Top dúzia: Robert Ryan
Max Reinhardt was the most tremendous and important person to have ever influenced my career and my work. - Bob Ryan provando que Reinhardt não fora apenas um dos pais do teatro moderno e do cinema alemão, mas dele também.
Sem Reinhardt não existiria Lang, Murnau, Lubitsch e outros desocupados, por consequência não existiria todo expressionismo alemão e cinema noir norte-americano. Sem Reinhardt não haveria o curso de teatro que fundou nos EUA, Ryan não teria encontrado um rumo para sua vida neste mesmo curso e todos perderíamos um ator estupendo imortalizando uma quantidade incalculável de grandes cenas do cinema, boa parte delas fazendo parte daquele mesmo cinema noir supracitado.
Mas Ryan era diferente de outros ícones noir, gente como Bogart, Ladd, Lancaster e Mitchum possuíam um tipo de aura heróica e dignidade que prevalecia mesmo nos mais profundos esgotos, Ryan não, ele ia mesmo fundo na podridão humana, se mesclamava na escória, rastejava nos dejetos e é aí que entra a influência de Reinhardt, ao abster-se da vaidade do astro de cinema para dar vazão à necessidade do ator, numa quase-versão sexy de Peter Lorre. Robert Ryan é pulp cinema em suor, sangue, penumbra, músculos, pistolas, cigarros e câncer no pulmão.
RR tem tanto filme excelente no currículo que dá impinge pensar em fazer um top de sua filmografia.
Nem só de sombras viveu um dos maiores motherfuckers do cinema, mais do que noir, Robert Ryan exalava testosterona. Desde os anos 40 Mr Ryan poderia entrar em qualquer antologia de cinema-de-macho, o homem trabalhou com Peckinpah, Fuller, Aldrich, Walsh, Boetticher, Winner, Frankenheimer, Anthony Mann, John Flynn e Sturges – ele também trabalhou com o resto da galera sem talento do outro lado como Lang, Tourneur, Losey, Ray, Ophuls, Lupino, Renoir, mas isso não tem a mínima importância. O que quero mesmo dizer é que o senhor Ryan tem todo direito de estar naquele seleto hall onde estão inclusos Clint Eastwood e Charles Bronson, com a diferença que Bob Ryan já era motherfucker antes que esse povo tivesse sonhado em ser tal coisa.
Apesar de RR ter sido separado de seu siamês Sterling Hayden logo após o nascimento, dessa galera macho-pra-dedéu o único ator páreo para ele no cinema americano era Lee Marvin – foram dois dos mais intensos, versáteis e talentosos atores evindeciados no pós-guerra – vai ver por isso fizeram quatro filmes juntos e Bloody Sam queria Marvin ao lado dele no Wild Bunch, em vez disso Marvin foi cantar com o Eastwood naquele outro filme… A verdade é que o duo Marvin-Ryan formam uma espécie de objeto transitório de anti-heróis com testosterona acima da média entre a geração Cagney-Bogart para o ciclo Eastwood-Bronson.
Top “resto”:
13- Coração Prisioneiro (Caught, Max Ophüls/Robert Aldrich, 1949)
14- Só a Muher Peca (Clash by Night, Fritz Lang, 1952)
15- Os Doze Condenados (The Dirty Dozen, Robert Aldrich, 1967)
16- A Mulher Desejada (The Woman on the Beach, Jean Renoir, 1947)
17- O Mais Longo dos Dias (The Longest Day, Ken Annakin/Andrew Marton/Bernhard Wicki, 1962)
18- A Quadrilha (The Outfit, John Flynn, 1973)
19- Expresso Para Berlim (Berlin Express, Jacques Tourneur, 1948)
20- Billy Budd – O Vingador dos Mares (Peter Ustinov, 1962)
21- Rastros do Inferno (Inferno, Roy Ward Baker, 1953)
22- Conspiração do Silêncio (Bad Day at Black Rock, John Sturges, 1955)
23- The Iceman Cometh (John Frankenheimer, 1973)
24- Rei dos Reis (King of Kings, Nicholas Ray, 1961)
25- Uma Batalha no Inferno (Battle of the Bulge, Ken Annakin, 1965)
26- Os Profissionais (The Professionals, Richard Brooks, 1966)
27- Nas Garras da Ambição (The Tall Men, Raoul Walsh, 1955)
28- O Pequeno Rincão de Deus (God’s Little Acre, Anthony Mann, 1958)
29- A Batalha de Anzio (Lo Sbarco di Anzio, Duilio Coletti/Edward Dmytryk, 1968)
30- À Borda da Morte (The Proud Ones, Robert D. Webb, 1956)
31- Os Bravos Não se Rendem (Custer of the West, Robert Siodmak, 1967)
32- A Hora da Pistola (Hour of the Gun, John Sturges, 1967)
33- A Estrada Dos Homens Sem Lei (The Racket, John Cromwell/Nicholas Ray/Mel Ferrer, 1951)
34- Alma Sem Pudor (Born to Be Bad, Nicholas Ray, 1950)
35- Mulheres de Ninguém (Tender Comrade, Edward Dmytryk, 1943)
36- Império do Pavor (Horizons West, Budd Boetticher, 1952)
37- O Assassinato de um Presidente (Executive Action, David Miller, 1973)
38- De Volta da Eternidade (Back from Eternity, John Farrow, 1956)
39- Escravo de Si Mesmo (Beware, My Lovely, Harry Horner, 1952)
40- Lonelyhearts (Vincent J. Donehue, 1958)
41- Tudo Por Ti (The Sky’s the Limit, Edward H. Griffith, 1943)
42- A Guerra Secreta (The Dirty Game, Christian-Jaque/Klingler/Lizzani/Terence Young, 1965)
43- O Homem da Lei (Lawman, Michael Winner, 1971)
44- Cidade Abaixo do Mar (City Beneath of Sea, Budd Boetticher, 1953)
45- Selvas Indomáveis (Escape to Burma, Allan Dwan, 1955)
46- O Melhor dos Homens Maus (The Best of the Badmen, William D. Russell, 1951)
47- Cada Vida… Seu Destino (The Secret Fury, Mel Ferrer, 1950)
48- Caçada ao Pistoleiro Escondido (Un Minuto per Pregare un Instante per Morire, Giraldi, 1968)
49- Horizonte de Glórias (Flying Leathernecks, Nicholas Ray, 1951)
50- A Volta dos Homens Maus (Return of the Bad Men, Ray Enright, 1948)
51- Capitão Nemo e a Cidade Submarina (Captain Nemo and the Underwater City, J. Hill, 1969)
52- Bombardeio (Bombardier, Richard Wallace/Lambert Hillyer, 1943)
53- Sem Deus e Sem Lei/O Passo do Ódio (Trail Street, Ray Enright, 1947)
54- Os Homens da sua Vida (Her Twelve Men, Robert Z. Leonard, 1954)
55- Marine Raiders (Harold D. Schuster, 1944)
56- Nuvens de Tempestade (The Woman on Pier 13/I Married a Communist, R. Stevenson, 1949)
Nota 1: Ninguém chuta a bunda de Deke Thornton, mas se não fosse pelo final, On Dangerous Ground seria talvez o primeiro dessa lista. O filme de Ray sofreu exatamente a mesma coisa que The Magnificent Ambersons na década anterior, onde o final original foi refeito porque o estúdio assim quis e apesar do final imposto não ser uma tragédia, a situação original desejada por Ray era amplamente superior. Robert Ryan foi queridinho dos filmes B durante o reinado de terror de Howard Hughes na RKO, um bom motivo para que ele e Nicholas Ray se tornassem tão unidos no período, trabalhando juntos em quatro filmes seguidos (mais tarde tiveram um quinto filho temporão) – enquanto Hughes entrava de cabeça no macartismo, Ryan e Ray batiam o pé como notórios liberais, o que gerou todo aquele entrevero com John Wayne durante as filmagens de Flying Leathernecks, um filme cujo conteúdo belicista e de direita nada tinha a ver com suas visões.
Nota 2: Só as participações com no mínimo uma fala entraram no top, filme com participação ínfima deixei de fora, como é o caso de sua estréia em O Castelo Sinistro (The Ghost Breakers, George Marshall, 1940) onde fez figuração carregando uma maca (é, eu reconheço alguém com dois segundos em cena e praticamente de costas)
Nota 2: O maior choque que tive seguindo a carreira de Ryan foi quando assisti O Pequeno Rincão de Deus (God’s Little Acre, Anthony Mann, 1958) foi alí que me dei conta que estava diante de um dos maiores atores do mundo. Quando vi a cena em que sua personagem resolve raptar um albino não sabia se gritava, gargalhava ou chorava de emoção por estar diante de um gênio em sua arte. Mann havia começado essa tranformação de Ryan em Zé Buscapé já em O Preço de um Homem (The Naked Spur, 1953), onde em meio a uma atmosfera leoniana Ryan praticamente cria o pai do Tuco de Três Homens em Conflito.
Nota 3: O top é por qualidade geral dos filmes, mas se fosse eleger as 12 melhores atuações de RR, seriam estas: Odds Against Tomorrow, Billy Budd, Caught, God’s Little Acre, Custer of the West, Clash by Night, The Iceman Cometh, The Set-Up, Born to Be Bad, The Naked Spur, Inferno e On Dangerous Ground.
Nota 4: Presumo que o “Patch Pack” tinha uma queda pelo senhor Ryan – Walsh, Ray, De Toth e Lang trabalharam com ele, o único maldito de tapa-olho com quem não trabalhou foi o John Ford.
Nota 5: É fato – Ryan tem os melhores bíceps e tenho dito. É por isso que recomendo com veemência filmes em que aparece sem camisa ou de camiseta, também por isso Ed Dmytryk disse certa vez: Bob hit like a mule.
Nota 6: A minha “fase Jeff Bridges” do último semestre me levou, por consequência, a ver alguns filmes onde Robert Ryan esteve presente. JB tem RR como ator favorito e impusionou-me a ver o porquê foi tão importante como muso inspirador, além do fato de dois dos últimos filmes com Ryan terem sido também dois dos primeiros filmes com a presença de Bridges. Só depois de ter trabalhado ao lado de Ryan, Lee Marvin e Fredric March em The Iceman Cometh (John Frankenheimer, 1973) é que JB resolveu ser ator de verdade, coisa que até então ele só levara na brincadeira, tamanho o peso que tais homens tinham em cena, algo fácil de se perceber já que Ryan e Marvin jogam ping-pong com JB naquele filme, onde o então guri fica na função de bolinha. Também pudera, The Iceman Cometh é o último momento de Ryan no cinema, o câncer em estado bastante avançado acabou tornando sua personagem ainda mais melancólica do que dramaticamente já era e presumo que nenhum outro ator de qualquer montagem da peça de Eugene O’Neill tenha sido mais efetivo durante o final do terceiro ato.
Nota 7: Robert Ryan foi o único ator que vi eclipsando James Mason. Vi Mason de igual para igual com Alec Guinness, Peter Sellers e John Gielgud, mas a única presença que esteve um degrau acima de Mason numa cena foi o Robert Ryan em Caught – *Medo. Em compensação o Nemo de Ryan não chega aos pés do de Mason.
Hughes called Ryan in and said “It’s okay if you play me, I don’t want them to put some other actor in there” – Robert Parrish, então editor de Caught (Max Ophüls, 1949) sobre o fato de Howard Hughes achar que apenas Robert Ryan seria digno de interpretá-lo - como se já não fosse suficientemente estranho o patrão deixar que uma personagem pouco lisongeira fosse inspirada nele.
Nota final: Hoje comemora-se cem anos do nascimento de RR, oras.
*Da série: Este post foi programado, eu não estou aqui!
Cem anos de James Mason – Parte 3
25- O Veredito (The Verdict, Sidney Lumet, 1982)
São poucos os dramas de tribunal realmente bons, a maioria esmagadora são um pé no saquinho, esse felizmente é excessão, não só porque o Lumet sempre foi um baita diretor e o Mamet um baita escritor, mas sobretudo porque quem segura as pontas é a dobradinha Newman-Mason duelando verbalmente na corte, tudo que Mason tem de suave e sorrateiro, Newman tem de incisivo. Um detalhe bacana é a semelhança entre a sala de reuniões dos advogados carniceiros de O Veredito com a sala da diretoria televisiva em Network, inclusive com o mesmo tipo de luminárias, o que torna ambos os filmes ainda mais geminados e a personagem de Mason colocada num paralelo moral com a de Ned Beatty em Rede de Intrigas. Sem dúvida o melhor filme do Lumet nos anos 80 e o último grande filme de Mason antes de falecer, não à toa Lumet afirmou que Mason fora o melhor ator com quem trabalhara durante toda a sua carreira, indo de encontro com a definição que a personagem de Jack Warden dera a Mason durante o filme: He’s the prince of fucking darkness!
26- A História de Três Amores (The Story of Three Loves, Gottfried Reinhardt / Vincente Minnelli, 1953)
Will you kindly stop pretending I’m an ogre. I’m very simple, ordinary, kindly human being. Este portmanteau divide-se em três episódios: Equilibrium (do Reinhardt, com Pier Angeli & Kirk Douglas) num conto bacana sobre trapezismo, relacionamentos, confiança e erros passados; Mademoiselle (do Minnelli, com Leslie Caron e Farley Granger) que é uma espécie de versão original do Quero Ser Grande com Tom Hanks; e The Jealous Lover (também do Reinhardt, com Mason e Moira Shearer) com uma ode à Powell/Pressburger.
Em The Jealous Lover há uma cena onde Moira Shearer dança para Mason ao som de Rhapsody On a Theme of Paganini, tal momento é de uma beleza cortante, inclusive esse filme é ainda hoje mais conhecido como “aquele em que a Shearer dança Rachmaninoff”, talvez por isso seja o meu episódio favorito. Foi dirigido pelo filho de Max Reinhardt, o que provavelmente teria dado orgulho ao pai, muito me inclina dizer que a personagem de Mason é uma homenagem ao velho Max em toda sua loucura criativa. Imagino o quanto foi doloroso para Michael Powell e Emeric Pressburger ver Mason neste remake condensado de Sapatinhos Vermelhos, depois de tanta resistência em trabalhar com a dupla.
27- Crepúsculo das Águias (The Blue Max, John Guillermin, 1966)
This is 1918. Things have changed. Mason é um alemão, again. É um elemento chave, again. É a melhor personagem do filme, again. Memorável filme de guerra, onde as cenas de ação aéreas e terrestres primam pela excelência, sobretudo por serem visualmente mais honestas do que as dos filmes atuais e possivelmente só perde como melhor filme sobre aviação para o imbatível Hell’s Angels de Howard Hughes. Último filme inglês de Guillermin, enquanto filmou na Inglaterra e França sempre se manteve um cineasta interessante, depois foi para os EUA e se anulou por completo.
28- O Castelo do Homem sem Alma (Hatter’s Castle, Lance Comfort, 1942)
Robert Newman era um ator gigantesco e aqui ele encarna um Daniel Plainview versão chapeleiro louco, enquanto Mason faz as vezes do affair da filha do escocês tirânico vivida por Deborah Kerr. Mesmo Mason tendo um papel pequeno, ele é o único que pode fazer frente a Robert Newman, onde todas as cenas divididas por eles podemos sentir raios e trovões imaginários saindo de todos os cantos. Ó céus, Kerr e Mason formavam mesmo uma dupla linda e sensacional.
29- A Verdadeira História de Frankenstein (Frankenstein: The True Story, Jack Smight, 1973)
Only fools like Henry Clerval want vulgar fame. I shall have the power that works unseen, that moves the world. You alone, Frankenstein, when you read in your newspaper that a monarch has been deposed or that two nations are at war with each other, will say to yourself : That’s the hand of Polidori. Mais uma versão de Frankenstein, ótima por sinal, pelo título estranho de “true story” e o fato de ser uma produção televisiva podemos cair na bobagem de pensar que este é um trabalho inferior, mas fiquei mesmo abismada com a sua qualidade, especialmente pela perspectiva psicológica com que a história é tratada. Detectei algumas nuances homossexuais no melhor estilo “In just seven days I can make you a man” e um clima meio Oscar Wilde (o fato de ter sido roteirizado por Christopher Isherwood ajuda muito), o que poderia recair numa das interpretações do livro de Mary Shelley, onde a criatura nada mais seria do que um alter-ego do próprio Victor e o equivalente ao quadro de Dorian Gray. Acho que esta é a versão mais complexa e cheia de interpretações de todas as versões fílmicas que já pude conferir sobre o Prometeu Moderno. Mason encarna John Polidori, uma homenagem ao criador do gênero vampiresco e um dos presentes no lendário desafio dos Shelleys naquela noite qualquer do século XIX.
30- O Sétimo Véu (The Seventh Veil, Compton Bennett, 1945)
Este é o filme que conseguiu o passaporte de Mason para Hollywood. Mason é o tutor da orfã vivida por Ann Todd e, como todo bom ser que se preze, sua entrada em cena é com um gato a tira colo, enquanto Todd chega em sua presença já clamando que odeia tais felinos e que eles a assustam. Isso obviamente referia a personalidade de seu guardião, o qual se mostrará como um manco charmoso, dominador, introspectivo e que odeia ver pessoas felizes. Mais um desses filmes assolados pela onda da psicanálise nos anos 40, cujo maior atrativo é mesmo a irresistibilidade da personagem vivida por Mason, o que é mais do que suficiente.
I saw The Seventh Veil four times. That Mason is the greatest actor. – D.W. Griffith
31- Assassinato Por Decreto (Murder By Decree, Bob Clark, 1979)
I’m trying to corner the last pea on my plate. Na melhor incursão de Sherlock Holmes nas telas, com trama original e que nada tem a ver com Conan-Doyle, Christopher Plummer vive o dito cujo, enquanto Mason é seu caro Watson e Donald Sutherland praticamente repete sua persona paranormal de O Inverno de Sangue em Veneza. Primeiro filme a utilizar a então recente teoria da conspiração proposta por Stephen Knight sobre Jack – O Estripador, Bob Clark (pós Black Christmas e pré Christmas Story) mescla tal teoria com o universo de Conan-Doyle com tino na climatização, mostrando atmosfera mais em comum com From Hell do que qualquer outra abordagem de Jack, a iluminação é tão escassa e existem tão poucas cenas à luz do dia que chegou o mais próximo do que se pode chamar “noir colorido”. O duo Plummer-Mason clama por toda atenção, tendo trabalhado diversas vezes juntos, quimíca é o que não falta na assimilação Holmes-Watson. Adoro Watson, tão lindo, tão sensível, tão fofo.
32- Júlio César (Julius Caesar, Joseph L. Mankiewicz, 1953)
You died for your ambition, great it be. Sim, até tu. Brutus é um dos personagens mais fascinantes de Shakespeare e é este personagem que Mason encarna, o principal da peça, apesar de toda babação de ovo pelo Marlon Brando. Mason e John Gielgud poderiam perfeitamente picar aquele Brando em pedacinhos e guardar no bolso fácil, fácil. Mason era um ator essencialmente de cinema, o que o faz mais especializado do que outras lendas britânicas, mesmo tendo começado como ator de teatro não se tornou lendário neste meio como foram muitos de seus contemporâneos, por isso foi uma benção poder vê-lo em várias adaptações de peças, especialmente esta em que ele já representara nos palcos durante os anos 30. Toda aquela suavidade que fez a fama de Mason nas telas não tem vez nos palcos e qualquer tentativa de mudança em sua empostação de voz provavelmente tiraria sua naturalidade, por isso a benção é duplicada em vê-lo com tal personagem nas telas, não lhe foi necessário forçar a voz como o seria nos palcos. Não é dos meus Mankiewicz mais queridos, mas há grandes momentos por conta dos atores, não só pelo duo Mason-Gielgud, mas como eu já disse, porque Mason e Kerr formavam um casal lindo e sensacional. O texto ajuda, é claro, o populismo segundo William Shakespeare, devia-se dar mais atenção a tal peça por aí, se possível encená-la a exaustão em épocas eleitorais.
A fofoca do filme era o triângulo amoroso de todos os lados entre Mason, sua esposa Pamela e Mankiewicz, o que acabou causando um piti em Marlon Brando durante as filmagens por estar “favorecendo” Mason em cena, mas a verdade é que havia um racha entre os atores ingleses e os americanos do filme, eles não gostavam uns dos outros.
All of fucking Hollywood knows you’re plowing it to Mason and his beloved wife, Miss Pamela, every night. You’re the hottest mènage à trois in town. But that’s no excuse for you to favor your fuck boy here over me. It’s not professional. – Marlon Brando, com sua habitual lacuna de classe, berrando diante de todo o elenco sobre os divertimentos de Mankiewicz com o casal Mason.
33- La Città Sconvolta: Caccia Spietata ai Rapitori (Fernando Di Leo, 1975)
Mason interpreta um italiano almofadinha e endinheirado neste poliziottesco dramático de vingança. Em dado momento Di Leo se auto-plagia refazando uma sequência de Milano Calibro 9 com direito a reutilização da trilha de Luis Bacalov e tudo, é nesse exato momento no meio do filme que há uma reviravolta estilística, se na primeira metade o conteúdo era um drama calmo, a partir da segunda metade a história se transforma num bem engendrado jogo de vingança.
34- A Noite tem Olhos (The Night Has Eyes, Leslie Arliss, 1942)
Um dos filmes mais interessantes de Mason em sua fase inglesa, onde ele está mais belo e intrigante do que nunca e, descontando alguns momentos horrorosos com tiques que todos os atores e cineastas da época teimavam em manter, é um suspense que se mantêm eletrizante até o final e cuja atmosfera lembra muito obras como Os Inocentes e Os Outros. É um filme soturno, cheio de reviravoltas estilísticas, de início pensamos que estamos vendo um filme de lobisomem, depois um melodrama, depois um filme de psicopata qualquer, depois voltamos ao melodrama e temos um final razoavelmente surpresa. O clima mantido é dos mais clássicos, com direito a uma casa pouco habitada em meio aos pântanos e nevoeiros de Yorkshire, onde vivem um homem amargurado, sua governanta suspeita e seu caseiro aparentemente bonzinho, enquanto a jovem heroína chega e tenta solucionar os mistérios que envolvem tais pessoas.
35- Kill! Kill! Kill! Kill! (Romain Gary, 1971)
Esse é o típico filme que todo mundo adora xingar e eu amo: Mason, violência, Romain Gary, tráfico de drogas, Jean Seberg, assassinos de aluguel, Stephen Boyd, pornografia, Curd Jürgens, crianças viciadas em heroína, sátira, Sam Peckinpah, Nouvelle Vague, psicadelia, trilha sonora de Berto Pisano & Jacques Chaumont… Ah, os anos 70! Algumas coisas só esta década sabia proporcionar.
36- Charade (Roy Lellino, 1953)
Roy Kellino não guarda rancor, pois ele é um gentleman. Pouco mais de 10 anos depois de Mason ter um caso com a então esposa de Kellino durante as filmagens de I Met a Murderer e que acabou em divórcio, Kellino, Pamela e James voltam a formar o mesmo trio em suas funções cinematrográficas, com a diferença que agora Pamela é a Mrs Mason e não mais Mrs Kellino. Este é um portmanteau que faz uso de metalinguagem para unir as histórias, no primeiro episódio Mason vive um assassino por quem Pamela se apaixona após ser testemunha de um dos seus crimes. No segundo episódio, o mais fraco dos três, Mason é um oficial duelando por uma mulher. No terceiro ele encarna novamente um Jeeves da vida no melhor e mais cômico dos episódios, sobre um alto executivo que cansa dessa vida e vai ser modormo. No seguimento metalinguistíco que une as histórias, onde Mason está delineando os meios de produção de um filme (função esta que realmente exerce aqui, como igualmente a de roteirista ao lado de Pamela) e onde já podemos vê-lo com a barba do seu futuro Capitão Nemo, há uma forte influência de Na Solidão da Noite (Dead of Night, Hamer/Cavalcanti/Crichton/Dearden, 1945) não só no estilo de roteirização, como no de edição, o que é bem razoável, pois Dead of Night foi um dos mais influentes filmes ingleses dos anos 40.
Cem anos de James Mason – Parte 5
49- Candlelight in Algeria (George King, 1944)
Ah, os problemas morais do bigode! Aqui temos a nossa heroína vivida por Carla Lehmann passando a primeira metade do filme a desconfiar do caráter de Mr Mason só porque ele ostenta um bigode! Não, isso não é uma teoria, a personagem deixa claro que não pode confiar em alguém com um bigode daqueles e se Mason já é pouco confiável sem, imagine com. George King era aquele tipo de cineasta que aprendeu a fazer cinema na raça, lotou os anos 30 com dezenas de filmes B e culminando nos anos 40 com este Candlelight in Algeria, o melhor trabalho de sua carreira, um thriller de espionagem com toque de Pepe Le Moko e cheio de bom humor, onde Mason é o agente que precisa tirar um filme da Algéria sem que os nazis o descubram primeiro, num típico filme de tempos de guerra onde a situação colaboracionista dos aliados era um mote comum nas telas, aqui transposto como um quadrado amoroso entre um francês, uma americana, um inglês e uma francesa, ou seja, a guerra também ia para a esbórnia. Mas que fique bem claro que as coisas só começam a dar certo depois que Mason raspa o bigode, hein!
50- Paura in città (Giuseppe Rosati, 1976)
Mason encarna o burocrata em um poliziottesco novamente, mas desta vez ele nem é o canalha. É um bom filme, com todas as qualidades e também os defeitos do gênero. Maurizio Merli segura as pontas desfilando com seu habitual tipão abigodado em busca de vingança, no papel do tira durão que faz justiça com as próprias mãos à la Dirty Harry, sempre contando com os panos quentes da personagem de Mason.
51- Chamada para um Morto (The Deadly Affair, Sidney Lumet, 1966)
Espécie de continuação de O Espião que Veio do Frio baseado no mesmo Le Carré, Mason parece começar aqui sua parceria com Lumet que daria ainda mais três crias, mas na verdade este já é o seu terceiro trabalho com o cineasta, os dois primeiros foram longas para tv da série Playhouse em 1960. É um thriller da guerra fria interessante, mas menor na carreira de Lumet e Mason, o bacana é ver o desfile de atores lendários de todos os países possíveis pipocando pela tela: Lynn Redgrave, Corin Redgrave, Maximilian Schell, Harriet Andersson, Simone Signoret, David Warner, Roy Kinnear, Harry Andrews e Max Adrian (quem diria era conhecido como Marlene Dietrich!). Outra coisa que chama a atenção é a trilha sonora composta por Quincy Jones e cantada por Astrud Gilberto, algo peculiar já que mesmo no anos 60 não era usual um suspense lançar mão de uma trilha exclusivamente bossa nova.
52- Mandingo – O Fruto Da Vingança (Mandingo, Richard Fleischer, 1975)
Em Mandingo Mason é muito mau! Mau mesmo! Ele usa crianças como descanso de pés para curar reumatismo! Ele interpreta aqui um daqueles fazendeiros sulistas mui distintos que usavam escravos como capacho, enquanto seu filho e nora (Perry King e Susan George, of course!) achavam utilidades mais interessante para os escravos. É uma bobagem a fama de filme ruim e a targeta de blaxploitation que o filme leva, não é uma coisa e muito menos outra, o único porém é a maldita versão cortada que vi e não gosto que cortem coisas dos filmes, a não ser que seja literalmente em cena, oras.
52- Ratos do Deserto (The Desert Rats, Robert Wise, 1953)
Mason volta a encarnar Rommel, agora sem o potencial humanista visto em A Raposa do Deserto e e sob o ponto de vista dos aliados como o estrategista que aterrorizou o norte da África no início dos anos 40, mesmo assim é tratado com muita dignidade e respeito pelas mãos de Mr Mason. Vale lembrar também que este é um dos últimos trabalhos de Robert Newton para o cinema, enquanto Richard Burton está mais gatíssimo do que nunca.
53- Torpedo Bay (Beta Som, Charles Frend/Bruno Vailati, 1963)
Primeiro flerte de Mason com o cinema italiano, no qual se tornaria figurinha fácil nas próximas duas décadas. Nessa espécie de Casablanca dos mares, Mason é um capitão da marinha Britânica que encurralou o comandante de um submarino italiano, Gabriele Ferzetti, no norte da África, enquanto estão no mar são inimigos, mas na terra são amigos tanto quanto suas respectivas tripulações, numa clara atmosfera pacifista. Evidente que um duelo entre Mason e Ferzetti é sempre bem vindo, especialmente porque Ferzetti é um dos melhores atores italianos de sempre e criminosamente subestimado, é um grande gozo vê-lo num filme dividindo dignidade com alguém como Mason.
54- The Secret Sharer (Face to Face, John Brahm, 1952)
Média-metragem baseado em Joseph Conrad e pode-se notar o quanto Mason nasceu para encarnar personagens provenientes de tal autor: o típico homem solitário amoral tendo de lidar com situações externas que lhe fogem ao controle.
55- A Hora Do Vampiro (Salem’s Lot, Tobe Hooper, 1979)
Esse é do tempo em que o Tobe Hooper era bom e o Stephen King ainda era novidade nas telas. Demorou, mas Mr Mason acabou entrando na vibe de vampiros, aliás, taí um homem que entrou em todas as vibes possíveis, desta vez ele pegou o Max Schreck (fugido da Alemanha dos anos 20!) e foi infernizar o Hutch numa cidadela americana, personificando uma espécie de Renfield moderno e cheio de elegância.
56- Assassinato num Dia de Sol (Evil Under the Sun, Guy Hamilton, 1982)
Olhe este elenco! Mais um da série “Peter Ustinov é Hercule Poirot e leva um elenco lendário a tira colo”, agora com a questão a ser resolvida: todo mundo odeia Arlene, quem a matou? Mason e Sylvia Miles personificam o casal Gardener num puro ato de comédia, onde ele é o eterno marido sofredor e ela é uma daquelas senhoiras verborrágicas e insuportáveis.
57- Lord Jim (Richard Brooks, 1965)
I think his majesty has pretensions to heroism a form of mental disease induced by vanity. Mason encarnando um personagem de Joseph Conrad novamente, aparecendo num papel chave apenas ao final, o pirata Gentleman Brown, claro. Quem liga para Peter O’Toole quando há Mason e Eli Wallach roubando todas as cenas? Devo dizer que é mais do que esperava de uma aventura dramática conduzida por Richard Brooks, ele sempre teve um certo jeito para dramas intimistas, mas nada de muito excepcional e, sabendo do que deveria ser em densidade visual e filosófica uma adaptação de Conrad, tinha minhas dúvidas da capacidade do cineasta até ver o filme. Diria que visualmente Lord Jim sobrepujou-se a Aguirre na influência que exerceu sobre Apocalypse Now, alguns shots de Jim lembram ferozmente a fotografia daquela outra adaptação mais famosa de Conrad. Charles Marlow é quem dá o arremate narrativo também do filme, preservando um pouco da atmosfera de várias novelas de Conrad que o tem como narrador.
58- Duffy, o Máximo da Vigarice (Duffy, Robert Parrish, 1968)
Eis que chega a santíssima trindade dos James: Fox, Mason e Coburn. Melhor: acompanhados por John Alderton e Susannah York. De novo Mason chega com seu pequeno papel e domina tudo, o diferencial aqui é que ninguém coloca Mason e Coburn em cena numa comédia de roubo sabendo quem realmente vai se dar bem no final, a questão que permeia todo o fiilme é qual dos dois vai ser o filho da puta maior até que tudo termine? Típico caper dos anos 60, com muita ironia e cinismo, misturando a aristocracia endinheirada inglesa com o clima de contracultura, especialmente pelo personagem título encarnado por James Coburn, um americano meio beatnik.
59- A Ilha nos Trópicos (Island in the Sun, Robert Rossen, 1957)
Escândalo! Casais inter-raciais na Hollywood dos anos 50! Brancos e negros trepando no Caribe! Filme corajoso, Robert Rossen possui uma filmografia bem curta, mas sempre teve culhão para enfiar a agulha embaixo da unha de quem quer que fosse. Mason é o cara já meio debilitado em sua sanidade (incluse com referência a Crime e Castigo) e pira de vez quando descobre sua ascendência negra. Fotografia de Freddie Young e trilha sonora massiva de Harry Belafonte embalam o clima deslumbrante do filme.
60- Captive Audience (The Alfred Hitchcock Hour, Alf Kjellin, 1962)
Num dos melhores episódios do seriado apresentado pelo velho Hitch, Mason encarna uma espécie de versão masculina de Catherine Trammel e volta a contracenar com Angie Dickinson, agora numa dinâmica aparentemente mais amigável do que viveram em Cry Terror. E sim, Mr mason fica muito bem de óculos.
Cem anos de James Mason – Parte 6
61- Mulher Diabólica (The Wicked Lady, Leslie Arliss, 1945)
Outro trabalho na fase em que Mason estava no Gainsborough Studios e que fez a sua fama. Num filme onde a protagonista é uma anti-heroína, Mason faz as vezes do anti-herói. Em tempos de Segunda Guerra só a mulherada ia ao cinema, isso quando os arianos continentais não estavam jogando bombinhas pela Inglaterra, então nada mais natural que surgissem mulheres fortes e destemidas nas telas, sempre bem acompanhadas de tipos másculos, tão fortes e destemidos quanto suas heroínas de caráter duvidoso, o que é o caso da nossa protagonista aqui vivida por Margaret Lockwood. O que importa é que Mason faz um tipo mascarado e bandidão.
62- O Pirata da Barba Amarela (Yellowbeard, Mel Damski, 1983)
One pet per person, parrots preferred. Mason, Graham Chapman, Peter Boyle, Cheech & Chong, Peter Cook, Marty Feldman, Susannah York, Eric Idle, Madeline Kahn, John Cleese, Spike Milligan e até David Bowie num único filme!?! Digamos que com uma união dessas só poderia sair o máximo da genialidade, mas infelizmente não foi isso que ocorreu, nesse caso o making of do filme é muito mais proveitoso: Group Madness. É a inspiração maior de Piratas do Caribe, Jack Sparrow praticamente nasceu no meio desse povo, mas da turma do Gore Verbinski a gente nunca esperou muita coisa, mas com atores e roteiristas desse nível esperávamos em demasia…
63- Fogo Sobre a Inglaterra (Fire Over England, William K. Howard, 1937)
Later my Lord, may be too late. Não é sempre que vemos Laurence Olivier fantasiado de James Mason numa trama à la Dumas, enquanto Mason é o traidor, Olivier é o queridinho da rainha (é claro), isso explicará muitas coisas quando Olivier ganhar o título de Sir e Mason não. Este filme é um absurdo de lendas inglesas, alguns já rodados e outros começando: Olivier, Mason, Flora Robson, Leslie Banks, Vivien Leigh, Raymond Massey, Robert Newton. É um filme bem interessante do ponto de vista histórico, mas não da história de Elizabeth I e sim da Inglaterra de 1937 com a sombra nazista invadindo a Europa, as analogias são tão gritantes que você chega a esquecer que o filme se passa supostamente no século XVI. A Espanha, a Inquisição… tudo com contornos obviamente Alemães e Nazistas.
64- O Aventureiro do Tahiti (Tiara Tahiti, Ted Kotcheff, 1962)
Mais uma vez o gentleman destila seu charme nos trópicos, esta safra é a de quando o Kotcheff ainda fazia comédias britânicas antes de surtar e fazer a fama com Rambo. Mason sempre teve óbvio talento para comédia (como para todo o resto) e aqui ele nos brinda com um embate com ninguém menos que Sir John Mills. Pena que no mesmo ano Mason não pôde trabalhar com a filha de Sir John, Hayley, a guria que Kubrick queria como Lolita e a Disney vetou. Sabe como é, não cairia bem a Poliana virar Lolita, coisa que não adiantou muito, já que poucos anos depois Hayley Mills se envolveu na vida real com o cineasta Roy Boulting, uns 35 anos mais velho.
65- Hotel Reserve (Lance Comfort/Victor Hanbury/Mutz Greenbaum, 1944)
Mr Mason em tempos de guerra confundido com um espião e tendo que provar sua inocência. Um desses plots que cairiam como uma luva nas mãos de Hitchcock e cujo tema do homem inocente confundido com o criminoso tentando provar sua inocência era um dos imaginários que lhe eram mais caros, a sequência final no topo de um prédio é um desses momentos de inevitável paralelo . Não é um filme muito bem desenvolvido e a presença de três diretores diferentes não ajuda na coesão, mas é deveras interessante ver Mason 15 anos antes de Intriga Internacional fazendo as honras para com um papel semelhante ao que fora de Grant.
66- O Emissário de Mackintosh (The Mackintosh Man, John Huston, 1973)
Dr. Johnson said that Patriotism was the last refuge of a scoundrel. Remake de um episódio do seriado O Santo com Roger Moore, é aquela coisa de sempre: espião britânico, guerra fria, mulher na linha de tiro, blábláblá, o que difere é o roteiro do Walter Hill, direção do Huston (filmando na sua amada Irlanda), o Newman interpretando um agente britânico (!!!), enquanto Mason é o político sorrateiro, o próprio príncipe das trevas, como habitual. Tudo isso faz com o filme nunca deixe de instingar ou ser interessante.
67- Um Grito de Terror (Cry Terror! Andrew L. Stone, 1958)
Suspense sobre terrorismo em linhas aéreas (acredito que um dos primeiros, se não o primeiro sobre o tema) altamente tenso e com elenco impecável, onde Mason deixa o papel vilanesco nas mãos de Rod Steiger para encarnar o seu pouco habitual pai de família bonzinho. Steiger é um cara pouco lembrado para os patamares de sua excelência, tudo que vejo com ele me deixa sempre extasiada, puta ator bom. Uma curiosidade desse filme é o affair que Mason teve com a sueca Inger Stevens que interpretava sua esposa, coincidentemente, poucos anos depois ele faria Marriage Go Round sobre infidelidades com uma sueca perfeita.
68- Os Crimes de Oscar Wilde (The Trials of Oscar Wilde, Ken Hughes, 1960)
Mason encarna Sir Edward Carson, o almofadinha mancomunado com aquele Queensberry para reduzir Oscar Wilde a cinzas, só porque esteve acompanhando Bosie no círculo do cravo verde, num dos mais lamentáveis acontecimentos do meio literário. É algo bem estranho ver Peter Finch como Wilde, não que não o considere um dos melhores atores que já pude assimilar, mas a encarnação definitiva de Wilde é mesmo de Stephen Fry, de corpo e alma. E, ó céus, aquele John Fraser a desfilar seus encantos na pele de Bosie é qualquer coisa impressiva.
69- Desejo Assassino (De la Part des Copains, Terence Young, 1970)
Ninguém mexe com a família e o cachorro de Charles Bronson e sai impune. Não é um grande filme, mas há grandes momentos de tensão e algo em que se possa ver Bronson, Mason, Luigi Pistilli e Liv Ullman num mesmo enquadramento, merece todo o respeito.
70- Príncipe Valente (Prince Valiant, Henry Hathaway, 1954)
Traitor is a word that winners give to losers. Ah! As antigas adaptações de quadrinhos! Tudo tão artesanal, tudo tão honesto! Aqui Mr Mason encarna o homem, a lenda, o próprio Cavaleiro Negro das lendas arturianas que muito assombrava os transeuntes nas florestas próximas a Camelot, o que nos faz pesar ainda mais o fato de Mason nunca ter feito um Robin Hood, pois daria um excelente Xerife de Nottingham. Nota-se na foto acima que Mason, no auge de sua elegância, está tirando onda do cabelo ridículo de Robert Wagner.
71- Nem o Céu Perdoa (One Way Street, Hugo Fregonese, 1950)
Muita sarna para se coçar arranjou Mr Mason, eis que neste filme noir o homem rouba o dinheiro e a garota do gangster Dan Dureya e foge para o México. É um noir menor, com ambientação peculiar no México e o segundo filme americano de Mason sem a aura Ophulsiana. Primeiro filme nos EUA do diretor argentino marido da Faith Domergue e uma das primeiras pontas (ui!) do Rock Hudson e do Jack Elam. Nada, mas nada mesmo paga a visão dantesca de ver Mr Mason de sombrero sentado num burrico.
Cem anos de James Mason – Parte 7
72- Madame Bovary (Vincente Minelli, 1949)
Mason é o próprio Flaubert defendendo sua criatura nos tribunais franceses de sua época. Tenta-se colocar a perspectiva do autor com o próprio narrando as peripécias de sua personagem mais famosa, é uma forma narrativa interessante mas não há quem suporte a protegida do Selznick, Jennifer Jones, encarnando uma das mais fascinantes mulheres da literatura, especialmente sabendo que depois de Isabelle Huppert não existe mais nada. Para piorar, Van Heflin faz as vezes do cornuto, caindo nas mãos exclusivas de Mason e de Louis Jordan a tarefa de dar alguma dignidade dramática ao filme.
73- Don’t Eat the Pictures: Sesame Street at the Metropolitan Museum of Art (Jon Stone, 1983)
PQP, não tem nem como classificar isso. Vila Sésamo é o cume do que é cool em programas infantis, mas aqui James é um demônio egípcio de cabeça flutuante no melhor estilo Zardoz fingindo ser o Mágico de Oz! Espécie de Uma Noite no Museu versão Garibaldo, esse excelente especial ensina arte e história para crianças, programas como Vila Sésamo e Castelo Rá-Tim-Bum são uma benção em termos de cultura e qualidade, mas aquela cabeça me traumatizou.
74- Eu e Meu Anjo (Forever, Darling, Alexander Hall, 1956)
You are my woman now. Mason aqui interpreta um anjo da guarda que se parece com… James Mason! Gosto da Lucille Ball, mas os únicos bons momentos presentes neste filme são os partilhados com Mason, especialmente a cena em que ela vai ao cinema e se imagina na África ao lado dele numa espécie de cena-avó de A Rosa Púrpura do Cairo. Bastante instrutivo saber que Lucy adoraria levar uns tabefes de Mason em alguma floresta inóspita enquanto o clama como seu homem.
- Why do you look like James Mason?
- Do I look like James Mason?
- I should say you do!
- So I look like James Mason, do I?
75- Eu, Ela e os Problemas (The Marriage-Go-Round, Walter Lang, 1961)
Julie Newmar é a versão “modelo sueca” de Zé do Caixão e quer os genes perfeitos de Mr Mason para gerar um filho, mas terá que passar por cima da esposa conservadora do seu macho reprodutor. A peça da Broadway no qual o filme é baseado fez a fama de Lady Newmar, cujo papel repete nesta versão, enquanto Mason ficou com o papel que fora de Charles Boyer e Susan Hayward com o de Claudette Colbert. É claro que ver a perfeição física de Julie Newman e o charme de Mr Mason nunca será demais, mas não é um filme que eu recomende com afinco, sobretudo pelo conteúdo moralista, mesmo sendo suficientemente sexy e engraçado.
76- They Met in the Dark (Carl Lamac, 1943)
Ah, Mr Mason em tempos de guerra fazendo filme de espionagem! Ah! E cômico! O que afeta o meu discernimento para com os filmes masonianos deste período é justamente a presença de Mr Mason, ele é sempre tão… tão… resplandecente, ficando fácil o ato de se deixar levar por ele e cair na armadilha de que aqueles filmes são bons, mesmo não o sendo realmente. They Met in the Dark é um desses casos, será que é mesmo um filme respeitável ou fui ludibriada por Mr Mason e todos aqueles suspiros intermináveis que o mesmo provoca?
77- Jesus of Nazareth (Franco Zeffirelli, 1977)
Jesus é um cara foda, é amigo de Laurence Olivier e James Mason, enquanto o Anthony Burgess escreve para ele. Em compensação, Franco Zefirelli é um desses raríssimos cineastas italianos dos anos 60/70 que me irritam profundamente, mas darei um desconto pelo elenco bombástico e pelo fato de Mason ser o dono da cova e do cálice, no mais essa minissérie da RAI é acadêmica, sem graça e absolutamente entediante comparada a outras versões da vida de Cristo. Palmas absolutas para o grande Robert Powell que já fora um judeu crucificado por Ken Russell em Mahler e que aqui está a cara do Graham Chapman em A Vida de Brian. Por que será?
78- A Queda do Império Romano (The Fall of the Roman Empire, Anthony Mann, 1964)
Let us live in peace! Peace! Certamente não sou muito fã de épicos romanos, salvo raras exceções, mas não posso dar um desconto por este trabalho de Anthony Mann, de quem sou assumidamente fã por seus westerns, o filme não tem ritmo, é excessivamente longo e a tríade Boyd-Loren-Plummer está beirando o insuportável em seus respectivos papéis. O que realmente se salva aqui é a fotografia deslumbrante e o alívio que se sente toda vez que James Mason e Sir Alec Guinness entram em cena para salvar o público de cometer suicídio. Se não fosse por Mason e pelo Obi Wan de capuz marrom, este filme nem sequer seria apto a ser lembrado. Brinde: Rome in Madrid.
James knew an awful lot about how to steal movies through the back door and give a performance that only really got noticed when the whole film was put together; so he would emerge with immense distinction having apparently been doing very little on the set. – Christopher Plummer
79- A Viagem dos Condenados (Voyage of the Damned, Stuart Rosenberg, 1976)
Veja que coisa peculiar, Mr Mason presente num filme sobre judeus e nazistas sem interpretar um alemão! Mais peculiar ainda é ser um cubano tanto quanto Orson Welles! Curiosamente este filme é mais interessante do que eu esparava, pois o cinema já está pra lá de saturado com dramas a respeito do sofrimento judaico durante a Segunda Guerra e por mais que existam alguns excelentes filmes sobre o tema, o holocausto foi por demais comercializado e esse excesso de manipulação e oportunismo para com as emoções do público dá no meu saquinho. De novo o elenco mostra a respeitabilidade necessária, além das duas maiores vozes “cubanas” do cinema, ainda há presença de José Ferrer, Faye Dunaway, Max von Sydow, Lee Grant, Malcolm McDowell, Julie Harris, Helmut Griem, Maria Schell, Ben Gazzara, Katharine Ross, Fernando Rey, Jonathan Pryce (em sua estréia nas telonas), entre tantos outros.
80- Os Meninos do Brasil (The Boys From Brazil, Franklin J. Schaffner, 1978)
Este é um filme que pouco me apetece, claro que a teoria da conspiração é deveras interessante, inclusive já alardeando as questões éticas da clonagem, mas Schaffner foi pouco feliz na construção, especialmente se comparado com alguns de seus filmes anteriores e a sobreatuação de Gregory Peck como Mengele é certamente irritante, digamos que Peck nunca foi tão bom em encarnar tipos maníacos e vilanescos quanto o fora em encarnar os bonzinhos. A dignidade do filme fica mais uma vez por conta de Mason (alemão, again!), Laurence Olivier, Uta Hagen e Lili Palmer. O bom mesmo é saber que no Brasil há contrabando até de clones de Hitler.
81- Mayerling (Terence Young, 1968)
Mason e Ava Gardner voltam a formar um casal, ele como Franz Joseph I e ela como Sissi. Filme vagamente interessante sobre o “Incidente Mayerling”, um dos inúmeros eventos na conspiração cujo objetivo era desintegrar o Império Austro-Húngaro, onde o herdeiro do trono vivido por Omar Sharif é assasinado juntamente com sua amante interpretada por Catherine Deneuve, mas que oficialmente fora tido como duplo-suicídio, sabe como é, aquela coisa meio PC farias. É um remake de um filme francês dirigido por Anatole Litvak, a versão de 68 é rica e suntuosa, mas com uma virtual e irritante tentativa de pegar carona com Doutor Jivago, incluindo até o mesmo ator como protagonista. Brinde: Vienna – The Years Remembered (1968).
82- Ivanhoe (Douglas Camfield, 1982)
For the love of God would someone take me away from this madman. Versão para a tv do livro de Sir Walter Scott, mais interessante do que aquela insossa versão com Robert Taylor nos anos 50. Sam Neill está excepcional aqui (e lindo!), ele que fora descoberto e apadrinhado por Mason, o que a gente agradece por toda eternidade.
Cem anos de James Mason – Parte 8
83- The Bells Go Down (Basil Dearden, 1943)
Mason interpretou todo tipo de pessoa e caráter, nesta produção da Ealing Studios a vez chegou para uma heróico bombeiro. Durante a segunda guerra com os bombardeios constantemente arrasando a Inglaterra, o Corpo de Bombeiros era algo mais importante do que o próprio exército e este filme teve a intenção de prestar-lhe uma pequena homenagem. Basil Dearden sempre fora um cineasta interessante dentro da golden age britânica, mas aparentemente esse tipo de filme sobre heroísmos de guerra não lhe caía muito bem, ou simplesmente não tenho muita tolerância sobre o tema, embora este seja um dos primeiros trabalhos de Dearden na direção, portanto é passível de excusas. Mason é o sério capitão do esquadrão, enquanto o alívio cômico fica por conta do astro popular Tommy Trinder, cujo jeito de falar me lembra o cockney Michael Caine e a forma de interpretar faz-me recordar do Hugh Laurie dos anos 80.
84- Subterrâneo de Assis (The Assisi Underground, Alexander Ramati, 1985)
There are 45,000 Italian Jews. They are all our Jews. We are responsible for them. Desta vez Mr Mason não encarna um alemão e sim um bispo italiano, mesmo assim ele não deixa de ter Mr Schell novamente ao seu lado como soldado alemão que, pasmem, ajuda os judeus italianos. A versão que assisti foi a de duas horas, mas a versão original possuía três, não sei qual delas é melhor, mas é um bom filme para a TV, sem o excesso emocional irritante que podemos ver em filmes como A Lista de Schindler, é um fato histórico interessante sobre um dos segmentos católicos que não fecharam os olhos para com o holocausto judeu, se tratavam de franciscanos e todos sabemos que a ordem católica realmente digna de respeito é a dos seguidores de São Francisco de Assis.
85- O Retorno do Pimpinela Escarlate (Return of the Scarlet Pimpernel, Hanns Schwarz, 1937)
Mr Mason com 28 aninhos vivendo Jean Tallien, o amiguinho revolucionário que acabou com a farra do Robespierre. Pimpinela Escarlate é um grande personagem de aventura e sinto falta de mais filmes baseados nele, embora até Powell/Pressburger tenham se envolvido com herói, faz falta no cinema dos anos 60 e 70. O problema maior do Pimpinela Escarlate é que tal imagem está irremediavelmente associada ao Patolino por toda a eternidade, é o peso das imagens ligadas à infância.
86- Spring and Port Wine (Peter Hammond, 1970)
Ó céus, o homem que outrora espancava mulheres com bengalas e chicotes, agora jogando bocha! Este é o típico filme em que os ingleses costumam muito elogiar, não por outros motivos que não o de retratar de época e costumes familiares do norte têxtil da Inglaterra nos anos 60, o que torna o filme bem mais interessante para quem alí viveu neste período do que para nós, reles habitantes da senzala sul-americana. É esse bairrismo que impede um maior desenvolvimento de temas universais e atemporais, soa mais como um documento histórico do que uma peça de relações humanas com as quais os habitantes do resto do mundo poderiam se identificar. É estranho ver Mason como trabalhador braçal, um pai de família com mão de ferro que joga futebol e bocha, não que deixe de dar conta do recado, mas é um tanto unusual, embora a presença de Susan George mais espevitada do que nunca balanceie as coisas. Se não me engano, este é o único filme para cinema de Peter Hammond, que por décadas foi diretor na televisão inglesa, mas especificamente da BBC.
87- Passageiros do Inferno (The Passage, J. Lee Thompson, 1979)
Vejam só, Mr Mason nos Pirineus fazendo filme de ação aos 70 anos! Desta vez Mason é o cientista perseguido pelos nazis e ajudado por Christopher Lee e Anthony Quinn, enquanto no seu encalço segue um Malcolm McDowell ultra perverso e caricato. Nada de novo, nada de sensacional, mas não é todo dia que vemos McDowell colocando fogo no Lee ou uma cueca estampada com suástica.
88- A Quadrilha da Fronteira (Bad Man’s River, Eugenio Martín, 1971)
Faroeste modernoso com direito até a rock and roll na trilha. Poderia se esperar mais de um spaghetti onde Mason e Lee Van Cleef dividem Gina Lollobrigida da forma mais amigável possível, embora não deixe de ter seus momentos de ampla diversão.
89- A Nau dos Condenados (Botany Bay, John Farrow, 1953)
Rá! A vilania de Mason não tem fim! Mason é o capitão do navio responsável por levar a escória inglesa para a Austrália, na época em que o país ainda era a grande penitenciária do Império, é um sádico que não suja as mãos: manda fazer. É um tipo de papel que fizera a sua fama na Inglaterra e que havia abandonado em Hollywood, ao menos até o ano anterior com o Prisioneiro de Zenda. O filme dá direito a sessão de chicotadas nas costas perfeitas de Alan Ladd, aliás, sempre me esqueço disso, mas Ladd era um puta homem bonito.
90- A.D. – Anno Domini (Stuart Cooper, 1985)
Tá bom, eu confesso, não assisti essa desgraça inteira. Essa porra é uma minissérie de 11 horas, um épico que conta a história romana do momento da morte de Jesus ao império de Nero e só assisti até o momento em que Mason morre, o que para a minha salvação ocorreu nas primeiras horas (thank god!). É uma espécie de continuação da minissérie do Zeffirelli sobre Jesus com o mesmo Anthony Burguess como roteirista, daquele elenco retornaram Mason, Fernando Rey e Ian McShane, outrora José de Arimatéia, Gaspar e Judas, agora como Imperador Tibério, Sêneca e Sejano. É lógico que Tibério era pedófilo, é lógico que o único ser em que confiava era sua cobra de estimação, é lógico que ele espanca pessoas até com peixe, é lógico que Mason e McShane formavam um dupla deveras perigosa. Também é o último filme em que Mason e Ava Gardner constam juntos no elenco, embora infelizmente não dividam cena.
91- The Water Babies (Lionel Jeffries, 1978)
Neste estranho exemplo de filme infantil mezzo animação, mezzo live-action, Mr Mason encarna uma personagem com ares dickensianos. Não sei, deve ser um filme bacana para as crianças, mas filmes infantis bons têm que passar pelo crivo do passar dos anos e permanecer bom, como só vi Water Babies na fase adulta e não me apeteceu, então não é algo que eu recomende com afinco. A mesma história rendeu aquele curta animado da Disney que é bem melhor do que esse equivocado atentado do ator Lionel Jeffries.
92- Genghis Khan (Henry Levin, 1965)
É lógico que Mason é um maldito chinês. É lógico. Recentemente lembramos com aquele inspirado Downey Jr o rídiculo daqueles tempos em que os atores orientais não podiam se estabelecer no cinema ocidental, o que se fazia então? Puxava-se, esticava-se e pintava-se. É deprimente ver Mason aqui, por melhor ator que seja, a impressão estética é dolorosamente fake. O filme não funciona como épico visual, nem como interesse histórico, é um desperdíco de gente boa, tempo e dinheiro. Um dos poucos filmes em que podemos ver Mason com alguma maquiagem, porque simplesmente ele não estaria aqui se não maquiado, nem se aquela Pamela não tivesse tirado até as calças dele no processo de divórcio.
93- A Herdeira (Bloodline, Terence Young, 1979)
Uma daquelas tramas absurdas do Sidney Sheldon envolvendo espionagem industrial, filmes snuff, computadores de última geração, serial killers, perversão sexual, etc etc, com elenco estelar e internacional, trilha sonora do Morricone num filme horripilante de horrível. Horrível, horrível. E quem em sã consciência colocaria Mr Mason como vilão num tipo de filme cuja pretensão é deixar em suspenso quem de fato tem a culpa? Mason sempre é o culpado, oras. Não é normal eu pedir para as pessoas correrem de um filme, especialmente por ser a favor de uma segunda chance, mas faça um favor a si mesmo e à aura dos grandes atores que alí estão: FUJA!
Nota 1: Muito me intrigou o fato de Mason nunca ter trabalhado com David Lean, um tipo de cineasta que facilmente trabalharia com ele, até que há algum tempo soube o motivo dessa parceria não realizada: Noel Coward e Nosso Barco, Nossa Alma (In Which We Serve, 1942). Lean queria a escalação de Mason para In Which We Serve, coisa que Coward vetou por conta da notória natureza pacifista e anti-bélica de Mason, clamando que “um homem que não pode vestir um uniforme na vida real, não o poderia fazer no cinema”, sou assumidamente fã da arte do tio Noel, mas o “incidente James Mason” lhe proporcionou a maior bobagem que já disse, como uma das maiores bobagens que já ouvi qualquer ser humano dizer, pois até onde sei Mr Mason era um ator e atores tendem a interpretar e não ser um espelho de suas personagens. Que vergonha, tio Coward!
Nota 2: Nada me doeu mais do que ter que chamar Mason de Mr o tempo todo, quando obviamente deveria chamá-lo de Sir, até aquela porra de Sean Connery que passou os últimos 50 anos pregando publicamente a independencia da Escócia ganhou o título de Cavaleiro e Mr Mason não. Se esta não é a maior vergonha dos almofadinhas palaciais, não tenho a mínima idéia de qual seja (tá bom, tem a Diana também). Não à toa o homem viveu os últimos 20 anos de sua vida na Suíça, o mais neutro dos países, assim como ele mesmo o fora.
Nota 3: Um ator fascinante, um homem fascinante. FASCINANTE.
I recall telling him that one day the camera was going to love him and make him a very great star. James just [looked] at me in disbelief. He was incredibly good-looking, in a dark way. … He had that curious quality of a man with an eternal secret. … That was what was so arresting. … That and, I guess, the voice. – Geraldine Fitzgerald sobre quando o conhecera em 1937
O Coração Delator (The Tell-Tale Heart, 1953)
Ninguém estremece ao som da voz de Mr Mason.
James Mason: The Man Between by Peter William Evans (British Stars and Stardom: from Alma Taylor to Sean Connery)
Nota 1: Não é necessário mencionar que é para clicar nos textos com o intuito de melhor visualizá-los, não?
Nota 2: James Mason não daria apenas uma boa tese sobre criminalidade, como pode-se notar por este texto, o homem também daria uma excelente tese sobre sadomasoquismo, com um capítulo à parte ligado ao masoquismo do público feminino de cinema.
The Bells Go Down (1943) – DVDrip
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