O Heróico Covarde (Royal Flash, 1975)
Esse acabei de ver pela primeira vez, já que é tempo de repassar a nata setentista, notei que já era hora de me enveredar por este Richard Lester que vergonhosamente havia deixado passar batido. A vergonha não vem só do fato de Lester ser um dos meus diretores britânicos favoritos, mas do elenco, oh, o elenco! Malcolm McDowell, Oliver Reed, Alan Bates, Florinda Bolkan, Alastair Sim, Lionel Jeffries e Britt Ekland, o crème de la crème do cinema inglês setentista, à exceção de uma cearense perdida alí no meio.
Saído imediatamente dos seus dois primeiros filmes sobre os Mosqueteiros, Lester continuou no mesmo clima aproveitando para usar da obra de seu roteirista de seus filmes anteriores, George MacDonald Fraser, convenientemente o autor da série literária britânica protagonizada pelo personagem Flashman e que roteirizou aqui seu próprio livro. Flashman é um típico herói picaresco britânico aos moldes de Tom Jones de Henry Fielding, inspirado numa personagem da série de livros de Thomas Hughes, George MacDonald Fraser construiu uma saga distribuída por cerca de doze livros, dos quais apenas o segundo foi adaptado para o cinema.
O plot de Royal Flash concentra-se em mais uma homenagem literária, a de O Prisioneiro de Zenda escrito por Sir Anthony Hope, mas ao contrário de mostrar a fictícia Ruritânia como alvo da intriga política na substituição do monarca por um sózia, as traquinagens de Sir Harry Paget Flashman tem como set a Alemanha em estado de reunificação pelas mãos de Otto Von Bismarck. Está todo mundo lá, Bismarck, Lola Montez, Ludwig I e até a presença constante da música de Wagner por todo o filme que ajuda a tornar um tanto quanto assustadora a encarnação de Oliver Reed como Otto Von Bismarck. Mas a qualidade mais impressionante deste filme é a duplicação de Malcolm McDowell, cuja bipartição de personagens me fez cogitar a presença de um sósia do ator quando encarnando o príncipe encarcerado, tamanho o abismo entre suas personalidades.
Por que apenas um dos livros de Flashy foi adaptado para o cinema? Simplesmente porque não foi o sucesso esperado, ao contrário do que acontecera aos Mosqueteiros que guardam o mesmo clima, humor e ação, alguma coisa deu errado e Royal Flash afundou. O porquê ainda não me é muito claro, pois é realmente um filme de imensa diversão tanto quanto foram os Mosqueteiros e de forma alguma tornou-se datado, aliás, pudera eu ir ao cinema hoje e encontrar aventuras como essa num shopping qualquer.
Os Intrépidos Homens e Seus Calhambeques Maravilhosos (Those Daring Young Men in Their Jaunty Jalopies / Monte Carlo or Bust! 1969)
Monte Carlo or Bust é um daquelas reincidentes comédias de corrida que lotaram a cultura pop nos anos 60 e que muito tem a ver com a Corrida Maluca. O diretor Ken Annakin, habitué da Disney e rei dos filmes com títulos que fazem a circunferência terrestre (vide Those Magnificent Men in Their Flying Machines or How I Flew from London to Paris in 25 hours 11 minutes), acabara de vir de seu maior sucesso Esses Homens Maravilhosos e suas Máquinas Voadoras e se embregou nessa continuação, cujo mote é ligado pelo personagem de Terry Thomas, sendo filho da personagem que interpretou no filme anterior. Marcam presença também Tony Curtis que já é normalmente lindo, mas de costeletas ficou melhor ainda, além de ícones europeus como Bourvil, Gert “Goldfinger” Fröbe, Jack Hawkins, Eric Sykes, Peter Cook e Dudley Moore roubando a cena, para variar.
Na verdade não gosto de nenhum dos dois filmes, qualquer um deles me deixa com uma inevitável cara de paisagem ao final, mesmo com um ou outro momento realmente divertido. Sem mencionar que o nome do diretor me faz invariavelmente lembrar de Star Wars, nessa mistura de Obi Kenobi com Annakin Skywalker.
O Caçador de Tigres (Where East Is East, 1929)
Where East Is East é um conto de obsessão sexual e estranhamente quem rouba o filme não é Chaney nem Velez, o grande atrativo é a insinuante Estelle Taylor no papel da vaca-mor vietnamita e mãe que quer a todo custo roubar o namorado da filha, com ela aprendendemos o significado primordial da expressão “soltar a macaca” e temos uma das amostras bizarras de como Tod Browning gostava de tratar suas antagonistas maquiavélicas com finais pouco convencionais, vide Olga Baclanova em Freaks. Outro grande achado sobre obsessão sexual no filme é a “dama de companhia” da personagem de Estelle Taylor, claramente apaixonada pela patroa no melhor dos moldes Rebecca – A Mulher Inesquecível.
Confesso que esperava mais de uma parceria entre Tod Browning e Lon Chaney. Browning e Chaney eram o típico duo de diretor-ator feitos um para o outro, este foi o último filme que fizeram em parceria e infelizmente é pouco inesquecível, mesmo o fato de Chaney ser o rei eterno da maquiagem não lhe fez justiça aqui, aparentemente mostrando sua verdadeira face camuflada por inúmeras cicatrizes no rosto em um tipo de maquiagem bem mais sutil do que seu habitual. Quando morreu de câncer Chaney se preparava para estrelar Frankenstein e Drácula novamente ao lado de Bowning, a verdade é que depois da morte de Chaney foram poucos os filmes dirigidos pelo cineasta, como se verdadeiramente tivesse perdido seu muso inspirador.
Nota 1: Entre alguns dos filmes da parceria Browning/Chaney estão A Oeste de Zanzibar, o mitológico London After Midnight, The Big City, O Monstro do Circo, The Unholy Three (versão de 1925), The Road to Mandalay, The Blackbird e Foras da Lei. É nisso que dá a união de um dos melhores atores do cinema mudo com um dos melhores diretores.
Nota 2: Boris Karloff tinha uma face que muito lembrava a de Lon Chaney, talvez por isso (mais do que o famoso formato da cabeça de Boris) tenha sido a escolha imediata para viver Frankie. Quanto à transferência de Lon para Bela, também não é preciso conjecturar em demasia para se constatar que Chaney seria algo mais assustador vide o que restou do filme perdido London After Midnight.
Nota 3: Estelle Taylor foi a última pessoa a estar com Lupe Velez antes desta cometer suicídio em 1944.
Batman – O Filme (1966)
Afinal, quem precisa daquela gente chata e sem talento que pouco amo como Michael Caine, Gary Oldman, Maggie Gyllenhaal, Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Morgan Freeman, Cillian Murphy, Nestor Carbonell ou Christopher Nolan? O bigode indecente do Cesar Romero aparecendo por baixo da maquiagem é o ápice. De verdade, este é um dos melhores e mais engraçados seriados de todos os tempos.
O Gaúcho ( The Gaucho, 1927 )

Depois da morte de Rudy (Rodolfo Valentino para os não-íntimos) quem mais poderia interpretar um gaúcho macho-cho-cho? Douglas Fairbanks pai, é claro. Fairbanks era um daqueles tipos hiperativos, algo como se fosse o Jackie Chan dos anos 20, podendo ser clamado como primeiro grande herói de ação do cinema. Em O Gaúcho não era diferente, já com seus 45 anos ainda saltitava como um garotinho.
O filme começa como um épico religioso que muito se assemelha com a história de Santa Bernardete de Lourdes (é, adoro histórias sobre santos, meu favorito é São Francisco de Assis, claro), mas basta Fairbanks dar o ar de sua graça para voltarmos à boa e velha fórmula de comédia e aventura permeada por seu carisma indiscutível. Fairbanks é o fora da lei Gaucho que atravessa a América do Sul com seu enorme bando de comparsas saqueando vilarejos pelo caminho, até encontrar uma pequena vila religiosa nas mãos de um daqueles ditadores velhos conhecidos nossos que enfestaram o continente durante o século XX e que se parecem muito a vilões saídos das histórias do Zorro. É aí que nosso anti-herói conhecerá a rendenção e passará a ver um mundo com muito mais empatia e menos afetação.
Segue os moldes do Ben Hur de Fred Niblo, com sua boa dose de religiosidade para esconder uma magnífica aventura bem dosada em cenas de ação, comédia, drama e romance. O romance fica por conta da super-espevitada diva mexicana Lupe Velez no seu primeiro papel importante em Hollywood, ao contrário do que acontecia na época, Velez personifica um tipo de heroína feminista que sai no braço com qualquer homem sem perder a feminilidade, clama por justiça quanto a maridos que espancam as mulheres e lidera uma gangue de bandidos para socorrer o homem amado, uma personagem que poderia constar em qualquer estudo sobre a emancipação femenina do século XX. Enquanto isso, a religião é dividida entre os papéis de Eve Southern, Nigel De Brulier e a participação não-creditada da então esposa de Fairbanks e namoradinha da America, Mary Pickford, como a Virgem Maria. É sim uma daquelas aventuras imperdíveis que só a primeira metade do século poderia produzir e que fazia a felicidade do povo.
Nota: As postagens dos próximos dias/semanas serão programadas, por isso não se preocupem se comentários não forem moderados.














