O Coração Delator (The Tell-Tale Heart, 1953)
Ninguém estremece ao som da voz de Mr Mason.
Centenário de Riccardo Freda









Olha aí o Freda passando o cetro para Mario Bava em Os Vampiros (I Vampiri, 1956). Bava foi por algum tempo o diretor de fotografia dos filmes de Freda, se este lucrou com o sempre óbvio talento fotográfico daquele, Bava também pode aprender muito sobre clima do cinema de horror com Freda. Se Bava é o pai do Giallo da forma que conhecemos, certamente seu avô é Riccardo Freda.
I Vampiri teve uma espécie de refilmagem feita pela Hammer uns 15 anos depois com a Ingrid Pitt no papel principal, A Condessa Drácula, mas a semelhança vem apenas da inspiração comum: Elizabeth Báthory, aquela maluquete que curtia tomar banho de sangue achando que ficaria eternamente jovem (cada coisa e lugar tem o vampiro que merece). Enquanto o filme da Hammer mantêm a cronologia histórica da real Bathóry, o de Freda é transposto para os anos 50 do século XX e dá margem a certa ficção científica.
Nota updeitada: Lá vou eu com posts de gente morta de novo… exatamente quando postei isso olhei para o feed ao lado e vi um post do I’m in a Jess Franco State of Mind avisando que Gianna Maria Canale havia morrido. Gianna é a protagonista de I Vampiri e mais uma vez por coincidência posto alguma coisa relativa a alguém que recentemente morrera. Há tempos não me acontecia isso.
Gatto di Cosa Avete Fatto a Solange?
Giallo que é giallo tem que ter gato.
Nota: Esta imagem não é aleatória, hoje na Itália se comemora o Dia do Gato, data escolhida especialmente por ainda estar sob a constelação de Aquarius, muito associada à personalidade felina e que também coincide com o período associado à deusa gata Bastet no Egito. É a cultura egípcia ainda a influenciar os italianos muito além dos boquetes da tia Cléo.
Arquivo X: Jose Chung’s From Outer Space (The X-Files, 1993-2002)
Depois da decepcionante volta aos cinemas do meu, do seu, do nosso “Spooky” Mulder, nada mais prazeroso do que lembrar os melhores momentos do mais sensacional episódio do seriado, o totalmente alucinado e cômico Jose Chung’s From Outer Space. O que mais me deixa frustada quanto ao seriado, foi o fato do roteirista deste entre outros dos melhores episódios, Darin Morgan, ter escrito tão pouco. O meu segundo episódio em preferência é o não menos infame e também escrito por Morgan, War of the Coprophages, no melhor estilo “O ataque das baratas assassinas do espaço sideral”. Há outros do Morgan de que gosto bastante como aquele com a participação impagável de Peter Boyle, Clyde Bruckman’s Final Repose, uma outra grande homenagem ao cinema só que agora pendendo mais para o cinema mudo, ou ainda aquela declaração de amor a Tod Browning no episódio Humbug com direito àquele maldito anão de Twin Peaks e Carnivale.
Ok, Dana é ótima, mas não preciso pensar duas vezes para entender que sempre fora meu companheirinho arquetípico a chamar minha atenção e que Fox Mulder é o segundo melhor agente do FBI da cultura pop, só perdendo para o eternamente inatingível Dale Cooper de você-sabe-qual-série. O complemento de Scully e Mulder não é só necessário para arrematar a narrativa, como foi essencial para que a série fizesse sucesso com a perfeita união do manter os pés no chão de Dana para com Fox e o abrir de mentes de Fox para com Dana, algo que deveria ser mais comum no nosso dia-a-dia, mas que infelizmente pouco acontece por mero preconceito, superficialismo e crença em verdades absolutas.
Arquivo X foi uma das pouquíssimas séries que conseguiu prender a atenção do meu irrequieto espírito juvenil, não a ponto de acompanhá-la religiosamente, mas ao menos de lembrar de ligar a tv para assistí-la nas noites em que era exibida na Rede Record. É também o segundo melhor seriado americano dos anos 90, só perdendo para aquele você-sabe-qual e com lugar cativo naquela galeria seleta de culto de ficção científica ao lado de Jornada nas Estrelas no passado ou atualmente Lost. Seriados de grande sucesso hoje como Heroes, Lost, 4400, Supernatural muito devem a Arquivo X, este seria quase como o objeto de transição entre tais seriados e coisas passadas como Twilight Zone, Invaders, Kolchak (o original) e Alfred Hitchcock Presents.
Arquixo X estruturou-se de forma peculiar, alternando episódios que seguiam uma lineariedade factual sobre alienígenas e outros episódios isolados sobre outros mitos como pé grande, vampiros, lobisomens, zumbis, bruxas etc, mas o grande mistério essencial da série girava mesmo em torno dos alienígenas e a invasão dos mesmos no Planeta Terra.
O seriado é uma grande homenagem ao cinema B de ficção científica e horror, o clima de constante paranóia que assolou o gênero nos anos 50, de Don Siegel a Jack Arnold até o mais puro e delicioso trash a lá Gerardo de Leon, Bert Gordon, Roger Corman e Kurt Neumann, não deixando de avançar em homenagens claras à John Carpenter, Steven Spielberg, Tod Browning, James Whale (no também sensacional The Post-Modern Prometheus), Alfred Hitchcock, Nicolas Roeg, e Ridley Scott dos bons tempos, entre outros, especialmente em torno de Silêncio dos Inocentes, cujo personagem de Jodie Foster serviu como molde para o de Gillian Anderson, com sobras até para o melhor cinema conspiratório como Todos os Homens do Presidente, JFK, Sob o Somínio do Mal, A Conversação, Blow Out e Up. Até A Última Tentação de Cristo e Rashomon acabam por ter o seu pedaço desso bolo gigante, no caso do último através do vampiresco e ótimo Bad Blood.
O que me faz gostar tanto do Mulder é sua mente aberta sem nunca deixar de ser desconfiado e lógico, muito de qualquer tipo de iconoclastia é vulgar e irracional, pelo simples fato de tentar “debunkar” algo, de que é necessário uma prova irrefutável, mas tal prova não é encontrada também do contrário, muitas vezes esses mesmos que se proclamam tão racionais são os de atitude mais ilógicas e beirando ao fanatismo, particularmente não vejo distinção alguma entre um fanático religioso e um fanático cético, ambos estão tão imersos em suas próprias verdades que não conseguem ver nada além de seus umbigos, cá entre nós não dá para chamar de racional e lógico alguém que defente ferrenhamente a inexistencia de qualquer coisa sem as mesmas provas que este tipo de mentalidade tanto proclama.
O Mulder é lógico, mas para os padrões gerais ele é um “spooky” porque não ousa fechar sua mente para possiblidade alguma, acredita em tudo até que lhe provem o contrário, porque apesar da verdade estar lá fora, é bem difícil conseguir enxergá-la.
Nota 1: Sabe o que é mais estranho ao ver aquele longa praticamente uma década depois? É que justamente agora quando finalmente David Duchovny havia sublimado a aura de Fox para o público e se convertido no inesquecível Hanky Moody, o desgraçado volta ao Spooky. Por falar em Hank Moody, cadê a segunda temporada de Californication, jesuis?
Nota 2: O número do apartamento em que Mulder morava era 42. Claro.
Nota 3: Também nunca é tarde para relembrar a união dos dois melhores agentes do FBI dos anos 90 em Twin Peaks: Dale Cooper e Fox Mulder, no caso do último, ele ainda era da Narcóticos, travesti e dava uns apertos na Laura Palmer, o que não deixa de ser ainda mais memorável.
Nota 4: Eu juro que vi o John Locke e o Benjamin Linus em Arquivo-X. Eu Juro. Terry O’Quinn teve a petulância de interpretar 3 personagens diferentes durante a série, todos devidamente abigodados, incluso no longa de 1998 quando descobrimos onde arranjou aquela mania estranha de explodir tudo para um “bem maior”. E, céus, Michael Emerson foi um telecinético. O bacana é que o Locke é uma espécie de Fox Mulder de Lost, enquanto o Ben é tão memorável quanto o até então melhor vilão dos seriados de sempre: o Canceroso. Vai ver por isso são os meus preferidos.
Nota 5: Darin Morgan, o roteirista dos melhores episódios do seriado não foi apenas o mais inesquecível na escrita, ele também encarnou o tipinho mais repugnante e impressionante das nove temporadas: o Homem-Platelminto Mutante. Depois Morgan acabou voltando como ator no ótimo Small Potatoes, onde passava a perna no Fox e chegou mais perto da Scully do que ele em todos aqueles anos.
Nota 6: E um dos melhores episódios dos Simpsons, The Springfield Files, contém além das literais participações de Fox e Dana, foi apresentado por ninguém menos que Leonard Nimoy e com direito a participação velada do Canceroso. Ambos os seriados iam ao ar nas noites de sexta na Fox e a homenagem foi retribuída em Arquivo X na forma de um empregado de uma Usina Nuclear que ficava dormindo no serviço e atendia pelo distintíssimo nome de Homer.
Pesadelo Mortal (John Carpenter’s Cigarette Burns, 2005)
Melhor coisa que o Carpenter fez desde os anos 80 e o melhor episódio de Mestres do Horror.













