O Menino da Porteira

Mamãe detesta cinema. Destesta música e lembro dela lendo alguns livros que eu trazia da escola quando era criança. Mamãe sempre foi muito simples, de pouco estudo, conseguido nas precárias escolas rurais de meados do século XX, “da época em que se ia para a escola de picuá” como ela diz. Estava numa dessas aulas quando a professora avisou que Getúlio havia se matado, o que ela imaginou neste momento só deus sabe. Mamãe nem sequer completou o primário.
Mas mamãe sempre foi um exemplo de caráter, simplicidade, dignidade e inteligência para mim e na medida do possível até de feminismo, papai sempre parecera meio bobo e dispensável diante dela, aquela mulher de sensibilidade extrema, completamente maluca, de origem obviamente italiana e se apresentando como uma fortaleza monumental.
Na última semana, peguei mamãe pela mão e levei-a ao cinema, fomos ver o recente O Menino da Porteira. Não ia com ela ao cinema desde minha primeira experiência dentro de tal sala que hoje me é mais íntima do que minha própria casa. Estava sentada em seu colo quando vi pela primeira vez aquele telão se acender, ainda morávamos na roça, a qual deixei apenas na adolescência, naquela noite tínhamos ido à cidade ao lado de papai com a única intenção de ver aquele filme. O filme? O Menino da Porteira, o original.
Se a versão de 2009 é boa? Sinceramente, não creio que isso importe.

Nota: Nesse meio tempo também ocorreu a morte de Carreirinho, um outro grande símbolo da minha infância. Na época da roça em que eu pegava a perua para ir a escola, enquanto tomava o leite quentinho ficava a ouvir as modas de viola tocando no rádio, as quais me entristeciam muito causando-me imensa angústia. É claro que as músicas do Zé Carreiro e Carreirinho também tocavam.

2 thoughts on “O Menino da Porteira

  1. Lembrança mais antiga que tenho de cinema é um poster do Dracula do Coppola num antigo cinema em Barra do Piraí. Só tinha idade pra ver O Rei Leão, mas o poster sensacional do Dracula fazia o cinema parecer quase uma igreja medieval (e depois virou igreja mesmo, mas evangélica).

    Mas antes disso eu lembro do meu avô alugando pilhas de filmes e monopolizando a TV, sendo que ele dormia em quase todos os filmes.

    E roça rules. Acho que ninguém na faculdade entendia porque eu precisava voltar pra Barra de vez em quando, enquanto eu não entendia como alguém podia ficar tanto tempo numa cidade tipo o Rio.

  2. Li agora, entre um espaço de tempo a outro, e correndo, essas linhas me pararam e me deslocaram para um instante de perenidade. A infância.

    Lindo depoimento.

    abs Dri

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