Quixotando

Top dúzia: Robert Ryan

Posted in ANOS 40, ANOS 50, ANOS 60, ANOS 70, BEEFCAKE, MUSOS by Adriana Scarpin on November 11, 2009
Respirando e transpirando cinema noir. Sempre.

Respirando e transpirando cinema noir.

Max Reinhardt was the most tremendous and important person to have ever influenced my career and my work. - Bob Ryan provando que Reinhardt não fora apenas um dos pais do teatro moderno e do cinema alemão, mas dele também.
Sem Reinhardt não existiria Lang, Murnau, Lubitsch e outros desocupados, por consequência não existiria todo expressionismo alemão e cinema noir norte-americano. Sem Reinhardt não haveria o curso de teatro que fundou nos EUA, Ryan não teria encontrado um rumo para sua vida neste mesmo curso e todos perderíamos um ator estupendo imortalizando uma quantidade incalculável de grandes cenas do cinema, boa parte delas fazendo parte daquele mesmo cinema noir supracitado.
Mas Ryan era diferente de outros ícones noir, gente como Bogart, Ladd, Lancaster e Mitchum possuíam um tipo de aura heróica e dignidade que prevalecia mesmo nos mais profundos esgotos, Ryan não, ele ia mesmo fundo na podridão humana, se mesclamava na escória, rastejava nos dejetos e é aí que entra a influência de Reinhardt, ao abster-se da vaidade do astro de cinema para dar vazão à necessidade do ator, numa quase-versão sexy de Peter Lorre. Robert Ryan é pulp cinema em suor, sangue, penumbra, músculos, pistolas, cigarros e câncer no pulmão.

RR tem tanto filme excelente no currículo que dá impinge pensar em fazer um top de sua filmografia.

The Wild Bunch (1969)

1- Meu Ódio Será Tua Herança (The Wild Bunch, Sam Peckinpah, 1969)

2- Cinzas que Queimam (On Dangerous Ground, Nicholas Ray/Ida Lupino, 1952)

2- Cinzas que Queimam (On Dangerous Ground, Nicholas Ray/Ida Lupino, 1952)

The Set-Up (1949) Robert Ryan

3- Punhos de Campeão (The Set-Up, Robert Wise, 1949)

4- A Quadrilha Maldita (Day of the Outlaw, André De Toth, 1959)

4- A Quadrilha Maldita (Day of the Outlaw, André De Toth, 1959)

House of Bamboo - Cameron Mitchell, Robert Ryan

5- Casa de Bambu (House of Bamboo, Samuel Fuller, 1955)

6- Homens em Fúria (Odds Against Tomorrow, Robert Wise, 1959)

6- Homens em Fúria (Odds Against Tomorrow, Robert Wise, 1959)

O Preço de um Homem (The Naked Spur, Anthony Mann, 1953)

7 -O Preço de um Homem (The Naked Spur, Anthony Mann, 1953)

Rancor (Crossfire, Edward Dmytryk, 1947)

8- Rancor (Crossfire, Edward Dmytryk, 1947)

9- O Menino dos Cabelos Verdes (The Boy With Green Hair, Joseph Losey, 1948)

9- O Menino dos Cabelos Verdes (The Boy With Green Hair, Joseph Losey, 1948)

O Homem que Surgiu de Repente (La Course du Lièvre à Travers les Champs, René Clement, 1972)

10- O Homem que Surgiu de Repente (La Course du Lièvre à Travers les Champs, René Clement, 1972)

Act of Violence (1948) Robert Ryan & Janet Leigh

11- Ato de Violência (Act of Violence, Fred Zinnemann, 1948)

Robert Ryan and Aldo Ray in Men in War

12- Os Que Sabem Morrer (Men in War, Anthony Mann, 1957)

Nem só de sombras viveu um dos maiores motherfuckers do cinema, mais do que noir, Robert Ryan exalava testosterona. Desde os anos 40 Mr Ryan poderia entrar em qualquer antologia de cinema-de-macho, o homem trabalhou com Peckinpah, Fuller, Aldrich, Walsh, Boetticher, Winner, Frankenheimer, Anthony Mann, John Flynn e Sturges – ele também trabalhou com o resto da galera sem talento do outro lado como Lang, Tourneur, Losey, Ray, Ophuls, Lupino, Renoir, mas isso não tem a mínima importância. O que quero mesmo dizer é que o senhor Ryan tem todo direito de estar naquele seleto hall onde estão inclusos Clint Eastwood e Charles Bronson, com a diferença que Bob Ryan já era motherfucker antes que esse povo tivesse sonhado em ser tal coisa.
Apesar de RR ter sido separado de seu siamês Sterling Hayden logo após o nascimento, dessa galera macho-pra-dedéu o único ator páreo para ele no cinema americano era Lee Marvin – foram dois dos mais intensos, versáteis e talentosos atores evindeciados no pós-guerra – vai ver por isso fizeram quatro filmes juntos e Bloody Sam queria Marvin ao lado dele no Wild Bunch, em vez disso Marvin foi cantar com o Eastwood naquele outro filme… A verdade é que o duo Marvin-Ryan formam uma espécie de objeto transitório de anti-heróis com testosterona acima da média entre a geração Cagney-Bogart para o ciclo Eastwood-Bronson.

The Dirty Dozen - Robert Ryan & Charles Bronson

Eu sei que meus bíceps são irresistíveis, mas tenha respeito, Bronson!

Top “resto”:

13- Coração Prisioneiro (Caught, Max Ophüls/Robert Aldrich, 1949)
14- Só a Muher Peca (Clash by Night, Fritz Lang, 1952)
15- Os Doze Condenados (The Dirty Dozen, Robert Aldrich, 1967)
16- A Mulher Desejada (The Woman on the Beach, Jean Renoir, 1947)
17- O Mais Longo dos Dias (The Longest Day, Ken Annakin/Andrew Marton/Bernhard Wicki, 1962)
18- A Quadrilha (The Outfit, John Flynn, 1973)
19- Expresso Para Berlim (Berlin Express, Jacques Tourneur, 1948)
20- Billy Budd – O Vingador dos Mares (Peter Ustinov, 1962)
21- Rastros do Inferno (Inferno, Roy Ward Baker, 1953)
22- Conspiração do Silêncio (Bad Day at Black Rock, John Sturges, 1955)
23- The Iceman Cometh (John Frankenheimer, 1973)
24- Rei dos Reis (King of Kings, Nicholas Ray, 1961)
25- Uma Batalha no Inferno (Battle of the Bulge, Ken Annakin, 1965)
26- Os Profissionais (The Professionals, Richard Brooks, 1966)
27- Nas Garras da Ambição (The Tall Men, Raoul Walsh, 1955)
28- O Pequeno Rincão de Deus (God’s Little Acre, Anthony Mann, 1958)
29- A Batalha de Anzio (Lo Sbarco di Anzio, Duilio Coletti/Edward Dmytryk, 1968)
30- À Borda da Morte (The Proud Ones, Robert D. Webb, 1956)
31- Os Bravos Não se Rendem (Custer of the West, Robert Siodmak, 1967)
32- A Hora da Pistola (Hour of the Gun, John Sturges, 1967)
33- A Estrada Dos Homens Sem Lei (The Racket, John Cromwell/Nicholas Ray/Mel Ferrer, 1951)
34- Alma Sem Pudor (Born to Be Bad, Nicholas Ray, 1950)Born to Be Bad (1950) Robert Ryan & Joan Fontaine35- Mulheres de Ninguém (Tender Comrade, Edward Dmytryk, 1943)
36- Império do Pavor (Horizons West, Budd Boetticher, 1952)
37- O Assassinato de um Presidente (Executive Action, David Miller, 1973)
38- De Volta da Eternidade (Back from Eternity, John Farrow, 1956)
39- Escravo de Si Mesmo (Beware, My Lovely, Harry Horner, 1952)
40- Lonelyhearts (Vincent J. Donehue, 1958)
41- Tudo Por Ti (The Sky’s the Limit, Edward H. Griffith, 1943)
42- A Guerra Secreta (The Dirty Game, Christian-Jaque/Klingler/Lizzani/Terence Young, 1965)
43- O Homem da Lei (Lawman, Michael Winner, 1971)
44- Cidade Abaixo do Mar (City Beneath of Sea, Budd Boetticher, 1953)
45- Selvas Indomáveis (Escape to Burma, Allan Dwan, 1955)
46- O Melhor dos Homens Maus (The Best of the Badmen, William D. Russell, 1951)
47- Cada Vida… Seu Destino (The Secret Fury, Mel Ferrer, 1950)
48- Caçada ao Pistoleiro Escondido (Un Minuto per Pregare un Instante per Morire, Giraldi, 1968)
49- Horizonte de Glórias (Flying Leathernecks, Nicholas Ray, 1951)
50- A Volta dos Homens Maus (Return of the Bad Men, Ray Enright, 1948)
51- Capitão Nemo e a Cidade Submarina (Captain Nemo and the Underwater City, J. Hill, 1969)
52- Bombardeio (Bombardier, Richard Wallace/Lambert Hillyer, 1943)
53- Sem Deus e Sem Lei/O Passo do Ódio (Trail Street, Ray Enright, 1947)
54- Os Homens da sua Vida (Her Twelve Men, Robert Z. Leonard, 1954)
55- Marine Raiders (Harold D. Schuster, 1944)
56- Nuvens de Tempestade (The Woman on Pier 13/I Married a Communist, R. Stevenson, 1949)

Nota 1: Ninguém chuta a bunda de Deke Thornton, mas se não fosse pelo final, On Dangerous Ground seria talvez o primeiro dessa lista. O filme de  Ray sofreu exatamente a mesma coisa que The Magnificent Ambersons na década anterior, onde o final original foi refeito porque o estúdio assim quis e apesar do final imposto não ser uma tragédia, a situação original desejada por Ray era amplamente superior. Robert Ryan foi queridinho dos filmes B durante o reinado de terror de Howard Hughes na RKO, um bom motivo para que ele e Nicholas Ray se tornassem tão unidos no período, trabalhando juntos em quatro filmes seguidos (mais tarde tiveram um quinto filho temporão) – enquanto Hughes entrava de cabeça no macartismo, Ryan e Ray batiam o pé como notórios liberais, o que gerou todo aquele entrevero com John Wayne durante as filmagens de Flying Leathernecks, um filme cujo conteúdo belicista e de direita nada tinha a ver com suas visões.

Nota 2: Só as participações com no mínimo uma fala entraram no top, filme com participação ínfima deixei de fora, como é o caso de sua estréia em O Castelo Sinistro (The Ghost Breakers, George Marshall, 1940) onde fez figuração carregando uma maca (é, eu reconheço alguém com dois segundos em cena e praticamente de costas)God's Little Acre (1958) Buddy Hackett & Robert RyanNota 2: O maior choque que tive seguindo a carreira de Ryan foi quando assisti O Pequeno Rincão de Deus (God’s Little Acre, Anthony Mann, 1958) foi alí que me dei conta que estava diante de um dos maiores atores do mundo. Quando vi a cena em que sua personagem resolve raptar um albino não sabia se gritava, gargalhava ou chorava de emoção por estar diante de um gênio em sua arte. Mann havia começado essa tranformação de Ryan em Zé Buscapé já em O Preço de um Homem (The Naked Spur, 1953), onde em meio a uma atmosfera leoniana Ryan praticamente cria o pai do Tuco de Três Homens em Conflito.

Nota 3: O top é por qualidade geral dos filmes, mas se fosse eleger as 12 melhores atuações de RR, seriam estas: Odds Against Tomorrow, Billy Budd, Caught, God’s Little Acre, Custer of the West, Clash by Night, The Iceman Cometh, The Set-Up, Born to Be Bad, The Naked Spur, Inferno e On Dangerous Ground.

Nota 4: Presumo que o “Patch Pack” tinha uma queda pelo senhor Ryan – Walsh, Ray, De Toth e Lang trabalharam com ele, o único maldito de tapa-olho com quem não trabalhou foi o John Ford.

Nota 5: É fato – Ryan tem os melhores bíceps e tenho dito. É por isso que recomendo com veemência filmes em que aparece sem camisa ou de camiseta, também por isso Ed Dmytryk disse certa vez: Bob hit like a mule.

Nota 6: A minha “fase Jeff Bridges” do último semestre me levou, por consequência, a ver alguns filmes onde Robert Ryan esteve presente. JB tem RR como ator favorito e impusionou-me a ver o porquê foi tão importante como muso inspirador, além do fato de dois dos últimos filmes com Ryan terem sido também dois dos primeiros filmes com a presença de Bridges. Só depois de ter trabalhado ao lado de Ryan, Lee Marvin e Fredric March em The Iceman Cometh (John Frankenheimer, 1973) é que JB resolveu ser ator de verdade, coisa que até então ele só levara na brincadeira, tamanho o peso que tais homens tinham em cena, algo fácil de se perceber já que Ryan e Marvin jogam ping-pong com JB naquele filme, onde o então guri fica na função de bolinha. Também pudera, The Iceman Cometh é o último momento de Ryan no cinema, o câncer em estado bastante avançado acabou tornando sua personagem ainda mais melancólica do que dramaticamente já era e presumo que nenhum outro ator de qualquer montagem da peça de Eugene O’Neill tenha sido mais efetivo durante o final do terceiro ato.

Nota 7: Robert Ryan foi o único ator que vi eclipsando James Mason. Vi Mason de igual para igual com Alec Guinness, Peter Sellers e John Gielgud, mas a única presença que esteve um degrau acima de Mason numa cena foi o Robert Ryan em Caught – *Medo. Em compensação o Nemo de Ryan não chega aos pés do de Mason.

Coração Prisioneiro (Caught, Max Ophüls, 1949): Você é fodão, mas eu sou mais alto. mimimi

Você é fodão, mas eu sou mais alto. mimimi

Hughes called Ryan in and said “It’s okay if you play me, I don’t want them to put some other actor in there” – Robert Parrish, então editor de Caught (Max Ophüls, 1949) sobre o fato de Howard Hughes achar que apenas Robert Ryan seria digno de interpretá-lo - como se já não fosse suficientemente estranho o patrão deixar que uma personagem pouco lisongeira fosse inspirada nele.

Nota final: Hoje comemora-se cem anos do nascimento de RR, oras.

*Da série: Este post foi programado, eu não estou aqui!

Centenário de James Mason – Parte 1

Posted in ANOS 40, ANOS 50, ANOS 60, ANOS 70, IMPRESSÕES, MUSOS by Adriana Scarpin on May 15, 2009

James Mason- I have a passion for James Mason.
- Is he good?
- Absolutely terrific. So attractively sinister! Taurus, the bull, you know.
- Very obstinate.
- Really?

Diálogo de Festim Diabólico (Rope, Alfred Hitchcock, 1948)

Certa vez li uma definição certeira de que Mason nos anos 40 era a personificação de Heathcliff, Mr Rochester e Mr Darcy num mesmo pacote, não por acaso as três personagens são criações de mulheres, explicando e muito o que nós realmente queremos. Por isso meu amor, nada de aprender a ser homem com Wayne, McQueen ou Belmondo, aprenda a ser homem com James Mason e sua natural tendência byroniana, este sim faz um estrago danado.
Relembremos alguns de seus momentos, só os que pude conferir pessoalmente, listando os filmes em ordem dos que mais me apetecem e não necessariamente de seus melhores papéis. E que todos me perdoem o deslumbramento evidente, mas a sua presença em cena me é tão divina quanto o espirito santo anunciando a Maria.

1- Intriga Internacional (North by Northwest, Alfred Hitchcock, 1959)North by Northwest (1959) Cary Grant, James Mason, Eva Marie SaintHas anyone ever told you that you overplay your various roles rather severely, Mr. Kaplan?
Não é deveras gratificante ver dois baluartes da elegância inglesa como rivais num dos melhores filmes do mais elegante dos cineastas britânicos? Por mim, Hitch, Cary e James poderiam fazer filmes juntos por 30 anos consecutivos e jamais ficaria menos do que satisfeita. Diante de tamanha elegância, não à toa, tanto Grant quanto Mason foram cotados para encarnarem o Bond primordial, além do fato de que todos os filmes do agente 007 nos anos 60 sofreram influência clara de Intriga Internacional. Uma cena que sempre me chama atenção é a fala de Mason criticando a sobreatuação associada ao Actor’s Studio, nesse mesmo momento nota-se Martin Landau, um notório aprendiz do método, saindo de cena. Sabendo da conturbada relação entre Marlon Brando e Mason, tal cena adquire contornos ainda mais requintados, Mason sempre fora o rei da economia no ato dramático, tudo que precisava passar o fazia só com suas complexas e sutis expressões faciais e corporais, ao contrário da geração Actor’s Studio surgida nos EUA a partir dos anos 50 e pela qual Hitchcock nutria um especial desprezo. Esse negócio de engordar, emagrecer, não sair da personagem as 24 horas do dia definitivamente não era para Mr Mason que sequer usava maquiagem, por mais discreta e neutra que fosse. Portanto, qualquer pessoa que mencione James Mason como o maior ator que o cinema já apresentou, terá meu respeito eterno.

2- Delírio de Loucura (Bigger Than Life, Nicholas Ray, 1956)Bigger Than Life (1956)Childhood is a congenital disease – and the purpose of education is to cure it. We’re breeding a race of moral midgets. Esse é o Farrapo Humano da cortisona, é o Mason doidão em seu ápice e facilmente entra para a lista de suas melhores atuações. É um grande filme dos anos 50 que muito lembra o cinema de Douglas Sirk, tanto na utilização de cores quanto no drama da família aparentemente perfeita a desmantelar-se, com um porém de que o pai de família vivido por Mason vira uma espécie de Jack Torrance da cortisona, o que não era muito habitual nesses pequenos dramas de subúrbio. Acho pouco provável que seja mera coincidência Mason ter sido uma das raras pessoas autorizadas a visitar o set de filmagens de O Iluminado, como Kubrick não fazia nada à toa, é bem provável que isso tenha alguma relação com Bigger Than Life e um possível lampejo de influência em Jack Nicholson, afinal, GOD WAS WRONG!

3- O Condenado (Odd Man Out, Carol Reed, 1947)ODD MAN OUT - William Hartnell & James MasonPrimeiro da indefectível trilogia noir do homem em fuga cometida por Carol Reed (seguida com O Terceiro Homem e O Outro Homem) e provavelmente o mais fatalista dos três. Trabalhando pela primeira vez com o tio do Ollie, Mason interpreta um líder do IRA, ferido e acuado pelas vielas e becos escuros dos quais Reed tanto gostava. É uma jornada longa e cansativa para lugar nenhum, onde os tipos peculiares que o homem em fuga encontra pelo caminho delineiam e erguem a narrativa, sobretudo porque Mason permanece em estado constante de delírio e rastejar, é quase uma odisséia homérica quando nada mais importa além de voltar para casa e para uma cama quentinha, ou melhor, uma espécie de odisséia joyceana, não só porque se passa na Irlanda, mas porque dividem lugares, situações e personagens que muito se assemelham com os rompantes literários de James Joyce. Foi com este filme que me apaixonei por Robert Newton, um dos mais notórios bêbados do cinema inglês, aqui no papel de um pintor ensandecido e tipicamente irlandês.

4- Cruz de Ferro (Cross of Iron, Sam Peckinpah, 1977)CROSS OF IRON - James Mason, David WarnerSeguindo com a triste sina de trabalhar com os maiores cineastas de sua época, Mason vive um coronel alemão num dos poucos filmes de que participou sobre a Segunda Guerra que mostra certa afinidade com seus ideais na vida real, Mason era uma espécie de Private Joker do mundo do cinema, onde era terminantemente contra a guerra, embora tivesse participado de inúmeros filmes pró-guerra. Mesmo ocupando um alto cargo militar e despertando certa antipatia na personagem de Coburn pelo simples fato de estar numa posição de comando (num tipo de discussão que Kubrick retomaria dez anos depois com o seu Nascido para Matar), a personagem de Mason é um frescor de sensatez em meio a mais uma guerra insana, cheia de pessoas insanas, nesse amargurado, complexo e subestimado relato.

5- Lolita (Stanley Kubrick, 1962)LOLITA - James Mason & Peter SellersBecause all the best people shave twice a day. Primeiro filme de Kubrick depois do alojamento de mala e cuia na Inglaterra, o início de sua entrega à cultura britânica e no direito de nos presentear com os dois maiores atores com quem trabalhou: Mason e Sellers. Tão grandes e tão inversamente proporcionais, tudo que há de economia dramática em Mason, há de exagero em Sellers, é um duelo e tanto, especialmente porque nem dá para lembrar daquela guria que deu nome ao filme. Há um fator que precisa ser mencionado, Sellers é sem dúvida um dos meus atores favoritos, daqueles mesmo adorados, só que perto do Mason ele me irrita profundamente, pois num diálogo o meu reflexo imediato é sempre observar a reação de Mason ao interlocutor e o Sellers é aquele cara que praticamente fica pulando em cena para chamar a atenção para si no melhor estilo “filma eu, Galvão!”, o que não é de todo mal, já que Mason acaba por segurar as pontas lindamente sem cair no que para nós seria uma inevitável gargalhada diante das improvisações sellerianas. Ainda assim o filme é um desses casos dolorosos de subestimação, chegando ao absurdo de alguns afirmarem que a versão de Adrian Lyne é melhor do que a de Kubrick, o que é uma ofensa, especialmente porque a versão de 1962 sobe no meu conceito cada vez que a revejo, o que dará a possibilidade de que até o final da vida possa considerá-la como obra prima absoluta.
Reza a lenda que Kubrick chegou a denominar Mason como genial, adjetivo este que Stan não fazia tanta questão de usar para com seus atores, também pudera, de todos as personagens das obras de Kubrick, o Humbert de Mason é o único com poder real de destroçar o coração do público, um raro momento onde o coração se sobrepõe ao cérebro dentro da carreira do cineasta e a culpa é exclusiva de Mason, ele transmite tanta dor, entrega, paixão, desespero e devoção que fica impossível não se condoer pelo seu Humbert, não é passível vê-lo como pervertido ou ter obscurecida sua aura de trágico herói romântico e jamais são usados artifícios baratos para que se consiga tal atmosfera, o exemplo máximo disso é ao final quando Humbert começa a chorar e o foco fica na reação de Lolita, enquanto Mason tenta se esconder, Kubrick faz o mesmo com sua câmera em relação a ele, qualquer cineasta ou ator ordinário adorariam um aguaceiro piegas, o que evidentemente não é o caso aqui.
I want you to live with me and die with me and everything with me. Ah… Suspiros eternos.

6- 20.000 Léguas Submarinas (20000 Leagues Under the Sea, Richard Fleischer, 1954)20,000 Leagues Under the Sea - Paul Lukas, Kirk Douglas, Peter Lorre & James MasonI am not what is called a civilized man, Professor. I have done with society for reasons that seem good to me. Therefore, I do not obey its laws. Lembro quando esse tipo de filme ainda passava na Sessão da Tarde, até O Mágico de Oz cheguei a ver quando a programação de tv era mais decente, hoje em dia nem os clássicos dos anos 80 passam mais… Imagino o quão fantástico era ir ao cinema em 1954 e dar de cara com uma aventura desse porte, presumo que tinha um peso semelhente com ir ver Guerra nas Estrelas em 1977, Indiana Jones em 1981 ou O Senhor dos Anéis em 2001, talvez até com um deslumbramento maior. Aqui Mr Mason é ninguém menos que Capitão Nemo com uma barba que cai-lhe muito bem e com o poder de fazer com que o sempre suspeito Peter Lorre pareça um cordeirinho ao seu lado. Se em meados dos anos 50 o temor era crescente sobre os perigos do mal uso da tecnologia, em tempos de ascenção da guerra fria e iminência de guerra nuclear, agora continua com a mesma atualidade, mas nem por isso o McG precisa fazer sua versão com um Will Smith ou um The Rock como Nemo. Ugh!

7- Os Amores de Pandora (Pandora and the Flying Dutchman, Albert Lewin, 1951)Ava Gardner & James Mason (Pandora and the Flying Dutchman)Perhaps you haven’t found what you want yet, perhaps you’re unfulfilled. Perhaps you don’t even know what you want, perhaps you’re discontented. Discontentment often finds vent through malice and destruction. Num dos mais memoráveis romances das telas, Mason e Ava Gardner se unem no segundo dos quatro filmes que fizeram juntos, a explicação para tantas parcerias é a inevitável química que possuiam em cena, dos quais o melhor casal sem dúvida é o formado por Pandora e seu holandês errante. É sim o filme mais bonito do qual Mason participou, tanto no sentido estético quanto no poético, possui deslumbrante fotografia de Jack Cardiff, texto primoroso baseado na mitologia, além de um sentido de fantasia, de fatalidade, do que é eterno e de beleza etérea com o qual estamos pouco ligados hoje. Um exemplo máximo onde Eros encontra Thanatos equitativamente sem perdas, nem danos.

8- Crescei e Multiplicai-vos (The Pumpkin Eater, Jack Clayton, 1964)The Pumpkin Eater (1964) - James Mason, Peter Finch, Anne BancroftPérola que só o cinema britânico dos anos 60 podia proporcionar. Logo depois de sua obra prima Os Inocentes, é a vez de Clayton nos satisfazer com mais um conto de uma mulher madura, só que agora trocando a histeria e o horror por crises conjugais, depressão e humor negro. Quem assume a tarefa é Anne Bancroft no que talvez seja o grande papel de sua carreira, apoiada não só por Mason com sua persona mais asquerosa, mas também por Peter Finch, Maggie Smith, Yootha Joyce e Sir Cedric Hardwicke em seu papel derradeiro.

9- Coração Prisioneiro (Caught, Max Ophüls/Robert Aldrich, 1949)Caught (1949) - Barbara Bel Geddes & James MasonMesmo Caught sendo um melodrama, possui tratamento de filme noir e é a mão de Ophüls que faz toda a diferença. Enquanto Mason encarna uma das suas mais apaixonantes personas (algo que Ophüls lhe proporciou em dose dupla naquele ano), a personagem de Robert Ryan acaba roubando a cena com seu charme e excentricidade, no que  provavelmente seja o primeiro grande personagem intimamente baseado em Howard Hughes, Caught está para Hughes o que Cidadão Kane foi para Hearst. Ophüls foi responsável pela ida de Mason para Hollywood, logo depois o cineasta voltou para a Europa e nunca mais trabalharam juntos, uma pena, pois era passível de que formariam uma grande dupla a longo prazo, eles ainda planejaram uma outra parceria com a adaptação de La Duchesse de Langeais do Balzac contando com Greta Garbo como protagonista, mas que não deu certo, privando a humanidade de algo celestial que unisse Mason-Ophuls-Garbo-Balzac num mesmo letreiro.

10- Nasce uma Estrela (A Star Is Born, George Cukor, 1954)Judy Garland & James Mason (A Star is Born)l destroy everything l touch. l always have. É como Norman Maine que Mason mostra toda a sua grandiosidade como ator, conseguindo nos destroçar como nunca o fizera antes, sem jamais cair em obviedades expressivas que tanto fascinam os menos atentos. Judy Garland é grande na melhor das versões da história, mas Mason é gigantesco e estamos falando de um filme de George Cukor, por quem nutro um grande respeito, mas cuja lenda propaga que o cineasta cai aos pés de suas atrizes e esquece completamente de seus atores, portanto, se um Mason “desprezado” dá nisso, tenho medo do que seria um lembrado. De todos os grande momentos dele durante o filme, um me é especial, quando Maine está a rolar na cama decidindo seu fatídico ato seguinte, poucas vezes na vida pode-se ver um ator passando tanta dor e desespero, inclusive tal momento foi homenageado pelo duo Visconti-Berger no Ludwig de 1972. Mason é tão resplandecente e inesquecível neste seu papel mais emblemático e pelo qual é mais citado, que vire e mexe em qualquer parte do mundo alguém faz alguma imitação de James Mason bêbado, aliás, ele sempre foi um prato cheio para imitadores em geral (Jon Hamm? Eddie Izzard? Mason é deus, oras), por conta de seu timbre de voz e empostação únicas.

11- Quase um Criminoso (A Touch of Larceny, Guy Hamilton, 1959) A Touch of Larceny (1959)Ah, a comédia britânica dos anos 50! Ah, a comédia britânica de sempre! Mason nunca esteve tão charmoso e irresistível, essa sátira de espionagem da Guerra Fria é um exemplo perfeito do porquê Mason fora cotado para encarnar James Bond, justamente nas mãos do cineasta que nos daria o melhor filme daquele agente igualmente mulherengo e elegante. Além disso é a mais engraçada, inteligente, sexy e refinada comédia da qual participou.

12- Cinco Dedos (5 Fingers, Joseph L. Mankiewicz, 1952)Five Fingers (1952)Mason desta vez é um mordomo, no melhor estilo “Jeeves da espionagem”, baseado no lendário Elyesa Bazna. Muito me intriga tal homem ter rendido tão poucos exemplos cinematográficos, já que é uma personagem histórica fascinante, tudo bem que a personaficação de Mason seja definitiva tanto quanto o filme de Mankiewicz o é, mesmo com as devidas licenças poéticas hollywoodianas, mas um homem que mostrou o quanto o alto escalão nazista era amplamente estúpido ao saber de todas as informações sobre o Dia D e não usá-las, talvez pudesse render mais alguns grandes filmes de espionagem, assim como rendeu uma obscura série americana dos anos 60.

Cem anos de James Mason – Parte 2

Posted in ANOS 40, ANOS 50, ANOS 60, ANOS 70, IMPRESSÕES, MUSOS by Adriana Scarpin on May 15, 2009

13- O Outro Homem (The Man Between, Carol Reed, 1953)The Man Between (1953) - James Mason & Claire BloomI can warm your feet for you. It’s a pity you can’t do anything about my heart. Mais um dos inesquecíveis tipos da galeria “sou canalha, mas sou legal” de Mr Mason. Tão bom quanto Odd Man Out e The Third Man, pode-se dizer que é o encerramento da trilogia sagrada de Carol Reed sobre a perda da inocência do homem adulto e a morte de seus ideais. Indispensável para quem gosta de thrillers eletrizantes, se passa na Alemanha pós-guerra e pré-muro, servindo-se de ação e tensão ininterruptas a partir da metade final, sempre marcado pelo estilo fotográfico do Reed e muito influenciado por Welles. E ainda descobrimos que Mason patina lindamente, mas afinal, o que ele fazia que não fosse lindamente?

14- Na Teia do Destino (The Reckless Moment, Max Ophüls, 1949)The Reckless Moment - Joan Bennett & James MasonYou have your family, I have my Nagel. Nesse segundo filme com Ophuls, Mason interpreta um canallha legal como ninguém mais sabia interpretar. Mason tinha esse dom dificílimo de se transformar do canalha mais repugnante ao ser humano mais apaixonante e vice-versa em pouco mais de uma hora de filme, era um desses atores que tinham esse domínio absurdo na manipulação do espectador. É bem estranho um filme desses estar numa décima quarta colocação, mas que culpa tenho eu se Mason era prolífico em demasia não apenas com filmes medianos, mas também em grandes obras?

A shot that does not call for tracks
Is agony for poor old Max,
Who, separated from his dolly,
Is wrapped in deepest melancholy.
Once, when they took away his crane,
I thought he’d never smile again.

- Ophuls por Mason

15- A Gaivota (The Sea Gull, Sidney Lumet, 1968)Seagull - Simone Signoret, James Mason, Vanessa Redgrave e David WarnerEstranhamente A Gaivota de Chekhov foi pouco adaptada para as telas na língua inglesa e mesmo sendo esta a transposição mais famosa, ainda é fulgorosamente desprezada. Trigorin obviamente é a parte de Mr Mason, mais uma vez dividindo cena com um membro da família Redgrave, Vanessa, onde impera absoluto um elenco que vai além de qualquer texto ou cineasta, complementado por Simone Signoret, Harry Andrews, Denholm Elliott, Eileen Herlie e David Warner. Tá bom, o texto ajuda esse povo bom a se encontrar e Lumet volta aos filmes teatrais num clima parecido com o que já fizera no excelente Longa Jornada Noite Adentro.

16- The London Nobody Knows (Norman Cohen, 1967)London Nobody KnowsEsse é um achado sensacional. Um documentário onde Mr Mason nos guia por todos os buracos londrinos dos anos 60, não é simplesmente narrado por ele e sim guiado de corpo e alma, Mason visita cada local e conversa com as pessoas, tornando este um dos mais interessantes documentos de uma cidade e época. Ainda passa pelo local de assassinato de Annie Chapman e que hoje virou uma garagem, mal sabia ele que pouco mais de dez anos depois voltaria às telas na pele de Watson para investigar aquele mesmo assassinato.

17- Los Pianos Mecánicos (Juan Antonio Bardem, 1965)Los pianos mecánicos (1965) James Mason, Didier HaudepinTiene que beber para escapar a la muerte. Mr Mason não trabalhou apenas com o tio do Ollie, ele também trabalhou com o tio do Javier. Tudo gira em torno das relações de habitantes de um hedonista vilarejo espanhol à beira mar, um refúgio de artistas e pessoas intensas e passionais, das quais Mason se insere magnificamente como um escritor alcóolatra rodeado de mulheres bem mais jovens e, como de costume, possuidor das melhores falas. O curioso é que se qualquer outro cineasta que não seja espanhol se aventurar a mostrar um ambiente libertário e passional dentro da Espanha, prontamente será acusado de estereotipar o país (Woody Allen, alguém?), mas se quem o faz é um cineasta espanhol tudo fica na boa, mesmo com um elenco internacional mesclando ingleses, gregos, alemães, japoneses, italianos e franceses. Como se não existissem pessoas hedonistas e passionais em qualquer lugar do mundo, como se fosse correto apenas transformar a Finlândia num país com seres de emoções intensas, acho que está mais do que na hora de parar com a palhaçada e assumir que países latinos formam emoções intensas como qualquer outro povo do mundo e isso nada tem de estereótipo.

18- O Farol das Ilusões (Thunder Rock, Roy Boulting, 1942)Thunder Rock - Michael Redgrave & James MasonEm seu seu primeiro trabalho mais profundo, Mason deu início à sina de contracenar com o clã Redgrave e a oportunidade de trabalhar sobre a batuta do amplamente subestimado Roy Boulting (que ao lado de seu irmão John formavam uma dinâmica estilo Coen brothers), um dos mais interessantes cineastas da golden age britânica. Neste filme abertamente anti-fascismo, Mason mais uma vez aparece como personagem chave sendo incumbido de ser o vínculo com a realidade da persona vivida por Sir Michael. É um filme complexo que permite várias interpretações, seja no contexto da segunda guerra mundial ou seja no psicológico, chega a ser difícil escolher o tipo de leitura que queremos fazer tamanha a quantidade de minúcias simbólicas espalhadas em cada pedacinho de imagem e palavra, o que nos faz lembrar que filmes políticos não são necessariamente isentos de poesia.

19- Viagem ao Centro da Terra (Journey to the Center of the Earth, Henry Levin, 1959)James Mason, Arlene Dahl, Pat Boone - Journey to the Center of the Earth (1959)Since the beginning of time all women have heard footsteps up there. Pronto, agora sim de volta aos bons tempos em que se fazia lava de vulcão com molho de tomate. Mason retorna ao mundo de Julio Verne, é a vez de encarnar o Professor Lidenbrock, um escocês maluco à la Indiana Jones, aliás, ele é o verdadeiro pai de Dr Jones e não o Sean Connery. A inspiração é gritante, tanto nos aspectos da personalidade de Sir Lidenbrock (o modo de tratar as mulheres e de dormir com o chapéu na cara levantando lentamente até que apareçam os olhos, o mesmo tipo de piadinhas, o fascínio e obssessão diante de descobertas históricas, mitológicas e científicas) quanto as óbvias referências visuais presentes em Caçadores da Arca Perdida (a pedra gigante rolando, o reflexo do sol marcando o local e até a trilha sonora de John Williams remetendo à portentosidade de Bernard Herrmann). O único problema do filme é quando o Pat Boone começa a cantar, por que o Conde comeu a Gertrude e não o Boone? Por que meu deus? POR QUÊ???

20- Georgy, A Feiticeira (Georgy Girl, Silvio Narizzano, 1966)Georgy Girl - Lynn Redgrave & James MasonNessa espécie de O Casamento de Muriel dos anos 60, Mason está ótimo como usual (tanto quanto Alan Bates e Lynn Redgrave) e encarna mais uma vez a sua persona de “dirty old man”, definição que não lhe faz muito juz, muito pelo contrário, em Georgy Girl ele está particularmente apaixonado e sensível. O que posso dizer? Esse exemplo nato do british new wave é uma fofura e tentou entrar na onda do que Richard Lester vinha fazendo pelo cinema britânico naqueles idos. A única dúvida que possuo é: o que diabos esse subtítulo nacional tem a ver com o filme???

21- Gente de Respeito (Gente di rispetto, Luigi Zampa, 1975)Gente di Rispetto - James Mason & Jennifer O'NeillNeste thriller político Mason é o poderoso chefão de uma cidadezinha siciliana, não no sentido mafioso mas no sentido de manipulação, ou seja, um prato cheio para suas nuances interpretativas. Um filme bastante intrigante, muito ajudado pela trilha de Morricone que o ajuda a manter um clima ao estilo de Investigação de um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita.

22- Amor na Sombra (Fanny by Gaslight, Anthony Asquith, 1944)Fanny by Gaslight - Margaretta Scott, James MasonAnthony Asquith, o homem, o mito! Um dos baluartes da golden age inglesa e que por dessas coisas da vida é tio-avô de Helena Bonham Carter. Sim, ele também serviu ao Gainsborough Studios e seus melodramas, mas um melodrama de Asquith não é algo ordinário e sim um desenvolto estudo da era vitoriana, sua hipocrisia e seus conflitos de classes sociais e é exatamente nesse complexo desenho de uma era em que entra o vastamente deslumbrante personagem de James Mason, um lorde que oscila entre o que é aristocrata e o que é marginal, entre a elegância e a sargeta, uma espécie de mistura entre Oscar Wilde e Marquês de Sade. Resumindo, quem segura as pontas e toma o filme para si é mais uma vez Mr Mason, mesmo com o seu criminosamente pouco tempo em cena.

23- A Idade da Reflexão (Age of Consent, Michael Powell, 1969)Age of Consent (1969) - JAMES MASON & HELEN MIRRENSe Helen Mirren continua com seu sex appeal intocável na faixa dos 60 anos, ela teve um grande professor em sua estréia como protagonista nas telonas, Mason, então na mesma faixa dos 60, mostrou ainda ser capaz de causar muitos suspiros nesta cinebio sobre o pintor e escritor Norman Lindsay, além de apresentar-se barbado, coisa que muito lhe cai bem. É um filme que marca muitas coisas, a mais triste delas é o fato de ser o longa final da carreira do lendário Michael Powell, um dos mais memoráveis cineastas que a Grã-Bretanha produziu, também marca o fim da espera de mais de 20 anos do sonho de Powell trabalhar com Mason, quando o cineasta ficara desesperado para tê-lo em Sei Onde Fica o Paraíso (I Know Where I’m Going! 1945). Em Age of Consent a personagem de Mason quer o corpitcho de curvas perfeitas de Dame Mirren para pintá-lo, o que obviamente irrita a personagem de sua avó prozaica, xexelenta e mesquinha, aí entra a real intenção de Powell para com o filme, mostrar a visão enrugada de certas pessoas para com o sentido da nudez. Se há 40 anos esse embate nudez versus sexualidade versus arte rendiam tantos equívocos, a situação atual é para lá de desesperadora, hoje mais do que nunca a nudez é irremediavelmente associada à sexualidade, fazendo com que toda a sociedade pareça um adolescente adorador de Onã. Esse é um dos muitos aspectos que comprovam uma estagnar da mentalidade mundana quando já deveriamos tratar a nudez de forma natural há muito tempo, um não saber diferenciar o exaltar da beleza do corpo humano com os pruridos sexuais da rapaziada, acarretando um tipo de censura e puritanismo execrável. Veja o próprio caso de Dame Mirren, ainda um símbolo sexual aos sessenta e poucos anos, ela não causa suspiros nos jovens e nos velhos porque apareceu nua em diversos filmes, ela se mantém sex symbol porque transborda sensualidade em cada movimento, em cada olhar, além de sempre tratar sua própria nudez de forma natural.

24- The Upturned Glass (Lawrence Huntington, 1947)The Upturned Glass (1947)I’ve always resented the fact that one can’t choose which patients to kill.
Não é preciso ser perito para ver o porquê Hitchcok queria Mason no papel que fora de James Stewart em Rope, especialmente ao vê-lo neste filme do ano anterior onde Mason relata cientificamente os seus próprios atos como criminoso, dividindo cena com sua esposa Pamela (que também ficou a cargo da roteirização do filme) como sua “suposta” vítima, o problema é que todas as teorias da personagem de Mason vão pra cucuia quando passa da teoria para a prática. Não estranharia se alguém elaborasse algum tipo de tese sobre a criminalidade no cinema só utilizando as personas criadas por James Mason, há todo tipo de perfil psicológico e social, ele é perito em vilões e anti-heróis, mas Mason não se repete, todos eles são minuciosamente distintos uns dos outros.
Reza a lenda que originalmente o mestre de Rope deixaria claro que tivera um caso com um dos seus pupilos, mas isso foi descartado depois de comprovada a indisponibilidade de Mason para o papel, sabe como é, as mariquinhas de Hollywood não tinham culhões para interpretarem homossexuais, ao menos Farley Granger e John Dall conseguiram transformar Rope no filme mais queer do velho Hitch.

Cem anos de James Mason – Parte 3

Posted in ANOS 40, ANOS 50, ANOS 60, ANOS 70, ANOS 80, IMPRESSÕES, MUSOS by Adriana Scarpin on May 15, 2009

25- O Veredito (The Verdict, Sidney Lumet, 1982)The Verdict - Paul Newman, James MasonSão poucos os dramas de tribunal realmente bons, a maioria esmagadora são um pé no saquinho, esse felizmente é excessão, não só porque o Lumet sempre foi um baita diretor e o Mamet um baita escritor, mas sobretudo porque quem segura as pontas é a dobradinha Newman-Mason duelando verbalmente na corte, tudo que Mason tem de suave e sorrateiro, Newman tem de incisivo. Um detalhe bacana é a semelhança entre a sala de reuniões dos advogados carniceiros de O Veredito com a sala da diretoria televisiva em Network, inclusive com o mesmo tipo de luminárias, o que torna ambos os filmes ainda mais geminados e a personagem de Mason colocada num paralelo moral com a de Ned Beatty em Rede de Intrigas. Sem dúvida o melhor filme do Lumet nos anos 80 e o último grande filme de Mason antes de falecer, não à toa Lumet afirmou que Mason fora o melhor ator com quem trabalhara durante toda a sua carreira, indo de encontro com a definição que a personagem de Jack Warden dera a Mason durante o filme: He’s the prince of fucking darkness!

26- A História de Três Amores (The Story of Three Loves, Gottfried Reinhardt / Vincente Minnelli, 1953)The Story of Three Loves - James Mason & Moira ShearerWill you kindly stop pretending I’m an ogre. I’m very simple, ordinary, kindly human being. Este portmanteau divide-se em três episódios: Equilibrium (do Reinhardt, com Pier Angeli & Kirk Douglas) num conto bacana sobre trapezismo, relacionamentos, confiança e erros passados; Mademoiselle (do Minnelli, com Leslie Caron e Farley Granger) que é uma espécie de versão original do Quero Ser Grande com Tom Hanks; e The Jealous Lover (também do Reinhardt, com Mason e Moira Shearer) com uma ode à Powell/Pressburger.
Em The Jealous Lover há uma cena onde Moira Shearer dança para Mason ao som de Rhapsody On a Theme of Paganini, tal momento é de uma beleza cortante, inclusive esse filme é ainda hoje mais conhecido como “aquele em que a Shearer dança Rachmaninoff”, talvez por isso seja o meu episódio favorito. Foi dirigido pelo filho de Max Reinhardt, o que provavelmente teria dado orgulho ao pai, muito me inclina dizer que a personagem de Mason é uma homenagem ao velho Max em toda sua loucura criativa. Imagino o quanto foi doloroso para Michael Powell e Emeric Pressburger ver Mason neste remake condensado de Sapatinhos Vermelhos, depois de tanta resistência em trabalhar com a dupla.

27- Crepúsculo das Águias (The Blue Max, John Guillermin, 1966)Blue Max - JAMES MASONThis is 1918. Things have changed. Mason é um alemão, again. É um elemento chave, again. É a melhor personagem do filme, again. Memorável filme de guerra, onde as cenas de ação aéreas e terrestres primam pela excelência, sobretudo por serem visualmente mais honestas do que as dos filmes atuais e possivelmente só perde como melhor filme sobre aviação para o imbatível Hell’s Angels de Howard Hughes. Último filme inglês de Guillermin, enquanto filmou na Inglaterra e França sempre se manteve um cineasta interessante, depois foi para os EUA e se anulou por completo.

28- O Castelo do Homem sem Alma (Hatter’s Castle, Lance Comfort, 1942)James Mason, Beatrice Varley, Deborah Kerr - HATTER'S CASTLERobert Newman era um ator gigantesco e aqui ele encarna um Daniel Plainview versão chapeleiro louco, enquanto Mason faz as vezes do affair da filha do escocês tirânico vivida por Deborah Kerr. Mesmo Mason tendo um papel pequeno, ele é o único que pode fazer frente a Robert Newman, onde todas as cenas divididas por eles podemos sentir raios e trovões imaginários saindo de todos os cantos. Ó céus, Kerr e Mason formavam mesmo uma dupla linda e sensacional.

29- A Verdadeira História de Frankenstein (Frankenstein: The True Story, Jack Smight, 1973)Frankenstein The True Story (1973) - Leonard Whiting & James MasonOnly fools like Henry Clerval want vulgar fame. I shall have the power that works unseen, that moves the world. You alone, Frankenstein, when you read in your newspaper that a monarch has been deposed or that two nations are at war with each other, will say to yourself : That’s the hand of Polidori. Mais uma versão de Frankenstein, ótima por sinal, pelo título estranho de “true story” e o fato de ser uma produção televisiva podemos cair na bobagem de pensar que este é um trabalho inferior, mas fiquei mesmo abismada com a sua qualidade, especialmente pela perspectiva psicológica com que a história é tratada. Detectei algumas nuances homossexuais no melhor estilo “In just seven days I can make you a man” e um clima meio Oscar Wilde (o fato de ter sido roteirizado por Christopher Isherwood ajuda muito), o que poderia recair numa das interpretações do livro de Mary Shelley, onde a criatura nada mais seria do que um alter-ego do próprio Victor e o equivalente ao quadro de Dorian Gray. Acho que esta é a versão mais complexa e cheia de interpretações de todas as versões fílmicas que já pude conferir sobre o Prometeu Moderno. Mason encarna John Polidori, uma homenagem ao criador do gênero vampiresco e um dos presentes no lendário desafio dos Shelleys naquela noite qualquer do século XIX.

30- O Sétimo Véu (The Seventh Veil, Compton Bennett, 1945)Seventh Veil - ANN TODD & JAMES MASONEste é o filme que conseguiu o passaporte de Mason para Hollywood. Mason é o tutor da orfã vivida por Ann Todd e, como todo bom ser que se preze, sua entrada em cena é com um gato a tira colo, enquanto Todd chega em sua presença já clamando que odeia tais felinos e que eles a assustam. Isso obviamente referia a personalidade de seu guardião, o qual se mostrará como um manco charmoso, dominador, introspectivo e que odeia ver pessoas felizes. Mais um desses filmes assolados pela onda da psicanálise nos anos 40, cujo maior atrativo é mesmo a irresistibilidade da personagem vivida por Mason, o que é mais do que suficiente.

I saw The Seventh Veil four times. That Mason is the greatest actor. – D.W. Griffith

31- Assassinato Por Decreto (Murder By Decree, Bob Clark, 1979)James Mason, Christopher Plummer - Murder by decreeI’m trying to corner the last pea on my plate. Na melhor incursão de Sherlock Holmes nas telas, com trama original e que nada tem a ver com Conan-Doyle, Christopher Plummer vive o dito cujo, enquanto Mason é seu caro Watson e Donald Sutherland praticamente repete sua persona paranormal de O Inverno de Sangue em Veneza. Primeiro filme a utilizar a então recente teoria da conspiração proposta por Stephen Knight sobre Jack – O Estripador, Bob Clark (pós Black Christmas e pré Christmas Story) mescla tal teoria com o universo de Conan-Doyle com tino na climatização, mostrando atmosfera mais em comum com From Hell do que qualquer outra abordagem de Jack, a iluminação é tão escassa e existem tão poucas cenas à luz do dia que chegou o mais próximo do que se pode chamar “noir colorido”. O duo Plummer-Mason clama por toda atenção, tendo trabalhado diversas vezes juntos, quimíca é o que não falta na assimilação Holmes-Watson. Adoro Watson, tão lindo, tão sensível, tão fofo.

32- Júlio César (Julius Caesar, Joseph L. Mankiewicz, 1953)Julius Caesar - JOHN GIELGUD & JAMES MASONYou died for your ambition, great it be. Sim, até tu. Brutus é um dos personagens mais fascinantes de Shakespeare e é este personagem que Mason encarna, o principal da peça, apesar de toda babação de ovo pelo Marlon Brando. Mason e John Gielgud poderiam perfeitamente picar aquele Brando em pedacinhos e guardar no bolso fácil, fácil. Mason era um ator essencialmente de cinema, o que o faz mais especializado do que outras lendas britânicas, mesmo tendo começado como ator de teatro não se tornou lendário neste meio como foram muitos de seus contemporâneos, por isso foi uma benção poder vê-lo em várias adaptações de peças, especialmente esta em que ele já representara nos palcos durante os anos 30. Toda aquela suavidade que fez a fama de Mason nas telas não tem vez nos palcos e qualquer tentativa de mudança em sua empostação de voz provavelmente tiraria sua naturalidade, por isso a benção é duplicada em vê-lo com tal personagem nas telas, não lhe foi necessário forçar a voz como o seria nos palcos. Não é dos meus Mankiewicz mais queridos, mas há grandes momentos por conta dos atores, não só pelo duo Mason-Gielgud, mas como eu já disse, porque Mason e Kerr formavam um casal lindo e sensacional. O texto ajuda, é claro, o populismo segundo William Shakespeare, devia-se dar mais atenção a tal peça por aí, se possível encená-la a exaustão em épocas eleitorais.
A fofoca do filme era o triângulo amoroso de todos os lados entre Mason, sua esposa Pamela e Mankiewicz, o que acabou causando um piti em Marlon Brando durante as filmagens por estar “favorecendo” Mason em cena, mas a verdade é que havia um racha entre os atores ingleses e os americanos do filme, eles não gostavam uns dos outros.

All of fucking Hollywood knows you’re plowing it to Mason and his beloved wife, Miss Pamela, every night. You’re the hottest mènage à trois in town. But that’s no excuse for you to favor your fuck boy here over me. It’s not professional. – Marlon Brando, com sua habitual lacuna de classe, berrando diante de todo o elenco sobre os divertimentos de Mankiewicz com o casal Mason.

33- La Città Sconvolta: Caccia Spietata ai Rapitori (Fernando Di Leo, 1975)La Città Sconvolta Caccia Spietata Ai Rapitori (1975) - James Mason & Luc MerendaMason interpreta um italiano almofadinha e endinheirado neste poliziottesco dramático de vingança. Em dado momento Di Leo se auto-plagia refazando uma sequência de Milano Calibro 9 com direito a reutilização da trilha de Luis Bacalov e tudo, é nesse exato momento no meio do filme que há uma reviravolta estilística, se na primeira metade o conteúdo era um drama calmo, a partir da segunda metade a história se transforma num bem engendrado jogo de vingança.

34- A Noite tem Olhos (The Night Has Eyes, Leslie Arliss, 1942)The Night Has Eyes (1942)Um dos filmes mais interessantes de Mason em sua fase inglesa, onde ele está mais belo e intrigante do que nunca e, descontando alguns momentos horrorosos com tiques que todos os atores e cineastas da época teimavam em manter, é um suspense que se mantêm eletrizante até o final e cuja atmosfera lembra muito obras como Os Inocentes e Os Outros. É um filme soturno, cheio de reviravoltas estilísticas, de início pensamos que estamos vendo um filme de lobisomem, depois um melodrama, depois um filme de psicopata qualquer, depois voltamos ao melodrama e temos um final razoavelmente surpresa. O clima mantido é dos mais clássicos, com direito a uma casa pouco habitada em meio aos pântanos e nevoeiros de Yorkshire, onde vivem um homem amargurado, sua governanta suspeita e seu caseiro aparentemente bonzinho, enquanto a jovem heroína chega e tenta solucionar os mistérios que envolvem tais pessoas.

35- Kill! Kill! Kill! Kill! (Romain Gary, 1971)KILL, KILL, KILLEsse é o típico filme que todo mundo adora xingar e eu amo: Mason, violência, Romain Gary, tráfico de drogas, Jean Seberg, assassinos de aluguel, Stephen Boyd, pornografia, Curd Jürgens, crianças viciadas em heroína, sátira, Sam Peckinpah, Nouvelle Vague, psicadelia, trilha sonora de Berto Pisano & Jacques Chaumont… Ah, os anos 70! Algumas coisas só esta década sabia proporcionar.

36- Charade (Roy Lellino, 1953)CHARADE (1953)Roy Kellino não guarda rancor, pois ele é um gentleman. Pouco mais de 10 anos depois de Mason ter um caso com a então esposa de Kellino durante as filmagens de I Met a Murderer e que acabou em divórcio, Kellino, Pamela e James voltam a formar o mesmo trio em suas funções cinematrográficas, com a diferença que agora Pamela é a Mrs Mason e não mais Mrs Kellino. Este é um portmanteau que faz uso de metalinguagem para unir as histórias, no primeiro episódio Mason vive um assassino por quem Pamela se apaixona após ser testemunha de um dos seus crimes. No segundo episódio, o mais fraco dos três, Mason é um oficial duelando por uma mulher. No terceiro ele encarna novamente um Jeeves da vida no melhor e mais cômico dos episódios, sobre um alto executivo que cansa dessa vida e vai ser modormo. No seguimento metalinguistíco que une as histórias, onde Mason está delineando os meios de produção de um filme (função esta que realmente exerce aqui, como igualmente a de roteirista ao lado de Pamela) e onde já podemos vê-lo com a barba do seu futuro Capitão Nemo, há uma forte influência de Na Solidão da Noite (Dead of Night, Hamer/Cavalcanti/Crichton/Dearden, 1945) não só no estilo de roteirização, como no de edição, o que é bem razoável, pois Dead of Night foi um dos mais influentes filmes ingleses dos anos 40.

Cem anos de James Mason – Parte 4

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37- Brincadeira de Criança (Child’s Play, Sidney Lumet, 1972)Child's Play - JAMES MASONTenho trauma e medo de professores de latim, especialmente daqueles que passaram por seminário, para meu desespero Mr Mason encarna uma dessas pragas, com maestria já que ele me fez recordar exatamente como eram: mesquinhos, venenosos, sádicos e moralistas. É um filme pesado e peculiar do Lumet, pode-se dizer que é um filme de terror pouco usual, psicológico sobretudo, onde mais uma vez dominam as atuações. Um fato curioso sobre este filme é que Marlon Brando estava escalado para viver o antagonista de Mason e quando soube que este teria um papel melhor, simplesmente pulou fora. Tolinho egóico, não sabia Brando que melhores papéis sempre vão para os melhores atores?

38- Mundos Opostos (East Side, West Side, Mervyn LeRoy, 1949)East side West side - BARBARA STANWYCK & JAMES MASONYou’re spoiling what was a beautiful memory. I don’t remember you as being this cheap. Melodrama interessante com um elenco de dar calafrios, Babs Stanwyck e Mason formam um dos casais mais elegantes e charmosos que já pude ver nas telas, enquanto Ava Gardner é a destruidora de lares habitual com quem James forma um segundo casal muito mais tórrido e com direito aos habituais tabefes de Mr Mason, o que obviamente muito apetece a tia Ava. Até o usualmente insuportável Van Heflin está deveras apaixonante aqui, a juvenil Cyd Charisse e a futura primeira dama americana, Nancy Reagan, também dão o ar da graça e é esse elenco que carrega o filme nas costas. A fofoquinha deste filme é que na vida real Ava Gardner estava de fato tendo um caso com o marido da Stanwyck, Robert Taylor, naqueles idos.

39- Os Destruidores (The Marseille Contract, Robert Parrish, 1974)Marseille Contrat - Michael Caine, James MasonMr Mason sofrendo das fatalidades dos anos 70: interpretando um barão da droga e enfrentando Michael Caine. Provalmente um dos filmes mais injustiçados de sua carreira, naufragou na bilheteria e não é lançado em DVD em lugar algum, mas é um baita thriller de ação que só os anos 70 sabiam produzir e não por acaso foi amplamente homenageado em 007 Contra Goldeneye. Mason vive o bandidão chiquérrimo que precisa ser detido, para isso é necessário que alguém igualmente chiquérrimo se infiltre no seu círculo, cargo que vai parar obviamente nas mãos de Michael Caine. Memorável trilha sonora de Roy Budd.

40- They Were Sisters (Arthur Crabtree, 1945)They Were Sisters (1945) - Phillis, Pamela e JamesÓ céus, lá vamos nós de novo. Mason no melhor do sadismo, aterrorizando psicologicamente esposa e filha, esta interpretada por sua esposa Pamela, o que carrega ainda mais na atmosfera psicanalítica de incesto. A premissa lembra muito aquele The Sisters com a Bette Davis e o Errol Flynn, mas o desenvolvimento é bastante distinto, especialmente pelo aterrorizante caráter da personagem de Mr Mason, tingindo as nuances da persona que futuramente desenvolveria em Bigger Than Life.

41- O Prisioneiro de Zenda (The Prisoner of Zenda, Richard Thorpe, 1952)The Prisoner of Zenda (1952) - JAMES MASON & STEWART GRANGERWomen are never in their right senses, thank goodness! Falemos seriamente, aquela luta de espadas entre Stewart Granger e James Mason é sensacional, realmente adoro lutas de esgrimistas e espadachins, mas dessas artesanais, hoje ninguém consegue colocar uma luta sem ter um CGI no meio. Cruzes. Mason está deliciosamente mau, muito mau, na pele de Rupert of Hentzau, um dos seus papéis mais irresistíveis, voltando a se encontrar com seus companheirinhos de tempos de ilha: Stewart Granger e Deborah Kerr. Granger foi o rei do capa-espada dos anos 40/50, mas Mason não faz nada feio em graça e desenvoltura, não à toa a fascinação de Mason por felinos foi excencial para sua própria carreira, não apenas na forma de olhar, como em seus movimentos, é só vê-lo aqui saltando e se esgueirando como um gato.

42- The Man in Grey (Leslie Arliss, 1943)The Man in Grey (1943) - JAMES MASON & MARGARET LOCKWOODComo o homem de cinza, Mason dá início ao seu reinado no Gainsborough Studios esbanjando escrotisse, mau humor e cabelos encaracolados ao viver Lord Rohan, é aqui que o termo “sexy sadism” vira sinônimo de sua presença em cena e o acompanhará nos próximos anos. Os filmes da Gainsborough funcionavam basicamente com a mesma dinâmica, onde Mason sempre era o sádico/vilão/anti-herói, Margaret Lockwood era a perversa, Stewart Granger era o herói e Phyllis Calvert era a heroína, de vez em quando alterava-se o elenco, mas o ciclo era sempre mais ou menos este. Claro que sendo o filho da puta, Mason sempre acabava chamando mais atenção, embora Granger tenha garantido seu posto como futuro herói hollywoodiano de capa-espada nesta mesma época.

43- La Polizia Interviene: Ordine di Uccidere (Giuseppe Rosati, 1975) The Left Hand of the Law - Leonard Mann & James MasonNeste poliziottesco Mason faz as vezes do burocrata político, num dos seus muitos papéis pequenos mas de grande efeito dramático e narrativo, apesar do filme ser algo menor do sub-gênero e contar com um dos seus ícones Leonard Mann. Também serve para vê-lo dividindo cena novamente com Stephen Boyd, matando saudades de alguns dos filmes que fizeram juntos, em especial de A Queda do Império Romano, uma outra era italiana de que também fizeram parte.

44- O Fim de Sheila (The Last of Sheila, Herbert Ross, 1973)Last of Sheila - James Mason, Rachel Welch, Joan Hackett, Ian McShane, Dyan Cannon & Richard BenjaminTirando a rápida e exuberante participação inicial de James Coburn, sem dúvida a de Mason é o ponto forte de todo o filme. A cena em que tentam assassinar Mason com fantoches é no mínimo bizarra, tanto quanto sua interpretação de um cineasta pedófilo filmando com criancinhas, mas nada paga o gozo de ver James Coburn como uma freira-travesti-putona. Isso tudo saiu das mentes de Anthony Perkins e Stephen Sondheim, dois doentes natos, é claro.

45- O Declínio dos Anos Dourados (The Shooting Party, Alan Bridges, 1985)James Mason & John Gielgud in The Shooting PartyMy fellow murderers are rather hot blooded. Último filme gravado por Mason antes de morrer e felizmente um ótimo desfecho de carreira, estando muito bem acompanhado de Sir Edward Fox, Dame Dorothy Tutin e Sir John Gielgud. Produção que influenciou o excelente Gosford Park de Robert Altman, mostra plebe e aristocracia, empregados e patrões, envoltos em intrigas, traições, romances, marcando o final da era vitoriana e da aristocracia britânica. Aqui a presença em cena de Mason é especialmente brilhante, marcada por poucas falas e atitudes, mas cheia de um resplancer de alguém que muito viu e viveu, de que nada mais pode ser feito além de observar e esperar, marcando não apenas o fim daquela fatídica era da cultura britânica para a personagem, como marca o fim de uma era de atores tais como ele próprio. Uma cena em particular entre o anfitrião Mason e o vegetariano ativista Gielgud tornou-se notória pela sua excelência, um momento engraçadíssimo de como dois homens maduros e bem educados jogam para escanteio as diferenças ideológicas, marcando o reencontro e partilha final dos dois monstruosos atores.

46- O Céu Pode Esperar (Heaven Can Wait, Warren Beatty/Buck Henry, 1978)Heaven Can Wait - Warren Beatty, Buck Henry, James MasonThe likelihood of one individual being right increases in direct proportion to the intensity with which others are trying to prove him wrong. Nunca é demais recordar: este não é remake do filme do Lubitsch e sim do Here Comes Mr. Jordan do Alexander Hall. Mason fica a cargo do papel-título que fora de Claude Rains na versão de 41, o que é interessante, já que sempre pode-se notar certa semelhança física entre Mason e seu conterrâneo Rains. Mr Jordan é o filho da mãe que escolhe quem vai entrar no céu ou não, ou seja, finalmente deram um papel à altura do poder de Mr Mason.

47- Raposa do Deserto (The Desert Fox: The Story of Rommel, Henry Hathaway, 1951)DESERT FOX - JAMES MASONMason é até hoje o Rommel definitivo, antes dele Von Stroheim encarnara o general em Five Graves of Cairo do Billy Wilder, mas era 1943 e isso fez com que Stroheim fosse pouco lisongeiro ao interpretá-lo, anos depois Mason veio e deu-lhe um pouco mais de humanidade criando um dos seus personagens mais interessantes, apesar de soar um tanto inacurado historicamente, é a criação do pacifista Mason que se vê e não o estrategista impecável.

48- Resgate Suicida (North Sea Hijack, Andrew V. McLaglen, 1979)Anthony Perkins, James Mason, Roger Moore - NORTH SEA HAILJACKÉ bem estranho ver Roger Moore pronunciando sua famosa frase “I like cats, and I don’t like people who don’t” olhando inquisitivamente para Mason enquanto este faz cara de culpado. Mason, foi provalmente o ator mais apaixonado por gatos de que já tive notícia, inclusive co-escreveu com sua então esposa Pamela e ilustrou um livro chamado “The Cats in Our Lives“. É um filme de ação, mas também é um filme sobre gatos, onde Mason tem que aturar o misógino, excêntrico e gatófilo personagem de Moore para que este acabe com a brincadeira de Anthony Perkins que teima em explodir uma plataforma de petróleo. Este filme é o pai biológico de Duro de Matar.

Cem anos de James Mason – Parte 5

Posted in ANOS 40, ANOS 50, ANOS 60, ANOS 70, ANOS 80, IMPRESSÕES, MUSOS by Adriana Scarpin on May 15, 2009

49- Candlelight in Algeria (George King, 1944)Candlelight in Algeria (1944)Ah, os problemas morais do bigode! Aqui temos a nossa heroína vivida por Carla Lehmann passando a primeira metade do filme a desconfiar do caráter de Mr Mason só porque ele ostenta um bigode! Não, isso não é uma teoria, a personagem deixa claro que não pode confiar em alguém com um bigode daqueles e se Mason já é pouco confiável sem, imagine com. George King era aquele tipo de cineasta que aprendeu a fazer cinema na raça, lotou os anos 30 com dezenas de filmes B e culminando nos anos 40 com este Candlelight in Algeria, o melhor trabalho de sua carreira, um thriller de espionagem com toque de Pepe Le Moko e cheio de bom humor, onde Mason é o agente que precisa tirar um filme da Algéria sem que os nazis o descubram primeiro, num típico filme de tempos de guerra onde a situação colaboracionista dos aliados era um mote comum nas telas, aqui transposto como um quadrado amoroso entre um francês, uma americana, um inglês e uma francesa, ou seja, a guerra também ia para a esbórnia. Mas que fique bem claro que as coisas só começam a dar certo depois que Mason raspa o bigode, hein!

50- Paura in città (Giuseppe Rosati, 1976)
Paura in città (1976)Mason encarna o burocrata em um poliziottesco novamente, mas desta vez ele nem é o canalha. É um bom filme, com todas as qualidades e também os defeitos do gênero. Maurizio Merli segura as pontas desfilando com seu habitual tipão abigodado em busca de vingança, no papel do tira durão que faz justiça com as próprias mãos à la Dirty Harry, sempre contando com os panos quentes da personagem de Mason.

51- Chamada para um Morto (The Deadly Affair, Sidney Lumet, 1966)The Deadly Affair (1966)Espécie de continuação de O Espião que Veio do Frio baseado no mesmo Le Carré, Mason parece começar aqui sua parceria com Lumet que daria ainda mais três crias, mas na verdade este já é o seu terceiro trabalho com o cineasta, os dois primeiros foram longas para tv da série Playhouse em 1960. É um thriller da guerra fria interessante, mas menor na carreira de Lumet e Mason, o bacana é ver o desfile de atores lendários de todos os países possíveis pipocando pela tela: Lynn Redgrave, Corin Redgrave, Maximilian Schell, Harriet Andersson, Simone Signoret, David Warner, Roy Kinnear, Harry Andrews e Max Adrian (quem diria era conhecido como Marlene Dietrich!). Outra coisa que chama a atenção é a trilha sonora composta por Quincy Jones e cantada por Astrud Gilberto, algo peculiar já que mesmo no anos 60 não era usual um suspense lançar mão de uma trilha exclusivamente bossa nova.

52- Mandingo – O Fruto Da Vingança (Mandingo, Richard Fleischer, 1975)Mandingo - JAMES MASONEm Mandingo Mason é muito mau! Mau mesmo! Ele usa crianças como descanso de pés para curar reumatismo! Ele interpreta aqui um daqueles fazendeiros sulistas mui distintos que usavam escravos como capacho, enquanto seu filho e nora (Perry King e Susan George, of course!) achavam utilidades mais interessante para os escravos. É uma bobagem a fama de filme ruim e a targeta de blaxploitation que o filme leva, não é uma coisa e muito menos outra, o único porém é a maldita versão cortada que vi e não gosto que cortem coisas dos filmes, a não ser que seja literalmente em cena, oras.

52- Ratos do Deserto (The Desert Rats, Robert Wise, 1953)Desert ratsMason volta a encarnar Rommel, agora sem o potencial humanista visto em A Raposa do Deserto e e sob o ponto de vista dos aliados como o estrategista que aterrorizou o norte da África no início dos anos 40, mesmo assim é tratado com muita dignidade e respeito pelas mãos de Mr Mason. Vale lembrar também que este é um dos últimos trabalhos de Robert Newton para o cinema, enquanto Richard Burton está mais gatíssimo do que nunca.

53- Torpedo Bay (Beta Som, Charles Frend/Bruno Vailati, 1963)Torpedo Bay (1962) - JAMES MASON & Gabriele FerzettiPrimeiro flerte de Mason com o cinema italiano, no qual se tornaria figurinha fácil nas próximas duas décadas. Nessa espécie de Casablanca dos mares, Mason é um capitão da marinha Britânica que encurralou o comandante de um submarino italiano, Gabriele Ferzetti, no norte da África, enquanto estão no mar são inimigos, mas na terra são amigos tanto quanto suas respectivas tripulações, numa clara atmosfera pacifista. Evidente que um duelo entre Mason e Ferzetti é sempre bem vindo, especialmente porque Ferzetti é um dos melhores atores italianos de sempre e criminosamente subestimado, é um grande gozo vê-lo num filme dividindo dignidade com alguém como Mason.

54- The Secret Sharer (Face to Face, John Brahm, 1952)Face to Face - The Secret Sharer (1952)Média-metragem baseado em Joseph Conrad e pode-se notar o quanto Mason nasceu para encarnar personagens provenientes de tal autor: o típico homem solitário amoral tendo de lidar com situações externas que lhe fogem ao controle.

55- A Hora Do Vampiro (Salem’s Lot, Tobe Hooper, 1979)Salem's Lot - David Soul & James MasonEsse é do tempo em que o Tobe Hooper era bom e o Stephen King ainda era novidade nas telas. Demorou, mas Mr Mason acabou entrando na vibe de vampiros, aliás, taí um homem que entrou em todas as vibes possíveis, desta vez ele pegou o Max Schreck (fugido da Alemanha dos anos 20!) e foi infernizar o Hutch numa cidadela americana, personificando uma espécie de Renfield moderno e cheio de elegância.

56- Assassinato num Dia de Sol (Evil Under the Sun, Guy Hamilton, 1982)Evil Under the Sun - Peter Ustinov, Colin Blakely, Jane Birkin, Nicholas Clay, Sylvia Miles, James Mason, Diana Rigg, Dennis Quilley, Roddy McDowall, Emily HoneOlhe este elenco! Mais um da série “Peter Ustinov é Hercule Poirot e leva um elenco lendário a tira colo”, agora com a questão a ser resolvida: todo mundo odeia Arlene, quem a matou? Mason e Sylvia Miles personificam o casal Gardener num puro ato de comédia, onde ele é o eterno marido sofredor e ela é uma daquelas senhoiras verborrágicas e insuportáveis.

57- Lord Jim (Richard Brooks, 1965)Lord Jim - James MasonI think his majesty has pretensions to heroism a form of mental disease induced by vanity. Mason encarnando um personagem de Joseph Conrad novamente, aparecendo num papel chave apenas ao final, o pirata Gentleman Brown, claro. Quem liga para Peter O’Toole quando há Mason e Eli Wallach roubando todas as cenas? Devo dizer que é mais do que esperava de uma aventura dramática conduzida por Richard Brooks, ele sempre teve um certo jeito para dramas intimistas, mas nada de muito excepcional e, sabendo do que deveria ser em densidade visual e filosófica uma adaptação de Conrad, tinha minhas dúvidas da capacidade do cineasta até ver o filme. Diria que visualmente Lord Jim sobrepujou-se a Aguirre na influência que exerceu sobre Apocalypse Now, alguns shots de Jim lembram ferozmente a fotografia daquela outra adaptação mais famosa de Conrad. Charles Marlow é quem dá o arremate narrativo também do filme, preservando um pouco da atmosfera de várias novelas de Conrad que o tem como narrador.

58- Duffy, o Máximo da Vigarice (Duffy, Robert Parrish, 1968)Duffy - John Alderton, James Fox, James MasonEis que chega a santíssima trindade dos James: Fox, Mason e Coburn. Melhor: acompanhados por John Alderton e Susannah York. De novo Mason chega com seu pequeno papel e domina tudo, o diferencial aqui é que ninguém coloca Mason e Coburn em cena numa comédia de roubo sabendo quem realmente vai se dar bem no final, a questão que permeia todo o fiilme é qual dos dois vai ser o filho da puta maior até que tudo termine? Típico caper dos anos 60, com muita ironia e cinismo, misturando a aristocracia endinheirada inglesa com o clima de contracultura, especialmente pelo personagem título encarnado por James Coburn, um americano meio beatnik.

59- A Ilha nos Trópicos (Island in the Sun, Robert Rossen, 1957) Island in the Sun (1957) - JOHN WILLIAMS & JAMES MASONEscândalo! Casais inter-raciais na Hollywood dos anos 50! Brancos e negros trepando no Caribe! Filme corajoso, Robert Rossen possui uma filmografia bem curta, mas sempre teve culhão para enfiar a agulha embaixo da unha de quem quer que fosse. Mason é o cara já meio debilitado em sua sanidade (incluse com referência a Crime e Castigo) e pira de vez quando descobre sua ascendência negra. Fotografia de Freddie Young e trilha sonora massiva de Harry Belafonte embalam o clima deslumbrante do filme.

60- Captive Audience (The Alfred Hitchcock Hour, Alf Kjellin, 1962)Captive Audience (1962)Num dos melhores episódios do seriado apresentado pelo velho Hitch, Mason encarna uma espécie de versão masculina de Catherine Trammel e volta a contracenar com Angie Dickinson, agora numa dinâmica aparentemente mais amigável do que viveram em Cry Terror. E sim, Mr mason fica muito bem de óculos.

Cem anos de James Mason – Parte 6

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61- Mulher Diabólica (The Wicked Lady, Leslie Arliss, 1945)The Wicked Lady - Margaret Lockwood & James MasonOutro trabalho na fase em que Mason estava no Gainsborough Studios e que fez a sua fama. Num filme onde a protagonista é uma anti-heroína, Mason faz as vezes do anti-herói. Em tempos de Segunda Guerra só a mulherada ia ao cinema, isso quando os arianos continentais não estavam jogando bombinhas pela Inglaterra, então nada mais natural que surgissem mulheres fortes e destemidas nas telas, sempre bem acompanhadas de tipos másculos, tão fortes e destemidos quanto suas heroínas de caráter duvidoso, o que é o caso da nossa protagonista aqui vivida por Margaret Lockwood. O que importa é que Mason faz um tipo mascarado e bandidão.

62- O Pirata da Barba Amarela (Yellowbeard, Mel Damski, 1983) Yellowbeard (1983) Peter Boyle, Madeline Kahn, James MasonOne pet per person, parrots preferred. Mason, Graham Chapman, Peter Boyle, Cheech & Chong, Peter Cook, Marty Feldman, Susannah York, Eric Idle, Madeline Kahn, John Cleese, Spike Milligan e até David Bowie num único filme!?! Digamos que com uma união dessas só poderia sair o máximo da genialidade, mas infelizmente não foi isso que ocorreu, nesse caso o making of do filme é muito mais proveitoso: Group Madness. É a inspiração maior de Piratas do Caribe, Jack Sparrow praticamente nasceu no meio desse povo, mas da turma do Gore Verbinski a gente nunca esperou muita coisa, mas com atores e roteiristas desse nível esperávamos em demasia…

63- Fogo Sobre a Inglaterra (Fire Over England, William K. Howard, 1937)Fire Over England (1937)Later my Lord, may be too late. Não é sempre que vemos Laurence Olivier fantasiado de James Mason numa trama à la Dumas, enquanto Mason é o traidor, Olivier é o queridinho da rainha (é claro), isso explicará muitas coisas quando Olivier ganhar o título de Sir e Mason não. Este filme é um absurdo de lendas inglesas, alguns já rodados e outros começando: Olivier, Mason, Flora Robson, Leslie Banks, Vivien Leigh, Raymond Massey, Robert Newton. É um filme bem interessante do ponto de vista histórico, mas não da história de Elizabeth I e sim da Inglaterra de 1937 com a sombra nazista invadindo a Europa, as analogias são tão gritantes que você chega a esquecer que o filme se passa supostamente no século XVI. A Espanha, a Inquisição… tudo com contornos obviamente Alemães e Nazistas.

64- O Aventureiro do Tahiti (Tiara Tahiti, Ted Kotcheff, 1962)Tiara Tahiti - James Mason & Rosenda MonterosMais uma vez o gentleman destila seu charme nos trópicos, esta safra é a de quando o Kotcheff ainda fazia comédias britânicas antes de surtar e fazer a fama com Rambo. Mason sempre teve óbvio talento para comédia (como para todo o resto) e aqui ele nos brinda com um embate com ninguém menos que Sir John Mills. Pena que no mesmo ano Mason não pôde trabalhar com a filha de Sir John, Hayley, a guria que Kubrick queria como Lolita e a Disney vetou. Sabe como é, não cairia bem a Poliana virar Lolita, coisa que não adiantou muito, já que poucos anos depois Hayley Mills se envolveu na vida real com o cineasta Roy Boulting, uns 35 anos mais velho.

65- Hotel Reserve (Lance Comfort/Victor Hanbury/Mutz Greenbaum, 1944)Frederick Valk and James Mason in a scene from Hotel ReserveMr Mason em tempos de guerra confundido com um espião e tendo que provar sua inocência. Um desses plots que cairiam como uma luva nas mãos de Hitchcock e cujo tema do homem inocente confundido com o criminoso tentando provar sua inocência era um dos imaginários que lhe eram mais caros, a sequência final no topo de um prédio é um desses momentos de inevitável paralelo . Não é um filme muito bem desenvolvido e a presença de três diretores diferentes não ajuda na coesão, mas é deveras interessante ver Mason 15 anos antes de Intriga Internacional fazendo as honras para com um papel semelhante ao que fora de Grant.

66- O Emissário de Mackintosh (The Mackintosh Man, John Huston, 1973)Mackintosh - Dominique Sanda, James MasonDr. Johnson said that Patriotism was the last refuge of a scoundrel. Remake de um episódio do seriado O Santo com Roger Moore, é aquela coisa de sempre: espião britânico, guerra fria, mulher na linha de tiro, blábláblá, o que difere é o roteiro do Walter Hill, direção do Huston (filmando na sua amada Irlanda), o Newman interpretando um agente britânico (!!!), enquanto Mason é o político sorrateiro, o próprio príncipe das trevas, como habitual. Tudo isso faz com o filme nunca deixe de instingar ou ser interessante.

67- Um Grito de Terror (Cry Terror! Andrew L. Stone, 1958)Cry Terror! - James Mason, Terry-Ann Ross, Inger StevensSuspense sobre terrorismo em linhas aéreas (acredito que um dos primeiros, se não o primeiro sobre o tema) altamente tenso e com elenco impecável, onde Mason deixa o papel vilanesco nas mãos de Rod Steiger para encarnar o seu pouco habitual pai de família bonzinho. Steiger é um cara pouco lembrado para os patamares de sua excelência, tudo que vejo com ele me deixa sempre extasiada, puta ator bom. Uma curiosidade desse filme é o affair que Mason teve com a sueca Inger Stevens que interpretava sua esposa, coincidentemente, poucos anos depois ele faria Marriage Go Round sobre infidelidades com uma sueca perfeita.

68- Os Crimes de Oscar Wilde (The Trials of Oscar Wilde, Ken Hughes, 1960)The Trials of Oscar Wilde (1960) POSTERMason encarna Sir Edward Carson, o almofadinha mancomunado com aquele Queensberry para reduzir Oscar Wilde a cinzas, só porque esteve acompanhando Bosie no círculo do cravo verde, num dos mais lamentáveis acontecimentos do meio literário. É algo bem estranho ver Peter Finch como Wilde, não que não o considere um dos melhores atores que já pude assimilar, mas a encarnação definitiva de Wilde é mesmo de Stephen Fry, de corpo e alma. E, ó céus, aquele John Fraser a desfilar seus encantos na pele de Bosie é qualquer coisa impressiva.

69- Desejo Assassino (De la Part des Copains, Terence Young, 1970)Liv Ullmann and James Mason on the set of 'Cold Sweat' directed by Terence YoungNinguém mexe com a família e o cachorro de Charles Bronson e sai impune. Não é um grande filme, mas há grandes momentos de tensão e algo em que se possa ver Bronson, Mason, Luigi Pistilli e Liv Ullman num mesmo enquadramento, merece todo o respeito.

70- Príncipe Valente (Prince Valiant, Henry Hathaway, 1954)Prince Vaillant - Barry Jones, Janet Leigh, Debra Paget, James Mason, Robert WagnerTraitor is a word that winners give to losers. Ah! As antigas adaptações de quadrinhos! Tudo tão artesanal, tudo tão honesto! Aqui Mr Mason encarna o homem, a lenda, o próprio Cavaleiro Negro das lendas arturianas que muito assombrava os transeuntes nas florestas próximas a Camelot, o que nos faz pesar ainda mais o fato de Mason nunca ter feito um Robin Hood, pois daria um excelente Xerife de Nottingham. Nota-se na foto acima que Mason, no auge de sua elegância, está tirando onda do cabelo ridículo de Robert Wagner.

71- Nem o Céu Perdoa (One Way Street, Hugo Fregonese, 1950)One Way Street - James Mason, Marta TorenMuita sarna para se coçar arranjou Mr Mason, eis que neste filme noir o homem rouba o dinheiro e a garota do gangster Dan Dureya e foge para o México. É um noir menor, com ambientação peculiar no México e o segundo filme americano de Mason sem a aura Ophulsiana. Primeiro filme nos EUA do diretor argentino marido da Faith Domergue e uma das primeiras pontas (ui!) do Rock Hudson e do Jack Elam. Nada, mas nada mesmo paga a visão dantesca de ver Mr Mason de sombrero sentado num burrico.

Cem anos de James Mason – Parte 7

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72- Madame Bovary (Vincente Minelli, 1949)Madame Bovary - JAMES MASON = GUSTAVE FLAUBERTMason é o próprio Flaubert defendendo sua criatura nos tribunais franceses de sua época. Tenta-se colocar a perspectiva do autor com o próprio narrando as peripécias de sua personagem mais famosa, é uma forma narrativa interessante mas não há quem suporte a protegida do Selznick, Jennifer Jones, encarnando uma das mais fascinantes mulheres da literatura, especialmente sabendo que depois de Isabelle Huppert não existe mais nada. Para piorar, Van Heflin faz as vezes do cornuto, caindo nas mãos exclusivas de Mason e de Louis Jordan a tarefa de dar alguma dignidade dramática ao filme.

73- Don’t Eat the Pictures: Sesame Street at the Metropolitan Museum of Art (Jon Stone, 1983)Don't Eat the Pictures Sesame Street at the Metropolitan Museum of ArtPQP, não tem nem como classificar isso. Vila Sésamo é o cume do que é cool em programas infantis, mas aqui James é um demônio egípcio de cabeça flutuante no melhor estilo Zardoz fingindo ser o Mágico de Oz! Espécie de Uma Noite no Museu versão Garibaldo, esse excelente especial ensina arte e história para crianças, programas como Vila Sésamo e Castelo Rá-Tim-Bum são uma benção em termos de cultura e qualidade, mas aquela cabeça me traumatizou.

74- Eu e Meu Anjo (Forever, Darling, Alexander Hall, 1956)Forever, Darling (1956)You are my woman now. Mason aqui interpreta um anjo da guarda que se parece com… James Mason! Gosto da Lucille Ball, mas os únicos bons momentos presentes neste filme são os partilhados com Mason, especialmente a cena em que ela vai ao cinema e se imagina na África ao lado dele numa espécie de cena-avó de A Rosa Púrpura do Cairo. Bastante instrutivo saber que Lucy adoraria levar uns tabefes de Mason em alguma floresta inóspita enquanto o clama como seu homem.

- Why do you look like James Mason?
- Do I look like James Mason?
- I should say you do!
- So I look like James Mason, do I?

75- Eu, Ela e os Problemas (The Marriage-Go-Round, Walter Lang, 1961) The Marriage-Go-Round (1961) - JULIE NEWMAR & JAMES MASONJulie Newmar é a versão “modelo sueca” de Zé do Caixão e quer os genes perfeitos de Mr Mason para gerar um filho, mas terá que passar por cima da esposa conservadora do seu macho reprodutor. A peça da Broadway no qual o filme é baseado fez a fama de Lady Newmar, cujo papel repete nesta versão, enquanto Mason ficou com o papel que fora de Charles Boyer e Susan Hayward com o de Claudette Colbert. É claro que ver a perfeição física de Julie Newman e o charme de Mr Mason nunca será demais, mas não é um filme que eu recomende com afinco, sobretudo pelo conteúdo moralista, mesmo sendo suficientemente sexy e engraçado.

76- They Met in the Dark (Carl Lamac, 1943)They Met in the Dark (1943)Ah, Mr Mason em tempos de guerra fazendo filme de espionagem! Ah! E cômico! O que afeta o meu discernimento para com os filmes masonianos deste período é justamente a presença de Mr Mason, ele é sempre tão… tão… resplandecente, ficando fácil o ato de se deixar levar por ele e cair na armadilha de que aqueles filmes são bons, mesmo não o sendo realmente. They Met in the Dark é um desses casos, será que é mesmo um filme respeitável ou fui ludibriada por Mr Mason e todos aqueles suspiros intermináveis que o mesmo provoca?

77- Jesus of Nazareth (Franco Zeffirelli, 1977)Jesus of Nazareth (1977) ANNE BANCROFT, JAMES MASON & ROBERT POWELLJesus é um cara foda, é amigo de Laurence Olivier e James Mason, enquanto o Anthony Burgess escreve para ele. Em compensação, Franco Zefirelli é um desses raríssimos cineastas italianos dos anos 60/70 que me irritam profundamente, mas darei um desconto pelo elenco bombástico e pelo fato de Mason ser o dono da cova e do cálice, no mais essa minissérie da RAI é acadêmica, sem graça e absolutamente entediante comparada a outras versões da vida de Cristo. Palmas absolutas para o grande Robert Powell que já fora um judeu crucificado por Ken Russell em Mahler e que aqui está a cara do Graham Chapman em A Vida de Brian. Por que será?

78- A Queda do Império Romano (The Fall of the Roman Empire, Anthony Mann, 1964)The Fall of the Roman Empire - Mason & GuinnessLet us live in peace! Peace! Certamente não sou muito fã de épicos romanos, salvo raras exceções, mas não posso dar um desconto por este trabalho de Anthony Mann, de quem sou assumidamente fã por seus westerns, o filme não tem ritmo, é excessivamente longo e a tríade Boyd-Loren-Plummer está beirando o insuportável em seus respectivos papéis. O que realmente se salva aqui é a fotografia deslumbrante e o alívio que se sente toda vez que James Mason e Sir Alec Guinness entram em cena para salvar o público de cometer suicídio. Se não fosse por Mason e pelo Obi Wan de capuz marrom, este filme nem sequer seria apto a ser lembrado. Brinde: Rome in Madrid.

James knew an awful lot about how to steal movies through the back door and give a performance that only really got noticed when the whole film was put together; so he would emerge with immense distinction having apparently been doing very little on the set. – Christopher Plummer

79- A Viagem dos Condenados (Voyage of the Damned, Stuart Rosenberg, 1976)Voyage of the Damned James MasonVeja que coisa peculiar, Mr Mason presente num filme sobre judeus e nazistas sem interpretar um alemão! Mais peculiar ainda é ser um cubano tanto quanto Orson Welles! Curiosamente este filme é mais interessante do que eu esparava, pois o cinema já está pra lá de saturado com dramas a respeito do sofrimento judaico durante a Segunda Guerra e por mais que existam alguns excelentes filmes sobre o tema, o holocausto foi por demais comercializado e esse excesso de manipulação e oportunismo para com as emoções do público dá no meu saquinho. De novo o elenco mostra a respeitabilidade necessária, além das duas maiores vozes “cubanas” do cinema, ainda há presença de José Ferrer, Faye Dunaway, Max von Sydow, Lee Grant, Malcolm McDowell, Julie Harris, Helmut Griem, Maria Schell, Ben Gazzara, Katharine Ross, Fernando Rey, Jonathan Pryce (em sua estréia nas telonas), entre tantos outros.

80- Os Meninos do Brasil (The Boys From Brazil, Franklin J. Schaffner, 1978)The Boys from Brazil - James Mason & Gregory PeckEste é um filme que pouco me apetece, claro que a teoria da conspiração é deveras interessante, inclusive já alardeando as questões éticas da clonagem, mas Schaffner foi pouco feliz na construção, especialmente se comparado com alguns de seus filmes anteriores e a sobreatuação de Gregory Peck como Mengele é certamente irritante, digamos que Peck nunca foi tão bom em encarnar tipos maníacos e vilanescos quanto o fora em encarnar os bonzinhos. A dignidade do filme fica mais uma vez por conta de Mason (alemão, again!), Laurence Olivier, Uta Hagen e Lili Palmer. O bom mesmo é saber que no Brasil há contrabando até de clones de Hitler.

81- Mayerling (Terence Young, 1968)Mayerling - Omar Sharif, James Mason, Ava GardnerMason e Ava Gardner voltam a formar um casal, ele como Franz Joseph I e ela como Sissi. Filme vagamente interessante sobre o “Incidente Mayerling”, um dos inúmeros eventos na conspiração cujo objetivo era desintegrar o Império Austro-Húngaro, onde o herdeiro do trono vivido por Omar Sharif é assasinado juntamente com sua amante interpretada por Catherine Deneuve, mas que oficialmente fora tido como duplo-suicídio, sabe como é, aquela coisa meio PC farias. É um remake de um filme francês dirigido por Anatole Litvak, a versão de 68 é rica e suntuosa, mas com uma virtual e irritante tentativa de pegar carona com Doutor Jivago, incluindo até o mesmo ator como protagonista. Brinde: Vienna – The Years Remembered (1968).

82- Ivanhoe (Douglas Camfield, 1982)IVANHOE (1982)For the love of God would someone take me away from this madman. Versão para a tv do livro de Sir Walter Scott, mais interessante do que aquela insossa versão com Robert Taylor nos anos 50. Sam Neill está excepcional aqui (e lindo!), ele que fora descoberto e apadrinhado por Mason, o que a gente agradece por toda eternidade.

Cem anos de James Mason – Parte 8

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83- The Bells Go Down (Basil Dearden, 1943)The Bells Go DownMason interpretou todo tipo de pessoa e caráter, nesta produção da Ealing Studios a vez chegou para uma heróico bombeiro. Durante a segunda guerra com os bombardeios constantemente arrasando a Inglaterra, o Corpo de Bombeiros era algo mais importante do que o próprio exército e este filme teve a intenção de prestar-lhe uma pequena homenagem. Basil Dearden sempre fora um cineasta interessante dentro da golden age britânica, mas aparentemente esse tipo de filme sobre heroísmos de guerra não lhe caía muito bem, ou simplesmente não tenho muita tolerância sobre o tema, embora este seja um dos primeiros trabalhos de Dearden na direção, portanto é passível de excusas. Mason é o sério capitão do esquadrão, enquanto o alívio cômico fica por conta do astro popular Tommy Trinder, cujo jeito de falar me lembra o cockney Michael Caine e a forma de interpretar faz-me recordar do Hugh Laurie dos anos 80.

84- Subterrâneo de Assis (The Assisi Underground, Alexander Ramati, 1985) Assisi undergroundThere are 45,000 Italian Jews. They are all our Jews. We are responsible for them. Desta vez Mr Mason não encarna um alemão e sim um bispo italiano, mesmo assim ele não deixa de ter Mr Schell novamente ao seu lado como soldado alemão que, pasmem, ajuda os judeus italianos. A versão que assisti foi a de duas horas, mas a versão original possuía três, não sei qual delas é melhor, mas é um bom filme para a TV, sem o excesso emocional irritante que podemos ver em filmes como A Lista de Schindler, é um fato histórico interessante sobre um dos segmentos católicos que não fecharam os olhos para com o holocausto judeu, se tratavam de franciscanos e todos sabemos que a ordem católica realmente digna de respeito é a dos seguidores de São Francisco de Assis.

85- O Retorno do Pimpinela Escarlate (Return of the Scarlet Pimpernel, Hanns Schwarz, 1937)James Mason as Tallien and Margaretta Scott as Theresa in The Return of the Scarlet PimpernelMr Mason com 28 aninhos vivendo Jean Tallien, o amiguinho revolucionário que acabou com a farra do Robespierre. Pimpinela Escarlate é um grande personagem de aventura e sinto falta de mais filmes baseados nele, embora até Powell/Pressburger tenham se envolvido com herói, faz falta no cinema dos anos 60 e 70. O problema maior do Pimpinela Escarlate é que tal imagem está irremediavelmente associada ao Patolino por toda a eternidade, é o peso das imagens ligadas à infância.

86- Spring and Port Wine (Peter Hammond, 1970)Spring and Port Wine (1970)Ó céus, o homem que outrora espancava mulheres com bengalas e chicotes, agora jogando bocha! Este é o típico filme em que os ingleses costumam muito elogiar, não por outros motivos que não o de retratar de época e costumes familiares do norte têxtil da Inglaterra nos anos 60, o que torna o filme bem mais interessante para quem alí viveu neste período do que para nós, reles habitantes da senzala sul-americana. É esse bairrismo que impede um maior desenvolvimento de temas universais e atemporais, soa mais como um documento histórico do que uma peça de relações humanas com as quais os habitantes do resto do mundo poderiam se identificar. É estranho ver Mason como trabalhador braçal, um pai de família com mão de ferro que joga futebol e bocha, não que deixe de dar conta do recado, mas é um tanto unusual, embora a presença de Susan George mais espevitada do que nunca balanceie as coisas. Se não me engano, este é o único filme para cinema de Peter Hammond, que por décadas foi diretor na televisão inglesa, mas especificamente da BBC.

87- Passageiros do Inferno (The Passage, J. Lee Thompson, 1979)The Passage - Patricia Neal & James MasonVejam só, Mr Mason nos Pirineus fazendo filme de ação aos 70 anos! Desta vez Mason é o cientista perseguido pelos nazis e ajudado por Christopher Lee e Anthony Quinn, enquanto no seu encalço segue um Malcolm McDowell ultra perverso e caricato. Nada de novo, nada de sensacional, mas não é todo dia que vemos McDowell colocando fogo no Lee ou uma cueca estampada com suástica.

88- A Quadrilha da Fronteira (Bad Man’s River, Eugenio Martín, 1971)James Mason, Gina Lollobrigida, Lee Van Cleef - Bad Man's RiverFaroeste modernoso com direito até a rock and roll na trilha. Poderia se esperar mais de um spaghetti onde Mason e Lee Van Cleef dividem Gina Lollobrigida da forma mais amigável possível, embora não deixe de ter seus momentos de ampla diversão.

89- A Nau dos Condenados (Botany Bay, John Farrow, 1953)Botany Bay (1953) - ALAN LADD, PATRICIA MEDINA & JAMES MASONRá! A vilania de Mason não tem fim! Mason é o capitão do navio responsável por levar a escória inglesa para a Austrália, na época em que o país ainda era a grande penitenciária do Império, é um sádico que não suja as mãos: manda fazer. É um tipo de papel que fizera a sua fama na Inglaterra e que havia abandonado em Hollywood, ao menos até o ano anterior com o Prisioneiro de Zenda. O filme dá direito a sessão de chicotadas nas costas perfeitas de Alan Ladd, aliás, sempre me esqueço disso, mas Ladd era um puta homem bonito.

90- A.D. – Anno Domini (Stuart Cooper, 1985)A.D. - Anno DominiTá bom, eu confesso, não assisti essa desgraça inteira. Essa porra é uma minissérie de 11 horas, um épico que conta a história romana do momento da morte de Jesus ao império de Nero e só assisti até o momento em que Mason morre, o que para a minha salvação ocorreu nas primeiras horas (thank god!). É uma espécie de continuação da minissérie do Zeffirelli sobre Jesus com o mesmo Anthony Burguess como roteirista, daquele elenco retornaram Mason, Fernando Rey e Ian McShane, outrora José de Arimatéia, Gaspar e Judas, agora como Imperador Tibério, Sêneca e Sejano. É lógico que Tibério era pedófilo, é lógico que o único ser em que confiava era sua cobra de estimação, é lógico que ele espanca pessoas até com peixe, é lógico que Mason e McShane formavam um dupla deveras perigosa. Também é o último filme em que Mason e Ava Gardner constam juntos no elenco, embora infelizmente não dividam cena.

91- The Water Babies (Lionel Jeffries, 1978)The Water Babies (1978)Neste estranho exemplo de filme infantil mezzo animação, mezzo live-action, Mr Mason encarna uma personagem com ares dickensianos. Não sei, deve ser um filme bacana para as crianças, mas filmes infantis bons têm que passar pelo crivo do passar dos anos e permanecer bom, como só vi Water Babies na fase adulta e não me apeteceu, então não é algo que eu recomende com afinco. A mesma história rendeu aquele curta animado da Disney que é bem melhor do que esse equivocado atentado do ator Lionel Jeffries.

92- Genghis Khan (Henry Levin, 1965)Genghis Khan (1965)É lógico que Mason é um maldito chinês. É lógico. Recentemente lembramos com aquele inspirado Downey Jr o rídiculo daqueles tempos em que os atores orientais não podiam se estabelecer no cinema ocidental, o que se fazia então? Puxava-se, esticava-se e pintava-se. É deprimente ver Mason aqui, por melhor ator que seja, a impressão estética é dolorosamente fake. O filme não funciona como épico visual, nem como interesse histórico, é um desperdíco de gente boa, tempo e dinheiro. Um dos poucos filmes em que podemos ver Mason com alguma maquiagem, porque simplesmente ele não estaria aqui se não maquiado, nem se aquela Pamela não tivesse tirado até as calças dele no processo de divórcio.

93- A Herdeira (Bloodline, Terence Young, 1979)Bloodline - Audrey Hepburn & James MasonUma daquelas tramas absurdas do Sidney Sheldon envolvendo espionagem industrial, filmes snuff, computadores de última geração, serial killers, perversão sexual, etc etc, com elenco estelar e internacional, trilha sonora do Morricone num filme horripilante de horrível. Horrível, horrível. E quem em sã consciência colocaria Mr Mason como vilão num tipo de filme cuja pretensão é deixar em suspenso quem de fato tem a culpa? Mason sempre é o culpado, oras. Não é normal eu pedir para as pessoas correrem de um filme, especialmente por ser a favor de uma segunda chance, mas faça um favor a si mesmo e à aura dos grandes atores que alí estão: FUJA!

Nota 1: Muito me intrigou o fato de Mason nunca ter trabalhado com David Lean, um tipo de cineasta que facilmente trabalharia com ele, até que há algum tempo soube o motivo dessa parceria não realizada: Noel Coward e Nosso Barco, Nossa Alma (In Which We Serve, 1942). Lean queria a escalação de Mason para In Which We Serve, coisa que Coward vetou por conta da notória natureza pacifista e anti-bélica de Mason, clamando que “um homem que não pode vestir um uniforme na vida real, não o poderia fazer no cinema”, sou assumidamente fã da arte do tio Noel, mas o “incidente James Mason” lhe proporcionou a maior bobagem que já disse, como uma das maiores bobagens que já ouvi qualquer ser humano dizer, pois até onde sei Mr Mason era um ator e atores tendem a interpretar e não ser um espelho de suas personagens. Que vergonha, tio Coward!

Nota 2: Nada me doeu mais do que ter que chamar Mason de Mr o tempo todo, quando obviamente deveria chamá-lo de Sir, até aquela porra de Sean Connery que passou os últimos 50 anos pregando publicamente a independencia da Escócia ganhou o título de Cavaleiro e Mr Mason não. Se esta não é a maior vergonha dos almofadinhas palaciais, não tenho a mínima idéia de qual seja (tá bom, tem a Diana também). Não à toa o homem viveu os últimos 20 anos de sua vida na Suíça, o mais neutro dos países, assim como ele mesmo o fora.

Nota 3: Um ator fascinante, um homem fascinante. FASCINANTE.

JAMES MASON - MoustacheI recall telling him that one day the camera was going to love him and make him a very great star. James just [looked] at me in disbelief. He was incredibly good-looking, in a dark way. … He had that curious quality of a man with an eternal secret. … That was what was so arresting. … That and, I guess, the voice. – Geraldine Fitzgerald sobre quando o conhecera em 1937

O Coração Delator (The Tell-Tale Heart, 1953)

Posted in ANIMAÇÃO, ANOS 50, CURTAS, HORROR, LEGENDADO, VIDEOS by Georgina Spiggott on May 14, 2009

Ninguém estremece ao som da voz de Mr Mason.

James Mason: The Man Between by Peter William Evans (British Stars and Stardom: from Alma Taylor to Sean Connery)

Posted in LIVROS by Georgina Spiggott on May 13, 2009

Nota 1: Não é necessário mencionar que é para clicar nos textos com o intuito de melhor visualizá-los, não?

Nota 2: James Mason não daria apenas uma boa tese sobre criminalidade, como pode-se notar por este texto, o homem também daria uma excelente tese sobre sadomasoquismo, com um capítulo à parte ligado ao masoquismo do público feminino de cinema.

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The Bells Go Down (1943) – DVDrip

Posted in ANOS 40, DOWNLOAD, DRAMA, GUERRA by Georgina Spiggott on April 24, 2009

O Homem morreu: Jack Cardiff (1914 – 2009)

Posted in ANOS 40, ANOS 50, ANOS 60, ANOS 70, ANOS 80, FOTOGRAFIA, SCREENSHOT by Georgina Spiggott on April 22, 2009
Os Amores de Pandora (Pandora and the Flying Dutchman, Albert Lewin, 1951)

Os Amores de Pandora (Pandora and the Flying Dutchman, Albert Lewin, 1951)

Os Vikings (The Vikings, Richard Fleischer, 1958)

Os Vikings (The Vikings, Richard Fleischer, 1958)

Neste Mundo e no Outro (A Matter of Life and Death, Michael Powell/Emeric Pressburger, 1946)

Neste Mundo e no Outro (A Matter of Life and Death, Michael Powell/Emeric Pressburger, 1946)

Guerra e Paz (War and Peace, King Vidor, 1956)

Guerra e Paz (War and Peace, King Vidor, 1956)

Sapatinhos Vermelhos (The Red Shoes, Michael Powell/Emeric Pressburger, 1948)

Fanny (Joshua Logan, 1961)

Fanny (Joshua Logan, 1961)

Narciso Negro (Black Narcissus, Michael Powell/Emeric Pressburger, 1947)

Os Cães de Guerra (The Dogs of War, John Irvin, 1980)

Os Cães de Guerra (The Dogs of War, John Irvin, 1980)

Sob o Signo de Capricórnio (Under Capricorn, Alfred Hitchcock, 1949)

Sob o Signo de Capricórnio (Under Capricorn, Alfred Hitchcock, 1949)

Filhos e Amantes (Sons and Lovers, Jack Cardiff, 1960)

Filhos e Amantes (Sons and Lovers, Jack Cardiff, 1960)

Uma Aventura na África (The African Queen, John Huston, 1951)

Uma Aventura na África (The African Queen, John Huston, 1951)

Morte no Nilo (Death on the Nile, John Guillermin, 1978)

Morte no Nilo (Death on the Nile, John Guillermin, 1978)

A Rosa Negra (The Black Rose, Henry Hathaway, 1950)

A Rosa Negra (The Black Rose, Henry Hathaway, 1950)

Minha Doce Geisha (My Geisha, Jack Cardiff, 1962)

Minha Doce Geisha (My Geisha, Jack Cardiff, 1962)

Estranhas Mutações (The Mutations, Jack Cardiff, 1974)

Estranhas Mutações (The Mutations, Jack Cardiff, 1974)

The Upturned Glass (1947): Torrent

Posted in ANOS 40, DOWNLOAD, NOIR by Georgina Spiggott on January 22, 2009

25 atores

Posted in BEEFCAKE, FOTOGRAFIA, MUSOS by Georgina Spiggott on December 14, 2008
Michael Caine (Carter - O Vingador/Get Carter, Mike Hodges, 1971)

Michael Caine (Carter - O Vingador/Get Carter, Mike Hodges, 1971)

Oliver Reed (Os Demônios/The Devils, Ken Russell, 1971)

Oliver Reed (Os Demônios/The Devils, Ken Russell, 1971)

Jean-Paul Belmondo (O Demônio das 11 Horas/Pierrot le fou, Jean-Luc Godard, 1965)

Jean-Paul Belmondo (O Demônio das 11 Horas/Pierrot le fou, Jean-Luc Godard, 1965)

James Mason (Intriga Internacional/North by Northwest, Alfred Hitchcock, 1959)

James Mason (Delírio de Loucura/Bigger Than Life, Nicholas Ray, 1956)

Jece Valadão (Boca de Ouro, Nelson Pereira dos Santos, 1963)

Jece Valadão (Boca de Ouro, Nelson Pereira dos Santos, 1963)

Javier Bardem (Onde os Fracos Não Têm Vez, Coen Brothers, 2007)

Javier Bardem (Onde os Fracos Não Têm Vez/No Country for Old Men, Coen Brothers, 2007)

James Cagney (Belezas em Revista/Footlight Parade, Lloyd Bacon, 1933)

James Cagney (Belezas em Revista/Footlight Parade, Lloyd Bacon, 1933)

Robert Downey Jr (Zodiac, David Fincher, 2007)

Robert Downey Jr (Zodiac, David Fincher, 2007)

Peter Lorre (M - O Vampiro de Dusseldorf, Fritz Lang, 1931)

Peter Lorre (M - O Vampiro de Dusseldorf, Fritz Lang, 1931)

Harpo Marx (O Diabo a Quatro/Duck Soup, Leo McCarey, 1933)

Harpo Marx (O Diabo a Quatro/Duck Soup, Leo McCarey, 1933)

Emil Jannings (Fausto/Eine deutsche Volkssage, FW Murnau, 1926)

Emil Jannings (Fausto/Eine deutsche Volkssage, FW Murnau, 1926)

Conrad Veidt ( O Gabinete do Dr Caligari/Das Cabinet des Dr. Caligari, Robert Wiene, 1920)

Conrad Veidt ( O Gabinete do Dr Caligari/Das Cabinet des Dr. Caligari, Robert Wiene, 1920)

Lon Chaney (A Trindade Maldita/The Unholy Three, Tod Browning, 1925)

Lon Chaney (A Trindade Maldita/The Unholy Three, Tod Browning, 1925)

Jean Gabin (A Grande Ilusão/La Grande illusion, Jean Renoir, 1937)

Jean Gabin (A Grande Ilusão/La Grande illusion, Jean Renoir, 1937)

Cary Grant (Intriga Internacional/North by Northwest, Alfred Hitchcok, 1959)

Cary Grant (Intriga Internacional/North by Northwest, Alfred Hitchcock, 1959)

John Barrymore (Suprema Conquista/Twentieth Century, Howard Hawks, 1934)

John Barrymore (Suprema Conquista/Twentieth Century, Howard Hawks, 1934)

Clint Eastwood (Três Homens em Conflito/Il Buono, il brutto, il cattivo, Sergio Leone, 1966)

Clint Eastwood (Três Homens em Conflito/Il Buono, il brutto, il cattivo, Sergio Leone, 1966)

Klaus Kinski (Aguirre - A Cólera dos Deuses/Der Zorn Gottes, Werner Herzog, 1972)

Klaus Kinski (Aguirre - A Cólera dos Deuses/Der Zorn Gottes, Werner Herzog, 1972)

Warren Oates (Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia/Bring Me the Head of Alfredo Garcia, Sam Peckinpah, 1974)

Warren Oates (Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia/Bring Me the Head of Alfredo Garcia, Sam Peckinpah, 1974)

Steve McQueen (Crown - O Magnifico/The Thomas Crown Affair, Norman Jewison, 1968)

Steve McQueen (Crown - O Magnífico/The Thomas Crown Affair, Norman Jewison, 1968)

Karlheinz Böhm (A Tortura do Medo/Peeping Tom, Michael Powell, 1960)

Karlheinz Böhm (A Tortura do Medo/Peeping Tom, Michael Powell, 1960)

Jeff Bridges (O Grande Lebowski/The Big Lebowski, Irmãos Coen, 1998)

Jeff Bridges (O Grande Lebowski/The Big Lebowski, Irmãos Coen, 1998)

Paul Muni (Scarface, Howard Hawks, 1932)

Paul Muni (Scarface, Howard Hawks, 1932)

Michel Piccoli (O Discreto Charme da Burguesia/Le charme discret de la bourgeoisie, Luis Buñuel, 1972)

Michel Piccoli (O Discreto Charme da Burguesia/Le charme discret de la bourgeoisie, Luis Buñuel, 1972)

Alan Rickman (Harry Potter and the Prisoner of Azkaban, 2004)

Alan Rickman (Harry Potter and the Prisoner of Azkaban, Alfonso Cuarón, 2004)

Marcello Mastroianni (8 1/2, Federico Fellini, 1963)

Marcello Mastroianni (8 1/2, Federico Fellini, 1963)

Lee Marvin (À Queima-roupa/Point Blank, John Boorman, 1967)

Lee Marvin (À Queima-roupa/Point Blank, John Boorman, 1967)

George Clooney (Irresistivel Paixão/Out of Sight, Steven Soderbergh, 1998)

George Clooney (Irresistível Paixão/Out of Sight, Steven Soderbergh, 1998)

Mesmo esqueminha de entre parênteses constar o meu filme favorito de cada. Por um motivo ou outro, esses caras me fazem tirar a bunda da cadeira para ir atrás de filmes em que estejam presentes. Mas aí alguém me pergunta, cadê Hugh Laurie, Peter Cook e Sellers da minha lista? Oras, haverá um Parte 2 de atores e atrizes, pois já é tempo de parar de fazer o coração sangrar.

Nota: Por falar em Hugh, aquele outro, o Jackman, será o apresentador do Oscar no ano que vem, diz aí se não será a melhor cerimônia de sempre? Ano passado Laurie esteve cotado para apresentar, mas não há prejuízo com Jackman, principalmente pelo histórico de apresentações do Tony em que esbanjava suas qualificações como showman.