24 Frames: Um Amor de Swann (Un Amour de Swann, Volker Schlöndorff, 1984)

Tinha ela na mão um ramalhete de catleias e Swann viu, sob o véu de renda que lhe cobria os cabelos, flores dessa mesma orquídea presas a uma pluma de penas de cisne. Trazia sob a mantilha um amplo vestido de veludo negro que, num apanhado oblíquo, punha a descoberto o largo triângulo de uma saia de seda branca e deixava ver uma gola igualmente de seda branca na abertura do corpinho decotado, onde estavam postas outras catleias. Mal se refizera do susto que Swann lhe causara, quando um obstáculo fez o cavalo desviar-se. Foram violentamente sacudidos, ela soltou um grito e ficou toda palpitante, sem respiração.
– Não é nada, não tenha medo – disse ele. E segurava-a pelo ombro, apoiando-a contra si para sustê-la; depois disse-lhe:
– Antes de tudo, não me fale, responda só por gestos para não se sufocar ainda mais. Não a incomoda que eu endireite as flores do seu decote que se desarranjaram com o choque? tenho medo que as perca, desejaria introduzi-las mais um pouco.
Odette, que não estava habituada a que os homens fizessem tantos rodeios com ela, respondeu a sorrir:
-Não, não me incomoda, absolutamente.
Mas ele intimidado com a resposta, e talvez também porque parecera sincero ao valer-se daquele pretexto, ou começando já a crer que o fora, exclamou:
-Oh! Não, não fale, vai sufocar-se mais, pode responder-me por gestos, eu compreenderei. sinceramente, não a incomodo? Olhe, há um pouco… penso que foi pólen que se espalhou, permite que o limpe com a mão? Não bato muito forte, não estou sendo um pouco brutal? Está sentindo cócegas? Mas é que eu não queria tocar o veludo para não o amarrotar. Mas veja, na verdade era preciso prendê-las, senão cairiam; e assim, eu mesmo empurrando-as um pouco… Falando sério, não lhe estou sendo desagradável? Eu nunca o senti. Posso, mesmo?

Mas era tão tímido com ela que, tendo-a afinal possuido naquela noite, começando por arranjar as suas catleias, fosse por receio de a magoar, ou por medo de parecer que mentira retrospectivamente, ou por falta de audácia para formular uma exigência maior que aquela (e que podia renovar, pois não incomodara Odette da primeira vez) nos dias seguintes ele sempre usou do mesmo pretexto. Se ela trazia catleias no peito, Swann dizia: «Que pena! Esta noite as catleias não precisam de ser arranjadas; não saíram do lugar, como na outra noite; mas parece-me que esta não está muito direita. Posso ver se esta cheira mais que as outras?».

Em Busca do Tempo Perdido Volume 1: No Caminho de Swann (tradução do Py)

Publicado por Adriana Scarpin

Bibliófila, ailurófila, cinéfila e anarcafeminista. Really. Podem me encontrar também aqui: https://linktr.ee/adrianascarpin

4 comentários em “24 Frames: Um Amor de Swann (Un Amour de Swann, Volker Schlöndorff, 1984)

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