Exils: de Hitler à Holywood / Exiles in Hollywood (2006)
Ótimo documentário sobre o pessoal de cinema que teve de sair corrido da Europa em tempos de Hitler, seja por serem judeus, homossexuais ou simplesmente por não tolerarem viverem no mesmo continente que o tipinho de bigode caricatural. Não é segredo para ninguém que esses fugitivos foram os responsáveis por boa parte do que há de melhor no cinema americano dos anos 30 e 40, o gênero noir, por exemplo, foi moldado predominantemente por artistas exilados. Hitler praticamente destruiu o cinema alemão, tudo que havia de melhor na UFA era de ascendência judaica ou meramente de antipatizantes do nazismo, de que adianta se para cada Leni Riefenstahl ele impediu centenas de trabalharem e sabe-se deus quantos de nascerem.
Claro que muitos alemães e austro-hungaros já estavam em Hollywood antes da ascensão de Hitler, como Erich Von Stroheim e Ernst Lubitsch, mas nem por isso deixaram de lado seu passado na Alemanha, como é o caso do judeu Lubitsch que talvez tenha construído a maior das sátiras sócio-políticas com o seu Ser ou Não Ser exatamente sobre a atmosfera insana em que se transformara parte da Europa, embora nenhum filme do período tenha abrigado mais artistas anti-nazismo do que Casablanca de Michael Curtiz, este é outro que já curtia Hollywood há algum tempo.
Tanto Lubitsch quanto Marlene Dietrich foram abertamente contrários ao regime hitleriano desde o início e ativamente participantes na ajuda de refugiados migrados para os EUA, incluindo a fundação de uma organização secreta de ajuda onde conseguiam dinheiro para que os judeus fugissem através da Suiça, Lubitsch lotava seus filmes com técnicos e artistas expatriados de guerra, já que não era fácil para todo mundo conseguir emprego durante essa diáspora hollywoodiana. A própria Dietrich estava na lista negra pessoal de Hitler, não que fosse judia, mas porque ela era simplesmente foda mesmo.

Marlene Dietrich e Ernst Lubitsch durante as filmagens de Angel (1937) quando há muito já se preocupavam com a ascensão do nazismo
O que muito me espanta é a ausência de Max Ophuls neste documentário que, como muitos de seus compatriotas, fez a habitual escala cinematográfica na França antes de ir para os EUA quando Paris já não mais apresentava a segurança de outrora. Outro que não foi citado foi Otto Preminger, um protegido de Lubitsch desde o início.
Mas claro, nem tudo são rosas na terra do sol, os americanos não gostavam muito dessa invasão germânica e todos os empregos que eles supostamente tirariam e embora ninguém estivesse nem aí para o fato de ser judeu, católico ou protestante, o fato de ser alemão não era visto com bons olhos, mesmo antes de Pearl Harbor e a entrada dos EUA na guerra. Enfim, hoje nada mudou muito em qualquer lugar do mundo.
Nota: Sempre me causa alegria ver como Billy Wilder se refere a Lubitsch, é de um sentimento de adoração tão imenso que parece não haver nada mais grande e elevado na face da terra do que o tio Ernst. E é sempre assim, Wilder nunca perdeu a oportunidade em todas as suas entrevistas de dizer que Lubitsch era o maior de todos. Wilder, pode ser mais famoso e respeitado pelo público de hoje, mas pessoalmente ainda prefiro o cinema de Lubitsch, mesmo porque sem ele Wilder não seria Wilder.
Ah… Marlene!

Sex is much better with a woman, but then one can’t live with a woman! – Marlene Dietrich
Nota: Nada como a sabedoria infinita de Fräulein Dietrich…
Paixão Fatal (The Flame of New Orleans, 1941)
Marlene Dietrich, a mulher mais feia e desinteressante do planeta
Ah René Clair, como és adorável! Todos temos fases onde um ou outro cineasta nos cai melhor e vira objeto de verdadeira obsessão, isso pode ser apenas uma fase ou até amor para toda vida. Há alguns meses minha paixão recaiu dividida entre René Clair e Ernst Lubitsch e não mais cessou.
O Clair da vez foi Paixão Fatal que se encontra na sua nem-tão-brilhante fase americana, pois René Clair, ao contrário de muitos dos seus colegos europeus fugidios da guerra, não encontrou o esplendor que já encontrara em solo francês para o seu inegável talento de rara classe. Mas um René Clair inferior é ainda um filme invulgar, menos ainda se conta com a presença de Marlene Dietrich, especialmente se esta nos brinda com um de seus papéis mais “sapecas” longe daquela iluminação e angulação sternberguiana que a deixava quase inumana.
Aqui Dietrich vive uma “pistoleira” no sentido poético da palavra, fingindo ser uma dama que finge ser uma pistoleira, mais ou menos como Barbara Stanwyck em Lady Eve, inclusive algumas coisas foram feitas masgistralmente para burlar o Código Hayes, não da maneira insana que Preston Sturges fizera, mas com grande resultado, deixando-nos boquiabertos por certas alusões mais picantes terem passado pela censura.
Uma comédia romântica singular para Dietrich e um momento razoavelmente feliz na filmografia de Clair.
Marlene Dietrich

Gosto de como Dietrich se move em cena, ela adota uma postura máscula sem deixar de ser inegavelmente fêmea. O cinema dramático dos anos 30 transformava suas musas em seres inalcançáveis, a câmera era usada para tranformá-las em seres além da carne, quase etéreos. Stenberg foi o que melhor tirou proveito desse ar de criatura intocável que Dietrich jamais deixou de passar, dá uma sensção de sacrilégio ver alguém ser seduzido por ela, no melhor exemplo do pensar de como esse reles mortal pode cogitar tocá-la. Nenhuma outra estrela jamais se apresentou tão intocável, nem mesmo Greta Garbo.
O Diabo Feito Mulher (Rancho Notorius, 1952)
Fritz Lang é aquele tipo que conseguiu fazer pelo menos uma obra-prima em cada gênero, no western essa missão foi cumprida com O Diabo Feito Mulher (embora ele tenha feito outros faroestes), filme antecessor a Johnny Guitar de Nicholas Ray que deu definitivamente um papel de impacto às mulheres num gênero avidamente misógino com as estupendas personagens e interpretações de Joan Crawford e Mercedes McCambridge (curiosamente o filme levou o nome da personagem de Sterling Hayden, mas ele desaparece entre essas duas), mas Fritz Lang e a mega-bombástica Marlene Dietrich contribuíram de maneira bastante incisiva nesse caminho tortuoso.
Diria eu que Marlene Dietrich foi mais relevante com sua carreira cinematográfica para a expansão da posição social da mulher do que qualquer panfletário movimento feminista do século XX e não estou falando especificamente da mão de ferro que sua personagem em Rancho Notorious apresenta num ambiente e num gênero predominantemente masculino, estou falando de toda a carreira dela desde o início na Alemanha até o declínio nos EUA (incluindo o mísero fato dela ter sido a primeira mulher a usar calças publicamente nos anos 20), não há dúvidas que Dietrich foi uma das mulheres mais sensuais do cinema, mas sempre esteve bem longe de uma Betty Boop, Monroe ou Bardot, o lance dela não era fazer biquinho e se fingir de boba (não que eu não goste de biquinho e não o faça quando me convém), ela fazia e acontecia sem precisar ao menos sorrir (não que ela não o fizesse, é claro).
No elenco ainda estão Mel Ferrer (que hoje em dia é mais conhecido o ex-marido da Audrey Heburn que foi trocado pelo William Holden, mas era um grande ator) e Arthur Kennedy que deveriam dividir as atenções com Marlene em seus papéis, mas não conseguem, a tela é dela, seja pela sua presença carismática e atuação forte, seja pela sua infinita beleza no alto dos seus 50 anos na época das filmagens. O superman George Reeves também está no elenco e, para deleite dos fãs do gênero, ainda há a presença de Jack Elam.
A história tem obviamente o dedo de uma mulher, Silvia Richards, que já tinha colocado o dedo na história da transtornada personagem de Joan Crawford em Possessed do Kurt Bernhardt (que trabalhara com Dietrich na Alemanha) que já comentei por aqui e que já trabalhara com Lang no roteiro de O Segredo da Porta Cerrada de 1948. Fritz geralmente é citado como grande diretor do cinema mudo, mas foi um dos grandes especialistas do cinema noir americano. E com Rancho Notorious Lang fez de novo, só que com um western. E fez bem, oras.
“Gosto de homens que não acreditam no que uma mulher diz”
- Marlene Dietrich como Altar Keane em Rancho Notorious
John Bryson (1923 – 2005)
- Henry Fonda & Katharine Hepburn (Num Lago Dourado/On the Golden Pond, Mark Ridell, 1981)
- Robert de Niro em Touro Indomável (Raging Bull, Martin Scorsese, 1980)
- Yves Montand & Marilyn Monroe em Adorável Pecadora (Let’s Make Love, George Cukor, 1960)
- Salvador Dalí
- Frank Sinatra & Mia Farrow
- Marlene Dietrich em A Volta ao Mundo em 80 Dias (Around The World in 80 Days, 1956)
- Rudolf Nuryev
- Robert Mitchum
- Ernest Hemingway
- Spencer Tracy & Katharine Hepburn





















































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