Cais das Sombras (Le Quai des Brumes, 1938)

Não adianta, não tem para ninguém, nem Bogart, nem McQueen, nem Belmondo (provavelmente me arrependerei de dizer isso sobre Jean Paul), Jean Gabin é rei.
Em fins dos anos 30 Gabin moldou boa parte de seus grandes papéis, seja sob a batuta de Jean Renoir com A Grande Ilusão, Bas-Fonds, A Besta Humana, seja através de Julien Duvivier com Pépé le Moko, Camaradas ou, ainda, Marcel Carné com Trágico Amanhecer e este Cais das Sombras. Todos banhados pelo realismo poético francês, a maioria facilmente taxado como pré-noir. Gabin é o anti-herói noir primordial, não com a frieza cínica que caracterizou os anti-heróis do gênero no outro lado do Atlântico, Gabin é filho desse realismo cujos personagens eram marcados pelo instinto e pelo fogo nas entranhas.
Quai des Brumes é um conto de pessoas perdidas, seres desolados e sem rumo que convergem para um mesmo ponto, o porto de Le Havre, seja um cachorro, seja um desertor do exército, seja uma orfã abusada, todos se encontram na bruma e se sustentam no próprio desespero. Ninguém fotografou melhor e com mais expressividade a face do ser humano como os cineastas franceses dos anos 30, lá há os melhores ângulos e as melhores luzes, por consequência lá há as melhores densidades e personalidades e aqui Carné não é diferente.
Por fim, Robert Le Vigan comanda uma conversa de boteco entre Édouard Delmont, Raymond Aimos e Jean Gabin, Jacques Prévert escreveu os diálogos demonstrando bem o ar fatalista de todos os personagens e que pode de alguma forma resumir e dar a atmosfera vislumbrada no filme de Carné:

– Há gente aqui esta noite.
– Sim. E gente boa.
– Ah, não, as pessoas são más e criminosas… Dizem que existem coisas lindas, não sei.
– Pinte você o que é bom.
– Eu tentei… pintei flores, pintei mulheres, crianças… Foi como se pintasse o interior da maldade. Em cada lugar vejo a maldade.
– Isso é como pintar com uma navalha.
– O que é mais simples que uma árvore? Quando a pinto todos estão inquietos porque há alguém escondido. Pinto as coisas escondidas atrás das coisas. Um nadador é um afogado para mim.
– Natureza morta, hein?
– Cala a boca, imbecil!
– Não, o imbecil sou eu… ao viver tão mal, sempre angustiado.
– Sim, mas tudo dará certo.
– Ainda pensa em se matar?
– Há aqueles que vão pescar, outros casam, outros vão para a guerra, outros cometem crimes passionais e há quem se suicida. Alguém deve morrer.
– É a vida!
– É.
– Ah sim, você bebe para matar algo que te chateia.
– Eu? Eu bebo é pra ficar bêbado.
– É o mesmo.

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4 thoughts on “Cais das Sombras (Le Quai des Brumes, 1938)

  1. Baita diálogo, o filme todo é desse nível? Eu tenho Boulevard do Crime gravado aqui mas sempre enrolo pra ver.

    E A Grande Ilusão tá numa das cadeias de influência que eu já não consigo mais deixar de lado – todos filmaços, claro:

    Arsenal (do Dovzhenko) > A Grande Ilusão > Glória Feita de Sangue > Cruz de Ferro > Nascido Para Matar > Além da Linha Vermelha

    Apocalypse Now seria outra vertente de filmes de guerra, mas nem parei pra pensar em quais outros filmes se aproximariam dele.

  2. Ah, acabei mudando um pouco (muito) do tema lá do trabalho. Imagina um triângulo, em uma ponta o Jung, em outra o Deleuze e em outra o Fredric Jameson. Espero conseguir organizar isso sem precisar ser internado, mas seria algo como o conflito história x inconsciente na organização cerebral dos filmes – ou algo assim, ainda não consegui nem pensar num título pra isso. O lance do fascismo vai ficar mais concentrado no Full Metal Jacket, apesar de ter ligação com os outros (e eu queria fazer essas ligações, mas isso vai dar trabalho).
    Esse fim de semana escrevo algo sobre Barry Lyndon finalmente, nem que seja pra olhar e ver que tá tudo errado e confuso.

  3. Nossa! Nossa! Quanta informação, precisando urgentemente de café pra pegar no tranco!
    O Prévert era um poeta, tudo que ele escreveu no cinema é satisfação garantida, aliás, o peso literário do cinema Francês nos anos 30 foi aterrador. Tem um filme do Bertrand Tavernier chamado Passaporte Para a Vida (Laissez-Passer) que fala muito desses roteristas e o que aconteceu com eles quando a França foi invadida pelos nazistas na Segunda Guerra, daí tirei uma boa lista para ser assistido, é um filme interessantíssimo.

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