Quixotando

The New Yorker Cartoons: Cats

Publicado em DESENHO, GATOS, HQ, LIVROS por Georgina Spiggott em Maio 27, 2009

Livro amplamente recomendado, é claro.

James Mason: The Man Between by Peter William Evans (British Stars and Stardom: from Alma Taylor to Sean Connery)

Publicado em LIVROS por Georgina Spiggott em Maio 13, 2009

Nota 1: Não é necessário mencionar que é para clicar nos textos com o intuito de melhor visualizá-los, não?

Nota 2: James Mason não daria apenas uma boa tese sobre criminalidade, como pode-se notar por este texto, o homem também daria uma excelente tese sobre sadomasoquismo, com um capítulo à parte ligado ao masoquismo do público feminino de cinema.

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Se você fosse um livro nacional, qual livro seria?

Publicado em LIVROS, TESTES por Georgina Spiggott em Abril 29, 2009
“A paixão segundo GH”, de Clarice Lispector

Clarice LispectorVocê é daqueles sujeitos profundos. Não que se acham profundos – profundos mesmo. Devido às maquinações constantes da sua cabecinha, ao longo do tempo você acumulou milhões de questionamentos. Hoje, em segundos, você é capaz de reconsiderar toda a sua existência. A visão de um objeto ou uma fala inocente de alguém às vezes desencadeiam viagens dilacerantes aos cantos mais obscuros de sua alma. Em geral, essa tendência introspectiva não faz de você uma pessoa fácil de se conviver. Aliás, você desperta até medo em algumas pessoas. Outras simplesmente não o conseguem entender.
Assim é também “A paixão segundo GH”, obra-prima de Clarice Lispector amada-idolatrada por leitores intelectuais e existencialistas, mas, sejamos sinceros, que assusta a maioria. Essa possível repulsa, porém, nunca anulará um milésimo de sua força literária. O mesmo vale para você: agrada a poucos, mas tem uma força única.

Ainda bem que não deu O Alquimista! KKKKK. Faça o teste AQUI

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Dia Mundial do Livro

Publicado em ANOS 00, ANOS 40, ANOS 60, ANOS 70, ANOS 90, LIVROS, MUSAS, MUSOS por Georgina Spiggott em Abril 23, 2009
Emile Hirsch - Na Natureza Selvagem (Into the Wild, Sean Penn, 2007)

Emile Hirsch - Na Natureza Selvagem (Into the Wild, Sean Penn, 2007)

Jean-Pierre Léaud e Claude Jade - Domicílio Conjugal (Domicile Conjugal, François Truffaut, 1970)

Claude Jade e Jean-Pierre Léaud - Domicílio Conjugal (Domicile Conjugal, François Truffaut, 1970)

Bud Abbott e Lou Costello - Perdidos no Harém (Lost in a Harem, Charles Reisner, 1944)

Bud Abbott e Lou Costello - Perdidos no Harém (Lost in a Harem, Charles Reisner, 1944)

Vivian Wu - O Livro de Cabeceira (The Pillow Book, Peter Greenaway, 1996)

Vivian Wu - O Livro de Cabeceira (The Pillow Book, Peter Greenaway, 1996)

Michael Caine e Joaquin Phoenix - Contos Proibidos do Marquês de Sade (Quills, Philip Kaufman, 2000)

Michael Caine e Joaquin Phoenix - Contos Proibidos do Marquês de Sade (Quills, Philip Kaufman, 2000)

Anna Karina e Jean-Paul Belmondo - O Demônio das Onze Horas (Pierrot Le Fou, Jean-Luc Godard, 1965)

Anna Karina e Jean-Paul Belmondo - O Demônio das Onze Horas (Pierrot Le Fou, Jean-Luc Godard, 1965)

O Arco-Íris (The Rainbow, 1989)

Publicado em ANOS 80, DRAMA, IMPRESSÕES, LIVROS, ROMANCE por Adriana Scarpin em Abril 18, 2009

The Rainbow (1989) - Ken RussellAs mulheres eram diferentes. Também tinham a sonolência da intimidade do sangue, bezerros sugando e galinhas correndo juntas, filhotes de ganso palpitando na mão enquanto a comida era empurrada pelas goelas. As mulheres olhavam além do intercurso acalorado e cego da vida na fazenda, contemplavam o mundo ao redor. Tinham consciência dos lábios e da mente do mundo falando e se manifestando, ouviam o som à distância, esforçavam-se para escutar.

Há pouco tempo tempo fui a um sebo e constatei que alguma pobre alma havia vendido toda sua coleção de DH Lawrence, levei todos os que ainda não tinha e recomecei os meus estudos da obra de Lawrence, fato este que implica buscar demais visões com outras perspectivas sobre o autor. Não, não sou das que curtem comparar literatura ao cinema, mas perspectivas também implicam visões de cineastas e me apetece tratar cineastas como seres pensantes.
Nesse caso, volto a Ken Russell, ele que sempre volta a pauta, ele que é objeto de meu fascínio, ele que adaptou por três vezes a obra de DH lawrence, das quais apenas O Arco-Íris havia-me passado batido e as outras duas, Mulheres Apaixonadas e O Amante de Lady Chatterley, eram alvo de minha admiração.
Em Lawrence a saga dos Bragwens atravessa a família em gerações, enquanto o filme foi sabiamente adaptado só a partir da segunda metade da obra escrita e acompanha o florescimento sexual e intelectual da jovem Ursula no início do século XX, num épico em que as relações humanas são renovadas por meio da sexualidade, em que a religião é um estado psicológico necessário e que os demais aspectos do mundanismo são aquém de qualquer laço humano. É absolutamente nonsense o fato de um autor tão sensato e em alguns aspectos até puritano, mesmo a serviço de seu notório panssexualismo, tenha sido tão massacrado e perseguido por ter tratado a sexualidade de forma clara e sem frescura.The Rainbow (1989) - Sammi DavisGlenda Jackson volta a tal universo como a mãe da personagem que interpretara em Mulheres Apaixonadas, Gudrun, agora interpretada por Glenda McKay, enquanto sua irmã Ursula fica por conta de Sammi Davis outrora personificada por Jennie Linden no filme de 69, pois ambos os livros formavam um projeto intitulado “As Irmãs”, cuja intenção inicial era torná-los um único grande épico, mas que posteriormente foi dividido por Lawrence em dois livros contínuos. A Ursula de 1989 é apresentada de uma forma muito menos madura do que vemos no livro, no filme ela é apresentada com o comportamento típico de uma adolescente, enquanto no livro ela pode ser vista como uma jovem sensata, apesar de ser mesmo uma adolescente. O bacana da obra de Lawrence sempre foi esse estado sensualidade contanstante, Lawrence traz a paixão até as mazelas da vida real enquanto a paixão real não sobrevive nas mesquinharias da realidade e Russell sabe dosar isso muito bem contrapondo a sexualidade de Ursula com a sua entrada no opressivo mundo adulto do trabalho e relações sociais, as angústias do que era pequeno e ordinário podiam provocar.The Rainbow (1989) - Amanda Donohoe & Sammi DavisArco Íris é um filme mais livre e desenvolto que o Mulheres Apaixonadas, este realizado num país onde 10 anos anos antes O Amante de Lady Chatterley ainda era proibido e precisava quebrar certas barreiras da hipocrisia inglesa, mas que afetava a naturalidade que Lawrence pregou por toda a vida, um naturalismo que consistia de anseios primitivos como forma de libertação daquela sociedade industrial, mesquinha e materialista que Lawrence pôde observar desde a infância. E aí entra a afinidade de Russell para com Lawrence, essa busca da liberdade em seu primitivismo, essa doação completa e anti-acadêmica, essa obsessão pela simbologia religiosa, a arte e a sexualidade. Todos os elementos mais recorrentes da obra de Lawrence são os mesmos da obra de Russell, mesmo adaptados para uma arte distinta e em uma situação temporal divergente, a essência do que buscavam era basicamente a mesma.The Rainbow (1989) - Christopher Gable

Outras Obras Russell-Lawrenceanas

Publicado em ANOS 60, ANOS 90, LIVROS, ROMANCE por Adriana Scarpin em Abril 18, 2009

Mulheres Apaixonadas (Women in Love, 1969) Women in Love (1969) - Oliver Reed, Glenda JacksonSequência literária imediata aos acontecimentos narrados em O Arco-Íris. Com a diferença de 20 anos separando tal filmagem de sua prequel, Russell escolhe Mulheres Apaixonadas para incursionar em seu segundo longa para cinema e sua primeira adaptação de Lawrence para as telas. É uma ótima adaptação, mas a presença masculina é muito mais forte e desenvolvida do que a feminina nesta versão, mesmo Glenda Jackson sendo de absoluto magnetismo e furor ao encarnar Gudrun, enquanto a visão de Ursula dissipou-se na tela por conta de Jennie Linden. Portanto, Jackson teve que alinhavar todo o universo feminino com as próprias mãos, contrapondo-se à maquinaria comandada por Oliver Reed e Alan Bates, dois dos mais intensos, ferozes e enérgicos atores ingleses dos anos 60. Ollie e Bates são os mais profundos exemplares da virilidade lawrenceana, inclusive em seu homoerotismo, elemento este sempre presente na obra do escritor, também sempre envolto com seu panssexualismo, onde o vento e a chuva se entranham ao chamado sexual, não podendo haver dois melhores espécimes masculinos a representar essa totalidade.

O Amante de Lady Chatterley (Lady Chatterley, 1993)Lady Chatterley (1993) - Joely Richardson & Sean BeanAgora sim a dosagem do masculino-feminino está devidamente balanceada. Outrora muso de Derek Jarman, Sean Bean legou o mesmo tipo de virilidade e rudeza necessária, enquanto Joely Richardson deixou transparecer a feminilidade intensa de sua personagem. Pela primeira vez Russell conseguiu um equilíbrio completo, tanto da perspectiva fêmea-macho quanto da própria obra de Lawrence, diria que é a peça mais coesa da relação do cineasta com o escritor e os anos 90 foram bem propícios a isso, não haviam mais barreiras a serem quebradas e o tratamento natural que Lawrence dava à sexualidade pôde finalmente ser transposto para as telas, o que muito me alegra, por ter ocorrido essa falta de afetação justamente com Lady Chatterley, o mais honesto de seus livros.

Nota: Se nos anos 60 Russell precisava quebrar a hipocrisia da sociedade inglesa, o livro era Mulheres Apaixonadas. Se nos anos 80 era preciso quebrar a onda yuppie e materialista que assolava o mundo, o livro era O Arco-Íris. Se nos anos 90 era necessário tratar a emoção e o sexo de forma translúcida e natural, o livro era O Amante de Lady Chatterley. Então, por que Russell pulou os anos 70, se le poderia adaptar livremente A Serpente Emplumada para o seu estilo de cinema naquela década? Estava tudo lá: vasta simbologia religiosa, militares megalômanos, revolução mexicana e grandiosa sexualidade, ou seja, tudo que era exagerado e intenso como fora todo o seu cinema dos anos 70. Falha de todos, Lawrence foi equivocadamente pouco adaptado para as telas, através de perspectivas e digressões se converteria facilmente em alguma imagem insana do Russell setentista.

Joyceanas

Publicado em ANOS 60, ANOS 70, DOWNLOAD, IMPRESSÕES, LIVROS por Georgina Spiggott em Abril 3, 2009

A Portrait of the Artist as a Young ManUm tempo atrás Douglas legou-em o maior dos presentes. Sabendo da minha busca de anos pela versão de Joseph Strick para O Retrato do Artista Quando Jovem eis que Mr Douglas salva minha alma com o link de tal torrent. Que este blog atraia cada vez mais pessoas como ele, que utilizam o seu tempo com esse tipo de doação sincera, essa partilha verdadeira e intelectualmente estimulante, ignorando a perda de tempo do comportamento mesquinho e sim elevando o conhecimento e sabedoria das pessoas ao seu redor.

Aproveitando a deixa, que fique aqui links das adaptações cinematográficas mais difíceis de serem encontradas e cuja inspiração é a obra de Mr Joyce:

A Portrait of the Artist as a Young Man (Joseph Strick, 1977) – torrent

Ulysses (Joseph Strick, 1967) – emule

Finnegans Wake (Mary Ellen Bute, 1966) – emule

É, a pouco também pude ver a versão inimaginável do Wake de 1966, Mary Bute, a rainha do cinema experimental, mostra que não era exatamente um exemplo de sanidade (obrigada!) por se aventurar em tal empreitada. Estive ensaindo escrever algo sobre tal adaptação, mas ainda mais difícil do que estudar o próprio Wake é tentar assimilar uma perspectiva de algo em que não se pode decidir se é boa ou ruim. Quem sabe quando revê-lo tudo não fique mais claro quanto a visão de Bute, eu mesma tendo estudado Wake o mais profundamentemente que pude, ainda não sei o que pensar dele até hoje, a verdade é que talvez seja um livro para se ignorar, para fingir que sequer exista.
O Ulysses sim é fácil de ser discutido e digerido, é verdadeiramente fascinante estudá-lo, um tipo de renovação onde cada capítulo se abre em um novo livro, um novo estudo narrativo, uma nova experimentação linguística. O Wake não, ele perde-se na própria complexidade ou simplemente o estudei na hora errada.
Mas no leito de morte confessarei várias coisas, talvez uma delas seja a constatação de que O Retrato do Artista Quando Jovem seja meu Joyce favorito. Ou não.

The History Of One Tough Motherfucker

Publicado em GATOS, LIVROS, POESIA por Georgina Spiggott em Abril 3, 2009

Bukowski and cathe came to the door one night wet thin beaten and
terrorized
a white cross-eyed tailless cat
I took him in and fed him and he stayed
grew to trust me until a friend drove up the driveway
and ran him over
I took what was left to a vet who said,”not much
chance…give him these pills…his backbone
is crushed, but is was crushed before and somehow
mended, if he lives he’ll never walk, look at
these x-rays, he’s been shot, look here, the pellets
are still there…also, he once had a tail, somebody
cut it off…”
I took the cat back, it was a hot summer, one of the
hottest in decades, I put him on the bathroom
floor, gave him water and pills, he wouldn’t eat, he
wouldn’t touch the water, I dipped my finger into it
and wet his mouth and I talked to him, I didn’t go any-
where, I put in a lot of bathroom time and talked to
him and gently touched him and he looked back at
me with those pale blue crossed eyes and as the days went
by he made his first move
dragging himself forward by his front legs
(the rear ones wouldn’t work)
he made it to the litter box
crawled over and in,
it was like the trumpet of possible victory
blowing in that bathroom and into the city, I
related to that cat-I’d had it bad, not that
bad but bad enough
one morning he got up, stood up, fell back down and
just looked at me.Bukowski e gato
“you can make it,” I said to him.
he kept trying, getting up falling down, finally
he walked a few steps, he was like a drunk, the
rear legs just didn’t want to do it and he fell again, rested,
then got up.
you know the rest: now he’s better than ever, cross-eyed
almost toothless, but the grace is back, and that look in
his eyes never left…
and now sometimes I’m interviewed, they want to hear about
life and literature and I get drunk and hold up my cross-eyed,
shot, runover de-tailed cat and I say,”look, look
at this!”
but they don’t understand, they say something like,”you
say you’ve been influenced by Celine?”
“no,” I hold the cat up,”by what happens, by
things like this, by this, by this!”
I shake the cat, hold him up in
the smoky and drunken light, he’s relaxed he knows…
it’s then that the interviews end
although I am proud sometimes when I see the pictures
later and there I am and there is the cat and we are photo-
graphed together.
he too knows it’s bullshit but that somehow it all helps.

Charles Bukowski

Esse post é em homenagem ao Luisandro que não lembrava ter visto foto de Old Buk com gato a tira colo. Ele não era tão obcecado quanto o Burroughs, mas tinha seus momentos.Poema: A Sensible Fellow (Outubro, 1984)

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A Serpente Emplumada

Publicado em ANOS 20, LIVROS por Adriana Scarpin em Abril 2, 2009

Quetzalcoatl tellerianoEstou enojado com a humanidade e a vontade humana, inclusive a minha. Compreendo que minha vontade, por mais inteligente que eu seja, não passa de mais uma irritação na face da terra, quando começo a exercê-la. E a vontade dos outros é ainda pior, cada ser humano exercendo constantemente a sua vontade contra as outras pessoas, contra si mesmo e quase sempre cheio de auto-justificativa. Durante algum tempo é divertido exercer a própria vontade e resistir à dos outros que pretendem impô-la a mim. Mas, a certa altura, a náusea me domina. Minha própria alma fica nauseada e diante de mim só existe a morte, a menos que eu descubra outra coisa. Minha própria vontade acaba tornando-se ainda mais repulsiva simplesmente como minha vontade, é ainda mais desagradável do que a vontade dos outros. Devo abdicar de ser deus de minha própria máquina ou morrer de nojo… nojo de mim mesmo.

David Herbert Lawrence

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Olivia de Havilland e sua ninhada

Publicado em GATOS, LIVROS, MUSAS por Georgina Spiggott em Fevereiro 2, 2009

Olivia de Havilland With CatsBichos polêmicos sem o querer, porque sábios, mas inquietantes, talvez por isso…nada é mais incômodo que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece.
O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência. O gato não satisfaz as necessidades doentias do amor. Só as saudáveis.
Lembrei, então, de dizer, dos gatos, o que a observação de alguns anos me deu.
Quem sabe, talvez, ocorra o milagre de iluminar um coração a eles fechado?
Quem sabe, entendendo-os melhor, estabelece-se um grau de compreensão, uma possibilidade de luz e vida onde há ódio e temor? Quem sabe São Francisco de Assis não está por trás do Mago Merlin, soprando-me o artigo?
Já viu gato amestrado, de chapeuzinho ridículo, obedecendo às ordens de um pilantra que vive às custas dele? Não! Até o bondoso elefante veste saiote e dança a valsa no circo. O leal cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula.
Gato não. Ele só aceita uma relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de arrogante, egoísta, safado, espertalhão ou falso.
“Falso”, porque não aceita a nossa falsidade com ele e só admite afeto com troca e respeito pela individualidade. O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e ele o dá se quiser.
O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele parte. Sábio e espelho. O gato é zen. O gato é Tao. Ele conhece o segredo da não-ação que não é inação. Nada pede a quem não o quer.
Exigente com quem ama, mas só depois de muito certificar-se. Não pede amor, mas se lhe dá, então ele exige.
Sim, o gato não pede amor. Nem depende dele. Mas, quando o sente é capaz de amar muito. Discretamente, porém sem derramar-se. O gato é um italiano educado na Inglaterra. Sente como um italiano mas se comporta como um lorde inglês.
Quem não se relaciona bem com o próprio inconsciente não transa o gato. Ele aparece, então, como ameaça, porque representa essa relação precária do homem com o (próprio) mistério. O gato não se relaciona com a aparência do homem. Ele vê além, por dentro e pelo avesso. Relaciona-se com a essência.
Se o gesto de carinho é medroso ou substitui inaceitáveis (mas existentes) impulsos secretos de agressão, o gato sabe. E se defende do afago. A relação dele é com o que está oculto, guardado e nem nós queremos, sabemos ou podemos ver. Por isso, quando surge nele um ato de entrega, de subida no colo ou manifestação de afeto, é algo muito verdadeiro, que não pode ser desdenhado. É um gesto de confiança que honra quem o recebe, pois significa um julgamento.
O homem não sabe ver o gato, mas o gato sabe ver o homem. Se há desarmonia real ou latente, o gato sente. Se há solidão, ele sabe e atenua como pode (ele que enfrenta a própria solidão de maneira muito mais valente que nós). Se há pessoas agressivas em torno ou carregadas de maus fluidos, ele se afasta.
Nada diz, não reclama. Afasta-se. Quem não o sabe “ler” pensa que “ele não está ali. Presente ou ausente, ele ensina e manifesta algo. Perto ou longe, olhando ou fingindo não ver, ele está comunicando códigos que nem sempre (ou quase nunca) sabemos traduzir.
O gato vê mais e vê dentro e além de nós. Relaciona-se com fluidos, auras, fantasmas amigos e opressores. O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente a nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério. O gato é um monge portátil à disposição de quem o saiba perceber.
Monge, sim, refinado, silencioso, meditativo e sábio monge, a nos devolver as perguntas medrosas esperando que encontremos o caminho na sua busca, em vez de o querer preparado, já conhecido e trilhado. O gato sempre responde com uma nova questão, remetendo-nos à pesquisa permanente do real, à busca incessante, à certeza de que cada segundo contém a possibilidade de criatividade e de novas inter-relações, infinitas, entre as coisas.
O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção. Desatentos não agradam os gatos. Bulhosos os irritam. Tudo o que precise de promoção ou explicação, quer afirmação. Vive do verdadeiro e não se ilude com aparências. Ninguém em toda natureza aprendeu a bastar-se (até na higiene) a si mesmo como o gato!
Lição de sono e de musculação, o gato nos ensina todas as posições de respiração ioga. Ensina a dormir com entrega total e diluição recuperante no Cosmos. Ensina a espreguiçar-se com a massagem mais completa em todos em todos os músculos, preparando-os para a ação imediata. Se os preparadores físicos aprendessem o aquecimento do gato, os jogadores reservas não levariam tanto tempo ( quase 15 minutos) se aquecendo para entrar em campo.
O gato sai do sono para o máximo de ação, tensão e elasticidade num segundo. Conhece o desempenho preciso e milimétrico de cada parte do seu corpo, a qual ama e preserva como a um templo.
Lição de saúde sexual e sensualidade. Lição de envolvimento amoroso com dedicação integral de vários dias. Lição de organização familiar e de definição de espaço próprio e território pessoal. Lição de anatomia, equilíbrio, desempenho muscular. Lição de salto. Lição de silêncio.Lição de descanso. Lição de introversão. Lição de contato com o mistério, com o escuro, com a sombra. Lição de religiosidade sem ícones.
Lição de alimentação e requinte. Lição de bom gosto e senso de oportunidade. Lição de vida, enfim, a mais completa, diária, silenciosa, educada, sem cobranças, sem veemências, sem exigências.
O gato é uma chance de interiorização e sabedoria posta pelo mistério à disposição do homem.

Artur da Távola

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