Alberto Cavalcanti por Vinicius de Moraes

Que meu amigo J.O. me perdoe esta incursão nos seus domínios, mas para um velho cronista de cinema como eu, o filme é uma necessidade tão grande como a mulher para o homem, a cachaça para o cachaceiro, a lua para Paquetá. Preciso saudar Alberto Cavalcanti pelo seu primeiro trabalho de direção no Brasil, em Simão, o caolho, um filme que não é grande mas que se coloca muito acima de tudo o que já se fez em matéria de cinema popular no Brasil.
Não, não são de Cavalcanti os defeitos do filme. A sua classe como diretor está presente em tudo o que constitui “cinema” na película: movimentação das cenas no ambiente familiar, o teor geral da ação, a articulação cinematográfica do cenário. Eu pessoalmente acho a história fraca e a atuação de Mesquitinha entrava pelos seus muitos tiques teatrais. Mas, parte diretorial propriamente dita é viva e autêntica. Pela primeira vez faz-se no Brasil, dentro do difícil terreno do “popular”, um filme despido do cafajestismo típico do cinema brasileiro. De resto as palavras “Cavalcanti” e “cafajeste” são antípodas, e só quem não conhece esse homem perceptivo, delicado, intransigente e bom pode dizer mal dele.
Simão, o caolho é Brasil. Esta é para mim a sua melhor qualidade. Não Brasil, meu Brasil brasileiro, mas Brasil à Mário de Andrade, Brasil à Marques Rebelo, Brasil à Noel Rosa. Dizer que Cavalcanti não sentiu o Brasil me parece um absurdo tão grande como dizer que o Brasil sentiu Cavalcanti. Aliás quem já ouviu falar de sua vida entre outras gentes, na França, na Inglaterra – e eu estive agora seis meses entre alguns de seus melhores amigos na Europa – sabe que, mesmo longe da pátria, Cavalcanti nunca pôde viver senão cercado de coisas brasileiras, seus móveis, sua cerâmica, seus santos, seus ex-votos: trata-se de um bicho danado de supersticioso. Até nisso, brasileiro.
O Brasil tem sido extremamente estreito em sua maneira de tratar Cavalcanti. Ele não é um homem fácil não: isso em nada tem adoçado a [sua] vida num país hoje em dia caracterizado pelo puxa-saquismo sistemático. Ele tem feito inimigos, mais que amigos, e muito por essa intransigência que vem de seu amor à verdade e ao autêntico. Teimoso feito a peste isso ele é, ninguém lhe tira. Mas sua teimosia vem muito do seu bom instinto para as coisas realmente reais. Cavalcanti sente.
Quem lhe conhece a obra cinematográfica sabe que Cavalcanti pode fazer muito melhor do que Simão, o caolho. Mas dentro das difíceis condições do trabalho cinematográfico no Brasil, o filme é já, em si, um feito. Como cinema, fica muito acima das coisas que ele produziu na Vera Cruz, isto é, Caiçara e Terra é sempre terra. E insisto, é verdadeiramente popular, no bom sentido da palavra. O ambiente da casa de Simão, da vizinhança, aquele delicioso quintal tinha as interpolações da ação, certos cortes, tudo isso – malgrado um diálogo sem grande boca, e o maldito recitativo dos atores, a que ele com certeza teve de fechar os olhos para terminar seu filme em boa paz – fazem de Simão, o caolho essa coisa raríssima em nosso meio: um filme de cinema [onde] pela primeira vez também tem-se uma noção precisa do que se pode fazer com o povo brasileiro em cinematografia, com malícia e paciência.
Pena que ele não tenha podido evitar os maus gostos comerciais que enchem o fim da película. Aquele desfile de mulheres com o outro lado voltando para o público, um certo ar de teatro-revista que paira no final ficaram-me entalados na garganta. Mas são os ossos, ou melhor, a carne do oficio.
Eia, Cavalcanti.

Outros textos:

Alberto Cavalcanti e o I.N.C. (I)
Alberto Cavalcanti e o I.N.C. (II)
Alberto Cavalcanti e o I.N.C. (III)
A extinção do Crown Film Unit Britânico
Cavalcanti e a Kino Filmes
Cinema brasileiro
Terra é sempre terra (I)
Filme e realidade
Mas francamente, Dona Carmem…
O 1º Festival Internacional de Cinema do Brasil
O filme de arte

Eu soube que Cavalcanti recebeu da Mostra uma homenagem que desfaz muito das freqüentes ursadas e molecagens que lhe fizeram desde sua chegada ao Brasil. Muito bem ido. Uma tal homenagem só poderá estimulá-lo em sua atual fase existente entre nós. Aliás parece-me que já estava mais do que em tempo de a família cinematográfica brasileira considerar o dito por não dito e unir-se, à base de uma concorrência vigilante e saudável, mas sem brigas e diz-que-diz-ques de pouca ética. Há lugar para todo mundo, e quem não vencer é porque não tem essa coisa sem a qual não se faz nem cinema nem nada neste mundo: bossa.

Publicado por Adriana Scarpin

Bibliófila, ailurófila, cinéfila e anarcafeminista. Really. Podem me encontrar também aqui: https://linktr.ee/adrianascarpin

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