A Tempestade (The Tempest, 1979)

The only British feature director whose work is in the first rank – Jarman sobre Michael Powell

Michael Powell passou mais de vinte anos de sua vida correndo atrás da sua tão sonhada adaptação de The Tempest, do início dos anos 50 até meados dos 70, quando quase chegou às vias de fato com James Mason no papel de Próspero e Mia Farrow no papel de Miranda. Como não deu certo, sua suntuosa versão sempre paira em listas de grandes filmes jamais feitos e talvez esse fascínio seja explicado da mesma forma que a representação de Próspero como um reflexo da própria mente de Shakespeare à época de sua concepção e iminente aposentadoria, um ato de fechamento do ciclo, a despedida de Prospero de sua arte e tempestuosa mente convertida em ilha, a rendenção plena. A verdade é que Powell projetou a peça em vários de seus filmes usando especialmente forças da natureza internas e externas para refletir o estado psicológico de seus protagonistas, dos quais o mais óbvio e notório exemplar foi o Age of Consent de 1969 com o próprio Mason, mas antes disso alguns dos elementos já pairavam em I Know Where I’m Going onde mais uma vez Mason deveria ter sido o ator principal (ó céus, James Mason de kilt! mas foi para Roger Livesey), A Matter of Life and Death, Black Narcissus e em The Edge of the World.

The God symbol is a stylized representation of the Horned God, who in Wicca represents the masculine polarity of the universe. The horned god is the archetypal horned Shaman, related to the ancient Gods of vegetation and the hunt: Greek Pan, the Celtic Cernunnos, and the Egyptian Ammon.

Aí entra Derek Jarman que divide com Ken Russell e Peter Greenaway o fascínio e grande influência exercida por Powell na então nova geração de cineastas ingleses, Ken Russell ficou por isso mesmo, mas Jarman e Greenaway fizeram questão de adaptar a obsessão do mestre segundo suas respectivas visões e de quebra ainda curvam-se em grande homenagem.
Prospero’s Books fica para outro dia (é mesmo a melhor versão da peça, Greenaway assimilou vários momentos desta versão de 1979), a visão de Jarman é mote da vez e aqui ele está bem mais contido quanto ao homoerotismo que geralmente transborda em seus filmes (seria Jarman o diretor inglês mais gay de todos os tempos?), o que não impede de ser um exemplar do queer cinema em toda a sua glória, com direito a dancinhas orgíacas de marinheiros, uma visão hedonística de Caliban e seus conspiradores, alta tensão sexual entre Prospero e Ariel – este que há séculos transmuta entre ser uma personagem feminina ou masculina, além da cereja do bolo queer: uma apresentação extravagante ao som de Stormy Weather. Mas apesar desse clima Pasolini-encontra-Ken-Russell-e-Shakespeare, isso tudo é secundário, a atmosfera geral é quase gótica, entre o sombrio e o fantasmagórico, aqui a ilha como representação da mente de Próspero atinge significados ainda mais profundos do que a habitual ilha paradisíaca dos mares do sul, na maioria do tempo ela é sombria e só quando o sentimento de vingança e redenção se desvanece há um lampejo da atmosfera gay (em ambos os sentidos) com a figura solar de Elisabeth Welch, para logo depois o reflexo de Prospero se extinguir em silêncio, desolação e, enfim, liberdade.

Don’t know why there’s no sun up in the sky, stormy weather
Since my gal and I ain’t together, keeps raining all the time
Life is bare, gloom and misery everywhere, stormy weather
Just can’t get my poor old self together
I’m weary all the time, the time
So weary all the time

When she went away the blues walked in and they met me
If she stays away, that old rocking chair’s gonna get me
All I do is pray the Lord above will let me
Walk in the sun once more

Can’t go on, everything I have is gone, stormy weather
Since my gal and I ain’t together
Keeps raining all the time
Keeps raining all the time

Nota 1: Julie Taymor está com o dedo no gatilho com uma nova versão de A Tempestade, onde Dame Helen Mirren (a Miranda de Age of Consent!) será o Prospero transsexual. Isso muito me interessa, especialmente porque Taymor é bem fã de extravaganza como pode-se ver em Titus e Across the Universe.

Nota 2: Céus, como quero me libertar deste ciclo Michael Powell. Essa merda não fecha.

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7 thoughts on “A Tempestade (The Tempest, 1979)

  1. Eu acho o início de Prospero’s Books (até os créditos iniciais, principalmente) uma das melhores coisas que o Greenaway já fez, senão a melhor. São 10 minutos que poderiam ser o filme inteiro, levando a coisa toda pra um lado que o Greenaway já tentava desenvolver desde o início da carreira – é o filme mais descaradamente “quero ser Borges” dele? Talvez empate com o The Falls.

    Ainda não vi nada do Derek Jarman. E nem do Powell! Mas ele eu já vi que vou ter que mergulhar de vez, não vai rolar ficar vendo um filme por semana.

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    • Acho o Books um desbunde do começo ao fim, especialmente pelo tipo de releitura que é feito de Shakespeare, aquela coisa do Prospero estar escrevendo o próprio livro é ótima e com isso fazer o Gielgud assumir as falas de parte dos demais personagens… PQP, se você for ler a peça isso é algo que já está implicito nela (é a coisa mais auto-referente que Shakespeare criou), mas não como um fato, não é algo que todo mundo verá e o Greenaway colocou em prantos limpos a essência da coisa. Alguém deveria fazer o mesmo com Hamlet.

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    • Esse Próspero no banho turco brincando de barquinho me remete imediatamente ao início de Coronel Blimp com o Lisevey brincando de guerrinha igualmente num banho turco. Inclui-se Coronel Blimp entre os paralelos de Powell, Here is the lake and I still haven’t changed.

      Ah, antes que me esqueça, em todas as suas pesquisas sobre o Kubrick, você já encontrou algum ponto de referência entre a introdução de 2001 e A Canterbury Tale de P & P? Isto é, aquela transição do osso/nave e o passarinho/avião http://www.youtube.com/watch?v=1rFWlT5gdgw. Isso me parece uma busca eterna entre os apreciadores de ambos, algo que pudesse ligar propositalmente uma influência, já que o sentido é o mesmo, no caso de Powell o espaço temporal é bem menor: a transição da idade média para a Segunda Guerra.

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  2. Nunca li nada sobre isso, também nunca tinha visto essa cena! Eu já vi sobre a intro do 2001 ser uma referência ao Ken Russell – parece que um daqueles filmes dele pra BBC tem uma cena bem mais parecida com a do Kubrick. Mas claro que você já deve estar aí rolando de rir e pensando em quem influenciou o Ken Russell.

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  3. Pingback: Centenário de Peter Bull | Ken Russell is Dead

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