Centenário de Carole Lombard – Parte 1

Marvelous girl. Crazy as a bedbug. – Howard Hawks

Nascida a 6 de outubro, Jane Alice Peters, Hoosier Tornado, Profane Angel, Ma, Carol Lombard, Carole Lombard Gable, tanto faz como é chamada, ela foi e é a maior atriz cômica do cinema. Mas não é porque Carole era a maior comediante que não segurasse as pontas também no drama, ela podia ir da louca rainha do screwball à fragilidade sem pensar duas vezes, mesmo sendo um desperdício de talento. Linda, talentosa, charmosa e maluca, além de naturalmente radiante, é por isso que ela é a minha preferida, é por isso que nenhum outro astro de cinema de qualquer outro período ou nacionalidade se equipare a ela aos meus olhos, é por isso que de todas as mortes prematuras do mundo do cinema nenhuma me causa mais frustação do que a do Tornado de Indiana aos 33 anos.
Um dia Jane Peters, aos doze anos de idade, estava jogando baseball na rua com os irmãos e vizinhos em Los Angeles, um produtor de cinema passou, viu e a chamou para um teste, o resto é história.Em 1925, aos 16 anos, Carole assinou seu primeiro contrato com a Fox, sendo o mesmo anulado no ano seguinte por conta de um grave acidente de carro que ela sofreu e danificou seu rosto. Na época a evoluída medicina acreditava que uma cirurgia plástica de reconstrução sairia melhor sem anestesia e lá foi Carole fazê-la aguentando toda a dor necessária. Tal fatalidade poderia significar o caos para uma carreira que prezava a beleza acima de tudo tal como era o cinema dos anos 20, mas depois da cirurgia e sempre acompanhada dos melhores maquiadores para cobri-lhe os resquícios de cicatrizes na face, Carole seguiu em frente na produtora de Mack Sennett, onde fez inúmeros curtas cômicos e sem deixar de mostrar que estava alí uma ainda belíssima mulher.
Mas é na transição do cinema mudo para o falado que Carole começa a ser notada, com muitas das estrelas da velha guarda caindo por terem vozes pouco agradáveis, Carole começa a ter chance em longas por ter uma bela voz e leveza no falar somada às suas outras qualidades naturais.
No início dos anos 30 Carole se casa com o sofisticado William Powell, foi com ele que ela fez sua melhor cena, a memorável chuveirada de Irene – A Teimosa, papel este que lhe rendeu sua única e merecidíssima indicação ao Oscar de Melhor Atriz, mas acabou perdendo para Luise Rainer por seu papel em Ziegfeld – O criador de estrelas, que coincidentemente também tinha William Powell como ator principal. Carole se culpava pelo fim de seu casamento de dois anos, pois se dizia preocupada demais com a própria carreira deixando o relacionamento em segundo plano. Anos depois, na ocasião do casamento com Clark Gable, disse que este seria diferente e tornou-se famosa a frase “Pa comes first”, tanto foi verdade que durante esse casamento deu mais atenção em elevar a carreria do marido do que a sua própria. Nessa época ela também era a dona festança, uma party girl por excelência.

"We called her The Profane Angel because she looked like an angel but she swore like a sailor. She was the only woman I ever knew who could tell a dirty story without losing her femininity." - Mitchell Leisen

"We called her The Profane Angel because she looked like an angel but she swore like a sailor. She was the only woman I ever knew who could tell a dirty story without losing her femininity." - Mitchell Leisen

Em 1934 sua vida é novamente afetada por um acidente, seu primeiro relacionamento sério pós-divórcio, o crooner Russ Colombo, morre acidentalmente durante uma brincadeira de um amigo com pistolas de duelo. Mais marcante ainda é a reviravolta que sua carreira dá por conta de sua saída da Columbia Pictures, com o novo contrato da Paramount conseguiu o status de estrela de primeira grandeza em pouco tempo.
Em meados dos anos 30 Carole inicia o relacionamento com Clark Gable que por muito tempo foi mantido longe dos holofotes, pois a então esposa dele não queria lhe dar o divórcio. Formavam um casal tipicamente oposto, ela sempre libertária religiosa e moralmente, ele com a sua devida cota de conservadorismo e machismo. Em 1939 finalmente se casam e vão morar numa fazenda onde criam uma verdadeira arca de Noé. Carole extremamente decepcionada ao descobrir não poder ter filhos, se joga na vida campestre bem longe das noitadas que tanto lhe agradavam no início daquela mesma década, agora profissionalmente independente faz poucos filmes e só os que lhe apetecem fazer.
Chega a Segunda Guerra Mundial, logo após o término da colossal sátira To Be or Not To Be, sempre genuinamente preocupada com as pessoas, Carole resolve participar politicamente de tal período usando sua notoriedade na angariação de fundos e num estranho vôo datado de 16 de janeiro de 1942 o avião em que se encontrava ao lado de sua mãe bate numa montanha.
Algo me chama atenção: nunca li nenhuma palavra venenosa de Joan Crawford a respeito de Carole. Por quê? Crawford era aquela a chacoalhar o guizo para deus e o mundo e nos anos 30 fora apaixonadíssima por Gable, tanto que no fim de sua vida clamava que o único homem que realmente amou fora ele, talvez uma prova de que Carole era tão fascinantemente luminosa que tinha o respeito até da habitualmente venenosa Crawford ou simplesmente seu respeito por Clark era demasiado para se sentir à vontade com qualquer destilação, ou ainda ela era só mais uma dissimulada mesmo. Mas não só isso, Crawford foi quem segurou a onda de desespero de Gable após a morte de Carole e a substituiu no filme em que estava prestes a rodar, doando seu salário em nome de Lombard para a Cruz Vermelha. Outra historinha bacana é sobre Lucille Ball tendo um sonho com Carole, onde esta aconselhava Lucille a tentar a carreira na TV com I Love Lucy. Lucille seguiu os conselhos da falecida e deu no que deu.
O que se tornou mesmo lendário são as coisas que os amigos de Gable contavam sobre sua adoração pela esposa e como nunca mais foi o mesmo depois de sua partida, ou ainda, como na ocasião da morte de Carole em que ele foi até a montanha onde caiu o avião em que Carole se encontrava e em desespero absoluto apenas saiu de lá quando havia a certeza de que não a encontraria viva. Talvez algo de sentimento de culpa, pois Carole pegou aquele avião e não um trem como fora previamente planejado porque ouvira rumores de um suposto caso entre Gable e Lana Turner durante as filmagens de Ainda Serás Minha. Depois disso ele surtou, foi pra Guerra e só voltou ao cinema 3 anos depois entregando-se ao alcoolismo permanentemente.

Considerações de Carole após Clark ser coroado The King of Hollywood “If his pee-pee was one inch shorter, they’d be calling him the Queen of Hollywood.”

Considerações de Carole após Clark ser coroado The King of Hollywood “If his pee-pee was one inch shorter, they’d be calling him the Queen of Hollywood.”

Então façamos um apanhado geral da carreira de Carole, primeiro os filmes em que ela aparece como personagem, depois os que fez e por último alguns documentários e filmes curiosos. Obviamante citarei apenas os que vi, pois não sou muito dada a falar de coisas que desconheço. A maior perda fica por alguns filmes dos anos 20 os quais participou, especialmente sua estréia em 1921 com A Perfect Crime aos doze anos, mas é realmente impossível encontrar certos filmes dessa década.

RKO 281 (Benjamin Ross, 1999)
Carole aparece como personagem neste filme sobre a vida e quase morte de Cidadão Kane. A verdade é que Carole é a principal culpada pela existência de Cidadão Kane, Orson Welles estrearia na direção com um filme chamado Smiler with a Knife, mas sob hipótese alguma ele o faria sem Lombard, mas esta sentindo o peso da responsabilidade de trabalhar com o mais novo queridinho da América com grandes chances de colocarem a ambos ardendo numa fogueira, resolveu ir em territórios mais calmos como o bom e velho Hitchcock e sua família Smith. O resto é história, essas são as vantagens em se ganhar um não de uma mulher.
Não só de esnobar Orson Welles ela viveu, deu também sua devida esnobadela em Howard Hawks (que era seu primo) pelo papel principal de Jejum de Amor e em Frank Capra por O Galante Mr. Deeds, quando finalmente Lombard poderia redimir os filmes meia-boca que fizera ao lado de Cary Grant e Gary Cooper. Hoje ninguém vê outra pessoa além de Rosalind Russell e Jean Arthur em tais papéis.

Os Ídolos Também Amam (Gable and Lombard, Sidney J Furie, 1976)Carole é interpretada por Jill Clayburgh que realmente não se parece nada com ela e Gable é encarnado por James Brolin (hoje mais conhecido como pai-do-Josh-e-marido-da-Barbra) que ficou assustadoramente parecido, mais pela sua cota de charme do que pelo físico propriamente dito.
O diretor Sidney J. Furie acabou com a tal fama de ter enterrado a série de filmes do Superman nos anos 80 com aquele escabroso exemplar IV, mas antes de tudo isso ele realizara pelo menos dois filmes realmente díficeis de serem ignorados, o primeiro filme de Harry Palmer, Ipcress – O Arquivo Confidencial (1965) e o filme em que Diana Ross interpreta Billie Holliday, O Ocaso de uma Estrela (Lady Sings the Blues, 1972). Em Gable and Lombard as intenções são boas e ele nos deu um filme razoável em clima de screwball, algumas cenas com inspiração a partir de outras que os próprios Clark e Carole protagonizaram nas telas dos anos 30.

The Scarlett O’Hara War (John Erman, 1980)
Sim, Carole foi uma das zilhões de atrizes que disputaram a vaga de Scarlett enquanto seu marido era o Rett definitivo, hoje é difícil ver outra pessoa além de Vivien Leigh no papel, mas uma das poucas atrizes que poderiam ser insuportavelmente mimadas, fortes e manipuladoras tanto quanto Leigh seria Miss Lombard.Just before her relationship with Clark Gable began in earnest, Carole read and loved the book “Gone With the Wind”. Excited, she sent a copy of the book to Gable, with a note attached reading “Let’s do it!”. Gable wrongly assumed she was making a sexual advance to him, and called Carole to organize a date. When he found out Carole wanted to make a film the book with him as Rhett Butler and herself as Scarlett, he refused, and kept the copy of the book she had given him thereafter in his toilet.

Nota: Para mais fatos e curiosidades sobre Lombard, recomendo o recém fundado Carole Lombard .org, ainda no início mas que promete grande conteúdo.

Update: Reiterando o caso Joan Crawford. hehehe Eu disse que a vaca não deixava passar ninguém.

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