2666 de Roberto Bolaño e Robert Rodríguez.

El-Mariachi-Movie-Poster

Charly Cruz perguntou se ele gostava de Spike Lee. Sim, disse Fate, se bem que na verdade não gostasse.
– Parece mexicano – disse Charly Cruz.
– Pode ser – disse Fate – , é um ponto de vista interessante.
– E Woody Allen?
– Gosto – respondeu Fate.
– Esse também parece mexicano, mas um mexicano do DF ou de Cuernavaca – disse Charly Cruz.
– Mexicano de Cancún – disse Chucho Flores.
Fate riu sem entender nada. Pensou que estavam de gozação.
– E Robert Rodriguez? perguntou Charly Cruz.
– Gosto – respondeu Fate.
– Esse panaca é dos nossos – disse Chucho Flores.
– Tenho um filme em vídeo do Robert Rodriguez – disse Charly Cruz – que muito pouca gente viu.
– El Mariachi? – perguntou Fate.
– Não, esse todo mundo viu. Um anterior, quando Robert Rodriguez não era ninguém. Um puto de um chicano morto de fome. Um cara que encarava qualquer trabalho – explicou Charly Cruz.
– Vamos nos sentar e você conta pra gente a história – disse Chucho Flores.
– Boa ideia – disse Charly Cruz -, já estava me cansando de ficar tanto tempo em pé.
A história era simples e inverossímil. Dois anos antes de rodar El Mariachi Robert Rodriguez viajou para o México. Por uns dias vagabundeou pela fronteira entre Chihuahua e o Texas, depois desceu para o sul, até o DF, onde se dedicou a tomar drogas e a beber. Estava tão no fundo, disse Charly Cruz, que entrava numa pulqueria antes do meio-dia e só saía quando fechavam e o expulsavam a ponta-pés. Acabou vivendo num congal, isto é, num bule, isto é, num berreadero, isto é, na mina das bondosas, isto é, num bordel, onde ficou amigo de uma puta e do seu cafetão, que chamavam de Pino, que seria como se apelidassem o cafifa de Pênis ou Vara. Esse tal de Pino simpatizou com Robert Rodríguez e se comportou bem com ele. Às vezes tinha que arrastá-lo pelas escadas até o quarto onde dormia, outras vezes ele e sua puta tinham de despí-lo e enfiá-lo debaixo do chuveiro porque Robert Rodríguez perdia a consciência com facilidade. Uma manhã, uma dessas raras manhãs em que o futuro diretor de cinema estava meio sóbrio, Pino lhe contou que tinha uns amigos que queriam fazer um filme e perguntou se ele se achava capaz de fazê-lo. Robert Rodríguez, como vocês podem imaginar, disse okay maguey, e o Pino se ocupou das questões práticas.
A filmagem durou três dias, creio eu, e Robert Rodríguez estava sempre de porre e drogado quando ia para atrás da câmera. Claro, nos créditos não aparece seu nome. O diretor se chama Johnny Mamerson, o que evidentemente é uma piada, mas quem conhece o cinema de Robert Rodríguez, sua maneira de fazer um enquadramento, seus planos e contraplanos, seu senso de velocidade, não tem dúvida, é ele. A única coisa que falta é sua maneira pessoal de montar um filme, pelo que fica claro que nesse filme a montagem foi feita por outra pessoa. Mas o diretor é ele, disso tenho certeza.

Tradução de Eduardo Brandão.

Versão em espanhol: Películas de Bolaño (II)

Nota: Mais à frente tem o Fate assistindo o filme e a descrição cena por cena dele, também há um momento que Bolaño volta a falar de Woody Allen, quando Fate rememora uma entrevista em que os caras falavam que Hollywood era tomada pela Ku Klux Klan e que Allen era um exemplo claro disso porque não havia negros nos filmes dele. Rá!

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