Eu Sou um Gato – Natsume Soseki

Eu sou um gato. Ainda não tenho nome. Não faço a mínima idéia de onde nasci. Guardo apenas a lembrança de miar num local completamente sombrio, úmido e pegajoso. Deparei-me nesse lugar pela primeira vez com aquilo a que comumente se denomina criatura humana. Mais tarde, descobri que era um estudante- pensionista, a espécie considerada mais malévola entre todas essas criaturas. Contam que por vezes esses humanos denominados estudantes nos agarram à força para nos comer fritos. Na época, ignorando esse fato, não me senti intimidado. Experimentei apenas uma agradável sensação quando o humano me soergueu com gentileza, pondo-me sobre a palma da mão. Aconchegado nela, pela primeira vez na vida encarei o rosto de um desses seres. Preservo até hoje na memória a impressão desagradável daquele momento. Em primeiro lugar, o rosto, que deveria estar coberto de pêlos, revelava a lisura de uma lata de remédio. Em nenhum dos muitos de minha espécie com os quais mais tarde me deparei observei essa horrenda deformação física. Não apenas isso: bem no meio da face se destacava uma protuberância, de cujos orifícios saía fumaça, por vezes em profusão, que me sufocava e debilitava. Só recentemente descobri provir essa fumaça de algo que os humanos costumam fumar e a que denominam cigarro.
Por um tempo permaneci sentado à vontade sobre a palma da mão desse estudante, mas a certa altura comecei a me movimentar com espantosa velocidade. Meus olhos giravam inconscientemente, e não fui capaz de discernir se era o humano que se movia ou apenas eu. Senti vontade de vomitar. Julguei não haver mais salvação para mim quando um som forte me induziu a ver estrelas. Por mais que me esforce, não consigo lembrar o que se passou depois.
Quando dei por mim, o estudante havia desaparecido. Tampouco havia sinal de meus muitos irmãos, antes reunidos a meu redor. Até mesmo a mais importante entre todos sumira: minha mãe. Estava então em um local de luz intensa, completamente distinto do que me acostumara. Sentia dificuldades em manter os olhos abertos de tão ofuscante que estava a claridade. Como tudo era estranho! Ao tentar me locomover, fortes dores me atacaram. De um monte de palha, de repente fui jogado num matagal de bambus.
Ao sair me arrastando dessa floresta, avistei um imenso lago. Sentei-me bem diante dele, ponderando como deveria agir em seguida. Contudo, nenhuma boa idéia me ocorreu. Comecei a miar por um tempo, imaginando que ao me ouvir o humano voltaria para me buscar, mas por mais que me esgoelasse ninguém aparecia. Aos poucos, o sol começou a se pôr; o vento acariciava com doçura a superfície do lago. Meu estômago era invadido por uma fome enorme. Queria chorar, mas a voz não saía. Sem alternativa qualquer coisa serviria. Dei então uma volta pelo lago a partir do lado esquerdo, decidido a ir a qualquer lugar onde houvesse comida. Que sacrifício extremo! Mas suportei. Com esforço, engatinhei até encontrar um local onde poderia haver humanos. Acreditando que obteria algo, passei por um buraco em uma cerca de bambu despedaçada, e penetrei em uma casa. Como é curioso o destino! Se essa cerca não estivesse destruída, eu provavelmente teria morrido de inanição Na sarjeta. Desígnios da sorte, como se costuma dizer. Esse buraco é até hoje meu local de passagem para visitar meu vizinho Mike. Bem, já insinuado na casa desconhecida, ignorava qual o próximo passo a tomar. Lutava contra o tempo: logo anoiteceria, estava esfomeado, Esfriava e não demoraria a chover. Procurei então andar até um local claro e confortável. Quando penso nisso, dou-me conta hoje de que naquele momento eu já estava no interior da casa. Tive ali a oportunidade de me deparar novamente com outros elementos da espécie humana, diferentes daquele estudante-pensionista. A primeira dessas criaturas foi Osan, cuja crueldade superava a do estudante. Logo que pôs os olhos em mim me agarrou de súbito pelo cangote e me atirou para fora da casa. Imaginei estar perdido e, de olhos cerrados, decidi entregar minha sorte à providência divina. No entanto, a fome e o frio eram insuportáveis. Aproveitando uma distração de Osan, penetrei de novo na cozinha. Não demorou muito para eu ser expulso. Lembro-me que bastava ser jogado para fora para eu voltar, e bastava voltar para ser jogado para fora de novo, quatro, cinco vezes, repetidamente. Essa tal Osan já não suportava mais me ver. Só quando há pouco dei o troco, roubando um peixe agulhão que ela preparava, senti-me vingado e com o espírito por fim apaziguado. Por fim, quando ela se preparava para me expulsar mais uma vez, o dono dessa casa apareceu na cozinha indagando a razão de tanto barulho. A criada me mantinha suspenso pela nuca na direção do patrão, enquanto explicava o transtorno por que passava ao tentar se livrar do gatinho vira-lata, que cismava em retornar para dentro da cozinha toda vez que ela o colocava para fora. Enrolando os pêlos negros sob o nariz, o amo fitou por instantes meu focinho, para apenas afirmar “Então, deixe-o entrar”, voltando em seguida para o interior da casa. Imaginei-o um homem de poucas palavras. Decepcionada, a criada me atirou para dentro da cozinha. E foi assim que decidi morar nessa casa.
Raramente meu amo se digna a me encarar. Ele parece exercer a profissão de professor. Ao voltar da escola, passa o restante do dia trancado em seu gabinete, praticamente não coloca os pés para fora dele. Todos da casa o consideram muito estudioso. O professor também gosta de exibir seu apego aos estudos. Contudo, na realidade, ele não é tão diligente como o julgam os habitantes desse lar. Por vezes, adentro de fininho o gabinete para espiar, e quase sempre ele está em plena sesta. Em algumas ocasiões, baba sobre o livro que está lendo. De estômago frágil, a tez de sua pele é levemente amarelecida, inelástica e sem viço. Apesar disso, é um glutão. Após ingerir grande porção de arroz, toma Taka-diastase. Em seguida, abre um livro. Na segunda ou terceira página cai no sono, babando sobre ele. Essa é a rotina de meu amo todas as noites. Mesmo sendo um gato, há momentos em que pondero sobre as coisas. Não há nada mais simples do que a vida de um professor. Pudesse eu renascer na forma humana, desejaria ser um mestre. Se é possível dormir tanto nessa profissão, é sinal de que até mesmo um gato pode exercê-la. Apesar disso, meu amo diz que não há profissão mais árdua do que a de um docente, e costuma se queixar dela a todos os amigos que o visitam.
Na época em que comecei a viver neste lugar, meu amo era o único da casa que demonstrava alguma predileção por mim. A qualquer canto que eu fosse, era pisoteado e ninguém prestava atenção em mim. O fato de até hoje não me haverem posto sequer um nome é prova cabal do pouco valor que me atribuem. Acabei obrigado a me resignar e, na medida do possível, procuro permanecer ao lado de meu amo, por ter sido ele quem me aceitou na casa. Pela manhã, sempre subo no seu colo quando ele lê o jornal. Na hora de sua sesta, trepo sempre em suas costas. Isso não significa necessariamente que eu sinta particular adoração por ele, é apenas uma retribuição por ser ele o único a me demonstrar algum carinho. Depois disso, após várias experiências, decidi dormir pela manhã sobre a panela de arroz, à noite sobre o kotatsu, e na varanda nas tardes de sol. Todavia, o que mais me agrada é quando, caída a noite, penetro na cama das crianças da casa para dormir com elas. São duas meninas, de cinco e três anos, e dormem na mesma cama. Sempre encontro um espaço entre elas onde me enfiar, mas se por infelicidade uma delas acorda me vejo em maus lençóis. As crianças são verdadeiras pestes, em particular a menor. “O gato está aqui”, gritam repetidas vezes e se põem a chorar alto, a qualquer hora, mesmo de madrugada. Quando isso acontece, meu amo, dono de uma dispepsia nervosa, sempre acorda e surge às pressas do quarto vizinho. Ultimamente usa uma régua para me crivar as ancas de fortes pancadas.
Quanto mais observo os humanos com os quais convivo sob o mesmo teto, tanto mais me vejo obrigado a concluir que se tratam de seres egoístas. As crianças com as quais às vezes compartilho a mesma cama são particularmente abomináveis. Quando lhes dá na telha, me viram de ponta-cabeça, cobrem minha cabeça com um saco, me atiram para todos os lados, me enfiam dentro do forno. Como se isso não fosse suficiente, basta eu revidar, mesmo de forma leve, e toda a família corre atrás de mim para me molestar. Recentemente, quando eu afiava com delicadeza as garras no tatame, a mulher de meu amo se enfureceu de forma assustadora. A partir desse dia, ela quase nunca permite meu acesso à sala de estar. Pouco se importam se morro de frio entre as tábuas da cozinha. Shiro, a gata branca que mora na casa do outro lado da rua e por quem sinto profundo respeito, comenta sempre que não há neste mundo criatura mais impiedosa do que o ser humano. Pouco tempo atrás, Shiro deu à luz quatro gatinhos, verdadeiros pompons. Porém, mal se passaram três dias, o estudante da casa afogou os filhotes no lago atrás da propriedade. Shiro me contou o fato entre lágrimas, afirmando que, para os de nossa espécie poderem expressar seu amor filial e manterem uma vida familiar decente, urge lutar contra os humanos até levá-los à completa extinção. Julgo ser uma argumentação válida. Mike, da casa vizinha, diz, imbuído de enorme indignação, que os humanos não entendem o significado de direito de propriedade. Em nossa espécie, aquele que encontra primeiro uma cabeça de sardinha ou tripas de sargo tem o direito de comê-las. É permitido o uso de força bruta contra os que infringem essa lei. Contudo, aparentemente inexiste entre os humanos essa noção, e as iguarias que encontramos acabam todas por eles confiscadas. Eles usam sua força para usurpar de nós o que teríamos o direito de comer. Shiro vive na casa de um militar, e o amo de Mike é advogado. Eu simplesmente vivo na residência de um professor, e com relação a isso posso me considerar mais felizardo que meus amigos.
Minha vida cotidiana é de total tranqüilidade. Os humanos, por mais humanos que sejam, não prosperarão para sempre. Esperemos pois pacientemente o advento da era dos felinos.

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