Ladrão de Alcova (Trouble in Paradise, 1932)


None of us thought we were making anything but entertainment for the moment.
Only Ernst Lubitsch knew we were making art. – John Ford
Nota: De quem foi a idéia brilhante de fazer uma mostra do Lubitsch e deixar os dois melhores filmes dele de fora??? Trouble in Paradise & Design for Living, of course!
Exils: de Hitler à Holywood / Exiles in Hollywood (2006)
Ótimo documentário sobre o pessoal de cinema que teve de sair corrido da Europa em tempos de Hitler, seja por serem judeus, homossexuais ou simplesmente por não tolerarem viverem no mesmo continente que o tipinho de bigode caricatural. Não é segredo para ninguém que esses fugitivos foram os responsáveis por boa parte do que há de melhor no cinema americano dos anos 30 e 40, o gênero noir, por exemplo, foi moldado predominantemente por artistas exilados. Hitler praticamente destruiu o cinema alemão, tudo que havia de melhor na UFA era de ascendência judaica ou meramente de antipatizantes do nazismo, de que adianta se para cada Leni Riefenstahl ele impediu centenas de trabalharem e sabe-se deus quantos de nascerem.
Claro que muitos alemães e austro-hungaros já estavam em Hollywood antes da ascensão de Hitler, como Erich Von Stroheim e Ernst Lubitsch, mas nem por isso deixaram de lado seu passado na Alemanha, como é o caso do judeu Lubitsch que talvez tenha construído a maior das sátiras sócio-políticas com o seu Ser ou Não Ser exatamente sobre a atmosfera insana em que se transformara parte da Europa, embora nenhum filme do período tenha abrigado mais artistas anti-nazismo do que Casablanca de Michael Curtiz, este é outro que já curtia Hollywood há algum tempo.
Tanto Lubitsch quanto Marlene Dietrich foram abertamente contrários ao regime hitleriano desde o início e ativamente participantes na ajuda de refugiados migrados para os EUA, incluindo a fundação de uma organização secreta de ajuda onde conseguiam dinheiro para que os judeus fugissem através da Suiça, Lubitsch lotava seus filmes com técnicos e artistas expatriados de guerra, já que não era fácil para todo mundo conseguir emprego durante essa diáspora hollywoodiana. A própria Dietrich estava na lista negra pessoal de Hitler, não que fosse judia, mas porque ela era simplesmente foda mesmo.

Marlene Dietrich e Ernst Lubitsch durante as filmagens de Angel (1937) quando há muito já se preocupavam com a ascensão do nazismo
O que muito me espanta é a ausência de Max Ophuls neste documentário que, como muitos de seus compatriotas, fez a habitual escala cinematográfica na França antes de ir para os EUA quando Paris já não mais apresentava a segurança de outrora. Outro que não foi citado foi Otto Preminger, um protegido de Lubitsch desde o início.
Mas claro, nem tudo são rosas na terra do sol, os americanos não gostavam muito dessa invasão germânica e todos os empregos que eles supostamente tirariam e embora ninguém estivesse nem aí para o fato de ser judeu, católico ou protestante, o fato de ser alemão não era visto com bons olhos, mesmo antes de Pearl Harbor e a entrada dos EUA na guerra. Enfim, hoje nada mudou muito em qualquer lugar do mundo.
Nota: Sempre me causa alegria ver como Billy Wilder se refere a Lubitsch, é de um sentimento de adoração tão imenso que parece não haver nada mais grande e elevado na face da terra do que o tio Ernst. E é sempre assim, Wilder nunca perdeu a oportunidade em todas as suas entrevistas de dizer que Lubitsch era o maior de todos. Wilder, pode ser mais famoso e respeitado pelo público de hoje, mas pessoalmente ainda prefiro o cinema de Lubitsch, mesmo porque sem ele Wilder não seria Wilder.
O Tenente Sedutor ( The Smiling Lieutenant, 1931 )
Miriam Hopkins e Maurice Chevalier num momento “Let’s play something else”
Ernst Lubitsch é um dos meus diretores favoritos e provavelmente o colocaria entre os dez melhores cineastas da história,O Tenente Sedutor é a transição para que se possa afirmar tal coisa, pois no ano seguinte Lubitsch realizaria a sua obra prima, denominada Ladrão de Alcova aqui nos trópicos.
Terceiro filme realizado com Maurice Chevalier (banhado de brilhantina, pó de arroz e rímel), terceiro filme sonoro e terceiro musical, Lubitsch deixa claro o qual deslumbrado ficara com o cinema falado, mas é justamente em Tenente Sedutor que ele passa a se sofisticar com o assunto que melhor tratava em seus filmes: o sexo. Não que seus filmes anteriores fossem assexuados, muito pelo contrário, desde os primórdios de seu cinema na Alemanha dos anos 10 o homem sempre nutrira a predileção pelo assunto, mas é em O Tenente Sedutor que marca em definitivo o estilo que ficaria conhecido como “The Lubitsch Touch”.
Smiling Lieutenant, como tudo que é bom, se trata de um triângulo amoroso entre a violinista Claudette Colbert, o tenente Maurice Chevalier e a princesa Miriam Hopkins que vai aprender com a ajuda da amante do marido que não é sendo boazinha que se conquista um homem. Aqui já se vislumbra a extrema liberdade sexual que iria progressivamente se instaurar nas personagens de Lubitsch e que era um escândalo na época, pois mostrava abertamente pessoas sexualmente ativas tratando com maturidade sua sexualidade, como as aulas de sexo que Claudette Colbert dá à Miriam Hopkins, com direito a cena de beijo na boca entre as duas. Não é à toa que o matusalênico Will Hays deu piti, ele estava nos EUA e não na França, oras.
Ao escalar Miriam Hopkins em apenas seu segundo filme (cujo debute foi ao lado da deusa-mor Carole Lombard),
Lubitsch ganhou a parceria de quem viria a ser sua maior musa e estrela de seus dois melhores filmes: Trouble in Paradise (1932) e Design for Living (1933). Miriam Hopkins fora a rainha do pre-code (ao lado de Jean Harlow e Barbara Stanwyck) nesse curto espaço de tempo entre o início do cinema falado e 1935, quando o código Hays entrou definitivamente em vigor. Tanto a carreira de Hopkins quanto a de Lubitsch jamais tiveram o mesmo brilho com as limitações da censura, a exceção de Bluebeard’s Eighth Wife (1938) o qual Truffaut achava melhor se Hopkins estivesse no lugar de Claudette Colbert para o papel principal, mas que no meu parecer é a única obra prima realmente irretocável do Ernst pos-code. Não que eu deixe de considerar To Be or Not to Be (1942) um dos melhores filmes dos anos 40, mas comparar The Shop Around the Corner (1940) ou Ninotchka (1939) com suas obras primas pre-code são um completo disparate, é aquela tecla que sempre aperto, tudo que o Código Hays destruiu no cinema de Lubitsch, ajudou a construir no cinema de Preston Sturges, mas isso é um assunto para outro dia.
Nota: Em O Tenente Sedutor há uma das maiores e mais verdadeiras afirmações verbais já colocadas numa tela: Jazz up your lingerie! Verdade maior não há.
Gatinha Selvagem (Die Bergkatze, 1921)

Anteriormente a Wildcat, Lubitsch já havia dirigido pelo menos 3 das sua obras primas (A Princesa das Ostras, A Boneca do Amor e Não Quero ser um Homem) e feito tantos outros com a Pola Negri no elenco, tudo isso antes de chegar aos 30 anos. A grande vantagem do cinema mudo é que se rodavam filmes aos borbotões, tantos que era impossível não acabar saindo pelo menos uma grande obra no meio do entulho, isso em Hollywood, então imagine Lubistch na Alemanha durante a primeira guerra. É fato que o período que durou a 1ª Grande Guerra foi usado por Lubitsch para fazer um “intensivão” sobre cinema, foi nesse período que ele aprendeu no braço a fazer cinema e ver alguns de seus filmes dessa época nos leva a constatação que aqueles curtas xexelentos foram uma espécie de copião totalmente bruto e desengonçado do que seriam suas futuras jóias lapidadas e metamorfoseadas na mais pura poesia visual da primeira metade do século XX. Mas aí vem o pós guerra e tudo começa de verdade no cinema alemão, dá até para encontrar Lubitsch, Billy Wilder e Hitchcock (Hitch é inglês mas, assim como os Beatles, começou na Alemanha) tomando um café juntos na UFA como ilustres desconhecidos no começo dos anos 20.
Quando Lubitsch filmou Gatinha Selvagem ele já tinha feito grandes comédias, mas este era o primeiro filme cômico com Pola Negri como protagonista, embora o sexto filme em que trabalhassem juntos. Negri era predominantemente uma atriz dramática, o mais vamp possível e primeira grande femme fatale do cinema germânico, vê-la numa comédia interpretando uma literal selvagem que não entende os mais simples significados culturais como o beijo, além de engenhocas mudernas como a fotografia, é um sopro de ar fresco.
Se Lubitsch construía muito do nonsense de suas comédias faladas se baseando 90% nos diálogos inusitados e deliciosos, no seu cinema mudo esse nonsense (ou no caso seria uma comédia expressionista?) chega a ser mais afiado já que pouco tem para mostrá-lo que não seja através de imagens. Há algumas cenas de Wildcat que muito me satisfazem, como a cena de abertura onde é mostrada uma cidade habitada só pelas amantes e filhos do principal personagem masculino interpretado por Paul Heidemann (o que me fez lembrar de Fellini), outro momento delirante e engraçadíssimo é um sonho da personagem de Pola onde Paul arranca um coração gigante de dentro de seu uniforme de tenente e Pola começa a comê-lo.
Mas a beleza do filme gira em torno do relacionamento sadomasoquista que a personagem de Pola tem com um dos colegas de seu bando montanhês, um relacionanto que alimenta extrema satisfação nos açoites, no arrastar pelos cabelos, na dor física e emocional, mas é nesse relacionamente que a personagem de Pola vai encontrar o verdadeiro amor e não no flerte baseado estritamente no furor sexual daquele tenente que ela sonhava em comer o coração. Gatinha Selvagem talvez não seja uma das obras primas mudas de Lubitsch, mas ainda nos dilacera com sua cômica poesia.

Pola durante o romance com Chaplin e posteriormente a futura viuvez por Valentino.
Nota: Particularmente sou caidinha por Pola Negri, toda aquela morenice voluptuosa da polonesa em meio a todas aquelas estatuescas divas loiras tinha que fazer algum sucesso, mais uma que foi prejudicada pelo cinema falado, além de não ser bem vista pelo fato de ser a atriz preferida de Hitler, enquanto gente como Marlene Dietrich fazia parte do caderninho negro do tipinho com bigode caricato. Billy Wilder a queria muito como Norma Desmond, mas Negri deu um piti, como era o seu habitual, e não aceitou porque Norma se assemelhava muito a ela própria.








