Cem anos de Elia Kazan – Parte 1

Elia Kazan

Ator, diretor de teatro, cineasta, escritor

Dale Bennett escreve roteiros cinematográficos e era, naquela época, um dos meus melhores amigos. Ganhou uma vez um prêmio da Academia e, mais cedo ou mais tarde, alguém acaba sempre por lhe dar um emprego, apesar de aquilo que escreve ser dez anos antiquado, mesmo para Hollywood. No entanto, está inteiramente convencido de que seu talento é fantástico e insulta os críticos e produtores que são a favor da Nouvelle Vague, da fotografia desfocada, da filmagem invertida e dos cortes abruptos. Estes homens, diz ele, dão mais valor à forma que ao conteúdo; ele é o “conteúdo”. O Compromisso – Elia Kazan, o romancista.

Kazan não é dos meus queridos. Nenhum dos seus filmes está entre os meus favoritos. Nem a sua literatura é a das que me causam compulsão. O fato é que cultivei certa obsessão por Kazan durante algum tempo porque ele é uma daquelas figuras que me fascinam, um párea, um cara que passou décadas sendo espezinhado publicamente por coisas que nada deveriam afetar no julgamento da sua criação artística, mas que proporcionalmente levaram-no à criação. Assistindo seus filmes, lendo seus livros e assimilando suas entrevistas podemos facilmente entender o tipo de mentalidade que Kazan carregava e absorver o quão admirável era este homem, afinal, não é preciso pensar igual para se chegar num estado de compreensão, respeito e admiração.

1- Sindicato de Ladrões (On the Waterfront, 1954)On the Waterfront (1954) Eva Marie Saint & Marlon BrandoOn the Waterfront is a history of informing where it seems like the greater good, despite the fact it goes against the code of community. The script was based on a set of real events which had nothing to do with my involvement with the Communist Party or the information I later gave to the House Un-American Activities Committee. Those fellows in Waterfront were criminals. It was based on the life story of a guy named DiVicenzo, who I knew, whose house I ate at. He live through the same goddamn thing that Terry Malloy goes through in the film. The waterfront was a gangster-dominated, ritualized, Mafia-coded society where no one ever said who said who was brutalizing them. Even when they knew who killed somebody, nobody ever talked. That was absolutely a valid story of the waterfront. But when people said there are some parallels to what I had done, I couldn’t and wouldn’t deny it. It does have some parallels. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
Até queria sair do lugar-comum e tentar gostar mais de qualquer outro filme do Kazan, mas Sindicato de Ladrões é mesmo o melhor. Está tudo no lugar certo, na hora certa: Brando possivelmente criando a melhor personagem de sua carreira, a jaqueta, Malden e seu padre badass, os pombos, Budd Schulberg dando aula de escrita, Eva Maire Saint deixando Hitchcock deprimido, Steiger & Cobb, mea-culpa e realismo por parte de Kazan.

2- Um Rosto na Multidão (A Face in the Crowd, 1957) Andy Griffith in the Film A Face in the CrowdTheoretically, I think one man should make a picture. But in rare case where an author and a director have had the same kinds of experience, have a same kind of taste, the same historical and social point of view, and are compatible as Budd and I are, it works out perfectly. (Elia Kazan Interview – Michel Ciment, 1974)
Existem cinco inegáveis grandes obras sobre meios de comunicação e manipulação: Cidadão Kane, Network, A Montanha dos Sete Abutres, Adorável Vagabundo e Um Rosto na Multidão, todos passam longe de resultados melodramáticos, muito pelo contrário, todos se atêm à acidez de um cinismo quase-cômico, mas foi Kazan quem legou o mais cruel dos desenlaces. Com o recém falecido Budd Schulberg voltando à bem sucedida parceria com Kazan que deu origem a Sindicato de Ladrões, nos é entregue um filme que poderia ser tão bom quanto aquele, mas que não chega a isso por falta daquele peso pessoal que incrustou toda a alma do diretor em Sindicato de Ladrões.

3- America America (1963)America, America (1963) Stathis GiallelisAmerica America may be a legend, but it’s not a fairy tale. This is the truth. Nobody makes pictures about that class of people, about their way of thinking and their values. America America really captured another civilization. It’s my favorite of all the pictures I’ve made. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
America, America está para gregos o que O Poderoso Chefão está para os italianos, não apenas na teoria como na prática, pois é evidente a influência do filme de Kazan na saga siciliana do Coppola e muito se deve ao tipo de relação que os povos mediterrâneos têm com suas famílias. De todos seus filmes, este era o preferido de Kazan, ele escreveu o livro sobre o que levou toda a sua família para os EUA, adaptou o roteiro e filmou, tudo que o transformou numa obra única e exclusivamente do diretor, pessoal e artisticamente é o seu grande legado. Além da habitual reiteração sobre integridade que encontramos como tema em todos os filmes do grego expatriado, a relação familiar é expandida e é explicado porque o laço sanguíneo tornou-se também um dos seus mais queridos pontos de reflexão.
Também fica claro o quanto Kazan era encantado com o que rolava no cinema europeu em termos de linguagem, chega a ser estranho ouvir os atores falando inglês, o diretor foi um grande assimilador, tudo que ele fazia estava em perfeita sincronia com movimentos do cinema ao redor do mundo e aqui não é diferente. Como diretor de teatro talvez tenha sido mais revolucionário do que qualquer outro nos EUA durante o século XX, especialmente por ter incentivado e introduzido o método do Actor’s Studio nos meios teatrais, atitude essa que poucos anos depois fez questão de repetir em seus filmes, ajudando a delinear os rumos da atuação dos últimos 60 anos em qualquer país do mundo, seja no teatro, no cinema ou na televisão.

4- Viva Zapata! (1952)Viva Zapata - Lou Gilbert, Anthony Quinn & Marlon Brando The competition between Brando and Quinn was wonderfully fruitful and creative. By the way, there’s nothing wrong with actors competing, as long as they’re competing to be good and not to be stars. In fact, I sometimes try to arouse competition. For example, I often praise an actor openly. Thats makes every actor on the set want the same praise. It’s nice to tell them they were good when they do something well. It makes them want more. After all, they’re hanging on you. They can’t see themselves. So when they deserve praise I always articulate it. I don’t believe in playing cool. One beautiful thing about actors is that they’re so exposed. They’re not being criticized only for your behavior, but for their legs and breasts, for their double chin; their whole being is exposed to criticism. How can you not embrace them and how can you feel anything but gratitude toward these people? I like actors and I believe my films show it. You look at them and see what whoever directed them likes actors. (Kazan: The Master Director Discusses his Films) E Kazan vai ao oeste. Ou ao sul, depende do ponto de vista. Antes eu não gostava muito desse filme, mas depois de uma revisão uns tempos atrás, coloquei o rabinho entre as pernas e hoje assumo que é mesmo um grande filme, especialmente por todas as cenas de assassinato presentes nele – Kazan foi brilhante em todas elas, podendo ser incluso entre os melhores westerns dos anos 50. Além do mais, possui a maior e melhor coleção de bigodes já vista numa tela.

5- Clamor do Sexo (Splendor in the Grass, 1961) Splendor in the Grass - Warren beatty & Natalie Wood It was the easiest picture I ever made because the script was good. It was pure and simple. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
Esse é mais um dos filmes cujo tema é homossexualidade, mas que foram camuflados com personagens heterossexuais. O roteirista/dramaturgo William Inge foi inspirado em suas próprias experiências na adolescência em reprimir e esconder sua sexualidade durante os anos 20, assim como a personagem de Natalie Wood detêm traços semelhantes à personalidade do autor, especialmente quanto a colapsos nervosos e tendências suicidas. O primeiro roteiro original escrito pelo dramaturgo é um grande texto que foi facilmente convertido em uma grande obra cinematográfica por parte de Kazan, o resultado é acima da média e Kazan tem o seu ápice no melodrama, atingindo o mesmo nível de Douglas Sirk e o uso que faz do technicolor é indispensável para isso.

6- Os Visitantes (The Visitors, 1972)The Visitors (1972) Patricia Joyce & James Woods I wanted to make the scene strong, but I didn’t want to make an entertainment out of blodletting. So I had the car fill three-fourths of the screen and built up the sound of fight. Then I cut to the door of the house, where Martha was struggling with Tony. I use a lesser act of violence to suggest the much more savage violence that was going on behind the car. (Kazan: The Master Director Discusses his Films) E Kazan se adapta ao cinema dos anos 70. A tensão crescente remete imediatamente ao Straw Dogs do Peckinpah, mas podemos ver o filme facilmente como uma sequência do então ainda porvir Pecados de Guerra do De Palma. O que é intrigante quanto este filme é o fato de ser quase ignorado dentro da filmografia de Kazan, é um trabalho excelente e a primeira grande obra sobre a guerra do Vietnã. Vale lembrar que esta é a estréia na tela grande de James Woods e Steve Railsback.

7- Vidas Amargas (East of Eden, 1955)East of Eden (1955) Julie Harris, James Dean, Richard DavalosI try to base things in realism and take off from there. I don’t think of myself as a realist. I think myself as a poetic realist or “essencialist”, as I call it. That may be just a big rationalization for my lacking. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
Esse é o grande ponto de confluência entre o cinema de Kazan e o do seu protegido Nicholas Ray, não tentando associar a escolha mútua de James Dean como o protagonista de seus filmes como marco da desestrutura familiar – não, é muito mais do que isso, naquele ano eles emplementam uma simbiose de estilo e filosofia.

8- Pânico nas Ruas (Panic in the Streets, 1950)Panic in the Streets - Zero Mostel, Jack Palance & Guy ThomajanAnother thing I learned from Ford: he’s a great guy for foreground objects. He puts an object in the foreground that’s critical at some point in the latter half of the scene, and he moves the people up to that object. It breaks up the foreground spatially, so that the shot has quality, not abstractness. I use that a lot in Panic in the Streets. (Elia Kazan Interview – Stuart Byron & Martin Rubin, 1971). É exatamente aqui onde Kazan começa a fazer cinema de verdade e o próprio assumia isso para quem quer que fosse. É um grande filme, quando o assisti cheguei a ficar boquiaberta pelo fato deste não ser tão festejado quanto algumas de suas obras daquela mesma década, louvores extras ao Jack Palance que nos dá o prazer de conferir um dos maiores vilões do cinema. Essa é uma boa época para ver o filme, especialmente se a imprensa ainda não causou paranóia suficiente para que você saia correndo e gritando todo vez que uma pessoa ao seu lado diz que está com dor de cabeça.

9- Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire, 1951)Marlon Brando & Vivien Leigh (A Streetcar Named Desire)Some people say I made Brando the hero. I didn’t mean to make Brando the hero. But I wanted to show exactly what Williams meant, which is that he, as a homosexual, is attracted to the person he thinks is going to destroy him – the attraction you have for someone who’s on the otherside, supposedly dead against to you, but whose violence and force attract you. Now, that’s the essence of ambivalence. And that’s what I tried to do, so what you felt sorry for her but could see, however, that his force was healthier. That’s why I made Brando attractive. (Elia Kazan Interview – Stuart Byron & Martin Rubin, 1971)
Esse filme é demasiado importante para a história de Hollywood, não só botou fogo literalmente em quase 20 anos de Código Hays como mudou toda a história da interpretação colocando Brando no patamar de ator mais influente do cinema americano pelas próximas décadas, o que ao meu ver não foi algo tão benéfico assim. Tolinha de Olivia de Havilland, a Blanche que tanto Kazan quanto Brando queriam, mas que não aceitou o papel por existirem certas coisas que uma dama não faz em cena – imagino o quanto ela ficou horrorizada quando os anos 60 e 70 chegaram – então podemos incluir o papel de Blanche como um dos grandes arrependimentos da vida de Miss Havilland e todos sabemos que esta mulher tem muita coisa para se arrepender – alguns bem graves, por sinal.
E Marlon Brando quebra tudo. O que é a visão de Brando entrando em cena??? O problema dessa introdução ao senhor Kowalski é que quando ele abre a boca é altamente broxante, à parte Brando ser gostosopacaraleo e um grande ator, ele tinha uma voz insuportável, por isso é bom quando suas personagens gritam, grunhem ou gemem. A verdade é que este filme mudou para sempre o rumo de como se encara um ator no set de filmagens, sem o que Kazan começara no teatro uns poucos anos antes não haveria Brando, nem Dean, nem Pacino, nem De Niro, nem Hoffman, nem uma porrada de ícones que todo mundo conhece.

10- Boneca de Carne (Baby Doll, 1956)Baby Doll - Carroll Baker, Eli WallachI like everything in the south, except its ideas, standarts and beliefs. But the way the people are has always impressed me. It’s part of my own maverick anarchism. I find them very funny and cute and human, very Chekhovian. (Kazan: The Master Director Discusses his Films)
Oh, Mr Vacarro! Esqueça Marlon Brando em Uma Rua Chamada Pecado, em Baby Doll está a prova do porque Eli Wallach constar na minha lista de homens mais sexys do universo. É a estréia do Wallach no cinema e é mesmo um absurdo, nos faz perceber algo bem peculiar quanto aos machos do Kazan: a sensu/sexulidade deles é bem mais evidente do que suas contrapartes fêmeas. Mesmo Miss Carroll Baker sendo um pitéu e ter a sua sensualidade natural bem delineada, Wallach domina o ambiente de tal forma que a única coisa que resta por parte dela é a reação à ação do macho dominante que Wallach representa no ambiente cênico.

11- O Justiceiro (Boomerang! 1947)Boomerang ! - Dana Andrews, Lee J. CobbWe shot that entirely on location – not a set in the picture. The picture was a terrific thrill that way – it made me see my identity. I really enjoyed that life, whereas I was miserable on the MGM set. For one thing, I was miserable living in Hollywood – I never liked the place. I never unpacked my bags. (Elia Kazan Interview – Stuart Byron & Martin Rubin, 1971)
O homem era viciado em integridade, mesmo na sua fase pau-mandado-de-estúdio nos anos 40, lá estava Kazan envolvido na defesa das coisas em que acreditava, batendo na tecla de que não importa se o próprio indivíduo ou um clã se queima no processo desde que seja íntegro com a sua maneira de pensar e caráter. Particularmente gosto bastante deste filme, porque é intrigante, ágil, tem uma sorte de personagens e atores espetaculares, além de existir alí um vislumbre do cinema contemporâneo de Jules Dassin.

12- Rio Violento (Wild River, 1960) Wild River (1960) Jo Van Fleet, Montgomery CliftI think Miss Ella’s right to want to stay on her land. I think Glover is right, too. That picture, with all of its faults, is the epitome of what I feel more clearly than any other. (Kazan: The Master Director Discusses his Films) Tudo que Kazan tinha em boas intenções para com The Sea of Grass finalmente pôde ser colocado em prática no Wild River. A semelhança ideológica entre ambos é gritante, mas 13 anos na vida professional de um cineasta e do próprio cinema em evolução fazem uma diferença dos diabos, isso, é claro, se o mundo não for habitado por clones do Orson Welles.

3 thoughts on “Cem anos de Elia Kazan – Parte 1

  1. Pô, não imaginava esse detalhe sobre o Splendor in the Grass! O Sindicato de Ladrões também é o meu preferido, não só pela supra-citada cena do táxi, mas o final e tudo o mais. E sobre o Uma Rua Chamada Pecado existe uma história de que o Hawks teria dito “passei 20 anos tentando simplificar o trabalho dos atores e este cara me estragou tudo com um filme”.

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