Dalí e os Gatos Voadores

Dalí tinha o desesperante costume de projetar gatos no ar para depois os poder fotografar, em pose surreal, ou seja, sem terem qualquer hipótese de chegar inteiros ao chão. …Ao contrário de Picasso, Dalí não gostava de gatos, e fazia gala nisso. E Gala também, essa que já fora mulher e musa de Éluard, poeta que gostava de gatos e de cantar a liberdade como se cantasse a mais esplendorosa das amantes.
Sabe-se que um dos gatos, lançado no ar como um projétil de uma guerra a fingir, se viu subitamente apetrechado com um belo par de asas que lhe permitiram esvoaçar, triunfal, sobre a cabeça de Dalí….
Agachando-se junto do pintor, sem público que pudesse provocar ou insultar, o gato pediu a Dalí que lhe desse um nome….. E o pintor satisfez-lhe o desejo:
– De hoje em diante, chamar-te-às Dalí, apenas Dalí.
– E se eu quiser chamar-me Frederico Garcia Lorca?
O pintor respondeu à pergunta como se responde a uma provocação, ignorou o gato e beijou Gala nos lábios empalidecidos por uma enfermidade sem nome.
O certo é que o gato passou a ser tratado, desse dia em diante, pelo nome de Dalí, tendo um pêlo tão luzidio e negro como os bigodes do legítimo utilizador do nome…

Amados Gatos – José Jorge Letria

Publicado por Adriana Scarpin

Bibliófila, ailurófila, cinéfila e anarcafeminista. Really. Podem me encontrar também aqui: https://linktr.ee/adrianascarpin

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