Morte de um Ciclista ( Muerte de un Ciclista, 1955 )

MUERTE DE UN CICLISTA - POSTER - JUAN ANTONIO BARDEMMais uma vez Juan Antonio Bardem vai beber na fonte do cinema italiano da época, pudera, em tempos em que o cinema italiano era o melhor do mundo o difícil era sair ileso de suas qualificações, no caso do Ciclista a influência recai no ascendente Michelangelo Antonioni e não por acaso foi-lhe roubada uma de suas primeiras musas: Lucia Bosè. Mas não é só em Antonioni que Bardem bebe como bem mostra alguns momentos fotográficos à la Bergman, especialmente o clímax onde nos faz crer que Sven Nykvist passou uns tempos na Espanha em meados dos anos 50.
Bardem lida sobretudo com a culpa em seu cinema, seus personagens são tragados pela própria moralidade formando pequenos carrosséis de desespero em suas individualidades, mas mostrando uma força inexistente como seres sociais, onde o que é aparente esconde dolorosos entraves de arrependimento. Com este seu filme mais famoso não é diferente.
Morte de um Ciclista é o mais famoso especialmente porque saiu na seleção da Criterion americana este ano, mas não é o melhor filme de Bardem, embora talvez seja o melhor fotografado como é visível logo no plano inicial, em que vemos um longa estrada e um ciclista literalmente à beira da morte.
Com o início emblemático, aos poucos a situação vai se desenrolando e explicando o porquê do casal interpretado por Lucia Bosè e Alberto Closas não ter prestado socorro ao atropelado, aparentemente era preferível ter uma morte em suas consciências a perder suas bem vistas posições perante a sociedade bourgeois madrilenha. Mas é neste ponto que o até então casal em uníssimo sofre uma bifurcação em virtude de suas essências individuais, de seu caráter. Ela, casada com um poderoso industrial teme a perda de seu dinheiro e status social se afunda em seu próprio egoísmo. Ele, o amante que nunca teve grandes ambições teme a culpa que o atormenta e a perda de sua alma transitando entre a velha sociedade afetada e a nova geração altruísta representada por seus alunos. Em uma cena chave, Alberto Closas passeia dentro da igreja, diz que era tarde demais e simplesmente pára de fugir de sua própria culpa, deixando a hipocrisia e indo em busca de uma redenção que lhe resulta um tanto diferente do esperado, uma redenção que lhe custará caro por pensar diferente, uma redenção que causará a poda total de sua liberdade.

Nota 1: Por uma dessas coisas estranhas que acontecem na vida, há o filme completo no Google videos, a grande vantagem de se ver filmes em castelhano dos anos 50 é que eles falam feito gente e não a correria verbal incompreensível de hoje em dia.

Nota 2: Lucia Bosè é certamente uma das mais belas atrizes do cinema europeu, nascida na Itália foi musa de Antonioni, Buñuel, Fellini, Cocteau, dos Irmãos Taviani e do mítico Jean-Paul Le Chanois, entre outros.

Nota 3: Lucia é mãe do não menos belo Miguel Bosè (sendo filho de uma miss Itália com um torero espanhol queria que saísse o quê?), que por acaso trabalhou com o sobrinho de Juan (o Javier, é claro) no filme De Salto Alto do Almodóvar.

Nota 4: E que fique a dica deste excelente estudo da aplicabilidade da técnica de Pudovkin no cinema de Bardem: Pudovkin and the Censors: Juan Antonio Bardem’s Muerte de un ciclista

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