Quixotando

O Arco-Íris (The Rainbow, 1989)

Publicado em ANOS 80, DRAMA, IMPRESSÕES, LIVROS, ROMANCE por Adriana Scarpin em Abril 18, 2009

The Rainbow (1989) - Ken RussellAs mulheres eram diferentes. Também tinham a sonolência da intimidade do sangue, bezerros sugando e galinhas correndo juntas, filhotes de ganso palpitando na mão enquanto a comida era empurrada pelas goelas. As mulheres olhavam além do intercurso acalorado e cego da vida na fazenda, contemplavam o mundo ao redor. Tinham consciência dos lábios e da mente do mundo falando e se manifestando, ouviam o som à distância, esforçavam-se para escutar.

Há pouco tempo tempo fui a um sebo e constatei que alguma pobre alma havia vendido toda sua coleção de DH Lawrence, levei todos os que ainda não tinha e recomecei os meus estudos da obra de Lawrence, fato este que implica buscar demais visões com outras perspectivas sobre o autor. Não, não sou das que curtem comparar literatura ao cinema, mas perspectivas também implicam visões de cineastas e me apetece tratar cineastas como seres pensantes.
Nesse caso, volto a Ken Russell, ele que sempre volta a pauta, ele que é objeto de meu fascínio, ele que adaptou por três vezes a obra de DH lawrence, das quais apenas O Arco-Íris havia-me passado batido e as outras duas, Mulheres Apaixonadas e O Amante de Lady Chatterley, eram alvo de minha admiração.
Em Lawrence a saga dos Bragwens atravessa a família em gerações, enquanto o filme foi sabiamente adaptado só a partir da segunda metade da obra escrita e acompanha o florescimento sexual e intelectual da jovem Ursula no início do século XX, num épico em que as relações humanas são renovadas por meio da sexualidade, em que a religião é um estado psicológico necessário e que os demais aspectos do mundanismo são aquém de qualquer laço humano. É absolutamente nonsense o fato de um autor tão sensato e em alguns aspectos até puritano, mesmo a serviço de seu notório panssexualismo, tenha sido tão massacrado e perseguido por ter tratado a sexualidade de forma clara e sem frescura.The Rainbow (1989) - Sammi DavisGlenda Jackson volta a tal universo como a mãe da personagem que interpretara em Mulheres Apaixonadas, Gudrun, agora interpretada por Glenda McKay, enquanto sua irmã Ursula fica por conta de Sammi Davis outrora personificada por Jennie Linden no filme de 69, pois ambos os livros formavam um projeto intitulado “As Irmãs”, cuja intenção inicial era torná-los um único grande épico, mas que posteriormente foi dividido por Lawrence em dois livros contínuos. A Ursula de 1989 é apresentada de uma forma muito menos madura do que vemos no livro, no filme ela é apresentada com o comportamento típico de uma adolescente, enquanto no livro ela pode ser vista como uma jovem sensata, apesar de ser mesmo uma adolescente. O bacana da obra de Lawrence sempre foi esse estado sensualidade contanstante, Lawrence traz a paixão até as mazelas da vida real enquanto a paixão real não sobrevive nas mesquinharias da realidade e Russell sabe dosar isso muito bem contrapondo a sexualidade de Ursula com a sua entrada no opressivo mundo adulto do trabalho e relações sociais, as angústias do que era pequeno e ordinário podiam provocar.The Rainbow (1989) - Amanda Donohoe & Sammi DavisArco Íris é um filme mais livre e desenvolto que o Mulheres Apaixonadas, este realizado num país onde 10 anos anos antes O Amante de Lady Chatterley ainda era proibido e precisava quebrar certas barreiras da hipocrisia inglesa, mas que afetava a naturalidade que Lawrence pregou por toda a vida, um naturalismo que consistia de anseios primitivos como forma de libertação daquela sociedade industrial, mesquinha e materialista que Lawrence pôde observar desde a infância. E aí entra a afinidade de Russell para com Lawrence, essa busca da liberdade em seu primitivismo, essa doação completa e anti-acadêmica, essa obsessão pela simbologia religiosa, a arte e a sexualidade. Todos os elementos mais recorrentes da obra de Lawrence são os mesmos da obra de Russell, mesmo adaptados para uma arte distinta e em uma situação temporal divergente, a essência do que buscavam era basicamente a mesma.The Rainbow (1989) - Christopher Gable

Outras Obras Russell-Lawrenceanas

Publicado em ANOS 60, ANOS 90, LIVROS, ROMANCE por Adriana Scarpin em Abril 18, 2009

Mulheres Apaixonadas (Women in Love, 1969) Women in Love (1969) - Oliver Reed, Glenda JacksonSequência literária imediata aos acontecimentos narrados em O Arco-Íris. Com a diferença de 20 anos separando tal filmagem de sua prequel, Russell escolhe Mulheres Apaixonadas para incursionar em seu segundo longa para cinema e sua primeira adaptação de Lawrence para as telas. É uma ótima adaptação, mas a presença masculina é muito mais forte e desenvolvida do que a feminina nesta versão, mesmo Glenda Jackson sendo de absoluto magnetismo e furor ao encarnar Gudrun, enquanto a visão de Ursula dissipou-se na tela por conta de Jennie Linden. Portanto, Jackson teve que alinhavar todo o universo feminino com as próprias mãos, contrapondo-se à maquinaria comandada por Oliver Reed e Alan Bates, dois dos mais intensos, ferozes e enérgicos atores ingleses dos anos 60. Ollie e Bates são os mais profundos exemplares da virilidade lawrenceana, inclusive em seu homoerotismo, elemento este sempre presente na obra do escritor, também sempre envolto com seu panssexualismo, onde o vento e a chuva se entranham ao chamado sexual, não podendo haver dois melhores espécimes masculinos a representar essa totalidade.

O Amante de Lady Chatterley (Lady Chatterley, 1993)Lady Chatterley (1993) - Joely Richardson & Sean BeanAgora sim a dosagem do masculino-feminino está devidamente balanceada. Outrora muso de Derek Jarman, Sean Bean legou o mesmo tipo de virilidade e rudeza necessária, enquanto Joely Richardson deixou transparecer a feminilidade intensa de sua personagem. Pela primeira vez Russell conseguiu um equilíbrio completo, tanto da perspectiva fêmea-macho quanto da própria obra de Lawrence, diria que é a peça mais coesa da relação do cineasta com o escritor e os anos 90 foram bem propícios a isso, não haviam mais barreiras a serem quebradas e o tratamento natural que Lawrence dava à sexualidade pôde finalmente ser transposto para as telas, o que muito me alegra, por ter ocorrido essa falta de afetação justamente com Lady Chatterley, o mais honesto de seus livros.

Nota: Se nos anos 60 Russell precisava quebrar a hipocrisia da sociedade inglesa, o livro era Mulheres Apaixonadas. Se nos anos 80 era preciso quebrar a onda yuppie e materialista que assolava o mundo, o livro era O Arco-Íris. Se nos anos 90 era necessário tratar a emoção e o sexo de forma translúcida e natural, o livro era O Amante de Lady Chatterley. Então, por que Russell pulou os anos 70, se le poderia adaptar livremente A Serpente Emplumada para o seu estilo de cinema naquela década? Estava tudo lá: vasta simbologia religiosa, militares megalômanos, revolução mexicana e grandiosa sexualidade, ou seja, tudo que era exagerado e intenso como fora todo o seu cinema dos anos 70. Falha de todos, Lawrence foi equivocadamente pouco adaptado para as telas, através de perspectivas e digressões se converteria facilmente em alguma imagem insana do Russell setentista.

Centenário de Carole Lombard – Parte 2

Publicado em ANOS 30, ANOS 40, COMÉDIA, FOTOGRAFIA, GUERRA, IMPRESSÕES, MUSAS, MUSOS, PRE-CODE, ROMANCE por Adriana Scarpin em Outubro 6, 2008

1- Ser ou Não Ser (To Be or Not to Be, Ernst Lubitsch, 1942)Embora considere as obras máximas de Lubitsch saídas de sua fase pre-code, Ser ou Não Ser e A Oitava Esposa do Barba Azul constituem uma exceção aos meus olhos e Maria Tura é certamente não apenas a melhor personagem de Carole (e última) como uma das marcantes personagens femininas do século XX. O irônico é que tal personagem deveria ser da eterna xodó lubitschiana Miriam Hopkins, mas esta se recusou (!?!) a trabalhar com Jack Benny, enquanto Clark Gable era terminantemente contra (!?!) Carole tomar parte desse filme.

2- Um Casal do Barulho (Mr. & Mrs. Smith, Alfred Hitchcock, 1941)Considerada a loira gelada hitchcockiana primordial, Carole foi a protagonista do mais singular dos Hitchcocks e sua silhueta foi alvo de uma obsessão à la Vertigo por décadas do tio Hitch por uma mulher morta.

3- Não Cobiçarás a Mulher Alheia (They Knew What They Wanted, Garson Kanin, 1940)Filme chatinho, tem seus momentos, mas o fato de tê-lo visto com dublagem em espanhol não ajudou muito, nem para apreciar a adorável voz de Carole e nem distinguir o suposto sotaque italiano de Charles Laughton, este com sua linda personagem a salvar o filme. Foi o primeiro filme de Karl Malden que ainda está vivo aos 96 anos!

4- Esposa Só no Nome (In Name Only, John Cromwell, 1939)Esse é o típico filme que me deixa puta por desperdício de talento, pegam o rei e rainha do screwball e colocam num melodrama xaroposo cujo atrativo-mor é justamente a antagonista vivida pela sempre excelente Kay Francis. Não, o filme não é ruim, é razoavelmente bom, mas ver dois dos meus maiores xodós eclipsados quando deveriam fazer uma senhora dupla, é dose. Há algo de pessoal no mote deste filme, Carole havia vivido algo parecido com Gable.

5- Nascidos para Casar (Made for Each Other, John Cromwell, 1939)Aí ó, esse filme cai como uma luva para o James Stewart, mas não sei se Carole não era furacão demais para ele, Carole combina com Cary, com Fred, com Fredric, com Clark, com Jack, com Gary… o James precisa de uma mulher mais sossegada, talvez não seja um filme ruim, mas dá no meu saquinho.

Centenário de Carole Lombard – Parte 3

Publicado em ANOS 30, COMÉDIA, FOTOGRAFIA, IMPRESSÕES, MUSAS, MUSOS, POSTERS, ROMANCE, SCREENSHOT, SCREWBALL por Adriana Scarpin em Outubro 6, 2008

6- Nada é Sagrado (Nothing Sacred, William A. Wellman, 1937)

Nada é Sagrado é tido não só como um dos melhores filmes de Carole, como um das melhores comédias de sempre, por pecado meu ou não, este é um filme que não significa muito para mim. Apesar de ser fã de Carole e Fredric March, tendo eles uma química incrível em cena e mesmo com aquela famosa sequência de espancamento, não é um filme que coloque nem no meu top 5 de Miss Lombard.

7- Começou no Trópico (Swing High, Swing Low, Mitchell Leisen, 1937)Mais um filme de Mitchell Leisen com seu muso-mor MacMurray e novamente ao lado de Lombard. Miss Carole arrasa de novo com aquelas oscilações do cômico para o dramático como só ela sabia fazer com a classe que lhe era natural, embora seja um filme menor de sua filmografia e a de Leisen, ganha pontos por ter MacMurray tocando trompete enquanto Carole finge que sabe cantar.

8- Confissão de Mulher (True Confession, Wesley Ruggles, 1937)O que acontece quando colocam a Carole no papel de uma mentirosa compulsiva com a Una Merkel como sua melhor amiga, Fred MacMurray como o marido honestíssimo e John Barrymore como um bêbado (!!!) escroque? Coisas impensáveis, oras. Gosto desse filme particularmente pelo tique de Carole ao mentir, algo que ela faz com a boca como prenúncio de mais uma daquelas barbaridades absurdas que sua personagem deixava fluir na imaginação. Não é um grande filme, mas Carole me fez rir com gosto.

9- Irene – A Teimosa (My Man Godfrey, Gregory La Cava, 1936)Sério candidato a melhor filme protagonizado por Carole, onde todos os personagens são completamente malucos e nos dando a concreta impressão que nada alí faz qualquer sentido. Um dos mais contundentes exemplos do quão nonsense e genial o gênero screwball pôde chegar nos anos 30, Carole volta a contracenar com o ex-marido William Powell e chega mesmo a bater a doidivanas da Katharine Hepbun em Levada da Breca como melhor personagem cômica feminina da década. Afinal, Godfrey loves me! He put me in the shower!

10- A Princesa do Brooklyn (The Princess Comes Across, William K. Howard, 1936)A graça desce filme reside única e exclusivamente na performance de Carole, que presta uma “homenagem” a Greta Garbo, só de lembrar o sotaque e as caras e bocas que Miss Lombard faz, já me dá vontade de rir. Ah, o par romântico é Fred MacMurray… again.

Centenário de Carole Lombard – Parte 4

Publicado em ANOS 30, COMÉDIA, DRAMA, FOTOGRAFIA, IMPRESSÕES, MUSAS, MUSOS, POSTERS, ROMANCE, SCREWBALL por Adriana Scarpin em Outubro 6, 2008

11- A Ceia das Donzelas (Love Before Breakfast, Walter Lang, 1936)Nos anos 30 era praxe colocar mulher sendo espancada como alívio cômico, na verdade bem pouco me recordo desse filme e só lembro do Preston Foster socando Carole sem querer, Cesar Romero bancando seu habitual latin lover e Carole encarnando a mulher geniosa com extração das corriqueiras gargalhadas sinceras.

12- Corações Unidos (Hands Across the Table, Mitchell Leisen, 1935)Ah, esse eu adoro. Primeiro filme que vi com o duo Lombard-MacMurray, aqui, longe do que era habitual, Fred é quem encarna o maluquete da dupla, um milionário falido completamente irresistível. Daquelas comédias românticas que só os anos 30 sabiam produzir.

13- The Gay Bride (Jack Conway, 1934)Carole volta a ser par de Chester Morris com quem trabalharara em Tu és a Única. Filme de gângster decente no auge do gênero só que num clima mais Tiros na Broadway do que Scarface e, putz, o Chester Morris era um cara bacana e devia mesmo ter se tornado um grande astro.

14- Lady by Choice (David Burton, 1934)Último filme de Carole na Columbia antes de ir para a Paramount e se tornar uma estrela A. É um filme chatinho, mas Carole é glamour até a medula como uma dançarina.

15- Agora e Sempre (Now and Forever, Henry Hathaway, 1934)Seria um filme bacana se a Shirley Temple não existisse, pode me chamar de sem caráter e sem coração (até parece), mas a Shirley Temple sempre me irritou profundamente, na verdade crianças-prodígio me dão calafrios porque sempre lembro da Baby Jane e tenho vontade de socar os pais que entram nessa roda de exposição-exploração. Mas voltando ao filme, Gary Cooper, Henry Hathaway e Carole podiam ter combinado coisa melhor.

Centenário de Carole Lombard – Parte 5

Publicado em ANOS 30, AÇÃO, COMÉDIA, DRAMA, FOTOGRAFIA, GUERRA, HORROR, IMPRESSÕES, MUSAS, MUSICAL, MUSOS, POSTERS, PRE-CODE, ROMANCE, SCREENSHOT, SCREWBALL, SUSPENSE por Adriana Scarpin em Outubro 6, 2008

16- Suprema Conquista (Twentieth Century, Howard Hawks, 1934)Filme responsável por minha paixão simultânea e avassaladora por John Barrymore e Carole Lombard, primeiro filme que assisti de ambos, embora já conhecesse o trabalho do primo de Carole, Mr Howard Hawks. Não só é meu filme preferido com Lombard e seu primeiro grande papel, como é considerado a primeira comédia screwball do cinema e o melhor filme que fez segundo o próprio Barrymore. Também pudera, com esse elenco, roteirização de Ben Hecht, Charles MacArthur e Preston Sturges e batuta de Hawks, seria inadmissível não pecar pela excelência.

17- Cupido Ao Leme (We’re Not Dressing, Norman Taurog, 1934)Esse filme é um pé no meu saquinho. Veículo absoluto para o Bing Crosby sair cantando e ir com a Lombard para uma ilha deserta, alguma ou outra cena divertida mas nada muito relevante. Menção honrosa ao casal George Burns e Gracie Allen quando estavam no auge e um Ray Milland em início de carreira no papel de um dos príncipes a disputar a bela náufraga Lombard com o marinheiro Crosby.

18- Bolero (Wesley Ruggles / Mitchell Leisen,1934)Outro filme realmente ruim e veículo para que George Raft saísse do estigma de gangster tornando-se aos olhos do público o que realmente era: um dançarino. Neste filme tentaram transformar Carole numa espécie de Jean Harlow, com o cabelo platinado e uma maquiagem que tirava toda sua natural beleza classuda. O filme só é realmente sensacional em seu momento derradeiro, a famosa cena do Bolero de Ravel em que Lombard e Raft dançam lindamente uma coreografia que só podia ser vista num filme pre-code. A curiosidade fica por conta de algumas semelhanças da personagem de Raft com a vida de Rodolfo Valentino, especialmente quanto ao vislumbre gigolô-dançarino e morte prematura.

19- Supernatural (Victor Halperin, 1933)Ótimo horror do início dos anos 30 orquestrado pelo mesmo realizador de White Zombie, um dos primeiros classicaços sobre zumbis que se tem notícia. Aqui Halperin flerta com zumbizagem, possessão e charlatanismo num quase-precursor de Brinquedo Assassino. Carole é a atriz principal e tem a primeira grande mostra de seu talento nas cenas em que sua personagem é possuída por uma maníaca, mas os méritos também devem ser dados especialmente ao Alan Dinehart (o espiritualista), Vivienne Osborne (a condenada à morte) e, especialmente, Beryl Mercer (a vizinha chantagista). Randolph Scott aparece aqui num dos seus primeiros papéis de certa notoriedade.

20- Os Dragões da Noite / A Águia e o Gavião (The Eagle and the Hawk, Stuart Walker, 1933)No ano anterior quando Carole e Cary fizeram um filme juntos, mal se notava Grant nos créditos e em cena, aqui é o nome dela que diminiu nos letreiros e o de Grant equiparou-se com o do astro consumado Fredric March. Um grande filme de macho e antibelicista em que Carole só é enfeite.

Centenário de Carole Lombard – Parte 6

Publicado em ANOS 20, ANOS 30, COMÉDIA, DRAMA, FOTOGRAFIA, IMPRESSÕES, MUSAS, MUSOS, POSTERS, PRE-CODE, ROMANCE por Adriana Scarpin em Outubro 6, 2008

21- Casar por Azar (No Man of Her Own, Wesley Ruggles, 1932)Mais um filme chatinho do Wesley Ruggles que bem pouco sal colocou em seus filmes, aliás, pimenta pois bem gosto de comida sem sal e com muita pimenta. Nem é preciso dizer que o interesse aqui é Miss Lombard formando um casal com Mr Gable anos antes deles serem atingidos por um raio saído sabe lá de onde e juntarem os trapinhos. Nessa época eles estavam compremetidos com outras pessoas e a única química existente era na tela.

22- Virtue (Edward Buzzell, 1932)Bom filme dramático de Miss Lombard, embora ela seja sofisticada demais para conseguir passar veracidade como prostituta de rua quando a única forma de vê-la é como prostituta de luxo.

23- Tu és a Única (Sinners in the Sun, Alexander Hall, 1932)Primeiro dos três filmes em que Carole atuou ao lado de Cary Grant, ela já conquistara certa notabilidade com mais de dez anos de carreira, mas Grant ainda estava no seu segundo papel de uma carreira razoavelmente meteórica, é quase inadimissível que os dois maiores atores screwball não tenham dividido um filme sequer do gênero. A vantagem aqui é que este é um bom filme e Alexander Hall é um diretor bacana. Foi com esse filme que descobri uma das artimanhas do pre-code: sempre que uma mulher troca de roupa o telefone toca para que ela atenda e passe o maior tempo possível de lingerie na tela, Carole foi uma das rainhas dessa tática, pois seu corpo era um dos mais belos da época só rivalizado pelos de Joan Crawford e Jean Harlow.

24- O Homem do Mundo (Man of the World, Richard Wallace / Edward Goodman, 1931)Segundo filme em que Carole trabalha com seu então marido William Powell, a quem ela chamava de “único ator inteligente que conheci” e O Homem do Mundo reflete bem a personalidade culta e sofisticada pertencente a Powell. Mais um filme para explorar o novo casal hollywoodiano do que qualquer outra coisa.

25- It Pays to Advertise (Frank Tuttle, 1931)Carole ao lado da não menos diva Louise Brooks (que não se deu bem em Hollywood porque não se encaixava no esquema dos fuinhas). A idéia de fazer algo sobre propaganda e hoax é boa, mas a realização é ruim, faltou maior exploração cômica quanto a venda de um produto que não existe e o carisma dos envolvidos ficou em débito, até a sempre reluzente Carole perdeu o brilho e a participação de Brooks pós-Pabst é ínfima, mesmo que interessante.

Centenário de Carole Lombard – Parte 7

Publicado em ANOS 20, COMÉDIA, CURTAS, DRAMA, FOTOGRAFIA, GANGSTER, IMPRESSÕES, MUSAS, POSTERS, ROMANCE, VIDEOS, ÉPICO por Adriana Scarpin em Outubro 6, 2008

26- Alta Voltagem (High Voltage, Howard Higgin, 1929)Típico filme de transição do cinema mudo para o falado onde ninguém sabia ao certo o que estava fazendo, o mote é bacana, uma espécie de “Lost das Neves” onde algumas pessoas ficam ilhadas numa cabana na neve e com o passar do filme as personalidades vão se delineando, inclusive Carole é uma prisioneira escoltada por um policial. O desenvolvimento e qualidade são terríveis da mesma forma que fora The Racketeer e cujo diretor é o mesmo.

27- O Gângster (The Racketeer, Howard Higgin, 1929)Horrível, horrível, horrível. Pior filme que vi com Carole e uma das suas primeiras incursões ao cinema falado.

28- Dynamite (Cecil B. DeMille, 1929)Tudo é meio nebuloso quanto a relação de Carole neste filme. Aparentemente ela foi substituída de um papel maior que mero extra, mas diz-se que ainda é possível vê-la em cena. Sinceramente não consegui encontrá-la, mas é o primeiro filme falado de DeMille da época em que ainda fazia lascivas películas hedonistas pre-code e o pedaçudo do Joel McCrea dá as caras, então valeu a pena.

29- Vamp do Campus (The Campus Vamp, Harry Edwards, 1928)Carole é a própria vamp universitária do título nesse curta, oras.

30- Run, Girl, Run (Alfred J. Goulding, 1928)

Carole é a atleta que não pode ficar gandaiando à noite neste que é um dos inúmeros curtas que fez sob a produção de Mack Sennett. Ótima oportunidade para ver Carole de shortinho com os pernões à mostra.

Centenário de Carole Lombard – Parte 8

Publicado em ANOS 20, ANOS 80, ANOS 90, COMÉDIA, CURTAS, DOCUMENTÁRIO, DRAMA, IMPRESSÕES, MUDOS, MUSAS, POSTERS, ROMANCE, SCREENSHOT, VIDEOS, ÉPICO por Adriana Scarpin em Outubro 6, 2008

31- A Melhor de Todas / Meu Único Amor (My Best Girl, Sam Taylor, 1927)Participação ínfima de Carole tentando roubar o Buddy Rogers da Mary Pickford, logo depois do acidente de carro que deixou marcas no rosto de Lombard. Esse é sim um filme que vale a pena e uma das glórias de Mary Pickford.

32- Ben-Hur: A Tale of the Christ (Fred Niblo/Christy Cabanne/Rex Ingram/Charles Brabin, 1925)Taí o segundo filme em que Carole trabalhou como extra na companhia de Gable. Até aí tudo certo, mas até os grandes astros do cinema mudo trabalharam como extras ao lado de futuros astros ainda desconhecidos, provavelmente a MGM arrastou toda a Califórnia para aparecer no filme, estão lá como extras: John e Lionel Barrymore, Gary Cooper, Joan Crawford, Marion Davies, Douglas Fairbanks, Janet Gaynor, Dorothy e Lillian Gish, John Gilbert, Myrna Loy, Mary Pickford, até o Samuel Goldwyn e sabe-se lá quem mais foi extra na primeira e melhor versão de Ben Hur!

33- The Plastic Age (Wesley Ruggles, 1925)Aqui Carole é extra na festa de república da Clara Bow, até aí tudo bem, ela foi extra em muitos filmes, o que faz este diferente é que em outra cena Clark Gable também é extra. Por um desses milagres da vida consegui encontrar os dois.

Off-topic:

Zelig (Woody Allen, 1983)É claro que Carole estava numa das glamourosas festas de William Randolph Hearst em San Simeon com Leonard Zelig. Uma desculpa para se dizer que a precursora de Diane Keaton também trabalhou com Allen.

Great Romances of the 20th Century: Carole Lombard and Clark Gable (1997) Episódio de um seriado documental britânico narrado por Robert Powell, apesar de curto dá uma boa visão do relacionamento entre Lombard & Gable.

Nota: Se tudo der certo e algum americano bonzinho gravar Fools For Scandals, Brief Moment, Vigil in the Night, No More Orchids do especial no TCM e colocar na rede, terei mais quatro na conta. Vergonhosamente poucos dos seus filmes foram lançados nesse país xulezento. Mas estou tranquila, sempre há um povo bom que dá uma força, especialmente as coleguinhas do YouTube.

Cais das Sombras (Le Quai des Brumes, 1938)

Publicado em ANOS 30, DRAMA, IMPRESSÕES, NOIR, ROMANCE por Adriana Scarpin em Outubro 1, 2008

Não adianta, não tem para ninguém, nem Bogart, nem McQueen, nem Belmondo (provavelmente me arrependerei de dizer isso sobre Jean Paul), Jean Gabin é rei.
Em fins dos anos 30 Gabin moldou boa parte de seus grandes papéis, seja sob a batuta de Jean Renoir com A Grande Ilusão, Bas-Fonds, A Besta Humana, seja através de Julien Duvivier com Pépé le Moko, Camaradas ou, ainda, Marcel Carné com Trágico Amanhecer e este Cais das Sombras. Todos banhados pelo realismo poético francês, a maioria facilmente taxado como pré-noir. Gabin é o anti-herói noir primordial, não com a frieza cínica que caracterizou os anti-heróis do gênero no outro lado do Atlântico, Gabin é filho desse realismo cujos personagens eram marcados pelo instinto e pelo fogo nas entranhas.
Quai des Brumes é um conto de pessoas perdidas, seres desolados e sem rumo que convergem para um mesmo ponto, o porto de Le Havre, seja um cachorro, seja um desertor do exército, seja uma orfã abusada, todos se encontram na bruma e se sustentam no próprio desespero. Ninguém fotografou melhor e com mais expressividade a face do ser humano como os cineastas franceses dos anos 30, lá há os melhores ângulos e as melhores luzes, por consequência lá há as melhores densidades e personalidades e aqui Carné não é diferente.
Por fim, Robert Le Vigan comanda uma conversa de boteco entre Édouard Delmont, Raymond Aimos e Jean Gabin, Jacques Prévert escreveu os diálogos demonstrando bem o ar fatalista de todos os personagens e que pode de alguma forma resumir e dar a atmosfera vislumbrada no filme de Carné:

- Há gente aqui esta noite.
- Sim. E gente boa.
- Ah, não, as pessoas são más e criminosas… Dizem que existem coisas lindas, não sei.
- Pinte você o que é bom.
- Eu tentei… pintei flores, pintei mulheres, crianças… Foi como se pintasse o interior da maldade. Em cada lugar vejo a maldade.
- Isso é como pintar com uma navalha.
- O que é mais simples que uma árvore? Quando a pinto todos estão inquietos porque há alguém escondido. Pinto as coisas escondidas atrás das coisas. Um nadador é um afogado para mim.
- Natureza morta, hein?
- Cala a boca, imbecil!
- Não, o imbecil sou eu… ao viver tão mal, sempre angustiado.
- Sim, mas tudo dará certo.
- Ainda pensa em se matar?
- Há aqueles que vão pescar, outros casam, outros vão para a guerra, outros cometem crimes passionais e há quem se suicida. Alguém deve morrer.
- É a vida!
- É.
- Ah sim, você bebe para matar algo que te chateia.
- Eu? Eu bebo é pra ficar bêbado.
- É o mesmo.