de Assassinos por Natureza e Reviravolta. Também é um dos filmes favoritos de Nick Cave. Até a cultuada cena introdutória de Apocalipse Now foi roubada daqui, onde vemos a câmera enquadrando uma luminária, descendo até a face de Gary Bond ao acordar de hiper-ressaca olhando para o lado e só faltando dizer: “Yabba… shit. I’m still only in Yabba”.
Este é o filme da bebedeira sem fim, o cara começa bebendo na sexta, acorda e vai dormir bebendo no sábado e também no domingo. Tudo começa com a personagem de Gary Bond dando aula na puta que pariu (o que esperar de um lugar chamado Tiboonda?) do outback australiano sonhando o tempo todo em visitar namorada em Sidney, coisa que ele quase consegue realizar durante o feriado no qual a narração do filme se centra. Para ir até Sidney, Gary Bond precisa passar por um outro fim de mundo chamado Bundanyabba e por diversas razões ele não consegue sair desse buraco de jeito algum, não há escapatória.Wake in FrightNa roleta russa humana em que Yabba se transforma com a “hospitalidade hostil” de seus habitantes, vamos conhecendo personagens ainda mais marcantes tal como o bebedor e jogador vivido por Chips Rafferty (o “John Wayne australiano” em seu último filme), o bebedor e “doutor” personificado lindamente por Donald Pleasence, o bebedor Al Thomas e sua filha peculiar e ninfomaníaca vivida pela então esposa do diretor Sylvia Kay, além dos bebedores e caçadores Jack Thompson e Peter Whittle. É no meio dessa fauna que Gary Bond vai nos guiar para a maior concentração de álcool que já se viu numa tela, é uma coisa impressionante até para minhas experiências mais nefastas. As famosas cenas com os cangurus são muito barra pesada, indigestas e deprimentes, uma sensação de holocausto canguru, a versão que vi está cheia de cortes, o que me chamou a atenção é que o conteúdo sexual foi cortado, mas tudo relativo àquela selvageria com os cangurus está aparentemente intacto, o que nos atenta para a visão estranha de certas pessoas para com o sexo e a violência.
No início dos anos 60 Joseph Losey queria fazer a adaptação do livro de Kenneth Cook no qual Wake in Fright é baseado, com Dirk Bogarde no papel principal, mas vendo a visão de Kotcheff até agradecemos por o intento não ter ido em frente, especialmente porque esta versão está banhada com licores setentistas e em qualquer outra década esta não seria a obra prima que é.

Wake in Fright pode ser conferido no youtube e é esta a cópia que vi, embora recomende a espera pela versão uncut e restaurada que andou pipocando em Cannes e no Sydney Film Festival recentemente, além de ter re-estreado nos cinemas australianos na última semana. Há uns cortes bem evidentes nesta versão americana, onde está faltando uns bons 15 minutos, nada sutis, coisa de censor açougueiro mesmo.

Karl Malden (1912 – 2009)

Publicado em ANOS 50, ANOS 70, MORTES por Georgina Spiggott em Julho 1, 2009

Top 5

1- Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire, Elia Kazan, 1951) A Streetcar Named Desire (Karl Malden, Kim Hunter, Marlon Brando, Vivien Leigh)
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2- Boneca de Carne (Baby Doll, Elia Kazan, 1956)Karl Malden e Carroll Baker em Boneca de Carne (Baby Doll, Elia Kazan, 1956)
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3- O Gato de Nove Caudas (Il Gatto a Nove Code, Dario Argento, 1971)The Cat o' Nine Tails (1971) - Karl Malden, James Franciscus
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4- Sindicato de Ladrões (On the Waterfront, Elia Kazan, 1954)On the Waterfront - Marlon Brando & Karl Malden
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5- Passos na Noite (Where the Sidewalk Ends, Otto Preminger, 1950)Where the Sidewalk Ends

Só porque acabei de vê-lo ao refrescar a memória de algumas cenas de Baby Doll… Juro, não fez nem 5 minutos.
Só não foi o Wallach porque é imortal.

The Cat Lady

Publicado em ANOS 70, GATOS, SCREENSHOT por Georgina Spiggott em Junho 29, 2009

A Clockwork Orange - Cat LadyStanley Kubrick's A Clockwork OrangeMiriam KarlinDame Miriam KarlinÍdola.

*Miriam Karlin em Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, Stanley Kubrick, 1971)

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David Carradine (1936 – 2009)

Publicado em ANOS 70, MORTES, MUSOS por Georgina Spiggott em Junho 4, 2009

Kung Fu - David CarradineSaindo do meu retiro espiritual porque, cara, é o CARRADINE, pô! Luto universal, por favor.

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KoKo Taylor (1928 – 2009)

Publicado em ANOS 70, BLUES, MORTES, MÚSICA, VIDEOS por Georgina Spiggott em Junho 3, 2009

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Kien Shih (1913 – 2009)

Publicado em ANOS 70, MORTES por Georgina Spiggott em Junho 3, 2009

Enter the Dragon (1973) Shih KienOperação Dragão (Long zheng hu dou, Robert Clouse, 1973)

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Don Edmonds (1937 – 2009)

Publicado em ANOS 70, EXPLOITATION, FILMES B, MORTES, POSTERS, WIP por Georgina Spiggott em Maio 31, 2009

Ilsa, She Wolf of the SS (Don Edmonds, 1975)

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The films of Stanley Kubrick

Publicado em ANOS 50, ANOS 60, ANOS 70, ANOS 80, ANOS 90, VIDEOS por Georgina Spiggott em Maio 28, 2009

Todos os arrepios não serão suficientes. Trabalho de edição desse cara AQUI

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Centenário de James Mason – Parte 1

Publicado em ANOS 40, ANOS 50, ANOS 60, ANOS 70, IMPRESSÕES, MUSOS por Adriana Scarpin em Maio 15, 2009

James Mason- I have a passion for James Mason.
- Is he good?
- Absolutely terrific. So attractively sinister! Taurus, the bull, you know.
- Very obstinate.
- Really?

Diálogo de Festim Diabólico (Rope, Alfred Hitchcock, 1948)

Certa vez li uma definição certeira de que Mason nos anos 40 era a personificação de Heathcliff, Mr Rochester e Mr Darcy num mesmo pacote, não por acaso os três personagens são criações de mulheres, explicando e muito o que nós realmente queremos. Por isso meu amor, nada de aprender a ser homem com Wayne, McQueen ou Belmondo, aprenda a ser homem com James Mason e sua natural tendência byroniana, este sim faz um estrago danado.
Relembremos alguns de seus momentos, só os que pude conferir pessoalmente, listando os filmes em ordem dos que mais me apetecem e não necessariamente de seus melhores papéis. E que todos me perdoem o deslumbramento evidente, mas a sua presença em cena me é tão divina quanto o espirito santo anunciando a Maria.

1- Intriga Internacional (North by Northwest, Alfred Hitchcock, 1959)North by Northwest (1959) Cary Grant, James Mason, Eva Marie SaintHas anyone ever told you that you overplay your various roles rather severely, Mr. Kaplan?
Não é deveras gratificante ver dois baluartes da elegância inglesa como rivais num dos melhores filmes do mais elegante dos cineastas britânicos? Por mim, Hitch, Cary e James poderiam fazer filmes juntos por 30 anos consecutivos e jamais ficaria menos do que satisfeita. Diante de tamanha elegância, não à toa, tanto Grant quanto Mason foram cotados para encarnarem o Bond primordial, além do fato de que todos os filmes do agente 007 nos anos 60 sofreram influência clara de Intriga Internacional. Uma cena que sempre me chama atenção é a fala de Mason criticando a sobreatuação associada ao Actor’s Studio, nesse mesmo momento nota-se Martin Landau, um notório aprendiz do método, saindo de cena. Sabendo da conturbada relação entre Marlon Brando e Mason, tal cena adquire contornos ainda mais requintados, Mason sempre fora o rei da economia no ato dramático, tudo que precisava passar o fazia só com suas complexas e sutis expressões faciais e corporais, ao contrário da geração Actor’s Studio surgida nos EUA a partir dos anos 50 e pela qual Hitchcock nutria um especial desprezo. Esse negócio de engordar, emagrecer, não sair da personagem as 24 horas do dia definitivamente não era para Mr Mason que sequer usava maquiagem, por mais discreta e neutra que fosse. Portanto, qualquer pessoa que mencione James Mason como o maior ator que o cinema já apresentou, terá meu respeito eterno.

2- Delírio de Loucura (Bigger Than Life, Nicholas Ray, 1956)Bigger Than Life (1956)Childhood is a congenital disease – and the purpose of education is to cure it. We’re breeding a race of moral midgets. Esse é o Farrapo Humano da cortisona, é o Mason doidão em seu ápice e facilmente entra para a lista de suas melhores atuações. É um grande filme dos anos 50 que muito lembra o cinema de Douglas Sirk, tanto na utilização de cores quanto no drama da família aparentemente perfeita a desmantelar-se, com um porém de que o pai de família vivido por Mason vira uma espécie de Jack Torrance da cortisona, o que não era muito habitual nesses pequenos dramas de subúrbio. Acho pouco provável que seja mera coincidência Mason ter sido uma das raras pessoas autorizadas a visitar o set de filmagens de O Iluminado, como Kubrick não fazia nada à toa, é bem provável que isso tenha alguma relação com Bigger Than Life e um possível lampejo de influência em Jack Nicholson, afinal, GOD WAS WRONG!

3- O Condenado (Odd Man Out, Carol Reed, 1947)ODD MAN OUT - William Hartnell & James MasonPrimeiro da indefectível trilogia noir do homem em fuga cometida por Carol Reed (seguida com O Terceiro Homem e O Outro Homem) e provavelmente o mais fatalista dos três. Trabalhando pela primeira vez com o tio do Ollie, Mason interpreta um líder do IRA, ferido e acuado pelas vielas e becos escuros dos quais Reed tanto gostava. É uma jornada longa e cansativa para lugar nenhum, onde os tipos peculiares que o homem em fuga encontra pelo caminho delineiam e erguem a narrativa, sobretudo porque Mason permanece em estado constante de delírio e rastejar, é quase uma odisséia homérica quando nada mais importa além de voltar para casa e para uma cama quentinha, ou melhor, uma espécie de odisséia joyceana, não só porque se passa na Irlanda, mas porque dividem lugares, situações e personagens que muito se assemelham com os rompantes literários de James Joyce. Foi com este filme que me apaixonei por Robert Newton, um dos mais notórios bêbados do cinema inglês, aqui no papel de um pintor ensandecido e tipicamente irlandês.

4- Cruz de Ferro (Cross of Iron, Sam Peckinpah, 1977)CROSS OF IRON - James Mason, David WarnerSeguindo com a triste sina de trabalhar com os maiores cineastas de sua época, Mason vive um coronel alemão num dos poucos filmes de que participou sobre a Segunda Guerra que mostra certa afinidade com seus ideais na vida real, Mason era uma espécie de Private Joker do mundo do cinema, onde era terminantemente contra a guerra, embora tivesse participado de inúmeros filmes pró-guerra. Mesmo ocupando um alto cargo militar e despertando certa antipatia na personagem de Coburn pelo simples fato de estar numa posição de comando (num tipo de discussão que Kubrick retomaria dez anos depois com o seu Nascido para Matar), a personagem de Mason é um frescor de sensatez em meio a mais uma guerra insana, cheia de pessoas insanas, nesse amargurado, complexo e subestimado relato.

5- Lolita (Stanley Kubrick, 1962)LOLITA - James Mason & Peter SellersBecause all the best people shave twice a day. Primeiro filme de Kubrick depois do alojamento de mala e cuia na Inglaterra, o início de sua entrega à cultura britânica e no direito de nos presentear com os dois maiores atores com quem trabalhou: Mason e Sellers. Tão grandes e tão inversamente proporcionais, tudo que há de economia dramática em Mason, há de exagero em Sellers, é um duelo e tanto, especialmente porque nem dá para lembrar daquela guria que deu nome ao filme. Há um fator que precisa ser mencionado, Sellers é sem dúvida um dos meus atores favoritos, daqueles mesmo adorados, só que perto do Mason ele me irrita profundamente, pois num diálogo o meu reflexo imediato é sempre observar a reação de Mason ao interlocutor e o Sellers é aquele cara que praticamente fica pulando em cena para chamar a atenção para si no melhor estilo “filma eu, Galvão!”, o que não é de todo mal, já que Mason acaba por segurar as pontas lindamente sem cair no que para nós seria uma inevitável gargalhada diante das improvisações sellerianas. Ainda assim o filme é um desses casos dolorosos de subestimação, chegando ao absurdo de alguns afirmarem que a versão de Adrian Lyne é melhor do que a de Kubrick, o que é uma ofensa, especialmente porque a versão de 1962 sobe no meu conceito cada vez que a revejo, o que dará a possibilidade de que até o final da vida possa considerá-la como obra prima absoluta.
Reza a lenda que Kubrick chegou a denominar Mason como genial, adjetivo este que Stan não fazia tanta questão de usar para com seus atores, também pudera, de todos os personagens das obras de Kubrick, o Humbert de Mason é o único com poder real de destroçar o coração do público, um raro momento onde o coração se sobrepõe ao cérebro dentro da carreira do cineasta e a culpa é exclusiva de Mason, ele transmite tanta dor, entrega, paixão, desespero e devoção que fica impossível não se condoer pelo seu Humbert, não é passível vê-lo como pervertido ou ter obscurecida sua aura de trágico herói romântico e jamais são usados artifícios baratos para que se consiga tal atmosfera, o exemplo máximo disso é ao final quando Humbert começa a chorar e o foco fica na reação de Lolita, enquanto Mason tenta se esconder, Kubrick faz o mesmo com sua câmera em relação a ele, qualquer cineasta ou ator ordinário adorariam um aguaceiro piegas, o que evidentemente não é o caso aqui.
I want you to live with me and die with me and everything with me. Ah… Suspiros eternos.

6- 20.000 Léguas Submarinas (20000 Leagues Under the Sea, Richard Fleischer, 1954)20,000 Leagues Under the Sea - Paul Lukas, Kirk Douglas, Peter Lorre & James MasonI am not what is called a civilized man, Professor. I have done with society for reasons that seem good to me. Therefore, I do not obey its laws. Lembro quando esse tipo de filme ainda passava na Sessão da Tarde, até O Mágico de Oz cheguei a ver quando a programação de tv era mais decente, hoje em dia nem os clássicos dos anos 80 passam mais… Imagino o quão fantástico era ir ao cinema em 1954 e dar de cara com uma aventura desse porte, presumo que tinha um peso semelhente com ir ver Guerra nas Estrelas em 1977, Indiana Jones em 1981 ou O Senhor dos Anéis em 2001, talvez até com um deslumbramento maior. Aqui Mr Mason é ninguém menos que Capitão Nemo com uma barba que cai-lhe muito bem e com o poder de fazer com que o sempre suspeito Peter Lorre pareça um cordeirinho ao seu lado. Se em meados dos anos 50 o temor era crescente sobre os perigos do mal uso da tecnologia, em tempos de ascenção da guerra fria e iminência de guerra nuclear, agora continua com a mesma atualidade, mas nem por isso o McG precisa fazer sua versão com um Will Smith ou um The Rock como Nemo. Ugh!

7- Os Amores de Pandora (Pandora and the Flying Dutchman, Albert Lewin, 1951)Ava Gardner & James Mason (Pandora and the Flying Dutchman)Perhaps you haven’t found what you want yet, perhaps you’re unfulfilled. Perhaps you don’t even know what you want, perhaps you’re discontented. Discontentment often finds vent through malice and destruction. Num dos mais memoráveis romances das telas, Mason e Ava Gardner se unem no segundo dos quatro filmes que fizeram juntos, a explicação para tantas parcerias é a inevitável química que possuiam em cena, dos quais o melhor casal sem dúvida é o formado por Pandora e seu holandês errante. É sim o filme mais bonito do qual Mason participou, tanto no sentido estético quanto no poético, possui deslumbrante fotografia de Jack Cardiff, texto primoroso baseado na mitologia, além de um sentido de fantasia, de fatalidade, do que é eterno e de beleza etérea com o qual estamos pouco ligados hoje. Um exemplo máximo onde Eros encontra Thanatos equitativamente sem perdas, nem danos.

8- Crescei e Multiplicai-vos (The Pumpkin Eater, Jack Clayton, 1964)The Pumpkin Eater (1964) - James Mason, Peter Finch, Anne BancroftPérola que só o cinema britânico dos anos 60 podia proporcionar. Logo depois de sua obra prima Os Inocentes, é a vez de Clayton nos satisfazer com mais um conto de uma mulher madura, só que agora trocando a histeria e o horror por crises conjugais, depressão e humor negro. Quem assume a tarefa é Anne Bancroft no que talvez seja o grande papel de sua carreira, apoiada não só por Mason com sua persona mais asquerosa, mas também por Peter Finch, Maggie Smith, Yootha Joyce e Sir Cedric Hardwicke em seu papel derradeiro.

9- Coração Prisioneiro (Caught, Max Ophüls, 1949)Caught (1949) - Barbara Bel Geddes & James MasonMesmo Caught sendo um melodrama, possui tratamento de filme noir e é a mão de Ophüls que faz toda a diferença. Enquanto Mason encarna uma das suas mais apaixonantes personas (algo que Ophüls lhe proporciou em dose dupla naquele ano), a personagem de Robert Ryan acaba roubando a cena com seu charme e excentricidade, no que  provavelmente seja o primeiro grande personagem intimamente baseado em Howard Hughes, Caught está para Hughes o que Cidadão Kane foi para Hearst. Ophüls foi responsável pela ida de Mason para Hollywood, logo depois o cineasta voltou para a Europa e nunca mais trabalharam juntos, uma pena, pois era passível de que formariam uma grande dupla a longo prazo, eles ainda planejaram uma outra parceria com a adaptação de La Duchesse de Langeais do Balzac contando com Greta Garbo como protagonista, mas que não deu certo, privando a humanidade de algo celestial que unisse Mason-Ophuls-Garbo-Balzac num mesmo letreiro.

10- Nasce uma Estrela (A Star Is Born, George Cukor, 1954)Judy Garland & James Mason (A Star is Born)l destroy everything l touch. l always have. É como Norman Maine que Mason mostra toda a sua grandiosidade como ator, conseguindo nos destroçar como nunca o fizera antes, sem jamais cair em obviedades expressivas que tanto fascinam os menos atentos. Judy Garland é grande na melhor das versões da história, mas Mason é gigantesco e estamos falando de um filme de George Cukor, por quem nutro um grande respeito, mas cuja lenda propaga que o cineasta cai aos pés de suas atrizes e esquece completamente de seus atores, portanto, se um Mason “desprezado” dá nisso, tenho medo do que seria um lembrado. De todos os grande momentos dele durante o filme, um me é especial, quando Maine está a rolar na cama decidindo seu fatídico ato seguinte, poucas vezes na vida pode-se ver um ator passando tanta dor e desespero, inclusive tal momento foi homenageado pelo duo Visconti-Berger no Ludwig de 1972. Mason é tão resplandecente e inesquecível neste seu papel mais emblemático e pelo qual é mais citado, que vire e mexe em qualquer parte do mundo alguém faz alguma imitação de James Mason bêbado, aliás, ele sempre foi um prato cheio para imitadores em geral (Jon Hamm? Eddie Izzard? Mason é deus, oras), por conta de seu timbre de voz e empostação únicas.

11- Quase um Criminoso (A Touch of Larceny, Guy Hamilton, 1959) A Touch of Larceny (1959)Ah, a comédia britânica dos anos 50! Ah, a comédia britânica de sempre! Mason nunca esteve tão charmoso e irresistível, essa sátira de espionagem da Guerra Fria é um exemplo perfeito do porquê Mason fora cotado para encarnar James Bond, justamente nas mãos do cineasta que nos daria o melhor filme daquele agente igualmente mulherengo e elegante. Além disso é a mais engraçada, inteligente, sexy e refinada comédia da qual participou.

12- Cinco Dedos (5 Fingers, Joseph L. Mankiewicz, 1952)Five Fingers (1952)Mason desta vez é um mordomo, no melhor estilo “Jeeves da espionagem”, baseado no lendário Elyesa Bazna. Muito me intriga tal homem ter rendido tão poucos exemplos cinematográficos, já que é uma personagem histórica fascinante, tudo bem que a personaficação de Mason seja definitiva tanto quanto o filme de Mankiewicz o é, mesmo com as devidas licenças poéticas hollywoodianas, mas um homem que mostrou o quanto o alto escalão nazista era amplamente estúpido ao saber de todas as informações sobre o Dia D e não usá-las, talvez pudesse render mais alguns grandes filmes de espionagem, assim como rendeu uma obscura série americana dos anos 60.

Cem anos de James Mason – Parte 2

Publicado em ANOS 40, ANOS 50, ANOS 60, ANOS 70, IMPRESSÕES, MUSOS por Adriana Scarpin em Maio 15, 2009

13- O Outro Homem (The Man Between, Carol Reed, 1953)The Man Between (1953) - James Mason & Claire BloomI can warm your feet for you. It’s a pity you can’t do anything about my heart. Mais um dos inesquecíveis tipos da galeria “sou canalha, mas sou legal” de Mr Mason. Tão bom quanto Odd Man Out e The Third Man, pode-se dizer que é o encerramento da trilogia sagrada de Carol Reed sobre a perda da inocência do homem adulto e a morte de seus ideais. Indispensável para quem gosta de thrillers eletrizantes, se passa na Alemanha pós-guerra e pré-muro, servindo-se de ação e tensão ininterruptas a partir da metade final, sempre marcado pelo estilo fotográfico do Reed e muito influenciado por Welles. E ainda descobrimos que Mason patina lindamente, mas afinal, o que ele fazia que não fosse lindamente?

14- Na Teia do Destino (The Reckless Moment, Max Ophüls, 1949)The Reckless Moment - Joan Bennett & James MasonYou have your family, I have my Nagel. Nesse segundo filme com Ophuls, Mason interpreta um canallha legal como ninguém mais sabia interpretar. Mason tinha esse dom dificílimo de se transformar do canalha mais repugnante ao ser humano mais apaixonante e vice-versa em pouco mais de uma hora de filme, era um desses atores que tinham esse domínio absurdo na manipulação do espectador. É bem estranho um filme desses estar numa décima quarta colocação, mas que culpa tenho eu se Mason era prolífico em demasia não apenas com filmes medianos, mas também em grandes obras?

A shot that does not call for tracks
Is agony for poor old Max,
Who, separated from his dolly,
Is wrapped in deepest melancholy.
Once, when they took away his crane,
I thought he’d never smile again.

- Ophuls por Mason

15- A Gaivota (The Sea Gull, Sidney Lumet, 1968)Seagull - Simone Signoret, James Mason, Vanessa Redgrave e David WarnerEstranhamente A Gaivota de Chekhov foi pouco adaptada para as telas na língua inglesa e mesmo sendo esta a transposição mais famosa, ainda é fulgorosamente desprezada. Trigorin obviamente é a parte de Mr Mason, mais uma vez dividindo cena com um membro da família Redgrave, Vanessa, onde impera absoluto um elenco que vai além de qualquer texto ou cineasta, complementado por Simone Signoret, Harry Andrews, Denholm Elliott, Eileen Herlie e David Warner. Tá bom, o texto ajuda esse povo bom a se encontrar e Lumet volta aos filmes teatrais num clima parecido com o que já fizera no excelente Longa Jornada Noite Adentro.

16- The London Nobody Knows (Norman Cohen, 1967)London Nobody KnowsEsse é um achado sensacional. Um documentário onde Mr Mason nos guia por todos os buracos londrinos dos anos 60, não é simplesmente narrado por ele e sim guiado de corpo e alma, Mason visita cada local e conversa com as pessoas, tornando este um dos mais interessantes documentos de uma cidade e época. Ainda passa pelo local de assassinato de Annie Chapman e que hoje virou uma garagem, mal sabia ele que pouco mais de dez anos depois voltaria às telas na pele de Watson para investigar aquele mesmo assassinato.

17- Los Pianos Mecánicos (Juan Antonio Bardem, 1965)Los pianos mecánicos (1965) James Mason, Didier HaudepinTiene que beber para escapar a la muerte. Mr Mason não trabalhou apenas com o tio do Ollie, ele também trabalhou com o tio do Javier. Tudo gira em torno das relações de habitantes de um hedonista vilarejo espanhol à beira mar, um refúgio de artistas e pessoas intensas e passionais, das quais Mason se insere magnificamente como um escritor alcóolatra rodeado de mulheres bem mais jovens e, como de costume, possuidor das melhores falas. O curioso é que se qualquer outro cineasta que não seja espanhol se aventurar a mostrar um ambiente libertário e passional dentro da Espanha, prontamente será acusado de estereotipar o país (Woody Allen, alguém?), mas se quem o faz é um cineasta espanhol tudo fica na boa, mesmo com um elenco internacional mesclando ingleses, gregos, alemães, japoneses, italianos e franceses. Como se não existissem pessoas hedonistas e passionais em qualquer lugar do mundo, como se fosse correto apenas transformar a Finlândia num país com seres de emoções intensas, acho que está mais do que na hora de parar com a palhaçada e assumir que países latinos formam emoções intensas como qualquer outro povo do mundo e isso nada tem de estereótipo.

18- O Farol das Ilusões (Thunder Rock, Roy Boulting, 1942)Thunder Rock - Michael Redgrave & James MasonEm seu seu primeiro trabalho mais profundo, Mason deu início à sina de contracenar com o clã Redgrave e a oportunidade de trabalhar sobre a batuta do amplamente subestimado Roy Boulting (que ao lado de seu irmão John formavam uma dinâmica estilo Coen brothers), um dos mais interessantes cineastas da golden age britânica. Neste filme abertamente anti-fascismo, Mason mais uma vez aparece como personagem chave sendo incumbido de ser o vínculo com a realidade da persona vivida por Sir Michael. É um filme complexo que permite várias interpretações, seja no contexto da segunda guerra mundial ou seja no psicológico, chega a ser difícil escolher o tipo de leitura que queremos fazer tamanha a quantidade de minúcias simbólicas espalhadas em cada pedacinho de imagem e palavra, o que nos faz lembrar que filmes políticos não são necessariamente isentos de poesia.

19- Viagem ao Centro da Terra (Journey to the Center of the Earth, Henry Levin, 1959)James Mason, Arlene Dahl, Pat Boone - Journey to the Center of the Earth (1959)Since the beginning of time all women have heard footsteps up there. Pronto, agora sim de volta aos bons tempos em que se fazia lava de vulcão com molho de tomate. Mason retorna ao mundo de Julio Verne, é a vez de encarnar o Professor Lidenbrock, um escocês maluco à la Indiana Jones, aliás, ele é o verdadeiro pai de Dr Jones e não o Sean Connery. A inspiração é gritante, tanto nos aspectos da personalidade de Sir Lidenbrock (o modo de tratar as mulheres e de dormir com o chapéu na cara levantando lentamente até que apareçam os olhos, o mesmo tipo de piadinhas, o fascínio e obssessão diante de descobertas históricas, mitológicas e científicas) quanto as óbvias referências visuais presentes em Caçadores da Arca Perdida (a pedra gigante rolando, o reflexo do sol marcando o local e até a trilha sonora de John Williams remetendo à portentosidade de Bernard Herrmann). O único problema do filme é quando o Pat Boone começa a cantar, por que o Conde comeu a Gertrude e não o Boone? Por que meu deus? POR QUÊ???

20- Georgy, A Feiticeira (Georgy Girl, Silvio Narizzano, 1966)Georgy Girl - Lynn Redgrave & James MasonNessa espécie de O Casamento de Muriel dos anos 60, Mason está ótimo como usual (tanto quanto Alan Bates e Lynn Redgrave) e encarna mais uma vez a sua persona de “dirty old man”, definição que não lhe faz muito juz, muito pelo contrário, em Georgy Girl ele está particularmente apaixonado e sensível. O que posso dizer? Esse exemplo nato do british new wave é uma fofura e tentou entrar na onda do que Richard Lester vinha fazendo pelo cinema britânico naqueles idos. A única dúvida que possuo é: o que diabos esse subtítulo nacional tem a ver com o filme???

21- Gente de Respeito (Gente di rispetto, Luigi Zampa, 1975)Gente di Rispetto - James Mason & Jennifer O'NeillNeste thriller político Mason é o poderoso chefão de uma cidadezinha siciliana, não no sentido mafioso mas no sentido de manipulação, ou seja, um prato cheio para suas nuances interpretativas. Um filme bastante intrigante, muito ajudado pela trilha de Morricone que o ajuda a manter um clima ao estilo de Investigação de um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita.

22- Amor na Sombra (Fanny by Gaslight, Anthony Asquith, 1944)Fanny by Gaslight - Margaretta Scott, James MasonAnthony Asquith, o homem, o mito! Um dos baluartes da golden age inglesa e que por dessas coisas da vida é tio-avô de Helena Bonham Carter. Sim, ele também serviu ao Gainsborough Studios e seus melodramas, mas um melodrama de Asquith não é algo ordinário e sim um desenvolto estudo da era vitoriana, sua hipocrisia e seus conflitos de classes sociais e é exatamente nesse complexo desenho de uma era em que entra o vastamente deslumbrante personagem de James Mason, um lorde que oscila entre o que é aristocrata e o que é marginal, entre a elegância e a sargeta, uma espécie de mistura entre Oscar Wilde e Marquês de Sade. Resumindo, quem segura as pontas e toma o filme para si é mais uma vez Mr Mason, mesmo com o seu criminosamente pouco tempo em cena.

23- A Idade da Reflexão (Age of Consent, Michael Powell, 1969)Age of Consent (1969) - JAMES MASON & HELEN MIRRENSe Helen Mirren continua com seu sex appeal intocável na faixa dos 60 anos, ela teve um grande professor em sua estréia como protagonista nas telonas, Mason, então na mesma faixa dos 60, mostrou ainda ser capaz de causar muitos suspiros nesta cinebio sobre o pintor e escritor Norman Lindsay, além de apresentar-se barbado, coisa que muito lhe cai bem. É um filme que marca muitas coisas, a mais triste delas é o fato de ser o longa final da carreira do lendário Michael Powell, um dos mais memoráveis cineastas que a Grã-Bretanha produziu, também marca o fim da espera de mais de 20 anos do sonho de Powell trabalhar com Mason, quando o cineasta ficara desesperado para tê-lo em Sei Onde Fica o Paraíso (I Know Where I’m Going! 1945). Em Age of Consent a personagem de Mason quer o corpitcho de curvas perfeitas de Dame Mirren para pintá-lo, o que obviamente irrita a personagem de sua avó prozaica, xexelenta e mesquinha, aí entra a real intenção de Powell para com o filme, mostrar a visão enrugada de certas pessoas para com o sentido da nudez. Se há 40 anos esse embate nudez versus sexualidade versus arte rendiam tantos equívocos, a situação atual é para lá de desesperadora, hoje mais do que nunca a nudez é irremediavelmente associada à sexualidade, fazendo com que toda a sociedade pareça um adolescente adorador de Onã. Esse é um dos muitos aspectos que comprovam uma estagnar da mentalidade mundana quando já deveriamos tratar a nudez de forma natural há muito tempo, um não saber diferenciar o exaltar da beleza do corpo humano com os pruridos sexuais da rapaziada, acarretando um tipo de censura e puritanismo execrável. Veja o próprio caso de Dame Mirren, ainda um símbolo sexual aos sessenta e poucos anos, ela não causa suspiros nos jovens e nos velhos porque apareceu nua em diversos filmes, ela se mantém sex symbol porque transborda sensualidade em cada movimento, em cada olhar, além de sempre tratar sua própria nudez de forma natural.

24- The Upturned Glass (Lawrence Huntington, 1947)The Upturned Glass (1947)I’ve always resented the fact that one can’t choose which patients to kill.
Não é preciso ser perito para ver o porquê Hitchcok queria Mason no papel que fora de James Stewart em Rope, especialmente ao vê-lo neste filme do ano anterior onde Mason relata cientificamente os seus próprios atos como criminoso, dividindo cena com sua esposa Pamela (que também ficou a cargo da roteirização do filme) como sua “suposta” vítima, o problema é que todas as teorias da personagem de Mason vão pra cucuia quando passa da teoria para a prática. Não estranharia se alguém elaborasse algum tipo de tese sobre a criminalidade no cinema só utilizando as personas criadas por James Mason, há todo tipo de perfil psicológico e social, ele é perito em vilões e anti-heróis, mas Mason não se repete, todos eles são minuciosamente distintos uns dos outros.
Reza a lenda que originalmente o mestre de Rope deixaria claro que tivera um caso com um dos seus pupilos, mas isso foi descartado depois de comprovada a indisponibilidade de Mason para o papel, sabe como é, as mariquinhas de Hollywood não tinham culhões para interpretarem homossexuais, ao menos Farley Granger e John Dall conseguiram transformar Rope no filme mais queer do velho Hitch.