Plus 24 Frames: O Idiota (Hakuchi, 1951)

Tenho uma relação estranha com O Idiota – gosto muito dele, mas acho que todo mundo que viu esse filme concordaria que é uma bagunça e isso não se deve à sombra de um livro de Dostoiévski pairando em algo que deveria ser infilmável (como todo Dostoiévski fatalmente o é), se deve provavelmente ao assombroso corte que o filme teve – não foram dez minutos, nem meia hora, foram cerca de uma hora e meia! O que para uma versão de diretor é o mesmo que uma tortura seguida de assassinato, que o digam Stroheim e Cimino. Mesmo com todos aqueles cortes abruptos e montagem truncada (Kurosawa preferiu cortar o filme aqui e alí, ao invés de cortar sequências inteiras) ainda gosto de O Idiota e tenho muita esperança que a versão completa de quase 5 horas sane todos os defeitos mais evidentes, especialmente quanto ao desenvolvimento de personagens que em meio ao filme nos davam a sensação de estarem sendo mutiladas a estilete.
O mais importante é que ainda existe no mundo uma única e mísera cópia da versão sonhada por Kurosawa, que nem ele ou sua família sequer puderam ver porque o velho maníaco que a possui não deixa que ninguém a veja – aí fica a minha pergunta: como uma mente pode ser tão absurda (seja lá o que gera tal comportamento tão estarrecedor) que corre o risco de destruir uma coisa tão única e tão importante para a história da arte pelo simples fato de não querer que mais ninguém o veja? Se ele fosse o autor de tal obra seria altamente compreensível e justificável (lembra do Kafka?), mas ficar ao bel prazer de um maníaco é um tanto quanto desesperador, pelo menos até que esse tal velho maldito filho de uma puta MORRA E QUEIME NAS PROFUNDEZAS DO INFERNO.

Nota: Tá bom, o velho não é louco, ele só pensa diferente de mim. Sou uma daquelas pessoas egoístas querendo que o mundo inteiro tenha mais conhecimento e sabedoria compartilhada só para que eu fique menos deprimida. Infelizmente sou suficientemente tacanha (e idiota!) por não concordar em usar conhecimento para manter um certo tipo de elitismo.

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2 thoughts on “Plus 24 Frames: O Idiota (Hakuchi, 1951)

  1. Eu tive um professor que achou nos classificados de um jornal um anúncio de uma locadora vendendo um acervo de centenas de filmes em 16mm. Lembro que ele comprou por um preço ridículo, e era tanta coisa que ele precisou deixar as latas no MAM, sendo que boa parte desses filmes ainda nem sabem o que é, porque é muita coisa e não deu tempo de olhar! Se não me engano, alguns filmes brasileiros considerados perdidos tavam no meio e foram restaurados a partir dessas cópias.
    Ele também achou nos classificados um anúncio de um senhor aqui do Rio vendendo uma mesa de edicão! E parece que ajudou muita gente nisso, disponibilizava pra alunos, alugava por preços bem acessíveis pra outras pessoas, etc. Enfim, tudo isso só pra dizer que o cara é tão bacana quanto alguém pode ser, e foi o primeiro a ser demitido na nova admnistração da Estácio. Agora me diz: que merda de faculdade de cinema é essa que manda alguém assim embora?

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    • Depois ninguém sabe porque o sistema de ensino é uma merda – bom, todo mundo sabe, mas continua dando essas palhaçadas.
      E que agonia essas latas sem olhar – imagine o que pode ter alí!!!

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