Filmes bacanas de cada ano que o cinema viveu: 1967
1- O Diabo é Meu Sócio (Bedazzled, Stanley Donen)
Taí finalmente algo importante, o filme do senhor meu marido, George Spiggott, também conhecido como diabo, satanás, coisa ruim, capeta, etc etc etc ou nas palavras do próprio: I’m the Horned One. The Devil. Como deve ser óbvio, sou meio idólatra para com Peter Cook (gênio! gênio!). George Spiggott era o nome preferido de Peter n’ Duds tanto no cinema quanto nos sketches para tv, mas nem fui tão ladra assim, pois Cook num de seus filmes atende por Mr Adrian, ou seja, ele roubou o meu antes que eu roubasse o dele. Bedazzled soa como um apanhado geral de sketches, mas é Stanley Donen na comédia e não há nada mais louvável que unir Donen, Cook, Dudley Moore e Raquel Welch de lingerie vermelha em plenos anos 60.
2- Quando os Brutos Se Defrontam (Faccia a Faccia, Sergio Sollima)
Mais uma vez o cinema político vai ao velho oeste e come spaghetti, ainda dá direito a um dos mais lendários quebra-paus reais entre atores de que tem notícia: fugido de Fidel, o expatriado Tomas Millian versus o notório comunista Gian Maria Volontè. As diferenças não ficam apenas fora da tela, mas também no que vemos nela: um emaranhado de idas e voltas morais, sociais, filosóficas e psicológicas que passeiam nos atos e pensamentos dos dois protagonistas, tão opostos e tão iguais. Já ouvi alguém dando a definição certeira de que este é o Dostoiévski dos spaghettis e eu não poderia concordar mais.
3- Os Doze Condenados (The Dirty Dozen, Robert Aldrich)
Ah, toda essa testosterona! Um dos mais brilhantes cineastas autorais americanos unindo um dos mais covardes elencos de sempre.
4- Se Sei Vivo Spara (Giulio Questi)
Único spaghetti em que vi acontecer um gang bang com cowboys gays, tá bom, isso não é exatamente mostrado em cena, mas é bem claro. Um desses exemplares iniciais de cinema mostrando lugares no fim do mundo cheios de caipiras psicopatas, é bizarro e violento, é praticamente o Sodoma e Gomorra dos westerns. Entra fácil no meu top 10 de melhores spaghettis já feitos (a versão sem cortes), sem mencionar que Tomas Milian nunca esteve tão gato. E sim, me recuso a escrever seu título nacional ou em inglês, pois nada tem a ver com a história ou com o título original.
5- A Morte Anda a Cavalo (Da Uomo a Uomo, Giulio Petroni)
Dos melhores spaghettis preparados, Lee Van Cleef está num dos seus papéis mais excelentes e Morricone compôs um de suas melhores trilhas. Depois do Clint só queriam mesmo loirinhos nos faroestes, o da vez era o até então pouco conhecido John Phillip Law pré Barbarella-Diabolik. Esse é um ano difícil para citar os spaghettis, deveria haver um top do gênero separado só para este ano.
6- O Fantástico Dr. Dolittle (Doctor Dolittle, Richard Fleischer)
Um dos mais memoráveis filmes infantis, baseado em um não menos clássico da literatura infantil. É meio vergonhoso saber que este filme não é tão cultuado quanto Mary Poppins, mais vergonhoso ainda é associar tal nome com aquela franquia totalmente equivocada de Eddie Murphy, que não tem absolutamente nada a ver com o Dolittle primordial. Chega a ser assustador como não envelheceu e o fato de fazer mais sentido hoje do que nos idos de 1967, que o diga o PETA.
7- O Tiro Certo (The Shooting, Monte Hellman)
Primeira obra prima de Monte Hellman e primeiro ooow da carreira de Warren Oates. Nessa época ninguém sabia quem diabos era Jack Nicholson.
8- Dante’s Inferno/O Cérebro de um Bilhão de Dólares (Billion Dollar Brain, Ken Russell)
Um ano de rupturas para Mr Russell (que ainda não é Sir, embora no ano passado eu tenha participado de abaixo assinado para o homem finalmente ser sagrado Cavaleiro – KKKKK), não só porque ele deixa de lado os seus compositores da BBC e se embrenha na literatura, pintura e vida de Dante, o inglês, Rossetti – ainda com Ollie como muso inspirador. Mas é do outro lado que a ruptura é maior, olha que coisa estranha, até então Ken Russell só havia feito curtas e longas para a BBC, de repente o chamam para a telona, enchem ele de dinheiro e vai parar na franquia do Harry Palmer que na época ainda fazia frente a James Bond, não à toa Billion Dollar Brain é considerado o filme mais maluco e megalomaníaco do Palmer. Se marcou a estréia de Russell nas telonas, marcou também o fim da carreira da igualmente bela irmã de Catherine Deneuve: Françoise Dorléac, morta naquele ano.
9- O Massacre de Chicago (The St. Valentine’s Day Massacre, Roger Corman)
Êêê! Viva o melhor filme da carreira de Roger Corman!
10- Casino Royale (Val Guest/Ken Hughes/John Huston/Joseph McGrath/Robert Parrish/Richard Talmadge)
Diz aí se o Peter Sellers não é um Bond melhor que o Daniel Craig.
Real melhor filme do ano: À Queima Roupa (Point Blank, John Boorman)
E também: A Margem (Candeias), Marat/Sade (Brook), Play Time (Tati), Le Samouraï (Melville), Terra em Transe (Glauber), Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (Mojica), Week End (Godard), O Caso dos Irmãos Naves (Person), Branded to Kill (Seijun).
Nota update: Aproveitando a menção do Sollima, que fique aqui o link do mais novo blog indispensável
O Dia da Fúria, cujo mês de maio é temático sobre a obra do italiano.
Filmes bacanas de cada ano que o cinema viveu: 1970
1- De Volta ao Vale das Bonecas (Beyond the Valley of the Dolls, Russ Meyer)
You will drink the black sperm of my vengeance! Quando mais o tempo vai passando, mais fico propensa a dizer que este é o melhor filme de Russ Meyer e olhe que sou bem fã de sua fase branco & preto. Z-Man é uma espécie de precursor de Frank N Furter, só que muito mais plausível, especialmente porque fora inspirado no maluquete do Phil Spector. Absolutamente clássico, absolutamente obra prima.
2- Ciúme à Italiana (Dramma della gelosia – tutti i particolari in cronaca, Ettore Scola)
Não seria exagero dizer que este é o melhor filme do Ettore Scola, mesmo tendo um Feios Sujos e Malvados no currículo. É mais uma de suas tragicomédias com fundo sócio-político que literalmente te deixa com dor de tanto rir e, convenhamos, um triângulo amoroso formado por Giancarlo Giannini, Monica Vitti e Marcello Mastroianni é tudo na vida.
3- O Mensageiro (The Go-Between, Joseph Losey)
Quem não ama esses diretores americanos que largam tudo e viram diretores ingleses por excelência? Evidente influência para Desejo e Reparação, não digo nem pelas gritantes semelhanças factuais que saem diretamente de um embate Hartley-McEwan, mas sobretudo pela estrutura narrativa, utilização da trilha sonora e das cores, até a presença de Sir Michael Redgrave como a aparição chave vem a calhar como a de sua filha Vanessa no filme de 2007. E cá entre nós, Alan Bates dos anos 60 é tudo na vida de uma mulher (e de um homem também).
4- Vamos a matar, compañeros (Sergio Corbucci)
Esse é da leva “o cinema político italiano vai ao velho oeste”, com a diferença que este expõe o ridículo das situações, se tornando muito mais anárquico que o cinema político “sério” que eventualmente teria esta intenção. Depois do Leone só dá Corbucci, como assim existem tais diretores que só fazem coisas verdadeiramente apaixonantes? Jack Palance, Fernando Rey, Tomas Milian, Franco Nero, Ennio Morricone… ao lado de pessoas ainda mais apaixonantes? Spaghetti é amor.
5- Copacabana, Mon Amour/Sem Essa, Aranha (Rogério Sganzerla)
De um lado temos Zé Bonitinho, do outro Helena Ignez. No centro, o todo poderoso: um dos maiores cineastas deste país.
6- O Pássaro com as Plumas de Cristal (L’Uccello dalle piume di cristallo, Dario Argento)
Primeiro e mais engraçado filme do Argento, pelo menos eu ri horrores, principalmente pela galeria de personagens bizarros que vão adentrando a tela, o cafetão gago, o delator paranóico e em especial o pintor comedor de gatos (o Argento é vegetariano e diz não querer matar animais para viver, o bom é que para viver ele finge que mata animais, filosofia a qual estou plenamente de acordo). É o exato objeto de transição entre Alfred Hitchcock, Mario Bava e Brian De Palma.
7- Conde Drácula/Eugenie (Nachts, wenn Dracula erwacht/Eugenie: Story Of Her Journey Into Perversion, Jesus Franco)
Olha isso: tio Jess adaptando Bram Stoker com o melhor Drácula de todos os tempos (Christopher Lee, lógico) com Klaus Kinski como Reinfield (thanks god for that!), Soledade Miranda como Lucy, Maria Rohm como Mina e Herbert Lom como Van Helsing? Coma minhas entranhas, tio Jess!
Por outro lado no mesmo ano também temos uma das melhores adaptações do guru Sade, o Marquês, para o cinema, felizmente é um dos melhores filmes do tio Jess, também com Lee e Rohm. Agora esclarecemos um outro porém, no mesmo ano tio Jess gravou um outro Eugenie e que viria a ser o último filme de Soledad Miranda antes de morrer, é um filme interessante que só foi lançado anos depois, mas não é exatamente um Sade oficial apesar do título dizer o contrário. Confuso? A culpa não é minha, a porra da carreira do tio Jess é um puteiro, oras.
8- 5 bambole per la luna d’agosto (Mario Bava)
Todo mundo sabe a mania que o cinema americano tem daqueles finais rocambolescos, o tal do “twist”, tudo uma palhaçada comparado aos finais dos filmes de Mario Bava, este que não foi apenas um dos maiores cineastas da Itália, mas também o maior perito em desenlaçes do cinema, tudo que você pensa ao terminar de ver um filme seu é “puta que o pariu, filho da mãe do inferno!”. Com o Bambole não é diferente, embora o que conte aqui mais do que tudo é a musa absoluta do gênero em suas funçoes giállicas primordiais: Edwige Fenech, a melhor derrière já vista numa tela.
9- Multiple Maniacs (John Waters) Divine é estuprada por uma lagosta gigante. Basta.
10- The Ballad of Cable Hogue (Sam Peckinpah)
Ó céus, Jason Robards ainda não saiu de Sweetwater e ainda trocou a Claudia Cardinale pela Stella Stevens!
11- The Rise and Rise of Michael Rimmer (Kevin Billington)
Acho que está claro em cada página deste blog o quanto idolatro Peter Cook, não? Aqui ele está longe de sua alma gêmea habitual, mas em compensação traz John Cleese a tira colo.
12- Stray Cat Rock: Sex Hunter / Delinquent Girl Boss (Nora-neko rokku: Sekkusu hanta / Onna banchô, Yasuharu Hasebe)
Olha que beleza me aventurar nessas listas, eu nem sequer sabia que era fã do Hasebe e já citei quatro de seus filmes. Esses dois são meus favoritos dele e os melhores da série Stray Cat Rock, um dos epítomes do pink violence. Muito jazz, estilo, violência e rock and roll. Adoro.
13- Dorian Gray (Massimo Dallamano)
Por isso que o cinema italiano deste período é imbatível: pega-se o clássico literário absoluto sobre o vício e a degradação, o transpoem para a atmosfera dos anos 60 e 70 do século XX e dá no quê? A única adaptação de sua obra a qual Oscar Wilde teria orgulho e ainda daria um jeito de levar o Helmut Berger para casa (e quem não o levaria?). É o máximo que qualquer cineasta poderá chegar da essência do livro de Wilde, enquanto Berger é a encarnação definitiva e divina do próprio retrato.
14- Hi, Mom! (Brian De Palma)
Antes de dar uma reviravolta assustadora no estilo de seu cinema nos anos subsequentes, De Palma chegou a ser visto como um dos melhores diretores cômicos daquela geração e de criar uma parceria com Bob De Niro antes que um tal de Martin destruidor de casamentos viesse e roubasse o seu homem.
15- The Honeymoon Killers (Leonard Kastle)
Bonnie & Clyde nada, o primeiro grande filme com um casal de foras da lei é este aqui! Cult até a medula, saiu na leva do grotesco cinema ultra-independente americano no qual John Waters reinava. Assassinos por Natureza, Perdita Durango, Henry… todos são filhos de Honeymoon Killers, provavelmente o primeiro grande filme inspirado em reais assassinos seriais.
Real Melhor filme do ano: Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto, Elio Petri)
Menções mais que honrosas a Le Cercle rouge (Melville), Horton Hears a Who! (Chuck Jones), M*A*S*H (Altman), El Topo (Jodorowsky), Tristana (Buñuel), O Ritual dos Sádicos (Mojica), Rengoku Eroica (Yoshida).
Nota: E termina aqui a década sagrada. Falando sério, a década sagrada deveria ser entre os anos 1965 e 1975, o melhor período do cinema de qualquer parte do mundo, a maioria esmagadora de meus filmes favoritos foram produzidos neste período, antes de 65 as coisas ainda não eram suficientes e depois de 75 as coisas começaram a se tornar decadentes.
25 atores – Parte 3

Giancarlo Giannini (Por um Destino Insólito/Travolti da un insolito destino nell'azzurro mare d'agosto, Lina Wertmüller, 1974)

Sam Rockwell (Confissões de uma Mente Perigosa/Confessions of a Dangerous Mind, George Clooney, 2002)

Jean-Pierre Cassel (O Discreto Charme da Burguesia/The Discreet Charm of the Bourgeoisie, Luis Buñuel, 1972)
Os Filmes Bacanas de Cada Ano que o Cinema Viveu: 1975
1- The Rocky Horror Picture Show (Jim Sharman)Frank N. Furter é uma das melhores personagens do cinema, sem exagero. O mais bizarro é que Tim Curry se envergonha realmente deste papel, do que ele tem orgulho então, Esqueceram de Mim 2? É fácil um dos meus filmes favoritos de sempre e merece muito ser o objeto de culto que é.
2- Lisztomania / Tommy (Ken Russell)
Ah vá, não diga que Ken Russell pegou um lugar duplo e dividiu com Roger Daltrey.
3- Picnic na Montanha Misteriosa (Picnic at Hanging Rock, Peter Weir)
Apesar do nome de filme da Disney, essa obra prima aussy é tão rica e complexa, de tantas e louváveis interpretações, de uma climatização e beleza extrema, que desafio qualquer pessoa a assistí-lo apenas uma vez sem que não se tenha a ânsia de revê-lo e revê-lo.
4- O Homem que Queria Ser Rei (The Man Who Would Be King, John Huston)
Huston é um dos meus xodós de todos os tempos, mas a quem estou querendo enganar? Esse filme está aqui listado pela dobradinha do Harry Palmer com James Bond.
5- Ilsa, She Wolf of the SS (Don Edmonds)
Nazi-exploitation é um gênero deveras problemático, mas porra, a Ilsa é mestra. É só ver alí uma dominatrix sádica no âmbito sexual e esquecer o estereótipo nazi, mesmo porque ela nem se importava com isso contanto que tivesse um orgasmo.
6- Dolemite (D’Urville Martin)
DANCE MUTHA-FUCKA, DANCE! Como assim alguém tem coragem de dizer que este é um filme ruim? É claro que tem um ou outro problema, mas puta que pariu, Dolemite é certeiro por todos aqueles diálogos do além, presença em cena dos tipinhos mais bizarros e o negão kung-fu recém falecido Rudy Ray Moore.
7- Hedgehog in the Fog (Yozhik v Tumane, Yuriy Norshteyn) Poesia transformada em animação. Não se espante se alguém disser que esta é a melhor animação já feita.
8- Grey Gardens (Maysles Brothers)
Fantástico documentário sobre pessoas ainda mais fantásticas, uma espécie de Sunset Boulevard encontra O Que Terá Acontecido a Baby Jane? da vida real. Tenho a ligeira impressão que ficarei velha e biruta tal qual uma daquelas senhoiras, cruzes.
9- Os Quatro do Apocalipse (I Quattro dell’apocalisse, Lucio Fulci)
Este está aqui listado mais por justiça do que qualquer outra coisa, já ouvi tanta gente metendo pau nesse filme despropositadamente, pois o que muitos apontam como defeitos é justamente o intentado. Num dos westerns mais peculiares da Itália, Fulci espelha a atualidade insana daqueles idos num complexo emaranhado de relações humanas e simbolismo, especialmente por ter Tomas Milian num dos melhores personagens dos spaghettis. O único problema aqui é o Fabio Testi, pois todo filme em que ele está presente fico a pensar: tira a roupa logo, desgraçado! E isso obviamente tira minha atenção do tôdo.
10- Corrida com o Diabo (Race with the Devil, Jack Starrett)
Dá para imaginar algo mais legal do que Warren Oates e Peter Fonda sendo perseguidos por caipiras adoradores de satã no Texas? Deliverance encontra Um Drink no Inferno encontra O Bebê de Rosemary encontra A Morte Pede Carona encontra Encurralado encontra Quadrilha de Sádicos encontra O Homem de Palha.
Real Melhor Filme do Ano: Monty Python em Busca do Cálice Sagrado (Mønti Pythøn ik den Høli Gräilen, Terry Jones)
Are you suggesting coconuts migrate? Mas será possível que não havia filmes de gente normal em 1975 e que boa parte deles não fossem de ingleses birutas? Menções aos corriqueiros Saló (Pier Paolo Pasolini), Barry Lyndon (Stanley Kubrick), Dersu Uzala (Akira Kurosawa) e Boris Grushenko (Woody Allen), Um Dia de Cão (Sidney Lumet) e Prelúdio para Matar (Dario Argento). Pensei seriamente em proibir certos cineastas nessas minhas listas. Povo sem graça, como se dizia no Tarantino’s Mind, esse povo é samurai, não conta.
Nota: O que está rolando com esses três milhôes de filmes em cada lista? É a década dos excessos, oras, quando chegar os anos 60 volto com os 5 habituais.

























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