Breaking Point (1975)
Nos primeiros 5 minutos o que vem a mente mente é: por que este filme não é tão cultuado quanto o filme anterior de Bo Arne Vibenius, Thriller – A Cruel Picture? Nem é pela bizarrice dos créditos iniciais ao som da música de Harry Lime, mas pelo que se segue, uma violenta e ao mesmo tempo discreta cena de estupro a partir de uma raivosa sombra misógina, que nos remete imediatamente a Argento e De Palma. Mas só nesses primeiros minutos, depois o pupilo do Bergman volta ao bom e velho hardcore que fez a sua fama. Digo pupilo do Bergman porque Vibenius trabalhou como assistente de direção em obras primas do tio Ingmar, tais como Persona e A Hora do Lobo, não que estética e filosoficamente a influência seja clara, mas ao menos Bo Arne vislumbrou grande perícia narrativa e fotográfica nas andanças com Bergman.
Voltando à comparação com Thriller, este acaba por evidenciar sua inferioridade comparado à Breaking Point, os intercursos sexuais que se resumem basicamente a felatios fazem todo o sentido aqui, ao contrário do que acontecera com certas cenas forçadas de Thriller, aqui o sexo é necessário para o andamento narrativo que nos ludibria em relação à natureza da personagem masculina principal: seria ele um esquizofrênico ou um maníaco? Aquilo que vemos na tela segue o ponto de vista em terceira ou em primeira pessoa? Quanto mais o filme vai avançando, mais dúvidas, ramificações e críticas da sociedade da época vão sendo inseridas, chegando a lembrar muito o posterior cinema de David Cronenberg, culminando na cena final que dá um tapa na cara de quem o está assistindo, não um tapa na cara usual do cinema exploitation e sim da nossa própria mediocridade.
Esqueça Thriller – A Cruel Picture, se alguém quiser conhecer o cinema exploitation de Vibenius é em Breaking Point que se deve mirar, muito mais complexo e superior.
Além da Imaginação: Um Incidente na Ponte Owl Creek (Twilight Zone: An Occurrence at Owl Creek Bridge / La Rivière du Hibou, 1962)
Na verdade este não é um real episódio do Além da Imaginação, assim como diz o Rod Serling na introdução, é um curta francês produzido anos antes e que o seriado exibiu não apenas por condizer com a linha seguida, mas também porque é uma pequena obra de arte. Não dêem atenção a legendas, o curta não possui diálogos efetivos. É baseado no conto homônimo do Ambrose Bierce, sem dúvida um dos melhores autores americanos de sempre.
Nota: O conto de Bierce já havia sido adaptado anteriormente em 1929 e para um episódio da quinta temporada do Alfred Hitchcock Presents com direito a James Coburn e tudo mais. Recentemente voltou aos braços da cultura pop quando um tal de James Ford não tinha o que fazer e resolveu ler o tal conto numa ilha deserta.
Arquivo X: Jose Chung’s From Outer Space (The X-Files, 1993-2002)
Depois da decepcionante volta aos cinemas do meu, do seu, do nosso “Spooky” Mulder, nada mais prazeroso do que lembrar os melhores momentos do mais sensacional episódio do seriado, o totalmente alucinado e cômico Jose Chung’s From Outer Space. O que mais me deixa frustada quanto ao seriado, foi o fato do roteirista deste entre outros dos melhores episódios, Darin Morgan, ter escrito tão pouco. O meu segundo episódio em preferência é o não menos infame e também escrito por Morgan, War of the Coprophages, no melhor estilo “O ataque das baratas assassinas do espaço sideral”. Há outros do Morgan de que gosto bastante como aquele com a participação impagável de Peter Boyle, Clyde Bruckman’s Final Repose, uma outra grande homenagem ao cinema só que agora pendendo mais para o cinema mudo, ou ainda aquela declaração de amor a Tod Browning no episódio Humbug com direito àquele maldito anão de Twin Peaks e Carnivale.
Ok, Dana é ótima, mas não preciso pensar duas vezes para entender que sempre fora meu companheirinho arquetípico a chamar minha atenção e que Fox Mulder é o segundo melhor agente do FBI da cultura pop, só perdendo para o eternamente inatingível Dale Cooper de você-sabe-qual-série. O complemento de Scully e Mulder não é só necessário para arrematar a narrativa, como foi essencial para que a série fizesse sucesso com a perfeita união do manter os pés no chão de Dana para com Fox e o abrir de mentes de Fox para com Dana, algo que deveria ser mais comum no nosso dia-a-dia, mas que infelizmente pouco acontece por mero preconceito, superficialismo e crença em verdades absolutas.
Arquivo X foi uma das pouquíssimas séries que conseguiu prender a atenção do meu irrequieto espírito juvenil, não a ponto de acompanhá-la religiosamente, mas ao menos de lembrar de ligar a tv para assistí-la nas noites em que era exibida na Rede Record. É também o segundo melhor seriado americano dos anos 90, só perdendo para aquele você-sabe-qual e com lugar cativo naquela galeria seleta de culto de ficção científica ao lado de Jornada nas Estrelas no passado ou atualmente Lost. Seriados de grande sucesso hoje como Heroes, Lost, 4400, Supernatural muito devem a Arquivo X, este seria quase como o objeto de transição entre tais seriados e coisas passadas como Twilight Zone, Invaders, Kolchak (o original) e Alfred Hitchcock Presents.
Arquixo X estruturou-se de forma peculiar, alternando episódios que seguiam uma lineariedade factual sobre alienígenas e outros episódios isolados sobre outros mitos como pé grande, vampiros, lobisomens, zumbis, bruxas etc, mas o grande mistério essencial da série girava mesmo em torno dos alienígenas e a invasão dos mesmos no Planeta Terra.
O seriado é uma grande homenagem ao cinema B de ficção científica e horror, o clima de constante paranóia que assolou o gênero nos anos 50, de Don Siegel a Jack Arnold até o mais puro e delicioso trash a lá Gerardo de Leon, Bert Gordon, Roger Corman e Kurt Neumann, não deixando de avançar em homenagens claras à John Carpenter, Steven Spielberg, Tod Browning, James Whale (no também sensacional The Post-Modern Prometheus), Alfred Hitchcock, Nicolas Roeg, e Ridley Scott dos bons tempos, entre outros, especialmente em torno de Silêncio dos Inocentes, cujo personagem de Jodie Foster serviu como molde para o de Gillian Anderson, com sobras até para o melhor cinema conspiratório como Todos os Homens do Presidente, JFK, Sob o Somínio do Mal, A Conversação, Blow Out e Up. Até A Última Tentação de Cristo e Rashomon acabam por ter o seu pedaço desso bolo gigante, no caso do último através do vampiresco e ótimo Bad Blood.
O que me faz gostar tanto do Mulder é sua mente aberta sem nunca deixar de ser desconfiado e lógico, muito de qualquer tipo de iconoclastia é vulgar e irracional, pelo simples fato de tentar “debunkar” algo, de que é necessário uma prova irrefutável, mas tal prova não é encontrada também do contrário, muitas vezes esses mesmos que se proclamam tão racionais são os de atitude mais ilógicas e beirando ao fanatismo, particularmente não vejo distinção alguma entre um fanático religioso e um fanático cético, ambos estão tão imersos em suas próprias verdades que não conseguem ver nada além de seus umbigos, cá entre nós não dá para chamar de racional e lógico alguém que defente ferrenhamente a inexistencia de qualquer coisa sem as mesmas provas que este tipo de mentalidade tanto proclama.
O Mulder é lógico, mas para os padrões gerais ele é um “spooky” porque não ousa fechar sua mente para possiblidade alguma, acredita em tudo até que lhe provem o contrário, porque apesar da verdade estar lá fora, é bem difícil conseguir enxergá-la.
Nota 1: Sabe o que é mais estranho ao ver aquele longa praticamente uma década depois? É que justamente agora quando finalmente David Duchovny havia sublimado a aura de Fox para o público e se convertido no inesquecível Hanky Moody, o desgraçado volta ao Spooky. Por falar em Hank Moody, cadê a segunda temporada de Californication, jesuis?
Nota 2: O número do apartamento em que Mulder morava era 42. Claro.
Nota 3: Também nunca é tarde para relembrar a união dos dois melhores agentes do FBI dos anos 90 em Twin Peaks: Dale Cooper e Fox Mulder, no caso do último, ele ainda era da Narcóticos, travesti e dava uns apertos na Laura Palmer, o que não deixa de ser ainda mais memorável.
Nota 4: Eu juro que vi o John Locke e o Benjamin Linus em Arquivo-X. Eu Juro. Terry O’Quinn teve a petulância de interpretar 3 personagens diferentes durante a série, todos devidamente abigodados, incluso no longa de 1998 quando descobrimos onde arranjou aquela mania estranha de explodir tudo para um “bem maior”. E, céus, Michael Emerson foi um telecinético. O bacana é que o Locke é uma espécie de Fox Mulder de Lost, enquanto o Ben é tão memorável quanto o até então melhor vilão dos seriados de sempre: o Canceroso. Vai ver por isso são os meus preferidos.
Nota 5: Darin Morgan, o roteirista dos melhores episódios do seriado não foi apenas o mais inesquecível na escrita, ele também encarnou o tipinho mais repugnante e impressionante das nove temporadas: o Homem-Platelminto Mutante. Depois Morgan acabou voltando como ator no ótimo Small Potatoes, onde passava a perna no Fox e chegou mais perto da Scully do que ele em todos aqueles anos.
Nota 6: E um dos melhores episódios dos Simpsons, The Springfield Files, contém além das literais participações de Fox e Dana, foi apresentado por ninguém menos que Leonard Nimoy e com direito a participação velada do Canceroso. Ambos os seriados iam ao ar nas noites de sexta na Fox e a homenagem foi retribuída em Arquivo X na forma de um empregado de uma Usina Nuclear que ficava dormindo no serviço e atendia pelo distintíssimo nome de Homer.
O Espião de Dois Mundos ( A Dandy in Aspic, 1968 )
Filmes britânicos de espionagem são o que há de melhor no gênero. Filmes britânicos de espionagem dos anos 60 durante a plenitude da Guerra Fria são melhores ainda. Mas há um porém neste A Dandy em Aspic, enquanto tudo cheirava a James Bonds e Harry Palmers da vida, o filme de Anthony Mann teve a ousadia de ser diferente e tal diferença não cabe apenas à trilha sonora de Quincy Jones em lugar do usual John Barry.
O último filme de Anthony Mann, que morreu durante as filmagens, talvez não soe qualitativamente como alguns dos seus melhores westerns ou épicos romanos, mas não é uma vergonha para ele e nem para o gênero de espionagem, pois além de belíssimos planos que te enclinam literalmente no suspense (direção de fotografia de Christopher Challis – o mesmo fodaço que fez a fotografia de A Fúria de um Bravo logo abaixo), a saga moral e sócio-política da personagem central interpretada por Laurence Harvey é muito mais humana e verossímel do que o habitual.
Eberlin, o agente duplo, tem uma existência vazia, tendo sido criado praticamente no berço da Rússia para crescer britânico e se infiltrar na espionagem inglesa, exatamente como marionete evidenciada nos créditos iniciais são os britânicos que acabam por assumir os fios que puxam o seu corpo de maneira que o enforcamento pareça inevitável.
Mais do que Laurence Harvey segurar as pontas como ator e posteriormente como diretor no restante de cenas que ainda estavam por serem filmadas pós morte de Mann, A Dandy in Aspic tem um elenco excepcional, como um dolorosamente irritante Tom Courteney na pele de brit-spy nada carismático ou um Lionel Stander na pele de um soviet para além da simpatia, além das dúbias presenças de Mia Farrow, Per Oscarsson e Peter Cook. O alívio cômico do filme obviamente fica por conta de Peter Cook, pois não é plausível ter um dos maiores comediantes de todos os tempos presente em um filme sem dar-lhe o devido rumo, no caso, o papel de um agente secreto metrossexual viciado em mulher que faria inveja até a James Bond.
Como bom thriller de espionagem que se preze, suas quase duas horas são recheadas de diálogos espertinhos para dilatar o molde de desespero e paranóia às voltas com todas personagens, como mostra esse bom exemplo de diálogo entre Lionel Stander e Tom Courteney:
Courtenay (brit): Quem você pensa que é? Al Capone?
Stander (rus): Quem é Al Capone?
Courtenay: Ele era um gângster megalomaníaco que matava qualquer um que atravessasse seu caminho.
Stander: Sério? O que aconteceu com ele?
Courtenay: Ele trocou seu nome para Stalin e se mudou para a Russia.
Stander: Isso me soa familiar.






Mais uma vez Juan Antonio Bardem vai beber na fonte do cinema italiano da época, pudera, em tempos em que o cinema italiano era o melhor do mundo o difícil era sair ileso de suas qualificações, no caso do Ciclista a influência recai no ascendente Michelangelo Antonioni e não por acaso foi-lhe roubada uma de suas primeiras musas: Lucia Bosè. Mas não é só em Antonioni que Bardem bebe como bem mostra alguns momentos fotográficos à la Bergman, especialmente o clímax onde nos faz crer que Sven Nykvist passou uns tempos na Espanha em meados dos anos 50.
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