Cem anos de Sadao Yamanaka
É quase impossível localizar a importância do cinema de Yamanaka de forma precisa, justamente porque apenas três dos seus dezenas de filmes podem ser vistos hoje, mas é consensual de que foi um dos mestres construtores do jidaigeki em seu princípio – coisa que pode ser facilmente notado apenas assistindo Ninjo Kami Fusen (1937), Kōchiyama Sōshun (1936) e Tange Sazen Yowa (1935), mas em que pé está a influência de quem para quem nessa história é impossível dizer, pois o número de filmes perdidos é demasiado grande para ser ignorado, embora Kurosawa nunca deixasse de mencionar Yamanaka como uma de suas maiores influências, enquanto o jovem roteirista-convertido-diretor Sadao andasse de braços dados com Ozu, Inagaki e Mizoguchi naqueles anos 30.
Ao final da mesma década, um dos mais promissores e brilhantes cineastas de uma geração foi para a guerra e não retornou, morrendo de disenteria aos 28 anos – isso que é tragédia ou tão tragicômico quanto o próprio cinema de Yamanaka, ou do que restou dele.
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Tange Sazen Yowa: Hyakuman Ryo no Tsubo / The Pot Worth a Million Ryo (1935)


Este foi o primeiro filme que vi de Yamanaka e imediatamente me proporcionou um tipo de adoração cinéfila comparável ao que sinto vendo o trabalho de Chaplin ou Lubitsch, é deliciosamente poético e engraçado, até icônico, construindo e evidenciando pequenos detalhes que fazem a alegria de qualquer cinéfilo: um samurai caolho e sem braço (Sazen Tange), uma peça de roupa como transição, um leitmotif verbal que serve como descontrução da própria cultura nipônica, o manekineko essencial… É tudo um encanto, puro e simples.
Kochiyama Soshun / Priest of Darkness (1936)


O gênero jidaigeki se apóia nas tradições acima de tudo, mas cada cineasta é facilmente singularizado pelas suas preferências em mostrá-las, Yamanaka gostava mesmo de bebedores de saquê, a embriaguez é um ponto constante no seu cinema mais do que qualquer outra reiteração da cultura tradicional japonesa, é sempre a partir do kampai que as coisas começam a se desenrolar em seus filmes, se é que se poder analisar tal coisa conhecendo apenas três deles. Kochiyama Soshun é o que menos gosto, o que não é nenhuma tragédia, se aproxima dos dilemas morais e composição de Ninjo Kami Fusen, mas sem a mesma intensidade.
Ninjo kami fusen / Humanity and Paper Balloons (1937)


O mais melancólico e conhecido rebento sobrevivente de Yamanaka San. Particularmente considero Tange Sazen Yowa sua maior obra prima, mas o lirismo que aqui está envolto em harakiris recorrentes, ronins desacreditados, amantes em fuga, esposas decepcionadas e balões de papel não pode passar desapercebido.
Links sobre o cinema de Yamanaka pela internet:
Ninjo kami fusen (1937)
Retroprojecção
Nihon Cine Art
Midnight Eye – The Latest and Best in Japanese Cinema
The Taste of Cinema
Wildgrounds
The Masters of Cinema Series
Cacophone
Arsenevich
Strictly Film School
Lard Biscuit Guide to Samurai Cinema
Someday I’ll Think of A Title – Exactly what the title just said
Some Words Some Places
Narrative In Japanese Film 3: Yamanaka
DVD Outsider
YouTube (filme completo com legendas em inglês)
Kochiyama soshun (1936)
Cinema Talk – Film-related blabbering…
The three-film universe of Sadao Yamanaka
Tange Sazen (1935)
Cinema Talk
Lard Biscuit
Hkmania – Le Blog – La Passion du Cinéma Asiatique
Wildgrounds – Treasures of Asian Cinema
Cineblog
Some Words Some Places – Japanese and Chinese Film Reviews
Rare Classics of Japanese Cinema
Roslindale Monogatari – Rambling observations of a Roslindale fan of Asian films
Freak Movie Team – Cine Oriental y Asiático
Film Preservation Society
Cem anos de Elia Kazan – Parte 1
Dale Bennett escreve roteiros cinematográficos e era, naquela época, um dos meus melhores amigos. Ganhou uma vez um prêmio da Academia e, mais cedo ou mais tarde, alguém acaba sempre por lhe dar um emprego, apesar de aquilo que escreve ser dez anos antiquado, mesmo para Hollywood. No entanto, está inteiramente convencido de que seu talento é fantástico e insulta os críticos e produtores que são a favor da Nouvelle Vague, da fotografia desfocada, da filmagem invertida e dos cortes abruptos. Estes homens, diz ele, dão mais valor à forma que ao conteúdo; ele é o “conteúdo”. O Compromisso – Elia Kazan, o romancista.
Kazan não é dos meus queridos. Nenhum dos seus filmes está entre os meus favoritos. Nem a sua literatura é a das que me causam compulsão. O fato é que cultivei certa obsessão por Kazan durante algum tempo porque ele é uma daquelas figuras que me fascinam, um párea, um cara que passou décadas sendo espezinhado publicamente por coisas que nada deveriam afetar no julgamento da sua criação artística, mas que proporcionalmente levaram-no à criação. Assistindo seus filmes, lendo seus livros e assimilando suas entrevistas podemos facilmente entender o tipo de mentalidade que Kazan carregava e absorver o quão admirável era este homem, afinal, não é preciso pensar igual para se chegar num estado de compreensão, respeito e admiração.
1- Sindicato de Ladrões (On the Waterfront, 1954)
On the Waterfront is a history of informing where it seems like the greater good, despite the fact it goes against the code of community. The script was based on a set of real events which had nothing to do with my involvement with the Communist Party or the information I later gave to the House Un-American Activities Committee. Those fellows in Waterfront were criminals. It was based on the life story of a guy named DiVicenzo, who I knew, whose house I ate at. He live through the same goddamn thing that Terry Malloy goes through in the film. The waterfront was a gangster-dominated, ritualized, Mafia-coded society where no one ever said who said who was brutalizing them. Even when they knew who killed somebody, nobody ever talked. That was absolutely a valid story of the waterfront. But when people said there are some parallels to what I had done, I couldn’t and wouldn’t deny it. It does have some parallels. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
Até queria sair do lugar-comum e tentar gostar mais de qualquer outro filme do Kazan, mas Sindicato de Ladrões é mesmo o melhor. Está tudo no lugar certo, na hora certa: Brando possivelmente criando o melhor personagem de sua carreira, a jaqueta, Malden e seu padre badass, os pombos, Budd Schulberg dando aula de escrita, Eva Maire Saint deixando Hitchcock deprimido, Steiger & Cobb, mea-culpa e realismo por parte de Kazan.
2- Um Rosto na Multidão (A Face in the Crowd, 1957)
Theoretically, I think one man should make a picture. But in rare case where an author and a director have had the same kinds of experience, have a same kind of taste, the same historical and social point of view, and are compatible as Budd and I are, it works out perfectly. (Elia Kazan Interview – Michel Ciment, 1974)
Existem cinco inegáveis grandes obras sobre meios de comunicação e manipulação: Cidadão Kane, Network, A Montanha dos Sete Abutres, Adorável Vagabundo e Um Rosto na Multidão, todos passam longe de resultados melodramáticos, muito pelo contrário, todos se atêm à acidez de um cinismo quase-cômico, mas foi Kazan quem legou o mais cruel dos desenlaces. Com o recém falecido Budd Schulberg voltando à bem sucedida parceria com Kazan que deu origem a Sindicato de Ladrões, nos é entregue um filme que poderia ser tão bom quanto aquele, mas que não chega a isso por falta daquele peso pessoal que incrustou toda a alma do diretor em Sindicato de Ladrões.
3- America America (1963)
America America may be a legend, but it’s not a fairy tale. This is the truth. Nobody makes pictures about that class of people, about their way of thinking and their values. America America really captured another civilization. It’s my favorite of all the pictures I’ve made. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
America, America está para gregos o que O Poderoso Chefão está para os italianos, não apenas na teoria como na prática, pois é evidente a influência do filme de Kazan na saga siciliana do Coppola e muito se deve ao tipo de relação que os povos mediterrâneos têm com suas famílias. De todos seus filmes, este era o preferido de Kazan, ele escreveu o livro sobre o que levou toda a sua família para os EUA, adaptou o roteiro e filmou, tudo que o transformou numa obra única e exclusivamente do diretor, pessoal e artisticamente é o seu grande legado. Além da habitual reiteração sobre integridade que encontramos como tema em todos os filmes do grego expatriado, a relação familiar é expandida e é explicado porque o laço sanguíneo tornou-se também um dos seus mais queridos pontos de reflexão.
Também fica claro o quanto Kazan era encantado com o que rolava no cinema europeu em termos de linguagem, chega a ser estranho ouvir os atores falando inglês, o diretor foi um grande assimilador, tudo que ele fazia estava em perfeita sincronia com movimentos do cinema ao redor do mundo e aqui não é diferente. Como diretor de teatro talvez tenha sido mais revolucionário do que qualquer outro nos EUA durante o século XX, especialmente por ter incentivado e introduzido o método do Actor’s Studio nos meios teatrais, atitude essa que poucos anos depois fez questão de repetir em seus filmes, ajudando a delinear os rumos da atuação dos últimos 60 anos em qualquer país do mundo, seja no teatro, no cinema ou na televisão.
4- Viva Zapata! (1952)
The competition between Brando and Quinn was wonderfully fruitful and creative. By the way, there’s nothing wrong with actors competing, as long as they’re competing to be good and not to be stars. In fact, I sometimes try to arouse competition. For example, I often praise an actor openly. Thats makes every actor on the set want the same praise. It’s nice to tell them they were good when they do something well. It makes them want more. After all, they’re hanging on you. They can’t see themselves. So when they deserve praise I always articulate it. I don’t believe in playing cool. One beautiful thing about actors is that they’re so exposed. They’re not being criticized only for your behavior, but for their legs and breasts, for their double chin; their whole being is exposed to criticism. How can you not embrace them and how can you feel anything but gratitude toward these people? I like actors and I believe my films show it. You look at them and see what whoever directed them likes actors. (Kazan: The Master Director Discusses his Films) E Kazan vai ao oeste. Ou ao sul, depende do ponto de vista. Antes eu não gostava muito desse filme, mas depois de uma revisão uns tempos atrás, coloquei o rabinho entre as pernas e hoje assumo que é mesmo um grande filme, especialmente por todas as cenas de assassinato presentes nele – Kazan foi brilhante em todas elas, podendo ser incluso entre os melhores westerns dos anos 50. Além do mais, possui a maior e melhor coleção de bigodes já vista numa tela.
5- Clamor do Sexo (Splendor in the Grass, 1961)
It was the easiest picture I ever made because the script was good. It was pure and simple. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
Esse é mais um dos filmes cujo tema é homossexualismo, mas que foram camuflados com personagens heterossexuais. O roteirista/dramaturgo William Inge foi inspirado em suas próprias experiências na adolescência em reprimir e esconder sua sexualidade durante os anos 20, assim como a personagem de Natalie Wood detêm traços semelhantes à personalidade do autor, especialmente quanto a colapsos nervosos e tendências suicidas. O primeiro roteiro original escrito pelo dramaturgo é um grande texto que foi facilmente convertido em uma grande obra cinematográfica por parte de Kazan, o resultado é acima da média e Kazan tem o seu ápice no melodrama, atingindo o mesmo nível de Douglas Sirk e o uso que faz do technicolor é indispensável para isso.
6- Os Visitantes (The Visitors, 1972)
I wanted to make the scene strong, but I didn’t want to make an entertainment out of blodletting. So I had the car fill three-fourths of the screen and built up the sound of fight. Then I cut to the door of the house, where Martha was struggling with Tony. I use a lesser act of violence to suggest the much more savage violence that was going on behind the car. (Kazan: The Master Director Discusses his Films) E Kazan se adapta ao cinema dos anos 70. A tensão crescente remete imediatamente ao Straw Dogs do Peckinpah, mas podemos ver o filme facilmente como uma sequência do então ainda porvir Pecados de Guerra do De Palma. O que é intrigante quanto este filme é o fato de ser quase ignorado dentro da filmografia de Kazan, é um trabalho excelente e a primeira grande obra sobre a guerra do Vietnã. Vale lembrar que esta é a estréia na tela grande de James Woods e Steve Railsback.
7- Vidas Amargas (East of Eden, 1955)
I try to base things in realism and take off from there. I don’t think of myself as a realist. I think myself as a poetic realist or “essencialist”, as I call it. That may be just a big rationalization for my lacking. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
Esse é o grande ponto de confluência entre o cinema de Kazan e o do seu protegido Nicholas Ray, não tentando associar a escolha mútua de James Dean como o protagonista de seus filmes como marco da desestrutura familiar – não, é muito mais do que isso, naquele ano eles emplementam uma simbiose de estilo e filosofia.
8- Pânico nas Ruas (Panic in the Streets, 1950)
Another thing I learned from Ford: he’s a great guy for foreground objects. He puts an object in the foreground that’s critical at some point in the latter half of the scene, and he moves the people up to that object. It breaks up the foreground spatially, so that the shot has quality, not abstractness. I use that a lot in Panic in the Streets. (Elia Kazan Interview – Stuart Byron & Martin Rubin, 1971). É exatamente aqui onde Kazan começa a fazer cinema de verdade e o próprio assumia isso para quem quer que fosse. É um grande filme, quando o assisti cheguei a ficar boquiaberta pelo fato deste não ser tão festejado quanto algumas de suas obras daquela mesma década, louvores extras ao Jack Palance que nos dá o prazer de conferir um dos maiores vilões do cinema. Essa é uma boa época para ver o filme, especialmente se a imprensa ainda não causou paranóia suficiente para que você saia correndo e gritando todo vez que uma pessoa ao seu lado diz que está com dor de cabeça.
9- Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire, 1951)
Some people say I made Brando the hero. I didn’t mean to make Brando the hero. But I wanted to show exactly what Williams meant, which is that he, as a homosexual, is attracted to the person he thinks is going to destroy him – the attraction you have for someone who’s on the otherside, supposedly dead against to you, but whose violence and force attract you. Now, that’s the essence of ambivalence. And that’s what I tried to do, so what you felt sorry for her but could see, however, that his force was healthier. That’s why I made Brando attractive. (Elia Kazan Interview – Stuart Byron & Martin Rubin, 1971)
Esse filme é demasiado importante para a história de Hollywood, não só botou fogo literalmente em quase 20 anos de Código Hays como mudou toda a história da interpretação colocando Brando no patamar de ator mais influente do cinema americano pelas próximas décadas, o que ao meu ver não foi algo tão benéfico assim. Tolinha de Olivia de Havilland, a Blanche que tanto Kazan quanto Brando queriam, mas que não aceitou o papel por existirem certas coisas que uma dama não faz em cena – imagino o quanto ela ficou horrorizada quando os anos 60 e 70 chegaram – então podemos incluir o papel de Blanche como um dos grandes arrependimentos da vida de Miss Havilland e todos sabemos que esta mulher tem muita coisa para se arrepender – alguns bem graves, por sinal.
E Marlon Brando quebra tudo. O que é a visão de Brando entrando em cena??? O problema dessa introdução ao senhor Kowalski é que quando ele abre a boca é altamente broxante, à parte Brando ser gostosopacaraleo e um grande ator, ele tinha uma voz insuportável, por isso é bom quando seus personagens gritam, grunhem ou gemem. A verdade é que este filme mudou para sempre o rumo de como se encara um ator no set de filmagens, sem o que Kazan começara no teatro uns poucos anos antes não haveria Brando, nem Dean, nem Pacino, nem De Niro, nem Hoffman, nem uma porrada de ícones que todo mundo conhece.
10- Boneca de Carne (Baby Doll, 1956)
I like everything in the south, except its ideas, standarts and beliefs. But the way the people are has always impressed me. It’s part of my own maverick anarchism. I find them very funny and cute and human, very Chekhovian. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
Oh, Mr Vacarro! Esqueça Marlon Brando em Uma Rua Chamada Pecado, em Baby Doll está a prova do porque Eli Wallach constar na minha lista de homens mais sexys do universo. É a estréia do Wallach no cinema e é mesmo um absurdo, nos faz perceber algo bem peculiar quanto aos machos do Kazan: a sensu/sexulidade deles é bem mais evidente do que suas contrapartes fêmeas. Mesmo Miss Carroll Baker sendo um pitéu e ter a sua sensualidade natural bem delineada, Wallach domina o ambiente de tal forma que a única coisa que resta por parte dela é a reação à ação do macho dominante que Wallach representa no ambiente cênico.
11- O Justiceiro (Boomerang! 1947)
We shot that entirely on location – not a set in the picture. The picture was a terrific thrill that way – it made me see my identity. I really enjoyed that life, whereas I was miserable on the MGM set. For one thing, I was miserable living in Hollywood – I never liked the place. I never unpacked my bags. (Elia Kazan Interview – Stuart Byron & Martin Rubin, 1971)
O homem era viciado em integridade, mesmo na sua fase pau-mandado-de-estúdio nos anos 40, lá estava Kazan envolvido na defesa das coisas em que acreditava, batendo na tecla de que não importa se o próprio indivíduo ou um clã se queima no processo desde que seja íntegro com a sua maneira de pensar e caráter. Particularmente gosto bastante deste filme, porque é intrigante, ágil, tem uma sorte de personagens e atores espetaculares, além de existir alí um vislumbre do cinema contemporâneo de Jules Dassin.
12- Rio Violento (Wild River, 1960)
I think Miss Ella’s right to want to stay on her land. I think Glover is right, too. That picture, with all of its faults, is the epitome of what I feel more clearly than any other. (Kazan: The Master Director Discusses his Films) Tudo que Kazan tinha em boas intenções para com The Sea of Grass finalmente pôde ser colocado em prática no Wild River. A semelhança ideológica entre ambos é gritante, mas 13 anos na vida professional de um cineasta e do próprio cinema em evolução fazem uma diferença dos diabos, isso, é claro, se o mundo não for habitado por clones do Orson Welles.
Centenário de Elias Kazanjoglou – Parte 2
13- O Compromisso (The Arrangement, 1969)
Everyone become a salesman here. If you don’t sell anything else, you sell yourself. Ours is a society dominated by business, and the economic pressure even at the upper-middle-class level is fantastic. The epitome of this business civilization is the advertising industry. Everyone feels some degradation, some violation of self, when they spend their lives selling. (Kazan: The Master Director Discusses his Films). Não vou dizer que se você é romancista e cineasta jamais adapte o seu próprio livro, pois Kazan já o fizera muitíssimo bem com America, America, o problema em The Arrangement é adaptação às mudanças do próprio cinema. Kazan quis se adaptar a um estilo que não lhe caiu bem, chega a ser mesmo irritante o estilo de montagem, o uso da trilha sonora e a inserção de devaneios constantes, essa certamente não era a praia do Kazan, como admirador confesso da Nouvelle Vague parece que ele quis fazer algo como Pierrot Le Fou, mas as coisas ficam bem bizarras quando se força a encarar um estilo que não é o seu.
O livro tinha grande potencial para adaptação, tendo o mesmo tom de coisas que voltariam à moda nos anos 80 e 90 como Beleza Americana, Clube da Luta e Como Fazer Carreira na Publicidade. Notoriamente a semelhança fica mesmo por conta de Mad Men, quando comecei a assistir o seriado, o livro de Kazan vinha à mente constantemente, digamos que Mad Men é tudo que Kazan poderia ter feito com seu filme mas dolorosamente desperdiçou.
Vale lembrar que o livro do homem é basicamente uma autobiografia “camuflada” de seu relacionamento com a excelente atriz Barbara Loden, com quem trabalhou no cinema em Wild River e Splendor in the Grass.
14- Laços Humanos (A Tree Grows in Brooklyn, 1945)
The one thing I really liked about that film was the little girl. By far the most authentic thing about the film is Peggy Ann Garner’s face. Nothing compares with it except maybe Jimmy Dunn’s face. He was terrific. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
Kazan e seu assistente de direção conhecido como Nicholas Ray se encontram neste filme que delinearia muito do cinema futuro de ambos, em específico o traço da desestrutura familiar, um tema que foi muito caro em suas respectivas carreiras. É mais um desses “filmes de ator” que Kazan fez e reitero o fato de que James Dunn era absolutamente apaixonante.
15- A Luz é para Todos (Gentleman’s Agreement, 1947)
No matter what I think of it today, what I remember most about Gentleman’s Agreement is that at time no one said ‘jew’. When it was being made, all the rich jews in California were against it. And the Catholic Church was against it because they don’t want the heroine to be a divorcee. There were hell of lot people who said to Zanuck, ‘We’re getting along all right. Why bring this up?’ (Elia Kazan Interview – Stuart Byron & Martin Rubin, 1971)
Esse é um dos filmes de que Kazan não gostava, porque é um produto de estúdio, com muita relevância história e nulidade autoral. Zanuck possuía um tino danado para jogar com esses filmes polêmicos e gostava de colocar a bomba na mão do Kazan porque o cineasta sempre fora um homem de coragem ao assumir seus pontos de vista e atitudes, não importando a merda que daria. Sob o ponto de vista atual Gentleman’s Agreement é bem truncado, mas se localizado no pós-guerra dá para imaginar a bomba que caiu nas casas das famílias cristãs de toda a América.
16- O que a Carne Herda (Pinky, Elia Kazan/John Ford, 1949)
Some years later I said to Zanuck, “Jack Ford never had shingles, did he?” And he said, “Oh hell, no. He just wanted to get out of it; he hated Ethel Waters and she sure as hell hated him”. I also think maybe he didn’t like the whole project. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
Mesmo possuindo um tema pelo qual Kazan tinha fascínio e passaria o resto de sua carreira reiterando-o, ele ainda não estava tão ciente da linguagem cinematográfica, deixando o peso do filme nas mãos das duas (grandes) atrizes Ethel Waters & Barrymore. Ford começou o filme, mas saiu por falta de afinidade com o assunto tão espinhoso, Kazan era um tipo mais moldado para mexer num vespeiro com direito a romance interracial e propaganda para que se trate o negro como um igual em fins dos anos 40. Está longe de ser um dos melhores filmes do homem, mas a sua importância histórica é inegável.
17- O Último Magnata (The Last Tycoon, 1976)
Não gosto desse filme. Não interessa quantas estrelas dão as caras e nem o quanto o Irving Thalberg era interessante, muito menos com quantos scottfitzgeraldeharoldpinters se escreve um roteiro, o filme é muito chato e não tenho nada a dizer, mas justamente por isso talvez seja hora de revê-lo.
18- Os Saltimbancos (Man On a Tightrope, 1953)
I hated McCarthy. It was embarrassing to be on the same side as him. But I didn’t terrorize people. He did. I didn’t lie. He lied. I never said there were so many and so many, holding up a blank piece of paper, claiming it was a list of subersives in the State Department. He did. He lied. I never told a lie in my life about that stuff. It was terrible to be aligned with McCarthy. But as far as doing it for money, it’s fantastic, really, because in the first place they didn’t threaten me and in the second place they couldn’t have and in the third place I didn’t need a job in Hollywood. The blacklist did not extend to Broadway and I was at the top of my theater career. All my testifying did was lose me certain things. I knew that I’d lose Arthur Miller’s plays. I knew a lot of guys would turn against me, which they did. I’ve lived through that. In some ways the whole experience made a man out of me because it changed me from being a guy, who was everybody’s darling and always living therefore for people’s approval, to a fellow who could stand on his own. It thoughened me a lot. I’m not afraid of anybody. People say that too – that I was afraid. I never was in my life. They avoided my eye. I didn’t avoid theirs. I have some regrets about the human cost of it. One of the guys that I told on I really liked a lot… well, pretty much. I really thought it was killing him. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
É bem deprimente carinha fazer filme para provar alguma coisa que não é. Além de Man On a Tightrope ser ruim, parecendo desesperado e feito às pressas, o contexto em que foi feito atrapalha ainda mais, se Kazan estivesse defendo uma idéia e não a si mesmo quando o fez, meu olhar sobre o filme talvez não fosse tão decepcionado.
19- Mar Verde (The Sea of Grass, 1947)
The only miserable experience I had was The Sea of Grass. I should never have made that film, or I should have quit. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
Geralmente não concordo quando cineastas renegam suas obras, pelo contrário, sempre defendo que os caras são demasiado auto-críticos, mas dessa vez tenho que concordar com o desprezo: ô filminho sem eira nem beira. Há um elenco sensacional, há um roteiro promissor, mas Kazan nunca foi talhado para trabalhar no Star System, tanto que o cinema dele só pegou mesmo no tranco durante os anos 50 quando aquele sistema morreu definitivamente, muito por culpa do próprio Kazan que ajudou a instaurar a revolução.
Gadget Kazan – o ator
Uma Canção para Você (Blues in the Night, Anatole Litvak, 1941)
Blues in the Night é o berço de muita gente, além de Kazan como ator, há Don Siegel trabalhando na montagem e Robert Rossen lidando com o roteiro. Um daqueles filmes mais lembrados por sua trilha sonora do que por qualquer outra coisa, é um noir-musical-melodramático, se é que tal definição possa existir. Aqui o senhor Kazan tem a honra de representar um membro da banda protagonista da história, ao som de muita música do duo Harold Arlen/Johnny Mercer, a surpresa fica por conta de ser um papel importante e não apenas um cameo, além de provar que se seguisse a carreira de ator teria um bom futuro, possuía desenvoltura nata e se adequou perfeitamente ao ritmo do filme, com seus diálogos rápidos e edição acelerada para acompanhar o ritmo da música.
Dois Contra uma Cidade Inteira (City for Conquest, Anatole Litvak/Jean Negulesco, 1940)
Apesar de ser um dos melhores amigos do protagonista, o papel de Kazan aqui não é tão grande quanto em Blues in the Night, mas é de razoável importância, especialmente se ele faz as vezes do gangster-mor e isso num filme com Cagney é uma grande honra. Tenho o mesmo tipo de relação com o cinema do Anatole Litvak para com o do próprio Kazan, em geral gosto bastante de alguns do trabalhos de ambos, mas nada que faça com que eu professe um WOW e é interessante o fato de Litvak ter sido esse grande introdutor de Kazan em Hollywood.
E não interessa se o filme é bom ou ruim, se o Cagney está presente o prazer é garantido. Sempre.
Pie in the Sky (Ralph Steiner, 1935)Esse é da época que o Kazan era comunista. hehehe (Parte 2)
Nota 1: No livro O Século do Cinema de Glauber Rocha tem um capítulo interessante, onde Glauber, como sempre, desce a lenha no cinema do Kazan, mas que, ao mesmo tempo, conta sobre um encontro entre os dois narrado de forma bastante admirável.
Nota 2: Pelos próximos anos Scorsese estará ocupado envolvido com projetos sobre ícones que ele muito aprecia, alternando documentários e cineobios sobre gente como Sinatra, George Harrison e Roosevelt, tio Marty também está com um documentário sobre Kazan na gaveta, a intenção é dirigí-lo, mas veremos se o projeto vai para frente.
Nota 3: Enquanto fazia este post, acho que mudei de opinião, creio que o meu favorito é Um Rosto na Multidão, talvez seja o único filme de Kazan com o qual tenho grande afinidade, seguido de Splendor in the Grass.
Semana John Hughes: #2 Clube dos Cinco (The Breakfast Club, 1985)
Com a morte de Hughes alguma coisa boa virá a acontecer. Eu pressinto. Clube dos Cinco tinha originalmente duas horas e meia de duração, coisa que foi para o beleléu na hora da distribuição, a única cópia completa que existia era a pertencente ao próprio Hughes, com sua morte o mínimo que se pode fazer é uma bela restauração e um tremendo lançamento em disco, quiçá, até nas telonas no melhor estilo The Breakfast Club Redux.
Porque, minha gente, este é um baita filme sobre e para adolescentes, fazendo com que me incline a dizer que The Breakfast Club é obra prima absoluta e ninguém usava melhor estereótipos para trazer a verdade das pessoas do que o Hughes, além de ter sido de grande importância pessoal quanto a formação do meu caráter. O cinema de Hughes teve mais influência sobre mim do que o meu próprio pai, ao menos no sentido benéfico da coisa, Hughes possuía um sentido de empatia tão único e abismal para com os adolescentes e suas dores, fazendo com que eu sinta até vergonha de estar hoje no hall dos balzaquianos cuzões, onde nem sequer lembro qual a diferença de sentimentos de quando estive no colegial para quando estive na universidade. Enfim, o que quero mesmo dizer é que o homem era mestre no que se propunha a fazer.































Sweets. You couldn’t ignore me if you tried.
I’m not a nymphomaniac. I’m a compulsive liar.
Do you know how popular I am? I am so popular. Everybody loves me so much at this school.
We’re all pretty bizarre. Some of us are just better at hiding it, that’s all.
When you grow up, your heart dies.
Naked blonde walks into a bar with a poodle under one arm, and a two-foot salami under the other. The bartender says, I guess you won’t be needing a drink. Naked lady says…
Saturday, March 24,1984. Shermer High School, Shermer, Illinois, 60062.
Dear Mr. Vernon, We accept the fact that we had to sacrifice a whole Saturday in detention for whatever it was we did wrong. What we did *was* wrong. But we think you’re crazy to make us write an essay telling you who we think we are. What do you care? You see us as you want to see us – in the simplest terms, in the most convenient definitions. You see us as a brain, an athlete, a basket case, a princess and a criminal. Correct? Does that answer your question? Sincerely yours… The Breakfast Club.
Roteiro
Soundtrack
Nota: Isso me fez lembrar algo que havia esquecido – o quanto o Judd Nelson era gato – e com gato quero dizer gostosopacaraleo. Já que a expressão Eat my Shorts foi devidamente roubada pelo Bart Simpson, também dou um dedinho que o Nelson possui esse nome em homenagem ao Judd Nelson. Ícone total.
*Da série: Este post foi programado, eu não estou aqui!
Sexo, Escândalos e Celebridade (Bright Young Things, 2003)
Definitivamente este filme é a cara do Stephen Fry, cada segundo de película exala a ele em excesso. Cada palavra, cada gesto, cada figurino, cada olhar, cada cenário, cada música, é tudo Fry de cabo a rabo.
E Stephen Fry voltando ao clima de Jeeves & Wooster só que com muito mais tragicomédia. Há a impressão inegável de que vemos um episódio estendido do seriado em todo seu estilo verbal e visual, inclusive a personagem de Stephen Campbell Moore é basicamente Wooster cuspido e escarrado em suas atrapalhadas. Aliás, pode colocar Stephen Campbell Moore como um dos tops da nova safra britânica, ele é dos excelentes.
Tem tanta gente boa nesse filme, Peter O’Toole provoca dores de riso como o velho amalucado pai de Emily Mortimer, além da presença de John Mills em sua última aparição no cinema… Michael Sheen, Stockard Channing, Dan Aykroyd, David Tennant, Jim Broadbent, Imelda Staunton, mas quem acaba por ser o alter ego de Fry é mesmo a personagem de James McAvoy, trágica e claramente de personalidade instável e Fry sempre poderá se orgulhar de ter descoberto o jovem escocês por tê-lo colocado no mapa cinematográfico. Enfim, por uma razão ou outra é sempre bom dar uma espiada neste trabalho.
Nota: A pergunta é: quando vão colocar o Fry para fazer uma participação em House? Porque não agiliza logo e coloca o cara alí pra ter um embate intelectual com o Greg, hein? hein?
Pelos Caminhos do Inferno (Wake in Fright/Outback, 1971)
1971. É ano de Straw Dogs. É ano de Laranja Mecânica. É ano de Wake in Fright.
Gary Bond bebe. Conhece Rafferty. Bebe, Joga. Bebe. Perde todo o dinheiro. Bebe. Conhece Pleasence. Bebe. Precisa ganhar dinheiro para ir até Sidney. Bebe. Conhece Thomas e Kay. Bebe. Conhece os caçadores de cangurus. Bebe. Vai caçar cangurus. Bebe. Luta. Bebe. Passa uma noite indigesta com Pleasence. Bebe. Finalmente consegue sair de Yabba. Não, não consegue, ele volta.
Esse filme é obra prima demais. Demais. É o catalizador da australian new wave ao lado de Walkabout do Roeg. Antes dos anos 70 não havia um cinema essencialmente autraliano, as produções sempre foram inglesas e americanas, quando muito podiam contar com elenco e diretores australianos, mesmo Wake in Fright e Walkabout estão nas mãos de cineastas estrangeiros, mas ainda foram eles que moldaram esses novos rumos para o cinema de Oz e acabaram por entregar as rédeas nas mãos dos nativos. Wake in Fright não é apenas amplamente influente no cinema autraliano dos últimos 35 anos, como também Martin Scorsese é fã assumido, fato que podemos constatar facilmente em certas cenas de Depois de Horas e Casino. Oliver Stone também deve ser outro apreciador vide certas coisas de Assassinos por Natureza e Reviravolta. Também é um dos filmes favoritos de Nick Cave. Até a cultuada cena introdutória de Apocalipse Now foi roubada daqui, onde vemos a câmera enquadrando uma luminária, descendo até a face de Gary Bond ao acordar de hiper-ressaca olhando para o lado e só faltando dizer: “Yabba… shit. I’m still only in Yabba”.
Este é o filme da bebedeira sem fim, o cara começa bebendo na sexta, acorda e vai dormir bebendo no sábado e também no domingo. Tudo começa com a personagem de Gary Bond dando aula na puta que pariu (o que esperar de um lugar chamado Tiboonda?) do outback australiano sonhando o tempo todo em visitar namorada em Sidney, coisa que ele quase consegue realizar durante o feriado no qual a narração do filme se centra. Para ir até Sidney, Gary Bond precisa passar por um outro fim de mundo chamado Bundanyabba e por diversas razões ele não consegue sair desse buraco de jeito algum, não há escapatória.
Na roleta russa humana em que Yabba se transforma com a “hospitalidade hostil” de seus habitantes, vamos conhecendo personagens ainda mais marcantes tal como o bebedor e jogador vivido por Chips Rafferty (o “John Wayne australiano” em seu último filme), o bebedor e “doutor” personificado lindamente por Donald Pleasence, o bebedor Al Thomas e sua filha peculiar e ninfomaníaca vivida pela então esposa do diretor Sylvia Kay, além dos bebedores e caçadores Jack Thompson e Peter Whittle. É no meio dessa fauna que Gary Bond vai nos guiar para a maior concentração de álcool que já se viu numa tela, é uma coisa impressionante até para minhas experiências mais nefastas. As famosas cenas com os cangurus são muito barra pesada, indigestas e deprimentes, uma sensação de holocausto canguru, a versão que vi está cheia de cortes, o que me chamou a atenção é que o conteúdo sexual foi cortado, mas tudo relativo àquela selvageria com os cangurus está aparentemente intacto, o que nos atenta para a visão estranha de certas pessoas para com o sexo e a violência.
No início dos anos 60 Joseph Losey queria fazer a adaptação do livro de Kenneth Cook no qual Wake in Fright é baseado, com Dirk Bogarde no papel principal, mas vendo a visão de Kotcheff até agradecemos por o intento não ter ido em frente, especialmente porque esta versão está banhada com licores setentistas e em qualquer outra década esta não seria a obra prima que é.
Wake in Fright pode ser conferido no youtube e é esta a cópia que vi, embora recomende a espera pela versão uncut e restaurada que andou pipocando em Cannes e no Sydney Film Festival recentemente, além de ter re-estreado nos cinemas australianos na última semana. Há uns cortes bem evidentes nesta versão americana, onde está faltando uns bons 15 minutos, nada sutis, coisa de censor açougueiro mesmo.
The Bells Go Down (1943) – DVDrip
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O Arco-Íris (The Rainbow, 1989)
As mulheres eram diferentes. Também tinham a sonolência da intimidade do sangue, bezerros sugando e galinhas correndo juntas, filhotes de ganso palpitando na mão enquanto a comida era empurrada pelas goelas. As mulheres olhavam além do intercurso acalorado e cego da vida na fazenda, contemplavam o mundo ao redor. Tinham consciência dos lábios e da mente do mundo falando e se manifestando, ouviam o som à distância, esforçavam-se para escutar.
Há pouco tempo tempo fui a um sebo e constatei que alguma pobre alma havia vendido toda sua coleção de DH Lawrence, levei todos os que ainda não tinha e recomecei os meus estudos da obra de Lawrence, fato este que implica buscar demais visões com outras perspectivas sobre o autor. Não, não sou das que curtem comparar literatura ao cinema, mas perspectivas também implicam visões de cineastas e me apetece tratar cineastas como seres pensantes.
Nesse caso, volto a Ken Russell, ele que sempre volta a pauta, ele que é objeto de meu fascínio, ele que adaptou por três vezes a obra de DH lawrence, das quais apenas O Arco-Íris havia-me passado batido e as outras duas, Mulheres Apaixonadas e O Amante de Lady Chatterley, eram alvo de minha admiração.
Em Lawrence a saga dos Bragwens atravessa a família em gerações, enquanto o filme foi sabiamente adaptado só a partir da segunda metade da obra escrita e acompanha o florescimento sexual e intelectual da jovem Ursula no início do século XX, num épico em que as relações humanas são renovadas por meio da sexualidade, em que a religião é um estado psicológico necessário e que os demais aspectos do mundanismo são aquém de qualquer laço humano. É absolutamente nonsense o fato de um autor tão sensato e em alguns aspectos até puritano, mesmo a serviço de seu notório panssexualismo, tenha sido tão massacrado e perseguido por ter tratado a sexualidade de forma clara e sem frescura.
Glenda Jackson volta a tal universo como a mãe da personagem que interpretara em Mulheres Apaixonadas, Gudrun, agora interpretada por Glenda McKay, enquanto sua irmã Ursula fica por conta de Sammi Davis outrora personificada por Jennie Linden no filme de 69, pois ambos os livros formavam um projeto intitulado “As Irmãs”, cuja intenção inicial era torná-los um único grande épico, mas que posteriormente foi dividido por Lawrence em dois livros contínuos. A Ursula de 1989 é apresentada de uma forma muito menos madura do que vemos no livro, no filme ela é apresentada com o comportamento típico de uma adolescente, enquanto no livro ela pode ser vista como uma jovem sensata, apesar de ser mesmo uma adolescente. O bacana da obra de Lawrence sempre foi esse estado sensualidade contanstante, Lawrence traz a paixão até as mazelas da vida real enquanto a paixão real não sobrevive nas mesquinharias da realidade e Russell sabe dosar isso muito bem contrapondo a sexualidade de Ursula com a sua entrada no opressivo mundo adulto do trabalho e relações sociais, as angústias do que era pequeno e ordinário podiam provocar.
Arco Íris é um filme mais livre e desenvolto que o Mulheres Apaixonadas, este realizado num país onde 10 anos anos antes O Amante de Lady Chatterley ainda era proibido e precisava quebrar certas barreiras da hipocrisia inglesa, mas que afetava a naturalidade que Lawrence pregou por toda a vida, um naturalismo que consistia de anseios primitivos como forma de libertação daquela sociedade industrial, mesquinha e materialista que Lawrence pôde observar desde a infância. E aí entra a afinidade de Russell para com Lawrence, essa busca da liberdade em seu primitivismo, essa doação completa e anti-acadêmica, essa obsessão pela simbologia religiosa, a arte e a sexualidade. Todos os elementos mais recorrentes da obra de Lawrence são os mesmos da obra de Russell, mesmo adaptados para uma arte distinta e em uma situação temporal divergente, a essência do que buscavam era basicamente a mesma.
Centenário de Joseph L. Mankiewicz

Mankiewicz a ensinar Ava Gardner como é que se faz em A Condessa Descalça (The Barefoot Contessa, 1954), filme este veladamente inspirado na vida de Rita Hayworth.
Top 5 do homem:
1- Trama Diabólica/Jogo Mortal (Sleuth, 1972)
Laurence Olivier e Michael Caine num duelo até a morte? Aqui Mankiewicz levou ao topo sua obsessão com o tema de duelo de egos que perpassou toda a sua carreira, nada mais adequado do que transitar a vida real para o cinema quando Sir Olivier era o grande astro da atuação inglesa e Sir Caine era a ameaça para roubar-lhe o trono.
2- A Malvada (All About Eve, 1950)
Outrora seu irmão Herman ajudara a debicar o casal Hearst/Davies em Cidadão Kane, agora era vez de Joseph mexer com certos egos Hollywoodianos, mas especificamente o casal Tallulah Bankhead e Lizabeth Scott. A inspiração é tão descarada que até o figurino de Miss Davis chega a ser cópia exata de roupas que Bankhead outrora usara, sem mencionar o cabelo, a maquiagem, o modo de falar e até o jeito de segurar o cigarro, enquanto Anne Baxter se esbalda no jeito aparentemente doce de Miss Scott. Mas estamos em 1950 e o código ainda era vigente em Hollywood, portanto os resquícios de homossexualismo só ficam à mercê dos mais atentos.
3- Eles e Elas (Guys and Dolls, 1955)
Alguém que não canta nem dança tem que ter muito culhão para aceitar fazer um musical ao lado de Frank Sinatra. Marlon Brando teve. É quase como se Mankiewicz quisesse nos mostrar se Brando estava mesmo apto a ser o astro do momento, dois anos antes já o obrigara a encarar Shakespeare ao lado de James Mason e Sir John Gielgud em Julio Cesar, agora o colocara a cantar ao lado de Sinatra. Ao contrário do que possa aparentar, Mankiewicz não queriar derrubar Brando com tais desafios, mesmo porque feio não fez em nenhum deles e só ajudou a firmá-lo como o maior astro de todos os tempos.
4- De Repente, no Último Verão (Suddenly, Last Summer, 1959)
Nos anos 50 Hollywood estava obcecada por Tennessee Williams, o que lhes fez muito bem como transição para a saída completa do agonizante Código Hays. Gore Vidal ficou com o roteiro, este que sempre fora perito em destrinchar roteiros sobre homossexualismo velado, aqui se esbaldou por ser muito mais às claras do que todos estavam acostumados. Ó meu deus, comeram o Sebastian! Tolinhos.
5- Ninho de Cobras (There Was a Crooked Man… 1970)
Henry Fonda! Warren Oates! Kirk Douglas! Burgess Meredith! Hume Cronyn! Michael Blodgett pelado! É Mankiewicz juntando todo esse povo bom num western/men in prison para falar sobre onde começa e termina a moralidade do ser humano, quanto a aplicabilidade de circunstâncias e a área limítrofe onde se coloca em xeque toda a sua forma de pensar até então. Ah, é deveras divertido também.
Pausa



Respira fundo e vai. PUTA QUE PARIU HUGH JACKMAN. Nunca mais tirem o Hugh de cima de um cavalo.
Nota: Vai tomar no cu quem disse que Australia era ruim. Fui ao cinema achando que veria um Pearl Harbor da vida, tamanho o rumorzinho doente por aí, se não é nenhuma obra prima, ainda está anos luz de ser ruim, especialmente porque o cinema de Luhrmann nunca foi para todo mundo e não vai ser agora que o será. Como é usual a Baz, o lance alí é a infinidade de homenagens, mas especificamente ao cinema dos anos 30 e 40, dos “westerns de guerra” do John Ford, passando por E O Vento Levou, O Mágico de Oz, Jezebel, e até a chupinhação descarada dos créditos de Casablanca, blablabla, tudo banhado com sua habitual veia kitsch. Baz ganhou mesmo pontos comigo por também achar que Hugh lembra o Clint, vide aquela sua descarada entrada em cena (num dos diversos momentos em que Baz estava se achando “o” Sergio Leone – o que é aquela mistura de Jill McBain com Scarlett O’Hara da Nicole Kidman?) e também por achar que Hugh daria um exclente James Bond, vide o baile.
Ao final, a constatação foi simples, me satisfez muito mais gastar três horas da minha vida assistindo Australia do que ao tal Curioso Caso de Benjamin “Forrest ‘Eu sou o furacão Katrina e destruo focos narrativos’ Gump” Button.
Mas falando quase-sério, Mr Jackman é um problema, em alguns momentos quis tapar os meus próprios olhos, pois não conseguia pensar direito, vide aquele banho de canequinha. Quando sair em dvd abarroto este blog de screencaps do banho de canhequinha. Juro.
Savage Messiah (1972)
‘When I face the beauty of nature, I am no longer sensitive to art, but in the town I appreciate its myriad benefits—the more I go into the woods and the fields the more distrustful I become of art and wish all civilization to the devil; the more I wander about amidst filth and sweat the better I understand art and love it; the desire for it becomes my crying need.’ – Henri Gaudier-Brzeska
Ken Russell resolveu dar uma pausa na sua obsessão por cinebiografias de compositores e caminhar por outra arte através da vida do escultor Henri Gaudier, também conhecido como Savage Messiah. Ainda na fase mais sóbria de seu cinema, antes das alegorias alucinadas como Lisztomania e Valentino, não é difícil ver o porquê Russell ter se interessado em dramatizar a curta e intensa vida de Gaudier. Russell sempre teve essa preocupação de levar a arte às massas (e não à toa participou do Big Brother inglês há alguns anos), tanto nos seus trabalhos na BBC dos anos 60, quanto sua caminhada ensandecida pelo cinema dos 70, sua meta era fazer popularizar a arte tida como erudita, era colocar aquela arte para poucos num patamar em que outros pudessem se interessar e buscar esse conhecimento que certos segmentos gostam de guardar para si como vislumbre de poder e superioridade com a desculpa de uma chamada anti-pasteurização, por isso quaisquer desses espíritos libertários como Ken Russell nunca serão bem quistos por determinado segmento, nem hoje, nem há 40 anos, nem amanhã, pois todos sabemos que é muito mais fácil ridicularizar uma pessoa chamando-a de estúpida do que tentar encaminhá-la por outras perspectivas, trocando asssim a crítica construtiva pela agressão cega e ocorrendo uma armadilha camuflada no protofascimo. É aí que entra a linha de coexistência e fascínio entre Russell e Gaudier, este um guri simples que se viu apaixonado por desenhos e formas de maneira autoditada e só posteriormente se iniciou na teoria para além da prática.
Morto aos 23 anos durante a Primeira Guerra, as obras de Gaudier hoje são consideradas parte do alvorecer do cubismo e basicamente trabalhadas durante os anos de 1913 e 1914. Originário da França, o berço da arte moderna naqueles idos, estranhamente resolver ir para a Inglaterra a fim de dar vasão à sua arte e lá conheceu o verdadeiro ponto de interesse da cinebio de Russell: a escritora polaca Sophie Brzeska. Gaudier e Brzeska começaram então uma relação simbiótica e assexuada, indispensável para o crescimento artístico e pessoal de ambos.
No filme Brzeska é interpretada lindamente por Dame Dorothy Tutin, uma grande dama do teatro inglês da geração de Dame Maggie Smith e Dame Judi Dench, mas que infelizmente pouco nos deu o ar da graça no cinema. Tutin aqui ainda nos honra com uma passagem de cetro das mais inesquecíveis quanto à geração seguinte de grandes damas britânicas da interpretação: o crepúsculo profissional de Dame Helen Mirren num dos seus primeiros papéis na grande tela, inclusive Savage Messiah hoje é muito mais conhecido e lembrado pela cena do belo caminhar desnudo de Mirren em toda sua beleza e glória.
Mas o que mais me intriga neste elenco é Scott Antony, o intérprete do personagem título, feito este grande trabalho como protagonista de um filme cujo diretor era um dos mais respeitados na Inglaterra da época e mais uns dois filmes, Antony simplesmente desapareceu e não há meios de encontrar qualquer informação do que lhe ocorrera.
Se Russell conseguiu seu intento em popularizar a arte? Claro! Se não fosse por ele eu não teria me aprofundado no trabalho de Henri Gaudier-Brzeska, lido a respeito, ido em busca de teóricos sobre sua arte e isso faz todo o sentido.
Agora algumas obras do jovem e selvagem Messias, porque também quero popularizar o erudito, oras. Mas se o interesse for maior, a dica é o livro Savage Messiah de H.S. Ede.
Não é preciso dizer que as imagens são maiores clicando nas respectivas, não?
O Jardim dos Finzi-Contini (Il Giardino dei Finzi-Contini, 1970)
Depois da fase neo-realista e da fase comédia escrachada, está lá o sempre charmoso e irresistível Vitorio De Sica revirando novamente seu próprio estilo com esta saga sobre o tema: o que acontecia com os judeus italianos durante o regime fascita de Mussolini na Segunda Guerra? Por algum motivo que me vejo obrigada a citar, a atmosfera do filme muito me lembra as de Luchino Visconti em seus filmes posteriores, talvez a presença de seu então marido, Helmut Berger mais blasé do que nunca, seja o motivo de tal sensação.
Termina com essa sensação de inevitabilidade, sem cair na armadilha de mostar o que ocorreu às personagens evitando as emoções manipuláveis de um final feliz para alguns e a aceitação do destino nos campos de concentração para outros, ao seu final a meta estava cumprida, é mostrado o que o fascismo e o nazismo tanto temiam no comunismo, mesmo vindo por parte dos judeus: a igualdade de classes.















































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