Cem anos de James Mason – Parte 4

37- Brincadeira de Criança (Child’s Play, Sidney Lumet, 1972)Child's Play - JAMES MASONTenho trauma e medo de professores de latim, especialmente daqueles que passaram por seminário, para meu desespero Mr Mason encarna uma dessas pragas, com maestria já que ele me fez recordar exatamente como eram: mesquinhos, venenosos, sádicos e moralistas. É um filme pesado e peculiar do Lumet, pode-se dizer que é um filme de terror pouco usual, psicológico sobretudo, onde mais uma vez dominam as atuações. Um fato curioso sobre este filme é que Marlon Brando estava escalado para viver o antagonista de Mason e quando soube que este teria um papel melhor, simplesmente pulou fora. Tolinho egóico, não sabia Brando que melhores papéis sempre vão para os melhores atores?

38- Mundos Opostos (East Side, West Side, Mervyn LeRoy, 1949)East side West side - BARBARA STANWYCK & JAMES MASONYou’re spoiling what was a beautiful memory. I don’t remember you as being this cheap. Melodrama interessante com um elenco de dar calafrios, Babs Stanwyck e Mason formam um dos casais mais elegantes e charmosos que já pude ver nas telas, enquanto Ava Gardner é a destruidora de lares habitual com quem James forma um segundo casal muito mais tórrido e com direito aos habituais tabefes de Mr Mason, o que obviamente muito apetece a tia Ava. Até o usualmente insuportável Van Heflin está deveras apaixonante aqui, a juvenil Cyd Charisse e a futura primeira dama americana, Nancy Reagan, também dão o ar da graça e é esse elenco que carrega o filme nas costas. A fofoquinha deste filme é que na vida real Ava Gardner estava de fato tendo um caso com o marido da Stanwyck, Robert Taylor, naqueles idos.

39- Os Destruidores (The Marseille Contract, Robert Parrish, 1974)Marseille Contrat - Michael Caine, James MasonMr Mason sofrendo das fatalidades dos anos 70: interpretando um barão da droga e enfrentando Michael Caine. Provalmente um dos filmes mais injustiçados de sua carreira, naufragou na bilheteria e não é lançado em DVD em lugar algum, mas é um baita thriller de ação que só os anos 70 sabiam produzir e não por acaso foi amplamente homenageado em 007 Contra Goldeneye. Mason vive o bandidão chiquérrimo que precisa ser detido, para isso é necessário que alguém igualmente chiquérrimo se infiltre no seu círculo, cargo que vai parar obviamente nas mãos de Michael Caine. Memorável trilha sonora de Roy Budd.

40- They Were Sisters (Arthur Crabtree, 1945)They Were Sisters (1945) - Phillis, Pamela e JamesÓ céus, lá vamos nós de novo. Mason no melhor do sadismo, aterrorizando psicologicamente esposa e filha, esta interpretada por sua esposa Pamela, o que carrega ainda mais na atmosfera psicanalítica de incesto. A premissa lembra muito aquele The Sisters com a Bette Davis e o Errol Flynn, mas o desenvolvimento é bastante distinto, especialmente pelo aterrorizante caráter da personagem de Mr Mason, tingindo as nuances da persona que futuramente desenvolveria em Bigger Than Life.

41- O Prisioneiro de Zenda (The Prisoner of Zenda, Richard Thorpe, 1952)The Prisoner of Zenda (1952) - JAMES MASON & STEWART GRANGERWomen are never in their right senses, thank goodness! Falemos seriamente, aquela luta de espadas entre Stewart Granger e James Mason é sensacional, realmente adoro lutas de esgrimistas e espadachins, mas dessas artesanais, hoje ninguém consegue colocar uma luta sem ter um CGI no meio. Cruzes. Mason está deliciosamente mau, muito mau, na pele de Rupert of Hentzau, um dos seus papéis mais irresistíveis, voltando a se encontrar com seus companheirinhos de tempos de ilha: Stewart Granger e Deborah Kerr. Granger foi o rei do capa-espada dos anos 40/50, mas Mason não faz nada feio em graça e desenvoltura, não à toa a fascinação de Mason por felinos foi excencial para sua própria carreira, não apenas na forma de olhar, como em seus movimentos, é só vê-lo aqui saltando e se esgueirando como um gato.

42- The Man in Grey (Leslie Arliss, 1943)The Man in Grey (1943) - JAMES MASON & MARGARET LOCKWOODComo o homem de cinza, Mason dá início ao seu reinado no Gainsborough Studios esbanjando escrotisse, mau humor e cabelos encaracolados ao viver Lord Rohan, é aqui que o termo “sexy sadism” vira sinônimo de sua presença em cena e o acompanhará nos próximos anos. Os filmes da Gainsborough funcionavam basicamente com a mesma dinâmica, onde Mason sempre era o sádico/vilão/anti-herói, Margaret Lockwood era a perversa, Stewart Granger era o herói e Phyllis Calvert era a heroína, de vez em quando alterava-se o elenco, mas o ciclo era sempre mais ou menos este. Claro que sendo o filho da puta, Mason sempre acabava chamando mais atenção, embora Granger tenha garantido seu posto como futuro herói hollywoodiano de capa-espada nesta mesma época.

43- La Polizia Interviene: Ordine di Uccidere (Giuseppe Rosati, 1975) The Left Hand of the Law - Leonard Mann & James MasonNeste poliziottesco Mason faz as vezes do burocrata político, num dos seus muitos papéis pequenos mas de grande efeito dramático e narrativo, apesar do filme ser algo menor do sub-gênero e contar com um dos seus ícones Leonard Mann. Também serve para vê-lo dividindo cena novamente com Stephen Boyd, matando saudades de alguns dos filmes que fizeram juntos, em especial de A Queda do Império Romano, uma outra era italiana de que também fizeram parte.

44- O Fim de Sheila (The Last of Sheila, Herbert Ross, 1973)Last of Sheila - James Mason, Rachel Welch, Joan Hackett, Ian McShane, Dyan Cannon & Richard BenjaminTirando a rápida e exuberante participação inicial de James Coburn, sem dúvida a de Mason é o ponto forte de todo o filme. A cena em que tentam assassinar Mason com fantoches é no mínimo bizarra, tanto quanto sua interpretação de um cineasta pedófilo filmando com criancinhas, mas nada paga o gozo de ver James Coburn como uma freira-travesti-putona. Isso tudo saiu das mentes de Anthony Perkins e Stephen Sondheim, dois doentes natos, é claro.

45- O Declínio dos Anos Dourados (The Shooting Party, Alan Bridges, 1985)James Mason & John Gielgud in The Shooting PartyMy fellow murderers are rather hot blooded. Último filme gravado por Mason antes de morrer e felizmente um ótimo desfecho de carreira, estando muito bem acompanhado de Sir Edward Fox, Dame Dorothy Tutin e Sir John Gielgud. Produção que influenciou o excelente Gosford Park de Robert Altman, mostra plebe e aristocracia, empregados e patrões, envoltos em intrigas, traições, romances, marcando o final da era vitoriana e da aristocracia britânica. Aqui a presença em cena de Mason é especialmente brilhante, marcada por poucas falas e atitudes, mas cheia de um resplancer de alguém que muito viu e viveu, de que nada mais pode ser feito além de observar e esperar, marcando não apenas o fim daquela fatídica era da cultura britânica para a personagem, como marca o fim de uma era de atores tais como ele próprio. Uma cena em particular entre o anfitrião Mason e o vegetariano ativista Gielgud tornou-se notória pela sua excelência, um momento engraçadíssimo de como dois homens maduros e bem educados jogam para escanteio as diferenças ideológicas, marcando o reencontro e partilha final dos dois monstruosos atores.

46- O Céu Pode Esperar (Heaven Can Wait, Warren Beatty/Buck Henry, 1978)Heaven Can Wait - Warren Beatty, Buck Henry, James MasonThe likelihood of one individual being right increases in direct proportion to the intensity with which others are trying to prove him wrong. Nunca é demais recordar: este não é remake do filme do Lubitsch e sim do Here Comes Mr. Jordan do Alexander Hall. Mason fica a cargo do papel-título que fora de Claude Rains na versão de 41, o que é interessante, já que sempre pode-se notar certa semelhança física entre Mason e seu conterrâneo Rains. Mr Jordan é o filho da mãe que escolhe quem vai entrar no céu ou não, ou seja, finalmente deram um papel à altura do poder de Mr Mason.

47- Raposa do Deserto (The Desert Fox: The Story of Rommel, Henry Hathaway, 1951)DESERT FOX - JAMES MASONMason é até hoje o Rommel definitivo, antes dele Von Stroheim encarnara o general em Five Graves of Cairo do Billy Wilder, mas era 1943 e isso fez com que Stroheim fosse pouco lisongeiro ao interpretá-lo, anos depois Mason veio e deu-lhe um pouco mais de humanidade criando um dos seus personagens mais interessantes, apesar de soar um tanto inacurado historicamente, é a criação do pacifista Mason que se vê e não o estrategista impecável.

48- Resgate Suicida (North Sea Hijack, Andrew V. McLaglen, 1979)Anthony Perkins, James Mason, Roger Moore - NORTH SEA HAILJACKÉ bem estranho ver Roger Moore pronunciando sua famosa frase “I like cats, and I don’t like people who don’t” olhando inquisitivamente para Mason enquanto este faz cara de culpado. Mason, foi provalmente o ator mais apaixonado por gatos de que já tive notícia, inclusive co-escreveu com sua então esposa Pamela e ilustrou um livro chamado “The Cats in Our Lives“. É um filme de ação, mas também é um filme sobre gatos, onde Mason tem que aturar o misógino, excêntrico e gatófilo personagem de Moore para que este acabe com a brincadeira de Anthony Perkins que teima em explodir uma plataforma de petróleo. Este filme é o pai biológico de Duro de Matar.

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