Cem anos de James Mason – Parte 8

83- The Bells Go Down (Basil Dearden, 1943)The Bells Go DownMason interpretou todo tipo de pessoa e caráter, nesta produção da Ealing Studios a vez chegou para uma heróico bombeiro. Durante a segunda guerra com os bombardeios constantemente arrasando a Inglaterra, o Corpo de Bombeiros era algo mais importante do que o próprio exército e este filme teve a intenção de prestar-lhe uma pequena homenagem. Basil Dearden sempre fora um cineasta interessante dentro da golden age britânica, mas aparentemente esse tipo de filme sobre heroísmos de guerra não lhe caía muito bem, ou simplesmente não tenho muita tolerância sobre o tema, embora este seja um dos primeiros trabalhos de Dearden na direção, portanto é passível de excusas. Mason é o sério capitão do esquadrão, enquanto o alívio cômico fica por conta do astro popular Tommy Trinder, cujo jeito de falar me lembra o cockney Michael Caine e a forma de interpretar faz-me recordar do Hugh Laurie dos anos 80.

84- Subterrâneo de Assis (The Assisi Underground, Alexander Ramati, 1985) Assisi undergroundThere are 45,000 Italian Jews. They are all our Jews. We are responsible for them. Desta vez Mr Mason não encarna um alemão e sim um bispo italiano, mesmo assim ele não deixa de ter Mr Schell novamente ao seu lado como soldado alemão que, pasmem, ajuda os judeus italianos. A versão que assisti foi a de duas horas, mas a versão original possuía três, não sei qual delas é melhor, mas é um bom filme para a TV, sem o excesso emocional irritante que podemos ver em filmes como A Lista de Schindler, é um fato histórico interessante sobre um dos segmentos católicos que não fecharam os olhos para com o holocausto judeu, se tratavam de franciscanos e todos sabemos que a ordem católica realmente digna de respeito é a dos seguidores de São Francisco de Assis.

85- O Retorno do Pimpinela Escarlate (Return of the Scarlet Pimpernel, Hanns Schwarz, 1937)James Mason as Tallien and Margaretta Scott as Theresa in The Return of the Scarlet PimpernelMr Mason com 28 aninhos vivendo Jean Tallien, o amiguinho revolucionário que acabou com a farra do Robespierre. Pimpinela Escarlate é um grande personagem de aventura e sinto falta de mais filmes baseados nele, embora até Powell/Pressburger tenham se envolvido com herói, faz falta no cinema dos anos 60 e 70. O problema maior do Pimpinela Escarlate é que tal imagem está irremediavelmente associada ao Patolino por toda a eternidade, é o peso das imagens ligadas à infância.

86- Spring and Port Wine (Peter Hammond, 1970)Spring and Port Wine (1970)Ó céus, o homem que outrora espancava mulheres com bengalas e chicotes, agora jogando bocha! Este é o típico filme em que os ingleses costumam muito elogiar, não por outros motivos que não o de retratar de época e costumes familiares do norte têxtil da Inglaterra nos anos 60, o que torna o filme bem mais interessante para quem alí viveu neste período do que para nós, reles habitantes da senzala sul-americana. É esse bairrismo que impede um maior desenvolvimento de temas universais e atemporais, soa mais como um documento histórico do que uma peça de relações humanas com as quais os habitantes do resto do mundo poderiam se identificar. É estranho ver Mason como trabalhador braçal, um pai de família com mão de ferro que joga futebol e bocha, não que deixe de dar conta do recado, mas é um tanto unusual, embora a presença de Susan George mais espevitada do que nunca balanceie as coisas. Se não me engano, este é o único filme para cinema de Peter Hammond, que por décadas foi diretor na televisão inglesa, mas especificamente da BBC.

87- Passageiros do Inferno (The Passage, J. Lee Thompson, 1979)The Passage - Patricia Neal & James MasonVejam só, Mr Mason nos Pirineus fazendo filme de ação aos 70 anos! Desta vez Mason é o cientista perseguido pelos nazis e ajudado por Christopher Lee e Anthony Quinn, enquanto no seu encalço segue um Malcolm McDowell ultra perverso e caricato. Nada de novo, nada de sensacional, mas não é todo dia que vemos McDowell colocando fogo no Lee ou uma cueca estampada com suástica.

88- A Quadrilha da Fronteira (Bad Man’s River, Eugenio Martín, 1971)James Mason, Gina Lollobrigida, Lee Van Cleef - Bad Man's RiverFaroeste modernoso com direito até a rock and roll na trilha. Poderia se esperar mais de um spaghetti onde Mason e Lee Van Cleef dividem Gina Lollobrigida da forma mais amigável possível, embora não deixe de ter seus momentos de ampla diversão.

89- A Nau dos Condenados (Botany Bay, John Farrow, 1953)Botany Bay (1953) - ALAN LADD, PATRICIA MEDINA & JAMES MASONRá! A vilania de Mason não tem fim! Mason é o capitão do navio responsável por levar a escória inglesa para a Austrália, na época em que o país ainda era a grande penitenciária do Império, é um sádico que não suja as mãos: manda fazer. É um tipo de papel que fizera a sua fama na Inglaterra e que havia abandonado em Hollywood, ao menos até o ano anterior com o Prisioneiro de Zenda. O filme dá direito a sessão de chicotadas nas costas perfeitas de Alan Ladd, aliás, sempre me esqueço disso, mas Ladd era um puta homem bonito.

90- A.D. – Anno Domini (Stuart Cooper, 1985)A.D. - Anno DominiTá bom, eu confesso, não assisti essa desgraça inteira. Essa porra é uma minissérie de 11 horas, um épico que conta a história romana do momento da morte de Jesus ao império de Nero e só assisti até o momento em que Mason morre, o que para a minha salvação ocorreu nas primeiras horas (thank god!). É uma espécie de continuação da minissérie do Zeffirelli sobre Jesus com o mesmo Anthony Burguess como roteirista, daquele elenco retornaram Mason, Fernando Rey e Ian McShane, outrora José de Arimatéia, Gaspar e Judas, agora como Imperador Tibério, Sêneca e Sejano. É lógico que Tibério era pedófilo, é lógico que o único ser em que confiava era sua cobra de estimação, é lógico que ele espanca pessoas até com peixe, é lógico que Mason e McShane formavam um dupla deveras perigosa. Também é o último filme em que Mason e Ava Gardner constam juntos no elenco, embora infelizmente não dividam cena.

91- The Water Babies (Lionel Jeffries, 1978)The Water Babies (1978)Neste estranho exemplo de filme infantil mezzo animação, mezzo live-action, Mr Mason encarna uma personagem com ares dickensianos. Não sei, deve ser um filme bacana para as crianças, mas filmes infantis bons têm que passar pelo crivo do passar dos anos e permanecer bom, como só vi Water Babies na fase adulta e não me apeteceu, então não é algo que eu recomende com afinco. A mesma história rendeu aquele curta animado da Disney que é bem melhor do que esse equivocado atentado do ator Lionel Jeffries.

92- Genghis Khan (Henry Levin, 1965)Genghis Khan (1965)É lógico que Mason é um maldito chinês. É lógico. Recentemente lembramos com aquele inspirado Downey Jr o rídiculo daqueles tempos em que os atores orientais não podiam se estabelecer no cinema ocidental, o que se fazia então? Puxava-se, esticava-se e pintava-se. É deprimente ver Mason aqui, por melhor ator que seja, a impressão estética é dolorosamente fake. O filme não funciona como épico visual, nem como interesse histórico, é um desperdíco de gente boa, tempo e dinheiro. Um dos poucos filmes em que podemos ver Mason com alguma maquiagem, porque simplesmente ele não estaria aqui se não maquiado, nem se aquela Pamela não tivesse tirado até as calças dele no processo de divórcio.

93- A Herdeira (Bloodline, Terence Young, 1979)Bloodline - Audrey Hepburn & James MasonUma daquelas tramas absurdas do Sidney Sheldon envolvendo espionagem industrial, filmes snuff, computadores de última geração, serial killers, perversão sexual, etc etc, com elenco estelar e internacional, trilha sonora do Morricone num filme horripilante de horrível. Horrível, horrível. E quem em sã consciência colocaria Mr Mason como vilão num tipo de filme cuja pretensão é deixar em suspenso quem de fato tem a culpa? Mason sempre é o culpado, oras. Não é normal eu pedir para as pessoas correrem de um filme, especialmente por ser a favor de uma segunda chance, mas faça um favor a si mesmo e à aura dos grandes atores que alí estão: FUJA!

Nota 1: Muito me intrigou o fato de Mason nunca ter trabalhado com David Lean, um tipo de cineasta que facilmente trabalharia com ele, até que há algum tempo soube o motivo dessa parceria não realizada: Noel Coward e Nosso Barco, Nossa Alma (In Which We Serve, 1942). Lean queria a escalação de Mason para In Which We Serve, coisa que Coward vetou por conta da notória natureza pacifista e anti-bélica de Mason, clamando que “um homem que não pode vestir um uniforme na vida real, não o poderia fazer no cinema”, sou assumidamente fã da arte do tio Noel, mas o “incidente James Mason” lhe proporcionou a maior bobagem que já disse, como uma das maiores bobagens que já ouvi qualquer ser humano dizer, pois até onde sei Mr Mason era um ator e atores tendem a interpretar e não ser um espelho de suas personagens. Que vergonha, tio Coward!

Nota 2: Nada me doeu mais do que ter que chamar Mason de Mr o tempo todo, quando obviamente deveria chamá-lo de Sir, até aquela porra de Sean Connery que passou os últimos 50 anos pregando publicamente a independencia da Escócia ganhou o título de Cavaleiro e Mr Mason não. Se esta não é a maior vergonha dos almofadinhas palaciais, não tenho a mínima idéia de qual seja (tá bom, tem a Diana também). Não à toa o homem viveu os últimos 20 anos de sua vida na Suíça, o mais neutro dos países, assim como ele mesmo o fora.

Nota 3: Um ator fascinante, um homem fascinante. FASCINANTE.

JAMES MASON - MoustacheI recall telling him that one day the camera was going to love him and make him a very great star. James just [looked] at me in disbelief. He was incredibly good-looking, in a dark way. … He had that curious quality of a man with an eternal secret. … That was what was so arresting. … That and, I guess, the voice. – Geraldine Fitzgerald sobre quando o conhecera em 1937

4 thoughts on “Cem anos de James Mason – Parte 8

  1. Where did you find copies of all these films?

    Amazing tribute – thank you so much. James Mason was such a unique actor. I am glad people still remember and appreciate him.

    Like

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