Cinco Livros

Essas coisinhas são legais quando se está inspirado, como não ando muito, cairei mais uma vez nos meandros da minha própria mediocridade porque o assunto deste meme em especial indicado por Leo vale a pena, e como ele puxou a sardinha para si próprio não vejo porque não mimetizá-lo e puxar o tal do peixinho também direto para minha sacolinha. Então, eis que escolho livros ligados ao cinema, não livros teóricos sobre o assunto, mas sim grandes adaptações de grandes livros, pois ao contrário do que o bom e velho Hitch pregava sobre grandes livros darem filmes medíocres e livros medíocres darem grandes filmes, também há suas exceções. Mas sabe-se lá o que o bom Hitchcock chamava de medíocre, não é mesmo?

1- Onde os Velhos Não Têm Vez – Cormac Mccarthy
Sailing To Byzantium (William Butler Yeats)
That is no country for old men. The young
In one another’s arms, birds in the trees
– Those dying generations – at their song,
The salmon-falls, the mackerel-crowded seas,
Fish, flesh, or fowl, commend all summer long
Whatever is begotten, born, and dies.
Caught in that sensual music all neglect
Monuments of unageing intellect.

An aged man is but a paltry thing,
A tattered coat upon a stick, unless
Soul clap its hands and sing, and louder sing
For every tatter in its mortal dress,
Nor is there singing school but studying
Monuments of its own magnificence;
And therefore I have sailed the seas and come
To the holy city of Byzantium.

O sages standing in God’s holy fire
As in the gold mosaic of a wall,
Come from the holy fire, perne in a gyre,
And be the singing-masters of my soul.
Consume my heart away; sick with desire
And fastened to a dying animal
It knows not what it is; and gather me
Into the artifice of eternity.

Once out of nature I shall never take
My bodily form from any natural thing,
But such a form as Grecian goldsmiths make
Of hammered gold and gold enamelling
To keep a drowsy Emperor awake;
Or set upon a golden bough to sing
To lords and ladies of Byzantium
Of what is past, or passing, or to come.

São poucos os livros que li e que foram captados em total essência para o cinema, mas cada pedaço de entranha do livro de Mccarthy foi parar no filme dos Coen crua e irretocavelmente, estética e moralmente, por isso o filme se fez um dos mais profundos que assisiti nos últimos anos. Mccarthy é um grande autor, embora tenha lido apenas dois livros dele, ele trata de assuntos que muito me apetecem, como os rumos incompreenssíveis da violência numa sociedade pseudo-racional que está devoluindo em nome de sua própria racionalidade de que o homem acima de tudo ainda é um animal e deve agir como tal, além do peso do tempo no âmbito do indivíduo analogamente com o da sociedade.
E também vou aproveitar para reclamar da tradução do nome do filme que simplesmente destrói todo o sentido da história de Mccarthy, além de deturpar o poema do Yeats no qual o título foi baseado, que terra é essa em que fraco é sinônimo de velho?

Ele olhou pra ela. Depois de algum tempo disse: Não é sobre saber onde você está. É sobre pensar que chegou ali sem levar nada junto. Suas noções sobre começar de novo. Ou a de qualquer pessoa. Você não começa de novo. Essa é a verdade. Cada passo que você dá é para sempre. Não pode fazer com que desapareça. Nenhum deles. Entende o que eu estou dizendo?
Acho que sim.
Sei que você não acredita mas deixa eu tentar mais uma vez. Você acha que quando acorda de manhã o ontem não conta. Nas o ontem é tudo que conta. O que mais existe? Sua vida é feita dos dias de que ela é feita. Mais nada.

2- Horton Choca um Ovo – Dr. Seuss
He held his head high
And he threw out his chest
And he looked at the hunters
As much as to say:
‘Shoot if you must
But I won’t run away!
I mean what I said
And I said what I meant….
An elephant’s faithful
One hundred per cent!

Dr. Seuss é um dos meus heróis, além de fazer excelente poesia ele o faz para crianças e não há nada mais altruísta em uma pessoa de real talento do que se dedicar à literatura infantil. Aliás, eu iria dedicar essa listinha apenas à autores de literatura infanto-juvenil que foram adaptados para o cinema, mas no último minuto resolvi democratizar a coisa.
Horton Hatches the Egg foi o primeiro livro de Seuss em que Horton aparecia como protagonista, seu assunto primordial é a adoção e Horton é visualizado como o exemplo máximo de lealdade, tolerância, carinho e devoção. Não por acaso, de todos personagens conhecidos criados por Dr Seuss, Horton é de longe o meu favorito.
Ocorreram apenas duas versões deste Horton, só assisti a primeira de 1942 dirigida por Robert Clampett para a Warner Bros e que é por si só uma obra prima, mas com o sucesso do recente e bom longa Horton e o Mundo dos Quem! (que já fora adaptado de forma ainda mais feliz por Chuck Jones em 1970) não duvido que apareça logo uma outra versão de Horton e seu amado ovo.
Acho que também não preciso falar nada sobre o nome da primeira edição do Horton aqui no Brasil: Tonho Choca Ovo. Silêncio. Mas fala a verdade, o Horton tem a maior cara de Tonho, né não?

3 – Lavoura Arcaica – Raduam Nassar
Para deixar às claras, meu livro favorito do Nassar é Um Copo de Cólera com todo seu poderio passional rápido e rasteiro, mas como este se converteu num filme meia boca, então fiquemos com o Lavoura Arcaica que é obra prima e rendeu uma obra prima cinematográfica ainda maior. Lavoura Arcaica é um condensado épico psicológico, digo condensado não só porque é escrito em razoáveis poucas páginas, mas porque a sua densidade emocional é inversamente proporcional ao número de linhas que a descrevem, como é bem típico do autor.
Ah, quanto à adaptação, acho que não preciso dizer que Luiz Fernando Carvalho foi foda.

4- O Homem Que Ri – Victor Hugo
Esqueçam O Corcunda, Os Miseráveis ou a pqp, a grande obra mestra de Hugo foi O Homem que Ri e certamente Gwynplaine é uma das mais emblemáticas e trágicas figuras literárias de sempre. O livro funciona como um desabafo crítico à infindável relação espinhosa que Hugo tinha com o sistema político francês, onde o sempre triste Gwynplaine com sua face desfigurada pelo riso eterno é obrigado a fazer parte da câmara dos lordes que o transformara nesse personagem de freakshow.
Paul Leni fez uma adaptação muda com Conrad Veidt, mantendo quase toda a ironia trágica do livro, mas com um inaudito final feliz, em contrapartida pode-se dizer que Conrad Veidt tem uma das 10 melhores atuações da história do cinema neste filme. E sim, Bob Kane se inspirou no Veidt para desenhar seu Coringa original.

5- Os Mortos (Os Dublinenses) – James Joyce
Tinha prometido a eu mesma que não colocaria nenhum dos meus autores-xodó, mas abrirei uma exceção para este conto, não só porque é o melhor conto que Joyce escreveu, tanto em estilo quanto em nuances psicológicas das eternas sombras do passado, como rendeu o derradeiro e um dos melhores filmes de John Huston, então fica aqui a dica dupla.
A verdade é que essa lista já me encheu, ao contrário do que diz o senso comum, muitos livros renderam grandes adaptações e seria até fácil citar algumas dezenas entre curtas, adaptações não-oficiais, quadrinhos, poesia, etc etc, o difícil é escolher quais citar, então C-A-N-S-E-I. Por isso mesmo que chutei Orson Welles e Shakespeare dessa lista, oras. hehehe

Passando o cetro… Eu passo o cetro deste meme a todos que o estão lendo e que fiquem à vontade de fazer suas próprias listas, como eu devo ter sempre deixado bem claro não sou do tipo que prefere uma pessoa à outra e ficar escolhendo pessoas não muito me apetece, afinal ou se ama todo mundo ou se odeia todo mundo e qualquer meio termo seria hipocrisia para mim, assim como eu jamais conseguiria escolher entre a vida de alguém que conheço e admiro e a de um desconhecido. É, sou uma “velha” mesmo e acordei melancólica.

Publicado por Adriana Scarpin

Bibliófila, ailurófila, cinéfila e anarcafeminista. Really. Podem me encontrar também aqui: https://linktr.ee/adrianascarpin

9 comentários em “Cinco Livros

  1. Tem uns contos bem pé-no-saquinho nos Dublinenses, mas também tem aquelas pequenas obras-primas como Os Mortos, na edição que possuo Os Mortos é o último conto, então tem que passar por contos não tão distintos do Sr. Crazy Irishman.

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  2. oi Dri

    Eu notei que você tava meio sem paciência mas olha, que lista! :) !

    minha intenção, que nunca foi preterir alguém por outro alguém, foi mesmo pedir dicas pra pessoas com conhecimento em outras áreas. Do mesmo jeito que puxei pro teatro, achei que seria interessante saber sobre bons livros de outro assunto. Tanto que perguntei pra você sobre cinema e para um Historiador.

    É claro que o assunto é infindável, mas com essas dicas se sabe por onde. No meu caso, fiquei felicíssimo em saber da onde vem a história Do Homem que Ri!

    abs

    PS: não fique brava comigo :) !

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  3. Ai que horror Léo! Em hipótese alguma eu fiquei brava com você! Jamais ficaria brava, logo você que é sempre tão respeitador e gente fina! Adorei a indicação e adoro memes, eu só tinha acabado de acordar e estava meio triste, aquele lance de preterir não tem nada a ver com você ou qualquer outra pessoa, é um lance meu, inclusive porque faz alguma analogia ao livro do Mccarthy e à minha eterna frustação com a intolerância.
    Por isso que é foda ser coloquial via computador, as pessoas nunca sabem o tom em que estamos “dizendo” as coisas… Imagine tudo que escrevi banhado a muita tristeza e sono como se fosse alguém deitado no sofá esperando um amigo fazer o café para dar aquela sacudidela… É isso!

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  4. dri, um que eu sempre achei fodão é o leopardo, do visconti. o mais legal é aquela história de que ele não queria o burt lancaster para o papel principal e, no fim das contas, o cara acabou não só convencendo como comovendo. tanto o filme quanto o livro entrariam na minha lista de melhores de todos os tempos.

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  5. Rick, o foda de ser gênio é isso, o cara faz umas poucas obras primas daí a cobrança pesa demais e o povo resolve sumir… Eu até admiro isso de sumir, faz bem ele sumir no meio do mato, ele e o Salinger. Aliás, se o Salinger já morreu e ninguém ficou sabendo?

    Fred, tenho o livro do Lampedusa mas ainda não o li, mas o filme do Visconti é mesmo foda. Aliás, eu pensei em colocar um outro livro adaptado pelo Visconti na lista, o Morte em Veneza do Mann, Visconti foi um dos mais bem sucedidos adaptadores de classicões literários, de Camus à Dostoievski, nunca foi medíocre.

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