O Arco-Íris (The Rainbow, 1989)
As mulheres eram diferentes. Também tinham a sonolência da intimidade do sangue, bezerros sugando e galinhas correndo juntas, filhotes de ganso palpitando na mão enquanto a comida era empurrada pelas goelas. As mulheres olhavam além do intercurso acalorado e cego da vida na fazenda, contemplavam o mundo ao redor. Tinham consciência dos lábios e da mente do mundo falando e se manifestando, ouviam o som à distância, esforçavam-se para escutar.
Há pouco tempo tempo fui a um sebo e constatei que alguma pobre alma havia vendido toda sua coleção de DH Lawrence, levei todos os que ainda não tinha e recomecei os meus estudos da obra de Lawrence, fato este que implica buscar demais visões com outras perspectivas sobre o autor. Não, não sou das que curtem comparar literatura ao cinema, mas perspectivas também implicam visões de cineastas e me apetece tratar cineastas como seres pensantes.
Nesse caso, volto a Ken Russell, ele que sempre volta a pauta, ele que é objeto de meu fascínio, ele que adaptou por três vezes a obra de DH lawrence, das quais apenas O Arco-Íris havia-me passado batido e as outras duas, Mulheres Apaixonadas e O Amante de Lady Chatterley, eram alvo de minha admiração.
Em Lawrence a saga dos Bragwens atravessa a família em gerações, enquanto o filme foi sabiamente adaptado só a partir da segunda metade da obra escrita e acompanha o florescimento sexual e intelectual da jovem Ursula no início do século XX, num épico em que as relações humanas são renovadas por meio da sexualidade, em que a religião é um estado psicológico necessário e que os demais aspectos do mundanismo são aquém de qualquer laço humano. É absolutamente nonsense o fato de um autor tão sensato e em alguns aspectos até puritano, mesmo a serviço de seu notório panssexualismo, tenha sido tão massacrado e perseguido por ter tratado a sexualidade de forma clara e sem frescura.
Glenda Jackson volta a tal universo como a mãe da personagem que interpretara em Mulheres Apaixonadas, Gudrun, agora interpretada por Glenda McKay, enquanto sua irmã Ursula fica por conta de Sammi Davis outrora personificada por Jennie Linden no filme de 69, pois ambos os livros formavam um projeto intitulado “As Irmãs”, cuja intenção inicial era torná-los um único grande épico, mas que posteriormente foi dividido por Lawrence em dois livros contínuos. A Ursula de 1989 é apresentada de uma forma muito menos madura do que vemos no livro, no filme ela é apresentada com o comportamento típico de uma adolescente, enquanto no livro ela pode ser vista como uma jovem sensata, apesar de ser mesmo uma adolescente. O bacana da obra de Lawrence sempre foi esse estado sensualidade contanstante, Lawrence traz a paixão até as mazelas da vida real enquanto a paixão real não sobrevive nas mesquinharias da realidade e Russell sabe dosar isso muito bem contrapondo a sexualidade de Ursula com a sua entrada no opressivo mundo adulto do trabalho e relações sociais, as angústias do que era pequeno e ordinário podiam provocar.
Arco Íris é um filme mais livre e desenvolto que o Mulheres Apaixonadas, este realizado num país onde 10 anos anos antes O Amante de Lady Chatterley ainda era proibido e precisava quebrar certas barreiras da hipocrisia inglesa, mas que afetava a naturalidade que Lawrence pregou por toda a vida, um naturalismo que consistia de anseios primitivos como forma de libertação daquela sociedade industrial, mesquinha e materialista que Lawrence pôde observar desde a infância. E aí entra a afinidade de Russell para com Lawrence, essa busca da liberdade em seu primitivismo, essa doação completa e anti-acadêmica, essa obsessão pela simbologia religiosa, a arte e a sexualidade. Todos os elementos mais recorrentes da obra de Lawrence são os mesmos da obra de Russell, mesmo adaptados para uma arte distinta e em uma situação temporal divergente, a essência do que buscavam era basicamente a mesma.
Outras Obras Russell-Lawrenceanas
Mulheres Apaixonadas (Women in Love, 1969)
Sequência literária imediata aos acontecimentos narrados em O Arco-Íris. Com a diferença de 20 anos separando tal filmagem de sua prequel, Russell escolhe Mulheres Apaixonadas para incursionar em seu segundo longa para cinema e sua primeira adaptação de Lawrence para as telas. É uma ótima adaptação, mas a presença masculina é muito mais forte e desenvolvida do que a feminina nesta versão, mesmo Glenda Jackson sendo de absoluto magnetismo e furor ao encarnar Gudrun, enquanto a visão de Ursula dissipou-se na tela por conta de Jennie Linden. Portanto, Jackson teve que alinhavar todo o universo feminino com as próprias mãos, contrapondo-se à maquinaria comandada por Oliver Reed e Alan Bates, dois dos mais intensos, ferozes e enérgicos atores ingleses dos anos 60. Ollie e Bates são os mais profundos exemplares da virilidade lawrenceana, inclusive em seu homoerotismo, elemento este sempre presente na obra do escritor, também sempre envolto com seu panssexualismo, onde o vento e a chuva se entranham ao chamado sexual, não podendo haver dois melhores espécimes masculinos a representar essa totalidade.
O Amante de Lady Chatterley (Lady Chatterley, 1993)
Agora sim a dosagem do masculino-feminino está devidamente balanceada. Outrora muso de Derek Jarman, Sean Bean legou o mesmo tipo de virilidade e rudeza necessária, enquanto Joely Richardson deixou transparecer a feminilidade intensa de sua personagem. Pela primeira vez Russell conseguiu um equilíbrio completo, tanto da perspectiva fêmea-macho quanto da própria obra de Lawrence, diria que é a peça mais coesa da relação do cineasta com o escritor e os anos 90 foram bem propícios a isso, não haviam mais barreiras a serem quebradas e o tratamento natural que Lawrence dava à sexualidade pôde finalmente ser transposto para as telas, o que muito me alegra, por ter ocorrido essa falta de afetação justamente com Lady Chatterley, o mais honesto de seus livros.
Nota: Se nos anos 60 Russell precisava quebrar a hipocrisia da sociedade inglesa, o livro era Mulheres Apaixonadas. Se nos anos 80 era preciso quebrar a onda yuppie e materialista que assolava o mundo, o livro era O Arco-Íris. Se nos anos 90 era necessário tratar a emoção e o sexo de forma translúcida e natural, o livro era O Amante de Lady Chatterley. Então, por que Russell pulou os anos 70, se le poderia adaptar livremente A Serpente Emplumada para o seu estilo de cinema naquela década? Estava tudo lá: vasta simbologia religiosa, militares megalômanos, revolução mexicana e grandiosa sexualidade, ou seja, tudo que era exagerado e intenso como fora todo o seu cinema dos anos 70. Falha de todos, Lawrence foi equivocadamente pouco adaptado para as telas, através de perspectivas e digressões se converteria facilmente em alguma imagem insana do Russell setentista.
Cais das Sombras (Le Quai des Brumes, 1938)
Não adianta, não tem para ninguém, nem Bogart, nem McQueen, nem Belmondo (provavelmente me arrependerei de dizer isso sobre Jean Paul), Jean Gabin é rei.
Em fins dos anos 30 Gabin moldou boa parte de seus grandes papéis, seja sob a batuta de Jean Renoir com A Grande Ilusão, Bas-Fonds, A Besta Humana, seja através de Julien Duvivier com Pépé le Moko, Camaradas ou, ainda, Marcel Carné com Trágico Amanhecer e este Cais das Sombras. Todos banhados pelo realismo poético francês, a maioria facilmente taxado como pré-noir. Gabin é o anti-herói noir primordial, não com a frieza cínica que caracterizou os anti-heróis do gênero no outro lado do Atlântico, Gabin é filho desse realismo cujos personagens eram marcados pelo instinto e pelo fogo nas entranhas.
Quai des Brumes é um conto de pessoas perdidas, seres desolados e sem rumo que convergem para um mesmo ponto, o porto de Le Havre, seja um cachorro, seja um desertor do exército, seja uma orfã abusada, todos se encontram na bruma e se sustentam no próprio desespero. Ninguém fotografou melhor e com mais expressividade a face do ser humano como os cineastas franceses dos anos 30, lá há os melhores ângulos e as melhores luzes, por consequência lá há as melhores densidades e personalidades e aqui Carné não é diferente.
Por fim, Robert Le Vigan comanda uma conversa de boteco entre Édouard Delmont, Raymond Aimos e Jean Gabin, Jacques Prévert escreveu os diálogos demonstrando bem o ar fatalista de todos os personagens e que pode de alguma forma resumir e dar a atmosfera vislumbrada no filme de Carné:
- Há gente aqui esta noite.
- Sim. E gente boa.
- Ah, não, as pessoas são más e criminosas… Dizem que existem coisas lindas, não sei.
- Pinte você o que é bom.
- Eu tentei… pintei flores, pintei mulheres, crianças… Foi como se pintasse o interior da maldade. Em cada lugar vejo a maldade.
- Isso é como pintar com uma navalha.
- O que é mais simples que uma árvore? Quando a pinto todos estão inquietos porque há alguém
escondido. Pinto as coisas escondidas atrás das coisas. Um nadador é um afogado para mim.
- Natureza morta, hein?
- Cala a boca, imbecil!
- Não, o imbecil sou eu… ao viver tão mal, sempre angustiado.
- Sim, mas tudo dará certo.
- Ainda pensa em se matar?
- Há aqueles que vão pescar, outros casam, outros vão para a guerra, outros cometem crimes passionais e há quem se suicida. Alguém deve morrer.
- É a vida!
- É.
- Ah sim, você bebe para matar algo que te chateia.
- Eu? Eu bebo é pra ficar bêbado.
- É o mesmo.
































