Não Toque na Mulher Branca (Touche pas à la Femme Blanche, 1974)
Mastroianni para Deneuve: Você me lembra a Maureen O’Hara em E o Vento Levou (!?!).
Não tem Paul Newman, nem Joel McCrea ou Keith Carradine, o melhor Buffalo Bill do cinema é Michel Piccoli!!!
Ugo Tognazzi é um índio, Marcello Mastroianni é o General Custer, Serge Reggiani é o índio careca e maluco, Alain Cuny é o Touro Sentado e o pai do Piccoli é pai do Touro Sentado, enquanto um antropólogo comilão parece ter saído diretamente de La Grande Bouffe saracotenado no velho oeste em plena Paris e isso tudo sob a batuta do presidencialíssimo Richard Nixon. Mais um desses divertidíssimos tratados de Ferreri sobre a política internacional, academicismo e cultura de massa, não servindo apenas para os anos 70.
O Heróico Covarde (Royal Flash, 1975)
Esse acabei de ver pela primeira vez, já que é tempo de repassar a nata setentista, notei que já era hora de me enveredar por este Richard Lester que vergonhosamente havia deixado passar batido. A vergonha não vem só do fato de Lester ser um dos meus diretores britânicos favoritos, mas do elenco, oh, o elenco! Malcolm McDowell, Oliver Reed, Alan Bates, Florinda Bolkan, Alastair Sim, Lionel Jeffries e Britt Ekland, o crème de la crème do cinema inglês setentista, à exceção de uma cearense perdida alí no meio.
Saído imediatamente dos seus dois primeiros filmes sobre os Mosqueteiros, Lester continuou no mesmo clima aproveitando para usar da obra de seu roteirista de seus filmes anteriores, George MacDonald Fraser, convenientemente o autor da série literária britânica protagonizada pelo personagem Flashman e que roteirizou aqui seu próprio livro. Flashman é um típico herói picaresco britânico aos moldes de Tom Jones de Henry Fielding, inspirado numa personagem da série de livros de Thomas Hughes, George MacDonald Fraser construiu uma saga distribuída por cerca de doze livros, dos quais apenas o segundo foi adaptado para o cinema.
O plot de Royal Flash concentra-se em mais uma homenagem literária, a de O Prisioneiro de Zenda escrito por Sir Anthony Hope, mas ao contrário de mostrar a fictícia Ruritânia como alvo da intriga política na substituição do monarca por um sózia, as traquinagens de Sir Harry Paget Flashman tem como set a Alemanha em estado de reunificação pelas mãos de Otto Von Bismarck. Está todo mundo lá, Bismarck, Lola Montez, Ludwig I e até a presença constante da música de Wagner por todo o filme que ajuda a tornar um tanto quanto assustadora a encarnação de Oliver Reed como Otto Von Bismarck. Mas a qualidade mais impressionante deste filme é a duplicação de Malcolm McDowell, cuja bipartição de personagens me fez cogitar a presença de um sósia do ator quando encarnando o príncipe encarcerado, tamanho o abismo entre suas personalidades.
Por que apenas um dos livros de Flashy foi adaptado para o cinema? Simplesmente porque não foi o sucesso esperado, ao contrário do que acontecera aos Mosqueteiros que guardam o mesmo clima, humor e ação, alguma coisa deu errado e Royal Flash afundou. O porquê ainda não me é muito claro, pois é realmente um filme de imensa diversão tanto quanto foram os Mosqueteiros e de forma alguma tornou-se datado, aliás, pudera eu ir ao cinema hoje e encontrar aventuras como essa num shopping qualquer.
Repassando Jake Kasdan
Sempre rola os filhos de não-sei-quem que acabam por seguir a mesma carreira dos pais, Jason Reitman já provou ser melhor que o pai Ivan, mas façamos justiça: o filho do Lawrence também têm as manhas. Antes de se embrenhar em um dos filmes mais bisonhos da história (O Apanhador de Sonhos, qual mais?), papai Lawrence Kasdan fora um cara de respeito, além de ajudar George Lucas a colocar as coisas nos eixos com os roteiros de O Império Contra Ataca, O Retorno de Jedi e da obra prima Caçadores da Arca Perdida, tio Larry pode entrar não somente na galeria de estréias mais auspiciosas com o neo-noir Corpos Ardentes, como o mesmo não faz feio ao colocá-lo nas listas de melhores filmes daquela década. E nessas considerações, foi assim que escolhi 3 pequenas jóias para uma visão geral do rebento Kasdan:
Efeito Zero (Zero Effect, 1998)
Assim como a estréia de papai em Body Heat garantiu sua obra prima a qual nunca foi ameaçada pelos filmes posteriores, o mesmo aconteceu com Jake e seu Efeito Zero na estréia como diretor, produtor e roteirista. Uma dessas pequenas pérolas que só o sangue novo do fim dos anos 90 sabia produzir, Efeito Zero é um objeto de culto para meia dúzia de pessoas e fonte maior dos labirintos indagatórios do porquê diabos Jake foi tão pouco aproveitado nos últimos 10 anos.
Por coincidência ou não, Efeito Zero também é um neo-noir, um neo-noir com humor extremamente sofisticado e subversor do gênero, apostando na excentricidade de seu detetive protagonista interpretado por Bill Pullman (num papel que só rivaliza em sua carreira com o de A Estrada Perdida), numa mistura de Nero Wolfe com Sherlock Holmes, inclusive não ficaria espantada se me dissessem que as nuances gerais do seriado Monk tivessem sua cota de furto extraídas de Efeito Zero, não me espantaria nem que House, suas investigações e aversão a pacientes tivesse Zero como seu ponto… zero. E sim, trocadilhos infames são mais fortes que a minha vontade.
Um Elenco do Barulho (The TV Set, 2006)
É uma espécie de Rede de Intrigas contemporâneo do mundo dos seriados, dolorosamente autobiográfico, Jake aponta o dedo na cara de sua própria experiência com seriados de TV e deixa algumas pistas sobre tantos outros, ou será mera coincidência o ator principal do show atender pelo nome de Zach e cujo roteiro nos remete imediatamente ao primeiro longa de Zach Braff?
A alma gêmea intelectual de Jake está presente de corpo e alma na caracterização que Duchovny fez de Judd Apatow, este que é o mais respeitado roteirista cômico americano da atualidade. Também não há como deixar de lembrar da própria Faye Dunaway em Network toda vez que Sigourney Weaver entra arrasando em cena, mesmo porque dona Weaver entende do assunto já que seu pai foi presidente da NBC durante anos.
Um amargo grande pequeno filme que precisa mesmo ser descoberto, principalmente pelos fãs de Efeito Zero, este que foi revitalizado como Piloto de uma possível série de TV em 2002, mas que não foi aprovado pela mesma NBC de sempre. Ah, a mesma NBC de Monk… Bastardos.
A Vida é Dura – A História de Dewey Cox (Walk Hard: The Dewey Cox Story, 2007)
A primeira coisa a ser citada quanto a este filme é John C. Reily. Reily é um dos melhores atores de sua geração, quase ninguém o conhece pelo nome, mas todo mundo sempre vai recordar de algum papel que interpretou, possivelmente um dos seus losers natos. E quantas pessoas de 43 anos podem ser suficientemente convincentes ao interpretarem um garoto de 14 anos? Eu sei, nenhuma. Nem ele.
Recorrendo a inestinguível parceria com Judd Apatow, Kasdan pode não ter atinjido a excelência de The Set TV ou Efeito Zero, mas para os padrões da mediocridade cômica que o cinema tem vivido nos últimos anos ganha alguns pontos, onde todo e qualquer clichê sobre cinebiografias de rockstars são levados ao cume do absurdo, está tudo lá: Walk The Line, The Doors, Quase Famosos, Elvis, Don’t Look Back, Submarino Amarelo, A Fera do Rock, Ray, Tina, Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, ou seja, quase o paraíso para os amantes do bom e velho Rock and Roll. Embora as cenas não funcionem em conjunto tanto quanto isoladamente, ainda é uma boa pedida, especialmente se levar em conta as participações
antológicas de Jack White como Elvis Presley, o sensacional discurso final de Eddie Vedder (Iggy Pop é Matusalém?), Jack Black como Paul McCartney (!!!), Justin Long como George Harrison, Paul Rudd como John Lennon e Jason Schwartzman como Ringo Starr. Ó céus, como amo o Jason Schwartzman.
Nota 1: Sejamos francos, Jake escreve melhor longe do Judd Apatow, aliás, Jake Kasdan é o típico cineasta que trabalha melhor sozinho, tanto em The Set TV quanto em Efeito Zero ele teve controle como roteirista solo, diretor e produtor, de longe seus melhores filmes. Apatow é um excelente amigo-muso-inspirador, mas como colega de trabalho ele extingue as melhores características de Jake.
Nota 2: Curiosidade Californicatiana, a Lolita sociopata de Californication, Madeline Zima, é uma das “Slut Wars” em The TV Set, assim como a Dani California cita as tais “Slut Wars” num episódio do seriado. Slut Wars seria algo como um Big Brother com moças de biquini, o que não difere muito do original, é claro.
Arquivo X: Jose Chung’s From Outer Space (The X-Files, 1993-2002)
Depois da decepcionante volta aos cinemas do meu, do seu, do nosso “Spooky” Mulder, nada mais prazeroso do que lembrar os melhores momentos do mais sensacional episódio do seriado, o totalmente alucinado e cômico Jose Chung’s From Outer Space. O que mais me deixa frustada quanto ao seriado, foi o fato do roteirista deste entre outros dos melhores episódios, Darin Morgan, ter escrito tão pouco. O meu segundo episódio em preferência é o não menos infame e também escrito por Morgan, War of the Coprophages, no melhor estilo “O ataque das baratas assassinas do espaço sideral”. Há outros do Morgan de que gosto bastante como aquele com a participação impagável de Peter Boyle, Clyde Bruckman’s Final Repose, uma outra grande homenagem ao cinema só que agora pendendo mais para o cinema mudo, ou ainda aquela declaração de amor a Tod Browning no episódio Humbug com direito àquele maldito anão de Twin Peaks e Carnivale.
Ok, Dana é ótima, mas não preciso pensar duas vezes para entender que sempre fora meu companheirinho arquetípico a chamar minha atenção e que Fox Mulder é o segundo melhor agente do FBI da cultura pop, só perdendo para o eternamente inatingível Dale Cooper de você-sabe-qual-série. O complemento de Scully e Mulder não é só necessário para arrematar a narrativa, como foi essencial para que a série fizesse sucesso com a perfeita união do manter os pés no chão de Dana para com Fox e o abrir de mentes de Fox para com Dana, algo que deveria ser mais comum no nosso dia-a-dia, mas que infelizmente pouco acontece por mero preconceito, superficialismo e crença em verdades absolutas.
Arquivo X foi uma das pouquíssimas séries que conseguiu prender a atenção do meu irrequieto espírito juvenil, não a ponto de acompanhá-la religiosamente, mas ao menos de lembrar de ligar a tv para assistí-la nas noites em que era exibida na Rede Record. É também o segundo melhor seriado americano dos anos 90, só perdendo para aquele você-sabe-qual e com lugar cativo naquela galeria seleta de culto de ficção científica ao lado de Jornada nas Estrelas no passado ou atualmente Lost. Seriados de grande sucesso hoje como Heroes, Lost, 4400, Supernatural muito devem a Arquivo X, este seria quase como o objeto de transição entre tais seriados e coisas passadas como Twilight Zone, Invaders, Kolchak (o original) e Alfred Hitchcock Presents.
Arquixo X estruturou-se de forma peculiar, alternando episódios que seguiam uma lineariedade factual sobre alienígenas e outros episódios isolados sobre outros mitos como pé grande, vampiros, lobisomens, zumbis, bruxas etc, mas o grande mistério essencial da série girava mesmo em torno dos alienígenas e a invasão dos mesmos no Planeta Terra.
O seriado é uma grande homenagem ao cinema B de ficção científica e horror, o clima de constante paranóia que assolou o gênero nos anos 50, de Don Siegel a Jack Arnold até o mais puro e delicioso trash a lá Gerardo de Leon, Bert Gordon, Roger Corman e Kurt Neumann, não deixando de avançar em homenagens claras à John Carpenter, Steven Spielberg, Tod Browning, James Whale (no também sensacional The Post-Modern Prometheus), Alfred Hitchcock, Nicolas Roeg, e Ridley Scott dos bons tempos, entre outros, especialmente em torno de Silêncio dos Inocentes, cujo personagem de Jodie Foster serviu como molde para o de Gillian Anderson, com sobras até para o melhor cinema conspiratório como Todos os Homens do Presidente, JFK, Sob o Somínio do Mal, A Conversação, Blow Out e Up. Até A Última Tentação de Cristo e Rashomon acabam por ter o seu pedaço desso bolo gigante, no caso do último através do vampiresco e ótimo Bad Blood.
O que me faz gostar tanto do Mulder é sua mente aberta sem nunca deixar de ser desconfiado e lógico, muito de qualquer tipo de iconoclastia é vulgar e irracional, pelo simples fato de tentar “debunkar” algo, de que é necessário uma prova irrefutável, mas tal prova não é encontrada também do contrário, muitas vezes esses mesmos que se proclamam tão racionais são os de atitude mais ilógicas e beirando ao fanatismo, particularmente não vejo distinção alguma entre um fanático religioso e um fanático cético, ambos estão tão imersos em suas próprias verdades que não conseguem ver nada além de seus umbigos, cá entre nós não dá para chamar de racional e lógico alguém que defente ferrenhamente a inexistencia de qualquer coisa sem as mesmas provas que este tipo de mentalidade tanto proclama.
O Mulder é lógico, mas para os padrões gerais ele é um “spooky” porque não ousa fechar sua mente para possiblidade alguma, acredita em tudo até que lhe provem o contrário, porque apesar da verdade estar lá fora, é bem difícil conseguir enxergá-la.
Nota 1: Sabe o que é mais estranho ao ver aquele longa praticamente uma década depois? É que justamente agora quando finalmente David Duchovny havia sublimado a aura de Fox para o público e se convertido no inesquecível Hanky Moody, o desgraçado volta ao Spooky. Por falar em Hank Moody, cadê a segunda temporada de Californication, jesuis?
Nota 2: O número do apartamento em que Mulder morava era 42. Claro.
Nota 3: Também nunca é tarde para relembrar a união dos dois melhores agentes do FBI dos anos 90 em Twin Peaks: Dale Cooper e Fox Mulder, no caso do último, ele ainda era da Narcóticos, travesti e dava uns apertos na Laura Palmer, o que não deixa de ser ainda mais memorável.
Nota 4: Eu juro que vi o John Locke e o Benjamin Linus em Arquivo-X. Eu Juro. Terry O’Quinn teve a petulância de interpretar 3 personagens diferentes durante a série, todos devidamente abigodados, incluso no longa de 1998 quando descobrimos onde arranjou aquela mania estranha de explodir tudo para um “bem maior”. E, céus, Michael Emerson foi um telecinético. O bacana é que o Locke é uma espécie de Fox Mulder de Lost, enquanto o Ben é tão memorável quanto o até então melhor vilão dos seriados de sempre: o Canceroso. Vai ver por isso são os meus preferidos.
Nota 5: Darin Morgan, o roteirista dos melhores episódios do seriado não foi apenas o mais inesquecível na escrita, ele também encarnou o tipinho mais repugnante e impressionante das nove temporadas: o Homem-Platelminto Mutante. Depois Morgan acabou voltando como ator no ótimo Small Potatoes, onde passava a perna no Fox e chegou mais perto da Scully do que ele em todos aqueles anos.
Nota 6: E um dos melhores episódios dos Simpsons, The Springfield Files, contém além das literais participações de Fox e Dana, foi apresentado por ninguém menos que Leonard Nimoy e com direito a participação velada do Canceroso. Ambos os seriados iam ao ar nas noites de sexta na Fox e a homenagem foi retribuída em Arquivo X na forma de um empregado de uma Usina Nuclear que ficava dormindo no serviço e atendia pelo distintíssimo nome de Homer.



