Luis Buñuel e seu dry martini

“Num bar, para provocar e entreter um devaneio, é preciso gim inglês. Minha bebida predileta é o dry-martini. Considerando o papel que o dry-martini representou nesta vida que relato, devo dedicar-lhe uma ou duas páginas. Como todos os coquetéis, o dry-martini é provavelmente uma invenção americana. Compõe-se, essencialmente de gim e de algumas gotas de vermute, de preferência de Noilly-Prat. Os verdadeiros aficionados, que gostam de seu martini muito seco, chegavam ao ponto de sustentar que bastava simplesmente que um raio de sol atravessasse uma garrafa de Noilly-Prat antes de atingir o copo de gim. Um bom dry-martini, dizia-se em certa época, deve assemelhar-se à concepção da Virgem Maria. Sabe-se, efetivamente, que segundo Santo Tomás de Aquino, o poder gerador do Espírito Santo atravessou o hímen da Virgem “como um raio de sol passa através de um vidro, sem rompê-lo”. O mesmo ocorre em relação ao Noilly-Prat, diziam. Mas isso me parece um pouco excessivo.
Outra recomendação: é preciso que o gelo utilizado esteja totalmente congelado, muito duro, para que não solte água. Nada pior do que um martini aguado.
Permitam que dê minha receita pessoal, fruto de uma longa experiência, com a qual sempre obtive grande sucesso.
No dia anterior à vinda de meus convidados, coloco na geladeira tudo o que é necessário: os copos, o gim, a coqueteleira. Tenho um termômetro que me permite verificar se o gelo está numa temperatura de mais ou menos vinte graus abaixo de zero.
No dia seguinte, quando meus amigos já estão presentes, pego tudo o que me é necessário. No gelo bem duro derramo primeiro algumas gotas de Noilly-Prat e uma meia colher de café de angostura. Sacudo tudo, depois esvazio. Só conservo o gelo, que mantém os vestígios muito leves dos dois perfumes, e derramo gim puro sobre esse gelo. Sacudo ainda um pouco e sirvo. Isso é tudo, e não há nada mais além disso.”

Meu último suspiro – Autobiografia de Luis Buñuel

Salvador Dali. Portrait of Luis Buñuel. 1924.
Salvador Dalí. Portrait of Luis Buñuel. 1924.
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