O Prisioneiro do Lermontov versus O Passarinho de Pushkin

Open wide my dungeon dwell,
Bring the daylight to my cell,
Black-eyed maiden of my fancy,
Black-maned steed to jump the fence!
First, I’ll kiss my beauty sweet,
Then I’ll mount my jolly steed,
Off to steppe, I’ll fly as wind.

But the window’s far too high,
Heavy lock I can’t untie,
Black-eyed maiden is away,
In her fancy palace stays.
Jolly steed plays in the field
Without harness, without yield,
Jumping blithely in the wind.

Lonesome and deserted me,
Naked walls around me,
Dimly burns my icon-lamp
in the twilight of my damp;
All I hear throughout the days —
Silent sentry’s boring pace.

Prisoner – Tradução: Vic Postnikov

In alien lands I keep the body
Of ancient native rites and things:
I gladly free a little birdie
At celebration of the spring.

I’m now free for consolation,
And thankful to almighty Lord:
At least, to one of his creations
I’ve given freedom in this world!

A Little Bird – Tradução: Yevgeny Bonver

Spielrein era obcecada pelo passarinho do Pushkin, mas Jung numa carta a Freud mencionou que tal poema pertencia a Lermontov e não ao Pushkin. O que me chamou a atenção nisso é que não encontrei nenhum estudioso que tenha realmente pesquisado sobre esse erro interessantíssimo. Interessante porque tanto Pushkin quanto Lermontov, como bom românticos russos que eram, tratavam constantemente do tema “liberdade” e em uma leitura afoita Spielrein pode perfeitamente ter trocado o nome do autores pela quantidade de temas semelhantes, aí nada demais, mas se esse foi um ato falho do Jung que remetia a poemas específicos do Lermontov, aí então O Prisioneiro cairia como uma luva na relação dele com a Spielrein.
Se é pra colocar tudo sob o ponto de vista do Lermontov, então presumo que a coisa Freud-Jung-Spielrein se espelhe no poema Demon (Satã), aquele mesmo que inspirou o meu Boris daquele filme sobre sapatos vermelhos. Ao menos tal poema se enquadra melhor na situação do que o usual Mefistófoles-Fausto-Margarida que o Jung gostava de citar, especialmente para reafirmar seu suposto avô bastardo, Goethe. A história do Lermontov se enquadra lindamente, mas não com tanta perfeição quanto o Wotan/Sigmund-Siegfried-Brunhilde, é claro.

Nota 1: No Brasil ninguém gosta de Lermontov ou por aqui o russo é considerado uma língua morta? É assustadora a falta de interesse editorial a respeito dele por essas bandas. Existiram traduções para o português que desapareceram, mas dá para encontrar coisas dele em sebos, mas em francês, espanhol, inglês…

Nota 2: Não há nada tão constrangedor na mente humana quanto o ato falho, alguns deles equivalem a ficar pelado na igreja durante a missa de domingo.

One thought on “O Prisioneiro do Lermontov versus O Passarinho de Pushkin

  1. Pingback: (ou de como saiu um poster decente) | Quixotando

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